Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 15 Novembro, 2003

 

 
O Meu Primeiro Amor

Um dia condescendi e olhei-te demoradamente, sem que os meus olhos te fugissem como habitualmente, e por pura maldade, fugiam.
Sorria e só podia ser um sorriso estranho, vingativo e condescendente, e também de orgulho ferido, enquanto pensava: vês como os meus olhos não são da cor dos dela? Deixa, que importância tem?... Malvado, que te desiludiste comigo nos olhos!
Tu não sabias o que eu estava a pensar e eu não sabia ler na tua expressão o que tu estavas a sentir, mas não paravas de me fitar e parei eu.
Fui para o outro extremo do salão, do outro lado de toda a gente que ali estava. Ainda vi, disfarçadamente, a tua expressão um pouco estúpida. Estúpida: era assim a tua expressão. Ri-me, para fazer de conta que não estava triste, e meti conversa com toda a gente, que era quem queria conversar comigo.

Passou muito tempo. Muitos salões e muitas pessoas. E tu e eu sempre de olhar esquivo. Uma ou outra vez olhei-te por um momento, só para te provar ainda que não tinhas razão. O importante era que soubesses que estavas mesmo enganado e que ignorasses que eu detestava despertar em ti recordações de outra.
Toda a paixão era oculta. Muitas vezes suspeitei de que fosse mútua. Outras, tive a certeza de que era só eu.

Estava errada. No meu olhar buscavas, não as recordações ? mero pretexto usado! ? mas um refúgio que fosse só teu. Nele te perdeste completamente. Eu apenas me perdi pelos salões. Tu nunca mais descobriste a saída do labirinto escuríssimo em que eu te deixara mergulhar daquela vez. Eu acabei por me rir e conversar com toda a gente sem ser para fingir que não me sentia triste. Tu não tinhas ninguém porque não me tinhas a mim. Eu tinha toda a gente porque não queria ninguém. Toda a minha paixão fora semi-inventada. A tua não.

Durante muito tempo, quando te oferecia o meu olhar com indiferença e naturalidade, via-te arder, sabia que te consumias demoradamente... até um dia, muito mais tarde, em que finalmente me esqueceste e eu não sei dizer quando foi. Depois disso, sempre que os nossos olhares se cruzaram sorrimos um ao outro com ternura. Tu não sabes é que fico a pensar com alguma pena: afinal não dei cabo de ti!

Fata Morgana
 

 
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