Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 25 Novembro, 2003

 

 
As Três Leis da Robótica

Parte III

É claro que perdera todas as regalias e tinha que acabar de cumprir a pena na mais completa reclusão. Era uma sorte não ter sido considerada reincidente, pois nesse caso teria sido transferida para a Prisão Inteligente. Mas não fora possível apurar se eu tinha reincidido ou não. Graças à incongruência das informações dadas por Cyc - que não parara de fazer Sugestões totalmente fora de propósito - a Comissão colocou renitentemente a hipótese do Robot ter enlouquecido. Não estavam muito convencidos disso, pois não esqueciam que o Mordomo fora programado para mim - para me espiar, mas também para me proteger! Alguma coisa podia ter falhado no processo de programação e Cyc podia ter optado exclusivamente pelo segundo objectivo, ao ser confrontado com indicações contraditórias. Por um lado desconfiavam de mim, uma Robofóbica com alguns incidentes pós acusação; por outro havia o problema, ainda sem solução, das pequenas falhas apresentadas pelos Robots pré-programados, já que eram Enciclopédias de Senso Comum - e este, apesar de lógico, não é matemático. Pareceu-me que suspeitavam que Cyc tivera um gesto altruísta, mas não fazia ideia se uma tal coisa era possível.

A Comissão decidiu levar Cyc para uma Enfermaria de Robots. Quando os vi sair com o pequeno andróide, senti imediatamente um inexplicável vazio. Corri até à porta da rua e gritei calorosamente - Até breve, Cyc!
O Robot respondeu monocórdico como sempre - Sugestão: cantar. Alguns representantes da Comissão olharam-me com frieza, como se a culpada daquilo fosse eu. A maioria, porém, nem se voltou. A porta fechou-se com um suave clic. Só um incêndio ou qualquer outra calamidade - como uma visita da Comissão! - accionariam o seu mecanismo de abertura. Encolhi os ombros e fui para a cozinha, onde constatei, com algum alívio, que os Robodomésticos tinham tratado do meu jantar, como habitualmente.
O menu era rigorosamente fiel ao que eu escrevera no Robobloco, nessa manhã. O ambiente estava aquecido, a música óptima, tudo como eu gostava. Mas faltava-me o ruído suave de Cyc a deslizar de um lado para o outro. E a voz com que inexpressivamente me comunicava - Alimentos estão a arrefecer. Sugestão: ligar Termobase. Bolas, algum daqueles Robodomésticos iria reparar se a minha comida arrefecia?!
Jantei rapidamente e meti o prato, o copo e os talheres no Robokit de Limpeza. Sem ideias e sem Sugestões, decidi recolher-me.

Ao fim de dois dias, cedi. Tinha saudades de Cyc, pronto. Mais valia aceitar o facto, talvez até fosse bom para a minha situação, pois não deve ser habitual as pessoas Robofóbicas sentirem a falta de um Robot, mesmo que fosse só de um. Peguei na Minitela e, pela primeira vez, premi aquele botão, estabelecendo contacto com a Comissão.

- Bom dia. Quero notícias do meu Mordomo.
- Quais os motivos da sua pretensão?
- Ora? - tossi um pouco - Cyc faz-me falta!
- Muito bem. Providenciaremos.

Não disseram o que iam providenciar e cortaram a ligação sem nenhumas cerimónias. Lembrei-me de que nunca hesitavam em ser desagradáveis nem faziam questão em me poupar contrariedades, por isso convenci-me que o silêncio era uma aquiescência e Cyc ia voltar a qualquer momento.

Só tinha que me entreter, para passar o tempo. Fui até à sala jogar uma partida de gamão com o Cyberjogador, que era imbatível, mas eu estava tão contente que não fazia a menor questão de ganhar. Aliás, perdi alegremente várias vezes seguidas!

Duas horas mais tarde a porta da rua abriu-se e o Mordomo entrou. Não era Cyc!! Tinha um ar assustador, pois não era revestido, tinha visíveis vários pequenos motores, transístores, um sem número de feixes de cabos finíssimos e as duas pequenas câmaras de vídeo que eram os olhos, voltadas para mim, que estremeci. O Robot estendeu-me a mão - uma ferramenta horrenda munida de várias pinças - e só então notei que trazia um papel.
Era-me dirigido. Desdobrei e li:

"Lamentamos participar a auto-destruição de Cyc. Contra tudo aquilo para que foi programado, Cyc seleccionou a opção sem alegar qualquer motivo. No entanto, possuímos meios de verificar as bases de dados dos Robots, o que fizemos. Suspeitamos que Cyc se auto-destruiu ao abrigo da Lei nº3 da Robótica - Um Robot deve proteger a sua existência enquanto for possível, desde que essa protecção não se oponha à primeira e segunda Leis.
Acompanhe Cog à nossa presença para novo julgamento.

A Comissão"

Larguei o papel e olhei para Cog - aquela espécie de horroroso esqueleto electrónico - com os olhos cheios de lágrimas. Bem, mais valia conter-me e segui-lo. E não dizer mais nada.

O Híbrido estava à nossa espera, claro. Com ele sim, fartei-me de conversar, de repente também gostava do Híbrido, que me ia respondendo suavemente, a mim, que nunca explorara as suas possibilidades, que sempre fora pouco simpática, desagradável mesmo.
Cog ia calado. Não apresentou uma única sugestão. Era intolerável!

Quando chegamos, tinha a Comissão em peso - até os elementos menos importantes lá estavam! - à minha espera. Estavam todos anormalmente sorridentes e até afáveis, quando nos sentamos à volta de uma mesa, juntamente com as imagens holográficas dos estrangeiros da Comissão que ali não estavam. Assim que a reunião principiou, todos se voltaram para mim e disseram uma única e surpreendente palavra:
- Parabéns!
Levantei-me e pus-me a andar de um lado para o outro, sem compreender.
- Parabéns? Mas parabéns porquê?! Por estar cheia de saudades do meu Robot? Por já nem saber o que sou? É por isso que me congratulam? Durante muito tempo o que eu mais desejava era que os Senhores me aprovassem... mas agora... agora o que eu mais queria era tornar a ver Cyc! Dito isto larguei mesmo a chorar. O ''feixe'' Cog, finalmente, mostrou que sabia falar. E... Oh!, eu conhecia tão bem aquela voz!
- Sugestão: colocar revestimento a Cog.

Já um novato qualquer da Comissão se apressava a trazer uma espécie de fato cor de carne, enquanto mais dois - dos tais, menos importantes - o ajudavam a colocar Cog dentro da sua carnagem e... era Cyc!

Caí nos braços do humanóide! Sentia-me feliz. Alguma coisa semelhante a um DELETE tinha acontecido ao meu passado, a tudo o que fora importante para mim até ao momento em que dera comigo metida-numa-espécie-de-processo-de-Kafka. Mas... ouvindo a voz de Cyc, isso não me ralava minimamente. Cyc é que era importante, Cyc é que contava. Não era ele que sabia tudo sobre mim?

Fata Morgana


 

 
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