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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 24 Outubro, 2003
Uma Visita
(Dedicado a Andrè Breton) Nunca compreenderei como foi que me atrevi. Um dia acordei e decidi ir vê-lo, lá, e fiz as malas. Lembro-me ? como não!? ? da viagem de comboio, embalada num misto de solavanco mental, em frente!... e de medo, vontade não realizada de trocar para a cadeira lá ao fundo da carruagem, para, ao menos, chegar ao meu destino de costas voltadas para ele. Sem sequer me mexer, fui todo o caminho num violento frenesim, julgando por vezes que me ia desintegrar ou então esvair-me em gritos de histeria nervosa. Quando cheguei carreguei as minhas malas para a plataforma e, como se tivesse premeditado maduramente o meu acto, abri-as e comecei a distribuir por quem passava tudo o que lá tinha arrumado, as minhas coisas, escolhidas para ele ver, para notar como me ficavam bem, isso sim, tão premeditado! Houve quem aceitasse com naturalidade, sem considerar, por um momento, a minha atitude insólita. Houve quem quase me arrancasse das mãos as peças de roupa, numa qualquer avidez, talvez de receber de graça ? sim, sem agradecer! ? inesperadamente, coisas bonitas, e boas, e em bom estado, ainda por cima. Também alguns se afastaram rindo, contendo o arrependimento, amaldiçoando a própria falta de coragem, simulando desinteresse pela louca da estação, mas que tinha coisas boas, caramba!, encolhendo os ombros e já só sorrindo ? e amarelamente? - daquelas ofertas. Outros não se aperceberam, apenas. Outros ainda, espantaram-se, mas apressadamente, sem tempo para pensar no assunto. Muitos hesitaram. Aparentemente sem saber o que pensar, ficaram os imensos pedintes que por ali andavam e que nem se aproximaram, como se desconfiados daquela profusão de? algo que desconhecíam o que fosse, ou cujo nome já se tinham esquecido completamente. Quando os meus pertences se acabaram, o que demorou muito mais do que se possa imaginar, é um paradoxo, a paciência que tem que se ter para dar qualquer coisa que não seja dinheiro, as pessoas precisam de comprar coisas como aquelas que ofereci mas são muito estranhas, mistérios insolúveis em qualquer tipo de liquidez, atirei com as malas para um canto, pois não me apeteceu dar coisas vazias - também eu tenho as minhas esquisitices. Corri estação fora, descalcei-me pelo caminho, depois tirei a camisola, pela cabeça, em correria, desapertei o fecho da saia, que caiu ao chão e livrei-me dela ? e do tombo! ? com um salto rápido, sem parar, precisamente à porta da estação, saindo sempre a correr. Ninguém se voltou ou me deu especial atenção pois é tão normal na selva estar-se nu, ou quase. Livrei-me da roupa interior, sempre sem deixar de correr, e das pulseiras e fitinhas, dos brincos, que horror, ainda bem que reparei que ainda os tinha e pude tira-los. Ao chegar aonde ele estava, subi os degraus, dois a quatro, e entrei, de rompante, e dei com ele, metido num fato muito esquisito. Atirei-me para os seus braços e beijei-o como se me fosse embora outra vez logo a seguir sem dizer palavra, e a vida fosse um beijo. Ele beijou-me assim, também, e quando o beijo acabou, entontecido, ele exclamou com estranheza e alegria: - Morgana! Se não fosse o teu colar, não te reconhecia! Arranquei o colar, que se desfez em pedras livres, atirei-lhe à cara as poucas que me ficaram nas mãos e tingida de gelada amargura sussurrei: - Mataste-me? E morri, que eu nunca fui fingida!... Fata Morgana |
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