Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 05 Dezembro, 2003

 

 
Coisas que Pensam!

Um dos projectos mais revolucionários de que o MIT Media Laboratory se ocupa envolve a criação e desenvolvimento de objectos que pensam. Basta dedicar meia hora de leitura ao assunto e logo percebemos que, mais cedo ou mais tarde, todos os monos à nossa volta hão-de ser inteligentes!
O grande mentor da ideia é o físico Neil Gershenfeld. O rapaz - sim, ele é bastante novo - é um vivaço! Consegue manter, em simultâneo, três conversas sobre assuntos complicadíssimos, enquanto desempenha várias tarefas, igualmente intrincadas e sem relação com as conversas, tudo ao mesmo tempo. Mesmo assim, está sempre cheio de pressa e vive num constante estado de quase exaltação.
É alto, magro, de cabelo castanho claro levemente encaracolado e olhos... olhos... Pois, isto não vem ao caso, mas é que não pude deixar de pensar que é este o rapaz encantador que não tem tempo nem vontade de, por exemplo, ir ao cinema - podia ficar sentado ao nosso lado!... - ou a uma festa - onde tocasse, sem querer, com a taça de champagne nas nossas arrepiadas costas!...
Nenhuma chance disso acontecer. Lindo e inteligentíssimo, este anti-galã está sempre trancafiado no MIT a desenvolver Things That Think. Confesso que preferia que ele fosse um bocado feioso. Mas mesmo assim, parece-me que só teremos que lhe agradecer e cada vez mais. Senão... pensem comigo:
Claro que todos desejávamos muito possuir a mesa-inteligente que ele fez nascer e acabou por encontrar utilidade comercial como ecrã de PC, dispensando o tacanho rato, pois a esperta da ''mesecrã'' sente os nossos gestos! Agora basta esbracejar, gesticular e apontar, enfim já todos devem ter visto na Worten como fazem aquelas pessoas que a princípio julgámos que eram malucas, mas não, não eram, estavam apenas a experimentar jogos nesses ecrãs (ex-mesas-inteligentes!) sem os quais já mal podíamos viver!
Também os Wearable Computers nos estão a fazer uma falta dos diabos! E aqui o problema da demora parece residir nos preços, absolutamente proibitivos, mesmo para o consumidor muito abastado! Refiro-me, entre outras pequenas maravilhas, aos óculos-cibernéticos, que nos permitirão ver os iaques juntamente com aquele nosso amigo que está em férias no Nepal, mas com a vantagem (sobre o amigo que lá está a passear, quase no Everest) de que não sentimos o odor dos bichos! Não é um sonho?! Podemos sugerir simpaticamente ao nosso maior amigo que viaje para lugares exóticos e desagradáveis - perigosos até! - daqueles onde revistam minuciosamente as pessoas e obrigam a tomar vacinas e ainda assim, cheiram mal. E vamos nós para lugares civilizados e cosmopolitas! Tendo - nós e o amigo - cada um o seu par de óculos... trocam-se experiências, pois estes dispositivos inteligentes com a potencia de supercomputadores, são facílimos de manusear, muito melhores que telemóveis, pois alimentam-se da nossa energia, nunca ficam sem carga! Assim, o amigo vê a montra do Armani e nós o Sherpa incompreensível, e desdentado!
Confesso, porém, que nada me encanta mais do que os sapatos-inteligentes! Aqui Gershenfield excedeu-se verdadeiramente, animando o espaço enorme e tão tristemente inútil que representam os tacões, enchendo-os de inteligência que se recarrega a cada passada. Este brilhante par-de-sapatos do futuro (próximo!) permitirá nada menos do que trocar grandes ficheiros informáticos com qualquer pessoa, até no meio da rua, bastando um breve aperto de mãos: a pele é salgada e por isso conduz ainda mais facilmente a electricidade, fazendo passar para a mão da outra pessoa e depois para os sapatos desta, tudo o que nos apetecer! Poderemos uploadar um guião inteiro para os sapatos do Manoel de Oliveira! Estará definitivamente ultrapassada a desagradável conversa introdutória, seguida da entrega inestética de um grande calhamaço que o faria... certamente... franzir... vagarosamente... as sobrancelhas!
A única coisa que me deixa desolada nos sapatos inteligentes é o formato dos tacões - tão cedo não poderão ser agulha! E também ter que passar a dizer ''calço Olivetti'' em vez de Lacroix!

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