Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 28 Novembro, 2003

 

 
O Mês do Sagitário

Foi numa manhã gelada mas cheia de sol, depois de uma premonição. Nada me surpreendeu e simultaneamente fiquei perplexa porque aquilo estava mesmo a acontecer e era tão esperado quanto inesperado. Lembro-me de acordar na minha camisa de noite azul de flores miudinhas, de achar que tinha tempo, que o melhor era esperar, prolongar o acontecimento e não precipitar-me nele. Esperei.
Quando isso deixou de me parecer uma boa ideia fui acordar os que, sem motivo especial que os despertasse, ainda descansavam, em seu pleno direito e aconchego.
Despoletei um ataque de telefonemas, cheios de perguntas, de receios, de conselhos e alguma incredulidade, também. Mas sobretudo diziam-nos ''ainda é muito cedo!''... e ''não pode ser!''.
Eu sabia que não era assim, que o melhor era apressarmo-nos, e a minha convicção era mais forte. Acabei no passeio, pronta, apesar das pernas totalmente expostas à friagem matinal, mas não tivera ''ginástica'' para vestir collants. Um rápido cumprimento à vizinha que me olhou verdadeiramente pasmada com a sua falta de perspicácia; a difícil entrada no carro e a condução aparentemente louca, pela faixa do bus e sempre a buzinar.
Apesar do momento ter algo de aflitivo não fui rapariga para deixar de o gozar plenamente. Reparei nas caras dos condutores dos outros carros - então os taxistas!! - assim como na palidez do condutor do meu carro. Atrás de mim lembravam-me que ''devia respirar à cão''... e isso dava-me vontade de rir, apesar de já estar em semi-pânico.
Chegados ao destino, quase vacilei perante a escadaria - como é que um sítio destes tem tantos degraus???, pensei. Mas subi-os, todinhos. Depois era preciso fazer um depósito em dinheiro antes de ficarem todos prontos a dar-me cuidado e atenção.
A primeira pessoa que mos deu - e bem me lembro da confiança que nela depositei! - apareceu com um ar conhecedor e mandou-me ''ir fazendo muita força''. Aliviada por finalmente estar em mãos experientes, obedeci, vendo-a espreitar mais abaixo com um ar entendido. Mas a expressão modificou-se-lhe imediatamente, tornando-se aflita, e ela berrou-me: ''pare, pare!''. Foi quando percebi a razão da esfregona que a mulher tinha na mão e no meu atordoamento eu achara apenas um pormenor algo excêntrico.
Finalmente, de luvas, bata, touca - enfim, um autêntico modelito hospitalar completo! - apareceu a minha salvadora, que com uma muito prosaica gilette, umas desagradáveis tesouradas, uma risada argentina a responder ao grito surpreendente que assegurava VIDA e o contentamento de muito rápida e facilmente contar ''mais um!'', mostrou que era ela a experiente e não a da esfregona.
O médico não logrou chegar a tempo, pois ficou preso no trânsito - ora, e a faixa do bus?! Quando chegou foi para fazer uma espécie de cuidadoso bordado que não deixou vestígios. Quem é que diz que os homens não sabem bordar? Aquele sabia!
Umas graças típicas da ocasião e pronto, a caminho do segundo andar, do nº26, na cama de rodas. Foi aí que ouvi o choro de bebé, que se extinguiu assim que se sentiu pousado no meu estômago.

Não vou falar sobre os sentimentos seguintes à sucessão destes factos, são marcas que não revelo. As coisas físicas é que nessa altura não me pareciam íntimas, pois acabara por me habituar à necessidade de ser ''observada'', e a minha intimidade residia noutros planos. Mas não quero deixar de registar que a mulher da esfregona, a que se assustou, e cujo rosto já esqueci completamente, ficou sempre na minha lembrança. Já sei que aquilo podia ter sido mesmo perigoso... mas não teve consequências e ela ficou-me como alguém que tinha esse sonho bonito de ajudar a pôr crianças no mundo.

Fata Morgana

 

 
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