Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 17 Novembro, 2003

 

 
Um dia destes comentava com uma amiga minha, por email, que sou muito clássica nos meus gostos literários. E é verdade. Custa-me a literatura em que não há tipóias na baixa lisboeta nem chevrolets na estrada de Sintra; em que ninguém trava duelos por amor ou vai parar ao convento! Arrepelam-me as histórias em que as personagens padecem dos mesmos males urbanos, cinzentos, de que nós padecemos também - ou pelo menos conhecemos perfeitamente! Incomodam-me as alusões ao trânsito e aos engarrafamentos, acho inestética a menção aos táxis, aos autocarros. Gosto que os livros me arremessem violentamente aos sonhos, mesmo que sejam pesadelos, e não que me obriguem a conviver com personagens que sofrem das mesmas angústias que as pessoas com quem falo diariamente.
Devemos ler sempre o mesmo livro... Havia alguém que dizia isto, não me lembro quem era... Mas a ideia é fantástica, subversiva, mesmo! Que desafio imenso o de escrever, se as pessoas decidissem, todas elas, crescer e aprofundar os seus abismos interiores com a leitura de um único livro!
Sei que não tenho razão em absoluto, que, mesmo relativamente, a percentagem em que estou certa tende a diminuir, pois é à luz do nosso tempo e por comparação e relatividade com as coisas nossas contemporâneas que aquilo que dizemos encontra sustentáculos.

Não eram os românticos que padeciam do fascínio pelo passado distante?! Pronto, sou romântica, então! Devo, aliás, ser muito romântica mesmo!

Mas tal não me impede de dizer que o Hotel Spleen, de Bernardo Pinto de Almeida, é um livro imperdível, um livro que eu adorava segurar entre as minhas mãos românticas daqui a uns cento e cinquenta anos!

Fata Morgana
 

 
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