| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 03 Novembro, 2003
A arte dos surrealistas.... Sobretudo fascinaram-me sempre os seus ideais (artísticos?...) de automatismo absoluto, de pensamento puro, de imaginação sem quaisquer limitações, subconsciente. Tentei mesmo manter uma postura surrealista, durante um tempo, mas... percebi que tinha que me despojar de quase tudo e não fui capaz. Nem disso nem de ser pura, absolutamente, verdadeiramente livre da güidança do meu pensamento consciente. Não pude abdicar de muitas coisas a que era suposto sentir uma autêntica alergia no caso de realmente ser surrealista - mas tinha-lhes um afecto verdadeiro; nem repudiar ferozmente toda e qualquer instituição. Por mais indomável que me sentisse, cedia perante certas coisas mas mantive-me pelo menos sincera, admitindo: não consegui. Ficou-me o poder ainda e sempre apreciar a arte surrealista... e a consolação de que eles também não conseguiram.
De todos os que fundaram, pertenceram ou apenas simpatizaram com o movimento surrealista, aquele que mais profundamente me tocou, a um nível como que de conhecimento pessoal!, foi sempre o Antonin Artaud. Precisamente o que foi expulso do grupo, por ter posto a nu o facto de os surrealistas se terem deixado adoptar por uma sociedade ultrachique que, passado o choque inicial, os achou deliciosos. E simultaneamente, se ligarem ao Comunismo ? seguramente uma instituição! E se o espírito, livre por definição, pode ser automaticamente revolucionário, já a militância não lhe é nada habitual. O Artaud era o mais surrealista de todos, afinal. O seu caminho foi sempre pela beira de todos os abismos e ele trilhou-o sem desvios. Nunca pagou com a menor cedência qualquer das suas manifestações artísticas: quem queria ter Artaud, só podia aceitá-lo por inteiro. Gosto de imaginar que assisti à conferência dele no Teatro Vieux Colombier, em 1947, ano em que eu estava longe de ser nascida. Sinto como se lá tivesse estado. E estive. Afinal, se era mesmo Artaud que tinha encontros-alucinação com tanta gente que nunca realmente viu... porque não posso eu também tê-lo encontrado uma só vez, talvez em sonhos, já que não tenho alucinações? Vieux Colombier (Dedicado a Antonin Artaud) Onde no tempo foi tua miséria que todo o sinistro naipe de paus me contou? Mas sobretudo porque foi que por caminhos demorados de mim te desencontrou? Maior é o sentimento em que te tenho E ao teu farrapo-corpo corroído é minha imensa dor não ter podido dar do meu sangue um longo e jacto banho. Ter-se assim o destino enganado Tu envolto em fogo eu em saudades Sempre os dois juntos num tempo desfasado. Fata Morgana |
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