Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 11 Novembro, 2003

 

 
As Três Leis da Robótica

Parte I

Realmente acordei a horas e sem sobressalto. Bastou as persianas subirem lentamente, produzindo apenas um suave zumbido ? o primeiro som do dia que me lembro, e o sol, àquela hora ainda tímido, com uma luz simpática, acabou de me despertar. Deitei uma olhadela inquiridora ao Roblógio modernaço, na mesa-de-cabeceira, tão calado: ainda faltava um minuto! Sorri. Não precisara da música.
O duche foi uma delícia, a agua começou a correr exactamente à temperatura que eu gostava no momento em que fechei as portas corrediças da banheira, e a ?Water Music? do Händel era uma escolha acertada, trazia um espírito positivo ideal para começar o dia. O lençol de banho estava ligeiramente aquecido, assim como o tapete no chão, produzindo um conforto físico inacreditável de tão bom, em vez daqueles arrepios do costume. Talvez, afinal, me curasse da Robofobia de que me acusara a Comissão. A minha sorte fora a pena suspensa ? eu não tinha antecedentes, ou em vez de estar na Clínica Inteligente em regime de externato, estaria na Prisão (Inteligente, claro) mais do que aferrolhada!
Lá não sei como seria; aqui, para já, só maravilhas! Bem... não gostei da escovadela de dentes, confesso. Mas se me opusesse aquele solícito ?braço? articulado à esquerda do lavatório podia ser mal interpretada, e os dentes ficaram lavados, apesar dos restos de pasta, que fui comendo enquanto voltava para o quarto, para me vestir. Tinha dez minutos, o que significava que, na cozinha, os Robodomésticos já estavam a preparar o sumo de laranja, as torradas e o café.
Liguei o simulador, que me deu monocordicamente o ?Bom Dia!? e, após uma rápida consulta mental ? para não parecer que estava à mercê dele, ora! - disse a primeira combinação que me veio à ideia: saia bordeaux + camisola preta. Da parede ao lado do guarda-fatos, surgiu um holograma com a minha imagem em 3D, envergando as ditas peças. Claro que me assustei... mas fiz de conta! Afinal, aquilo não deixava de ser fantástico!, apesar de muito enervante. Reparando melhor na figura descalça, acrescentei rapidamente: sapatos pretos. Foi-me apresentado um menu, com os meus vário pares de sapatos pretos. Escolhi, enquanto revirava os olhos. O holograma voltou, desta vez eu estava pronta e não era má escolha. Aprovei e a porta do armário abriu-se, para eu retirar as roupas e os sapatos.
Minutos depois estava sentada na cozinha a saborear o pequeno-almoço e a ouvir as notícias, enquanto escrevia num Robobloco o menu do almoço: pargo assado com um pimento verde; batatas cozidas; gelado de baunilha; café. Soou um apito desagradável e apareceu no bloco um aviso a piscar, onde li, bastante consternada: excedeu a dose diária de cafeína; sugestão ? descafeinado.
Fiquei zangada. Não bastava a solidão que todas aquelas coisas a aparecerem já feitas me causavam?! Ainda tinha que vir o esperto do bloco electrónico dizer quantos cafés me era permitido beber, como se eu tivesse doze anos! Isso não! Escrevi em maiúsculas ? IGNORAR MENSAGEM. Ele respondeu imediatamente ? ignorar pedido. Para meu horror, acrescentou... polidamente... sempre em minúsculas... ? ao abrigo da Lei nº1 da Robótica.
Pronto, estava instalada a guerra! Gritara com um Robodoméstico que estava a cumprir aquilo que, para ele era a Lei nº 1: Um Robot não pode causar dano a um ser humano nem deixar, por inacção, que um ser humano seja prejudicado.
Conseguira, logo no primeiro dia, obrigar um Robot a invocar uma Lei! Para cumprir um mes de pena com sucesso, era fundamental que no decorrer desse tempo não fossem jamais invocadas as três leis, as únicas três leis dos Robots!

Fata Morgana

A Lei nº 1 da Robótica, em itálico no texto, é retirada do livro Visões, de Michio Kaku.
 

 
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