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Avalon, 03 Novembro, 2003
Excertos de As Excursões Psíquicas de Antonin Artaud, por Sarane Alexandrian
(Selecção e tradução de Aníbal Fernandes) Marselha é quem decide a chama para incendiar o futuro e singular espectáculo; mal ousará referir-se esta cidade toda complicada de labirintos, porto de mar, para citar outra, a mesma, ponto de partida de um apocalipse, o gelo de fogo e sangue que ele, Artaud, não deixará nunca - em 52 anos - de viver. (Nada me lembra nascer em Marselha na noite de 3 para 4 de Setembro de 1896, como diz o meu registo, mas lembra ter debatido lá um problema grave, num local que nem sei, localizado em qualquer parte entre o espaço e um mundo sinistro, fortuito, invisível, grotesco e pavorosamente inexistente.) Muito menino oferece-lhe, Marselha, a meningite; e esse período de gaguez, de horrível contracção da língua e nervos faciais que aos dezanove, já no ópio, é que se acalma; oferece-lhe a casa de repouso, a tropa que o dispensa - tão intrigada com o desenho de uma saúde esquisita, o sonambulismo que percorre, indisciplinado, as casernas. Depois, o Paris de 1920 é Max Jacob, é André Masson, é Michel Leiris, é Dubuffet. E a mulher do Doutor Toulouse, psiquiatra e pai, mais tarde diria impressionada: «Entendi logo que tinha à frente um ser excepcional ao máximo, da raça que tem dado Baudelaires, Nervais, ou Nitzsches.» Por isto, argúcia de mulher que ronda consultórios e em casa exerce poderes paralelos e satisfeitos, lhe coloca o Doutor Toulouse uns versos, uns artigos, o leva ao Tric-Trac du Ciel editado a expensas da Galeria Simon. A Gallimard de 1923 - com menos anos, a mesma que hoje tutela a sua obra exaustivamente completa - à mão de Jacques Riveère recusa-lhe poemas e dá-lhe conselhos de bom comportamento literário. Artaud pergunta: Estará assim tão confusa a substância do meu pensamento, e a sua beleza geral tão pouco activa pelas impurezas e as indecisões que a salpicam, ao ponto de não chegar literariamente a existir? O problema do meu pensamento é que se encontra, todo ele, em jogo. E confessa: Dou perfeitamente conta das paragens e dos solavancos dos meus poemas, que chegam a atingir a própria essência da inspiração e provêm da minha indelével impotência em concentrar-me sobre um objecto. Por fraqueza fisiológica, fraqueza que toca a própria substância daquilo que se chama, por convenção, alma e é emanação da nossa força nervosa coagulada em redor dos objectos. Do fracasso nasce a fulgurante ruptura. Artaud responde à Gallimard recusando tudo o que não seja o «completo abismo». Em 1925, o Pèse-Nerfs declara uma inabalável convicção. Já vos disse: nem obra, nem linguagem, nem palavra, nem espírito, nem nada. Nada além de um belo Pesa-Nervos. Espécie de incompreensível estação muito direita ao meio de tudo no espírito. E em 1929 a resposta de uma descida a pique na carne, chamada A Arte e a Morte. (O intervalo foi intenso de todas as revoltas. Artaud já deu o Não definitivo aos surrealistas quando se aproximaram, afoitos, do Partido Comunista - Que tenho eu a ver com todas as Revoluções do mundo, se sei permanecer eternamente doloroso e miserável no seio do meu próprio ossário? - já se entregou ao teatro com Charles Dullin e Pitoeff, já fundou o Teatro Alfred Jarry com Roger Vitrac e Robert Aron, já montou o Sonho de Strindberg que os surrealistas inviabilizaram com acções de sabotagem. Já foi Marat no Napoleão de Gance, o monge Nassieu na Paixão de Joana d'Arc de Dreyer, o secretário Mazaud em O Dinheiro de L'Herbier.) A poesia é, cada vez mais, uma multiplicidade triturada que se desfaz em labaredas. E a poesia, que traz consigo a ordem, primeiro ressuscita a desordem, a desordem de aparências inflamadas; faz o entrechoque das aparências e converge-as num só ponto: fogo, acto, sangue, grito. Artaud afirma isto no Heliogábalo ou O Anarquista Coroado, última obra que escreve antes de partir para o México, onde vai participar com índios no rito do peyotl, passar através de homens e espaço para chegar, numa convulsão, a si próprio. Quando regressa traz sinais muito visíveis de uma «loucura», ou seja, virtude inflamada de oposição, de negação, do martírio; um apostolado de radical mudança. O episódio de Dublin, onde aparece a restituir o bordão de St. Patrick aos irlandeses, onde se envolve em tumultos de rua, devolve-o compulsivamente à França. Artaud vai ser encarcerado 9 anos em manicómios para sair, em 1946, e viver mais dois de raiva contra Deus, contra o sexo, contra o seu corpo roído por um cancro no ânus, contra a sociedade que o suicidou. Da sua missão de escritor, resta-lhe uma impotência. É preciso acabar, de igual forma, com o Espírito e a literatura. Digo que o Espírito e a vida comunicam em todos os graus. Eu queria fazer um livro que incomodasse os homens, que fosse como uma porta aberta capaz de os levar lá, onde não teriam nunca consentido ir, uma porta que chegasse pura e simplesmente a comunicar com a realidade. De seus livros antigos resta-lhe uma estupefacção: Na altura pareceram-me cheios de fendas, falhas, chatezas e como que recheados de espontâneos abortos. Vinte anos depois deixam-me estupefacto, não de êxito que me diga respeito, mas que respeita ao inexprimível. Um sobressalto de lucidez fá-lo escrever ainda Van Gogh o Suicidado da Sociedade, Artaud le Mômo, Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus. A 4 de Março de 1948 é encontrado morto, sentado ao pé da cama. E horas mais tarde dá-se o roubo de todos os seus livros, das suas notas, dos seus manuscritos. Um ano antes, Artaud vencera resistências de um corpo que se desfazia para o derradeiro espectáculo de si no Teatro do Vieux Colombier, numa conferência de «violências extremas», como disse Breton, «que espumavam uma completa orgia verbal e manifestavam uma tensão interna da mais impressionante espécie, que nada poderá impedir de nos deixar perturbados durante muito tempo.» André Gide também lá esteve e não pôde deixar de senti-lo como um instante desses, capazes de marcar com singular incómodo a vida de quem o sofreu. Num texto escrito mais tarde, homenageou-o. E que bem, pensando sobretudo que é Gide, pensando sobretudo que é Artaud. Homenageou-o assim: «No fundo da sala - nessa velha sala querida do Vieux Colombier que dava para cerca de trezentas pessoas - meia dúzia de folgazões tinha aparecido à sessão na esperança de umas graçolas. Oh! Nem duvido que fossem apertados - pelos amigos fervorosos de Antonin Artaud distribuídos na sala, onde já não havia lugar nenhum. Mas não: depois de uma tentativa tímida de fazer chinfrim, mais razão não houve para se intervir... Assistimos todos a um prodigioso espectáculo que era: Artaud a triunfar, a inspirar respeito à galhofa, à estupidez insolente; a dominar... Eu conhecia há muito Artaud, e a sua miséria, e o seu génio. Pois mais admirável do que nunca ele me pareceu. Do ser material já só restava o expressivo. A grande e desengonçada silhueta, o rosto consumido numa labareda interior, aquelas mãos de quem se afoga estendidas para um auxílio indefinível, ou torcidas numa angústia, ou envolvendo as mais das vezes estreitamente a sua face, a ocultá-la e logo depois a mostrá-la, tudo nos falava da miséria humana abominável, uma espécie de maldição implacável que apenas encontrava fuga num lirismo furioso e só capaz de atingir o público por cintilações imundas, imprecatórias e cheias de blasfémia. Também ali se encontrava, claro está, o maravilhoso actor que o artista poderia vir a ser; no entanto, o que ele ofertava ao público era a sua própria personagem, e fazia-o com uma espécie de cabotinismo sem vergonha onde uma autenticidade total transparecia. A razão deitava-se a bater em retirada; e não só a sua como da assembleia inteira, de nós todos, espectadores daquele drama atroz, reduzidos ao papel de malévolos comparsas, meias-tigelas, casca-grossas. Oh! Nem uma só pessoa, na assistência, tinha vontade de rir. Forçava-nos a entrar no seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que nós admitíamos e para ele, mais puro, era inadmissível. Nós ainda não nascemos. Ainda não estamos no mundo. O mundo ainda não existe. As coisas ainda não estão feitas Nem foi encontrada a razão de ser... Ao sair da memorável sessão, o público calou-se. Podia dizer-se o quê? Acabávamos de ver um homem miserável atrozmente sacudido por um deus, como se estivesse no limiar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila onde não se tolera nada profano, onde era exposto um vates como num Carmelo poético, oferecido a implacáveis iras, aos abutres devoradores, ao mesmo tempo sacerdote e vítima... Sentia-se vergonha do regresso a um lugar no mundo, onde o conforto se constrói de compromissos. - André Gide.» |
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