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Avalon, 26 Dezembro, 2003
DUH!?... exclama-se hoje, a torto e a direito. Podia ser uma palavra inventada cheia de conteúdos. Não é. Parece apenas querer dizer que alguém é lento, que ainda não percebeu coisas importantíssimas que o "duhísta" já está cansado de saber, pois ele sabe tudo, não lhe resta o espanto de mais nenhuma descoberta. Duh!? traduz o último espanto que restou ao duhísta, que é mais ou menos o ter descoberto que o "tosco" com quem está a falar não sabe uma qualquer insignificância. É uma palavra vazia, afinal, aplicada para chatear ou para rir sem ter de quê (se o "tosco" também for duhísta riem-se os dois). Não tenho nada contra... tirando o som feioso da expressão e, principalmente - dada a frequência com que é usada! -, a ausência de uma postura qualquer inspiradora, que mereça ser conhecida como Duhísta.
Hoje, ao ler o Today in Literature, vi que Tristan Tzara morreu no dia 25 de Dezembro de 1963... DADA! Foi a primeira coisa que me apeteceu logo dizer. E depois lembrei-me do lamentável "Duh!?" Li algumas coisas de e sobre Tzara e o Dadaísmo, revivi a fase em que tentei ser uma deles - apesar de muito fora do tempo! Fiquei a pensar como Dadaístas e Surrealistas defendiam causas de anti-arte (de um modo bem artístico, às vezes!). Movimentos que queriam despojar a obra de arte de toda e qualquer postura artística, de toda e qualquer vontade de "criar". A verdadeira arte era cuspir umas palavras, umas linhas numa tela, parir uma forma estranha e chamar-lhe escultura mas sem qualquer desejo de que saísse um portento, ou sequer bonitinha! Era uma anti-postura. Não vazia de conteúdo. Depois dei com uma citação do Tristan Tzara (que aqui deixo) e ainda fiquei a detestar mais o "Duh!?"... que nem sequer é cheio de anti-conteúdos. "Le plus acceptable des systèmes est celui de n'en avoir par principe aucun." Tristan Tzara (Extrait de Manifeste Dada - 1918) Hoje não estou poética. Mas deixo cá poesia: Primeiro Poema Português Dada (1917) por Fernando Pessoa SAUDADE DADA Em horas inda louras, lindas Clorindas e Belindas, brandas, Brincam no tempo das berlindas, As vindas vendo das varandas. De onde ouvem vir a rir as vindas Fitam a fio as frias bandas. Mas em torno á tarde se entorna A atordoar o ar que arde Que a eterna tarde já não torna! E em tom de atoarda todo o alarde Do adornado ardor transtorna No ar de torpôr da tarda tarde. E há nevoentos desencantos Dos encantos dos pensamentos Nos santos lentos dos recantos Dos bentos cantos dos conventos... Prantos de intentos, lentos, tantos Que encantam os attentos ventos. in Portugal Futurista, nº 1. Lisboa: 1917. Contexto ed. 1981 Fata Morgana |
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