| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 13 Dezembro, 2003
Ao passar o umbral, do corredor para o aposento onde entrei, sem objectivo, dei alguns passos em frente e vi-a. Estava ali uma mulher, mesmo à minha frente. Ocorreu-me apanhar um grande susto mas não, apenas fiquei muitíssimo surpreendida.
Olhei-a silenciosamente, sem nenhumas cerimónias, e percebi que ela não me era nada estranha. Contudo, não estava a lembrar-me onde a encontrara antes. Apreciei o ar resoluto com que me devolvia a prolongada inspecção. Mediamo-nos mutuamente. Mas aquilo não se podia eternizar... Esbocei um pequeno sorriso contrafeito e ela também. - Quem és tu? De onde te conheço? - De todos os lugares, ora essa! Ora essa!?... Não deveria ser eu a fazer esse género de exclamações? Ergui as sobrancelhas num misto de desagrado e curiosidade. Ela também ergueu as suas mas tinha uma expressão insondavel. Ocorreu-me que talvez ela também não soubesse interpretar os meus sinais e me achasse igualmente misteriosa. Contudo, sentia que não era assim, coisa desagradavel que imediatamente decidi ignorar. Uma zombaria exactamente igual à que eu queria aparentar, emanava da mulher, que não me desfitava. Parecia estar a perder a paciencia e eu também estava, por isso voltei à carga: - Julgas que me conheces? - Não. És tu quem julga que me conhece a mim. Era verdade. De facto parecera-me imediatamente que a conhecia. Agora sentia-me plantada naquele ponto a que tantas vezes chego, entre uma coisa e outra muito diferente, entre o sentir e o pensar. Baixei os olhos. Nunca aguento a energia imensa desse estado puro de apenas ser, ainda que não chegue mesmo lá. Entregar-me a ele... oh, seria como atirar para longe a minha barra de equilíbrio. Bem gostava de o fazer mas acabo sempre por me agarrar firmemente às ideias firmes. Ora esta! Que estranha, tão estranha mania que eu tenho - sempre tive! - de divagar em frente ao espelho! Encolhi os ombros, dei meia volta e o resto do dia acolheu-me, solícito. Fata Morgana Dedicado ao Rui. |
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