Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 07 Novembro, 2003

 

 
Artifícios Comuns
Dedicado a Michio Kaku

O senso comum é lógico mas não matematicamente. Este mero pequeníssimo facto tem dado cabo da paciência aos cientistas, sobretudo aos que se voltaram para o campo da Inteligência Artificial. Por isso as comunidades de investigadores de IA, após alguns resultados pouco animadores ? se bem que muito cómicos! ? nas suas tentativas de criar computadores e robots inteligentes, perceberam que, para estes serem capazes de agir inteligentemente, teriam que ser dotados de senso comum. Isto porque uma coisa óbvia pode não sê-lo segundo as leis da lógica. Um exemplo de erro cometido pelas máquinas:

Cientista: Todos os patos voam. Charlie é um pato.
Robot: Então Charlie voa.

Cientista: Mas Charlie está morto.
Robot: Então Charlie está morto e voa.


Claro que eu diria logo ? Olha! O Robot será religioso?! À cautela, experimentava outra vez e claro que a resposta seria sempre a mesma, e então eu já podia sair para contar a toda a gente que os Robots podem possuir uma inteligência mística! É por estas e por outras que não sou cientista e virei para as Letras bem cedinho!
A atitude correcta ? para um cientista, bem entendido, pois a minha não estava nada mal!, seria franzir as sobrancelhas com desagrado e equacionar imediatamente a reprogramação do Robot de forma a este ficar a saber que aquilo que está morto não se move, logo, não voa. Para isso... um nunca acabar de números e sinais rabiscados num caderninho de apontamentos (mais computadores e monitores a estragar a minha história bizarra não!).

E depois, a experiência seguinte! E após ser informado pelo Cientista de que Charlie está morto...

Robot: Então Charlie não voa.

Hurra! Certo! Viram, o Robot já é inteligentíssimo! Mas os cientistas nunca estão contentes com nada. E este aproveita para torturar o Robot mais um bocado, resolve que está um dia mesmo bom para prosseguir as experiências com IA. E não se fica por ali!
Com um ar até um pedaço sinistro (talvez estivesse num dia não), olha para o inexpressivo Robot e atira-lhe com esta (quase um Postulado de senso comum!):

Cientista: Mas Charlie está morto na roda de uma avioneta em pleno voo.
Robot: Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa.

Que maçada, este Robot muda constantemente de opinião, pensa o cientista enquanto desencrava o coitado. Pois, novos rabiscos: é preciso dizer-lhe que a acção não parte daquilo que não mexe porque está morto e sim da avioneta, que é quem voa, não o pato! Ora, eu com as minhas Letras, digo daqui da minha ignorância dessas coisas, que concordo com os cientistas e o Robot precisa mesmo de um Senso Comum! Mas ele só entende coisas matematicamente lógicas, não há como meter-lhe dentro uma coisa que o não seja! Só será possível uma aproximação tosca se dotarem o Robot de uma verdadeira Enciclopédia de Senso Comum!!!!

Ora!? E qual é a dificuldade?! A Internet não foi já inventada?? Pois dotem-no também dessa ilusão de que aqui se fica por tempos intermináveis a trabalhar, a comunicar! Ele que não seja um individualista e que venha aqui à Net pesquisar sobre os imensos sentidos das palavras e das frases! Afinal, se nós que somos pessoas e temos muito mais que fazer ? mesmo que não pareça e fique tudo às três pancadas -, estamos aqui, que venha o felizardo do Robot também! Que leia; que faça o seu surf, pois!; que vá perguntar nas Salas de Chat; que instale um Mensageiro e leia e crie Blogs!

Foi nesta altura que A Comissão me chamou e dei comigo metida numa espécie de Processo de Kafka.

Fata Morgana

O primeiro diálogo entre o Cientista e o Robot é retirado do livro Visões de Michio Kaku. A expressão Enciclopédia de Senso Comum também.
 

 
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