Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 29 Dezembro, 2003

 

 
A Descida ao Topo

De vez em quando, em pleno sono, vem-me aquela impressão estranhíssima de saber, de conhecer, de ser muito mais profunda do que saliente. MUITO MAIS PROFUNDA DO QUE SALIENTE. Tenho, então uma estranha noção de mim. Como se tivesse raízes. E depois como se fosse um buraco imenso.
Escalo essa sensação única em que me transformo toda, de buraco, mas escalo-a precisamente ao contrário, de uma forma que todas as lendas - erradamente - dizem que é maldita e amaldiçoada: escalo-a a descer. Quero ir ao fundo. E é quando começo a suspeitar de que não existe um fundo que as minhas forças esmorecem, até à exaustão.
A luz de uma outra dimensão acende-se nessa altura. É diferente, em absoluto, de toda e qualquer noção ou definição da luz que todos conhecemos. É uma coisa que não tem explicação porque não está condicionada por nenhuma palavra. Os sons que me chegam ao longo da descida - agora transformada em queda -, são, também eles, registos desconhecidos, de frequências várias, todas próximas do mágico e do impossível e do improvável. A luz volta a chamar a minha atenção, mostrando-me cores novas... Não há comparação entre o arco-íris e aquele indefinível arco-o-quê.

Nunca cheguei ao fim da queda. Não sei se há fim. Há sempre uma força que me segura, e suga, e traz de volta, sem palavras para compreender, cheia de gestos que não tenho quem entenda - as palavras possíveis para contar como são aquela luz e aqueles sons.

Quando acaba esta experiência que eu chamo de sonho ou pesadelo, conforme calha à minha língua entorpecida, sinto, intimamente, que estive num limiar.

Fata Morgana

 

 
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