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Avalon, 17 Novembro, 2003
As Três Leis da Robótica
Parte II Estava parada em frente ao rio, entretida a ver as luzes reflectidas na água e a gozar o ar fresco, bom de respirar. Atrás de mim ouvia vozes, uma mistura de vozes cantadas com outras monocórdicas, e perguntava-me se aquelas pessoas cantoras de palavras (nunca estivera tão consciente de como a linguagem humana é um canto!) estariam tão animadas como soavam. Não me voltei, deixando-me ficar pelas impressões auditivas. Trauteei baixinho, imitando as entoações de algumas frases que me chegavam. Sentia saudades do convívio com os humanos. Mas estava proibida de lhes falar. Já cumprira meia pena na Clínica Inteligente. Ainda faltava outro tanto... mas as coisas não iam mal, após aquele primeiro incidente aprendera a controlar melhor a minha embirração. Tirando o estar sempre a ir contra Cyc, o Mordomo, que aparecia solicitamente por todo o lado, provocando-me sobressaltos que eu tratava logo de disfarçar, já interagia melhor com os Robots. Cyc é um andróide pré-programado, evidentemente dotado de uma Enciclopédia de Senso Comum alojada num agregado de 239 microprocessadores que são o seu cérebro. Obviamente precisaria de muitos mais processadores para compreender uma preciosa instrução: pára quieto! Quem me dera poder dizer-lhe isso, mas se o fizesse seria Robofóbica reincidente. Achar Cyc maravilhoso e encantador era a única opinião considerada normal, uma opinião que eu tinha que fingir que era a minha. Suspirei. No meu bolso, um discreto mas perceptível tremor informou-me de que estava a ser contactada na Microtela. Lá estava o rosto inexpressivo de Cyc. Optei por não ligar o som, preferindo a mensagem escrita, que dizia - São horas de regressar a casa. Trânsito congestionado na via marginal. Sugestão: use o Híbrido em piloto automático. Dei um Ok cuja secura, por escrito, ele não podia sentir. Dirigi-me para o Híbrido, uma viatura ovóide que abriu a porta assim que cheguei. Instalei-me e fui saudada por um ?Boa Noite?, ao qual respondi enquanto ligava obedientemente o PA. A voz monótona do Robot informou: - Trânsito congestionado na via marginal - (Haha, como eles se repetem!) ? Sugestão: seguir via central, que está regular. Ignorando o habitual sentimento de ridículo que o falar com as máquinas me causava, balbuciei a minha resposta favorita ? Ok ? mas sem vestígios de secura, que na voz seria facilmente detectável pelos sensores. A viajem decorreu com uma suavidade imensa, quase sem paragens. Fui interpelada uma vez pelo Híbrido, que parecia achar-me uma má companhia (!) e o fez notar: ? Silencio demasiado prolongado. Sugestão: música. Com um sorriso forçado concordei: - Sugestão aceite. Escolhe uma da minha lista. Os dez minutos seguintes passaram ao som da Noite Transfigurada, do Schöenberg, que tive pena de interromper mas a viajem terminara. O Híbrido insensível, calando o Schöenberg, disse-me ?Boa Noite? e abriu a porta para eu sair. Entrei na minha casa provisória ? a Clínica!, tropeçando quase imediatamente em Cyc, que veio saudar-me e dizer-me que fosse à sala de estar, sem me fornecer motivo algum para isso, o que era muito estranho da parte de um Mordomo programado para ser gentil e eficiente. Vi-o deslizar à minha frente, na direcção da sala, parecendo entusiasmado... ou estaria eu a ficar doida? O Robot, entusiasmado?! Pois parecia mesmo, serpenteando pelo corredor fora. Que nervos! - Pára, Cyc. Não tenho pressa. Ele não parou, até me pareceu que começou a andar mais depressa. - Cyc, já disse que não quero ir a correr. - Sugestão: correr na mesma. ? respondeu a criatura supostamente submissa. E cada vez ia mais depressa, e eu também, para o acompanhar. Ora, isto não pode ser assim, pensei furibunda, desta vez eu tenho razão, ele não pode fazer isto! Cheia de certeza, não me contive e berrei: - PÁRA CYC!!!! Ele parou imediatamente, não para me obedecer mas porque estávamos à porta da Sala. Claro que me espatifei de encontro a ele e caímos os dois mas não me importei, de tão triunfante! - Então Cyc?! Não sabes a 2ª Lei da Robótica, a que diz que Um Robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos.... Fui interrompida por um coro de vozes que terminou a frase num desagradável tom de sentença: - ... excepto se essas ordens se opuserem à 1ª Lei. Olhei para eles, sem querer acreditar no que via: A COMISSÃO!! Era óbvio para todos que Cyc tentara que eu corresse para a sala a receber os visitantes-surpresa, antes que cometesse qualquer indelicadeza com ele ou com um Robodoméstico qualquer. Cyc fizera tudo para encurtar o meu tempo de convívio com os Robots enquanto a Comissão ali estivesse. A Comissão, que ali fora para aumentar um pouco as minhas regalias, premiando os meus sinais de cura da Robofobia. Sinais que, depois disto, lhes pareciam erróneos! O Mordomo mexeu-se um pouco sob o meu corpo, e mostrou monocordicamente a sua garra: - Grande contratempo. Sugestão: desmaiar. - Cala-te, Cyc... - sussurrei ? Mais vale enfrenta-los! Fata Morgana O mordomo Cyc é uma adaptação muito livre dos andróides Cyc (criado por Douglas Lenat) e Cog (criado por Rodney Brooks). |
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