| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 31 Outubro, 2003
Elektra
Costumo enlanguescer-me no éter derramado p'los silêncios Rebolar sobre várias sensações vagas suprimidas ao vento Sudoeste. Ponto cardeal Complicado de significações Anoitece. Solto um suspiro cavo de vulcões E adormecida deixo-me ficar enroscada no morno sovaco paternal Posição habitual dos embriões. O escuro é povoado de amigos que se debruçam sobre mim Mas nunca lá estou. Longe. Fata Morgana
Nocturno Op.1
A viuvez dos Anjos atropela ideias Acende estrelas cadentes Desbrava os corredores no escuro E os Relógios de Sol avariaram assim que vieram as trevas Fata Morgana
Nocturno, Op.2
A cada passo mil sussurros soam A cada passo os sinto e sem saber Os sussurros levam-me longe a ver Olhos. Dois carvões a coruscar no escuro Fata Morgana
Remember me...
(Dedicado a Klaus Nomi) Ontem pensei em ti, pintei o rosto. E como tu acentuei com ironia os traços. Pus fantasia na tristeza e no desgosto, fluindo em tinta mil desejos esparsos... Fata Morgana Avalon, 28 Outubro, 2003
Quero informar os leitores, que não tenho a certeza se existem (nem eu!), de que vou fazer aqui algumas CITAÇÕES, de vez em quando.
Não as tomem por minha autoria. Só me pertencem na medida em que as adoptei, me agradam, me fazem rir ou me incomodam. Não terei o cuidado de escrever antes, à guisa de título, a palavra CITAÇÃO, que é um bocado feia... nem o descuido de omitir o nome do legítimo autor, a seguir à frase adoptada, agradável, cómica ou incomodativa. Também não me esquecerei das aspas - as asas! Fata Morgana ''Querida imaginação, o que eu amo em ti acima de tudo é que não perdoas.'' Andrè Breton in Manifesto do Surrealismo (1924)
Liqües
A humidade é uma constante. Tudo é aquoso, tudo água, corrente solta, fluidez. A superfície tocada é sempre outra e afeiçoamo-nos a ela Como a uma só, a mesma. Temos a histeria da identidade. Mas somos, principalmente, Água corrente. Liquidez tamanha, que nos perturba de tão inconsistente. A mágoa é água; choro absurdamente. Fata Morgana
Poetisa Infância Poetisa infância Impulsos expulsos Ignorância dos caixilhos douta das liberdades absolutas Espontâneas emoções devolutas Riso, choro e gritos Ilações de inata ciência Passageira Memória de enigmas Surpreendente absurdismo que fascina e espanta quem já cresceu. Via gradual para outra gradação mais nave obrigatoriamente adulta Adulterada Prisão Perpétua Regresso e morte. Fata Morgana Avalon, 27 Outubro, 2003
Alma-Gémea é um Mot-Mot...
(Dedicado a Antonin Artaud) Eu queria tanto ser louca tão louca, que não me apercebesse quanto o sou. Queria não saber para onde vou; Ser pedra em vez de pluma Neste abismo. E todas estas coisas em que cismo Durante a insónia, instante em que adormeço, são a minha maior honra do que sou e não mereço. Uma alma gémea de Antonin Artaud. Fata Morgana Avalon, 24 Outubro, 2003
Acabo, eventualmente, por dizer alguma coisa acerca deste espaço?
Nunca tive muito jeito para escrever coisas concretas, objectivas, especialmente se o objecto for eu mesma ou algo que me diga respeito. Por isso tenho andado a adiar este momento, que é uma espécie de apresentação do meu Blog ? credo, como soa mal! ? e em vez disso... ah, tenho-me deleitado a derramar poesia, com ou sem rimas, coisa que me tem sabido bem! Mas pronto, eu sei que não é bonito, que não posso dar um baile de máscaras e, sendo anfitriã, aparecer também mascarada e não me revelar nunca, deixando os convidados e os que se lhes juntarem sem saber quem dá a festa! Ora!... Eu, sou eu, sou eu... pois sou. Mas sou mais coisas do que estas que aqui ficam. Eu sou muitas coisas que a minha poesia nunca menciona, como ser professora, dar aulas! Como cantar e tentar que a voz jamais me doa! Como ser versada nestas coisas de ?aldeia global? - c-i-b-e-r-n-é-t-i-c-a-s ? que eu não acho muito poéticas (apesar da rima!) e mesmo assim até ando a tirar um curso! No entanto, só me importa que saibam quem eu sou até um certo ponto. Variável. Claro! Se umas vezes vou ler isto e até achar que falei de mais... outras vezes vou sentir que deixei quase tudo por dizer (isto vai acontecer nos dias de maior lucidez!) Então, o Blog é um limiar... e eu vejo o limiar como um lugar ideal para decidir se recuo ou se avanço. Posso escolher qualquer desdobramento de personalidade ou nenhum, posso ir fundo no lado surreal ou ficar aqui mesmo, muito clara e concisa. Este claro-obscuro em que gravito é o principal que há para dizer a meu respeito. Pronto! Custou-me algumas linhas de aquecimento até sair, assim, curtíssima!, a verdade! Fata Morgana
Missa
Toada de lamentos... Estranhíssima reza que enfeitiça. Se me mexo saio da letargia e eu não quero. Gosto deste choro falado à minha volta que me faz sofrer assim por nada E me leva para um longe que é aqui. Fata Morgana
Uma Visita
(Dedicado a Andrè Breton) Nunca compreenderei como foi que me atrevi. Um dia acordei e decidi ir vê-lo, lá, e fiz as malas. Lembro-me ? como não!? ? da viagem de comboio, embalada num misto de solavanco mental, em frente!... e de medo, vontade não realizada de trocar para a cadeira lá ao fundo da carruagem, para, ao menos, chegar ao meu destino de costas voltadas para ele. Sem sequer me mexer, fui todo o caminho num violento frenesim, julgando por vezes que me ia desintegrar ou então esvair-me em gritos de histeria nervosa. Quando cheguei carreguei as minhas malas para a plataforma e, como se tivesse premeditado maduramente o meu acto, abri-as e comecei a distribuir por quem passava tudo o que lá tinha arrumado, as minhas coisas, escolhidas para ele ver, para notar como me ficavam bem, isso sim, tão premeditado! Houve quem aceitasse com naturalidade, sem considerar, por um momento, a minha atitude insólita. Houve quem quase me arrancasse das mãos as peças de roupa, numa qualquer avidez, talvez de receber de graça ? sim, sem agradecer! ? inesperadamente, coisas bonitas, e boas, e em bom estado, ainda por cima. Também alguns se afastaram rindo, contendo o arrependimento, amaldiçoando a própria falta de coragem, simulando desinteresse pela louca da estação, mas que tinha coisas boas, caramba!, encolhendo os ombros e já só sorrindo ? e amarelamente? - daquelas ofertas. Outros não se aperceberam, apenas. Outros ainda, espantaram-se, mas apressadamente, sem tempo para pensar no assunto. Muitos hesitaram. Aparentemente sem saber o que pensar, ficaram os imensos pedintes que por ali andavam e que nem se aproximaram, como se desconfiados daquela profusão de? algo que desconhecíam o que fosse, ou cujo nome já se tinham esquecido completamente. Quando os meus pertences se acabaram, o que demorou muito mais do que se possa imaginar, é um paradoxo, a paciência que tem que se ter para dar qualquer coisa que não seja dinheiro, as pessoas precisam de comprar coisas como aquelas que ofereci mas são muito estranhas, mistérios insolúveis em qualquer tipo de liquidez, atirei com as malas para um canto, pois não me apeteceu dar coisas vazias - também eu tenho as minhas esquisitices. Corri estação fora, descalcei-me pelo caminho, depois tirei a camisola, pela cabeça, em correria, desapertei o fecho da saia, que caiu ao chão e livrei-me dela ? e do tombo! ? com um salto rápido, sem parar, precisamente à porta da estação, saindo sempre a correr. Ninguém se voltou ou me deu especial atenção pois é tão normal na selva estar-se nu, ou quase. Livrei-me da roupa interior, sempre sem deixar de correr, e das pulseiras e fitinhas, dos brincos, que horror, ainda bem que reparei que ainda os tinha e pude tira-los. Ao chegar aonde ele estava, subi os degraus, dois a quatro, e entrei, de rompante, e dei com ele, metido num fato muito esquisito. Atirei-me para os seus braços e beijei-o como se me fosse embora outra vez logo a seguir sem dizer palavra, e a vida fosse um beijo. Ele beijou-me assim, também, e quando o beijo acabou, entontecido, ele exclamou com estranheza e alegria: - Morgana! Se não fosse o teu colar, não te reconhecia! Arranquei o colar, que se desfez em pedras livres, atirei-lhe à cara as poucas que me ficaram nas mãos e tingida de gelada amargura sussurrei: - Mataste-me? E morri, que eu nunca fui fingida!... Fata Morgana Avalon, 23 Outubro, 2003
Happy Endings
Onde tu vivias tinha que haver montanhas muito altas! Havia um Pastor e um Lobo. Tu eras o Rei e tinhas uma filha para casar. O teu castelo lá no alto ficava à distância de um salto de pastor. Mas o Pastor era coxo e não podia saltar! Tu não hesitaste em casar a Princesa com o Lobo. Fata Morgana Avalon, 20 Outubro, 2003
Navio do Ser
(dedicado a Antonin Artaud) A todas as madrugadas eu pedi a bruma. Do mar, apenas quis a espuma, porque o fundo negro era também já meu. Depois ante os teus olhos feitos de água cosi uma na outra e fiz um véu. Assim já ninguém vê a minha mágoa que a tenho bem escondida, assim tapada, atrás deste adereço que era teu. Fata Morgana Avalon, 19 Outubro, 2003
O Lago-limiar
(Dedicado a Salvador Dali) - Oh, porque estás aqui? E porque tens no olho a cornucópia? - Não sei. Mergulhei num lodo espesso de gorduras onde boiavam algumas criaturas e esta cravou-se-me num olho. - E doeu? - Fez muito sangue e o meu sangue que escorreu fez-se lodo também. - Não te ajudou alguém? - Vinda de ti me espanta essa pergunta, que te pareces com uma mulher que ali estava junto à margem, pendurada num ramo, entre a folhagem, que se ria como um gato e como um gato ela possuía uma cauda muito longa; e tu pareces-te com ela. - Como és tolo e como é curto o teu saber! Julgavas tu que eu, vendo-te morrer, ficava assim, dormindo entre a folhagem? Não vês que logo eu desceria à margem e a minha longa cauda te estenderia? Depois, quando a segurasses, rir-me-ia. - Com o teu riso de gato. Nesse preciso momento houve um forte ondular das águas pantanosas, movidas pelos enormes pés nela mergulhados e eles calaram-se medindo distâncias, apenas a umas escassas milimétricas-milhas do osso do tornozelo que, num gesto mais brusco, era capaz de os desfazer só pela deslocação do ar. Mas os pés novamente se aquietaram, sabe-se lá por quantos séculos-instantes e a conversa continuou como se nenhuma interrupção houvera. - Exactamente. Logo a seguir a ter-te bem seguro, num dar à cauda alucinado, de repente, com um riso gritado, agudo e intermitente, lançava-te no fundo destas águas mas providenciaria para que no teu outro único olho se cravasse uma qualquer ideia. Foi então que o voo inesperado do gigantesco peixe dourado interrompeu a conversa e terminou com ela. A mulher-gato e o seu companheiro calaram-se e ficaram para sempre a vê-lo evoluir majestosamente, direito ao infinito céu cor-de-laranja. Fata Morgana |
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