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Avalon, 28 Novembro, 2003
O Mês do Sagitário
Foi numa manhã gelada mas cheia de sol, depois de uma premonição. Nada me surpreendeu e simultaneamente fiquei perplexa porque aquilo estava mesmo a acontecer e era tão esperado quanto inesperado. Lembro-me de acordar na minha camisa de noite azul de flores miudinhas, de achar que tinha tempo, que o melhor era esperar, prolongar o acontecimento e não precipitar-me nele. Esperei. Quando isso deixou de me parecer uma boa ideia fui acordar os que, sem motivo especial que os despertasse, ainda descansavam, em seu pleno direito e aconchego. Despoletei um ataque de telefonemas, cheios de perguntas, de receios, de conselhos e alguma incredulidade, também. Mas sobretudo diziam-nos ''ainda é muito cedo!''... e ''não pode ser!''. Eu sabia que não era assim, que o melhor era apressarmo-nos, e a minha convicção era mais forte. Acabei no passeio, pronta, apesar das pernas totalmente expostas à friagem matinal, mas não tivera ''ginástica'' para vestir collants. Um rápido cumprimento à vizinha que me olhou verdadeiramente pasmada com a sua falta de perspicácia; a difícil entrada no carro e a condução aparentemente louca, pela faixa do bus e sempre a buzinar. Apesar do momento ter algo de aflitivo não fui rapariga para deixar de o gozar plenamente. Reparei nas caras dos condutores dos outros carros - então os taxistas!! - assim como na palidez do condutor do meu carro. Atrás de mim lembravam-me que ''devia respirar à cão''... e isso dava-me vontade de rir, apesar de já estar em semi-pânico. Chegados ao destino, quase vacilei perante a escadaria - como é que um sítio destes tem tantos degraus???, pensei. Mas subi-os, todinhos. Depois era preciso fazer um depósito em dinheiro antes de ficarem todos prontos a dar-me cuidado e atenção. A primeira pessoa que mos deu - e bem me lembro da confiança que nela depositei! - apareceu com um ar conhecedor e mandou-me ''ir fazendo muita força''. Aliviada por finalmente estar em mãos experientes, obedeci, vendo-a espreitar mais abaixo com um ar entendido. Mas a expressão modificou-se-lhe imediatamente, tornando-se aflita, e ela berrou-me: ''pare, pare!''. Foi quando percebi a razão da esfregona que a mulher tinha na mão e no meu atordoamento eu achara apenas um pormenor algo excêntrico. Finalmente, de luvas, bata, touca - enfim, um autêntico modelito hospitalar completo! - apareceu a minha salvadora, que com uma muito prosaica gilette, umas desagradáveis tesouradas, uma risada argentina a responder ao grito surpreendente que assegurava VIDA e o contentamento de muito rápida e facilmente contar ''mais um!'', mostrou que era ela a experiente e não a da esfregona. O médico não logrou chegar a tempo, pois ficou preso no trânsito - ora, e a faixa do bus?! Quando chegou foi para fazer uma espécie de cuidadoso bordado que não deixou vestígios. Quem é que diz que os homens não sabem bordar? Aquele sabia! Umas graças típicas da ocasião e pronto, a caminho do segundo andar, do nº26, na cama de rodas. Foi aí que ouvi o choro de bebé, que se extinguiu assim que se sentiu pousado no meu estômago. Não vou falar sobre os sentimentos seguintes à sucessão destes factos, são marcas que não revelo. As coisas físicas é que nessa altura não me pareciam íntimas, pois acabara por me habituar à necessidade de ser ''observada'', e a minha intimidade residia noutros planos. Mas não quero deixar de registar que a mulher da esfregona, a que se assustou, e cujo rosto já esqueci completamente, ficou sempre na minha lembrança. Já sei que aquilo podia ter sido mesmo perigoso... mas não teve consequências e ela ficou-me como alguém que tinha esse sonho bonito de ajudar a pôr crianças no mundo. Fata Morgana Avalon, 25 Novembro, 2003
Por uma questão de comodidade para quem tem seguido "As Três Leis da Robótica" (precedidas de "Artifícios Comuns" - uma espécie de Prólogo!), aqui ficam enunciadas em conjunto, as três leis que integram os programas de Inteligência Artificial:
1) Um Robot não pode causar dano a um ser humano nem deixar, por inacção, que um ser humano seja prejudicado. 2) Um Robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos excepto se essas ordens se opuserem à primeira lei. 3) Um Robot deve proteger a sua existência enquanto for possível, desde que essa protecção não se oponha à primeira e segunda leis. Estas três leis negligenciam a possibilidade de os Robots, no rigoroso cumprimento das ordens recebidas, ameaçarem inadvertidamente a humanidade, pois nenhuma delas prevê a protecção contra Robots bem intencionados. A comunidade científica já reconheceu a insuficiência das três leis, estando já a ser criado um novo ramo de IA, especialmente voltado para o controlo absoluto de todos os seus sistemas a fim de garantir a segurança da humanidade face a Robots cada vez mais sofisticados e dotados de IA. O exemplo do computador que enlouqueceu e pretendia exterminar a tripulação da nave espacial, apresentado por Stanley Kubrick em 2001 - Odisseia no Espaço, é justamente levado muito a sério pelos cientistas que se dedicam ao desenvolvimento de Robots inteligentes, pois representa uma admirável noção do que pode, de facto, acontecer, colocando Kubrick no papel de visionário. Fata Morgana
As Três Leis da Robótica
Parte III É claro que perdera todas as regalias e tinha que acabar de cumprir a pena na mais completa reclusão. Era uma sorte não ter sido considerada reincidente, pois nesse caso teria sido transferida para a Prisão Inteligente. Mas não fora possível apurar se eu tinha reincidido ou não. Graças à incongruência das informações dadas por Cyc - que não parara de fazer Sugestões totalmente fora de propósito - a Comissão colocou renitentemente a hipótese do Robot ter enlouquecido. Não estavam muito convencidos disso, pois não esqueciam que o Mordomo fora programado para mim - para me espiar, mas também para me proteger! Alguma coisa podia ter falhado no processo de programação e Cyc podia ter optado exclusivamente pelo segundo objectivo, ao ser confrontado com indicações contraditórias. Por um lado desconfiavam de mim, uma Robofóbica com alguns incidentes pós acusação; por outro havia o problema, ainda sem solução, das pequenas falhas apresentadas pelos Robots pré-programados, já que eram Enciclopédias de Senso Comum - e este, apesar de lógico, não é matemático. Pareceu-me que suspeitavam que Cyc tivera um gesto altruísta, mas não fazia ideia se uma tal coisa era possível. A Comissão decidiu levar Cyc para uma Enfermaria de Robots. Quando os vi sair com o pequeno andróide, senti imediatamente um inexplicável vazio. Corri até à porta da rua e gritei calorosamente - Até breve, Cyc! O Robot respondeu monocórdico como sempre - Sugestão: cantar. Alguns representantes da Comissão olharam-me com frieza, como se a culpada daquilo fosse eu. A maioria, porém, nem se voltou. A porta fechou-se com um suave clic. Só um incêndio ou qualquer outra calamidade - como uma visita da Comissão! - accionariam o seu mecanismo de abertura. Encolhi os ombros e fui para a cozinha, onde constatei, com algum alívio, que os Robodomésticos tinham tratado do meu jantar, como habitualmente. O menu era rigorosamente fiel ao que eu escrevera no Robobloco, nessa manhã. O ambiente estava aquecido, a música óptima, tudo como eu gostava. Mas faltava-me o ruído suave de Cyc a deslizar de um lado para o outro. E a voz com que inexpressivamente me comunicava - Alimentos estão a arrefecer. Sugestão: ligar Termobase. Bolas, algum daqueles Robodomésticos iria reparar se a minha comida arrefecia?! Jantei rapidamente e meti o prato, o copo e os talheres no Robokit de Limpeza. Sem ideias e sem Sugestões, decidi recolher-me. Ao fim de dois dias, cedi. Tinha saudades de Cyc, pronto. Mais valia aceitar o facto, talvez até fosse bom para a minha situação, pois não deve ser habitual as pessoas Robofóbicas sentirem a falta de um Robot, mesmo que fosse só de um. Peguei na Minitela e, pela primeira vez, premi aquele botão, estabelecendo contacto com a Comissão. - Bom dia. Quero notícias do meu Mordomo. - Quais os motivos da sua pretensão? - Ora? - tossi um pouco - Cyc faz-me falta! - Muito bem. Providenciaremos. Não disseram o que iam providenciar e cortaram a ligação sem nenhumas cerimónias. Lembrei-me de que nunca hesitavam em ser desagradáveis nem faziam questão em me poupar contrariedades, por isso convenci-me que o silêncio era uma aquiescência e Cyc ia voltar a qualquer momento. Só tinha que me entreter, para passar o tempo. Fui até à sala jogar uma partida de gamão com o Cyberjogador, que era imbatível, mas eu estava tão contente que não fazia a menor questão de ganhar. Aliás, perdi alegremente várias vezes seguidas! Duas horas mais tarde a porta da rua abriu-se e o Mordomo entrou. Não era Cyc!! Tinha um ar assustador, pois não era revestido, tinha visíveis vários pequenos motores, transístores, um sem número de feixes de cabos finíssimos e as duas pequenas câmaras de vídeo que eram os olhos, voltadas para mim, que estremeci. O Robot estendeu-me a mão - uma ferramenta horrenda munida de várias pinças - e só então notei que trazia um papel. Era-me dirigido. Desdobrei e li: "Lamentamos participar a auto-destruição de Cyc. Contra tudo aquilo para que foi programado, Cyc seleccionou a opção sem alegar qualquer motivo. No entanto, possuímos meios de verificar as bases de dados dos Robots, o que fizemos. Suspeitamos que Cyc se auto-destruiu ao abrigo da Lei nº3 da Robótica - Um Robot deve proteger a sua existência enquanto for possível, desde que essa protecção não se oponha à primeira e segunda Leis. Acompanhe Cog à nossa presença para novo julgamento. A Comissão" Larguei o papel e olhei para Cog - aquela espécie de horroroso esqueleto electrónico - com os olhos cheios de lágrimas. Bem, mais valia conter-me e segui-lo. E não dizer mais nada. O Híbrido estava à nossa espera, claro. Com ele sim, fartei-me de conversar, de repente também gostava do Híbrido, que me ia respondendo suavemente, a mim, que nunca explorara as suas possibilidades, que sempre fora pouco simpática, desagradável mesmo. Cog ia calado. Não apresentou uma única sugestão. Era intolerável! Quando chegamos, tinha a Comissão em peso - até os elementos menos importantes lá estavam! - à minha espera. Estavam todos anormalmente sorridentes e até afáveis, quando nos sentamos à volta de uma mesa, juntamente com as imagens holográficas dos estrangeiros da Comissão que ali não estavam. Assim que a reunião principiou, todos se voltaram para mim e disseram uma única e surpreendente palavra: - Parabéns! Levantei-me e pus-me a andar de um lado para o outro, sem compreender. - Parabéns? Mas parabéns porquê?! Por estar cheia de saudades do meu Robot? Por já nem saber o que sou? É por isso que me congratulam? Durante muito tempo o que eu mais desejava era que os Senhores me aprovassem... mas agora... agora o que eu mais queria era tornar a ver Cyc! Dito isto larguei mesmo a chorar. O ''feixe'' Cog, finalmente, mostrou que sabia falar. E... Oh!, eu conhecia tão bem aquela voz! - Sugestão: colocar revestimento a Cog. Já um novato qualquer da Comissão se apressava a trazer uma espécie de fato cor de carne, enquanto mais dois - dos tais, menos importantes - o ajudavam a colocar Cog dentro da sua carnagem e... era Cyc! Caí nos braços do humanóide! Sentia-me feliz. Alguma coisa semelhante a um DELETE tinha acontecido ao meu passado, a tudo o que fora importante para mim até ao momento em que dera comigo metida-numa-espécie-de-processo-de-Kafka. Mas... ouvindo a voz de Cyc, isso não me ralava minimamente. Cyc é que era importante, Cyc é que contava. Não era ele que sabia tudo sobre mim? Fata Morgana Avalon, 21 Novembro, 2003
Que dia! Apesar de não ser noite, não há luz. É como estar fechada numa caixa de papelão pintada com estas paisagens de dia bom só para dormir. Já bocejei até à inconveniência, tenho vontade de dizer a quem me fala que esteja calado, pois as vozes fazem-me tanto sono, hoje!
Vinha com pressa para escrever isto, pois não me ocorrem outras coisas, estou dormente. Mas entretanto escureceu, neste final de tarde Outonal. Daqui a pouco as horas vão concordar comigo e instituir a noite. E eu já me sinto muito mais acordada, passou-me todo aquele sono de dia feio. Acabou-se a semana de trabalho, é sexta-feira! E noite de Lua Nova (quase...). É muito raro não gostar de vinte e quatro horas seguidas. Fata Morgana Avalon, 20 Novembro, 2003
Prelúdio sem Fuga
Sei que uma qualquer causa muda encanta os silêncios. Talvez o gesto de cantar atraia os espectros Porque o canto acalma, como o pão. Vou soprando adágios lentos Com gestos de rosácea e risos, não lamentos. Não mudo de lugar. Sou uma árvore serena na ventania agreste. Fata Morgana
Meu caro amigo:
Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem. Agostinho da Silva Avalon, 19 Novembro, 2003
''Everything that irritates us about others can lead us to an understanding of ourselves''
Carl Jung
Clarissa
Cavo mosteiro profundo onde me exprimo em híbrida cantilena lábil. Qual noiva enviuvando desfio preces cruzando o sacro com o profano. Professei na maturada busca de clausura e de silêncios. Densas paredes envolvem-me os suspiros perco-me em sonhos, labirintos. Com lisa indiferença as mãos lívidas desenham arabescos ora me persignando ora traçando loucuras com riscos finíssimos de dedos afilados ora espetando o indicador na febre doida de apontar aquilo que persigo mas como quem foge. Ínfima me hás-de encontrar nas breves inscrições hieroglíficas de mausoléu antigo. Já sem esta prece nos dentes ainda sem uma solução. Fata Morgana Avalon, 18 Novembro, 2003
TODAY IN LITERATURE November 18th
Today's Quotation: "Laughter is the representative of tragedy when tragedy is away." Wyndham Lewis, who was born on this day in 1882 Avalon, 17 Novembro, 2003
As Três Leis da Robótica
Parte II Estava parada em frente ao rio, entretida a ver as luzes reflectidas na água e a gozar o ar fresco, bom de respirar. Atrás de mim ouvia vozes, uma mistura de vozes cantadas com outras monocórdicas, e perguntava-me se aquelas pessoas cantoras de palavras (nunca estivera tão consciente de como a linguagem humana é um canto!) estariam tão animadas como soavam. Não me voltei, deixando-me ficar pelas impressões auditivas. Trauteei baixinho, imitando as entoações de algumas frases que me chegavam. Sentia saudades do convívio com os humanos. Mas estava proibida de lhes falar. Já cumprira meia pena na Clínica Inteligente. Ainda faltava outro tanto... mas as coisas não iam mal, após aquele primeiro incidente aprendera a controlar melhor a minha embirração. Tirando o estar sempre a ir contra Cyc, o Mordomo, que aparecia solicitamente por todo o lado, provocando-me sobressaltos que eu tratava logo de disfarçar, já interagia melhor com os Robots. Cyc é um andróide pré-programado, evidentemente dotado de uma Enciclopédia de Senso Comum alojada num agregado de 239 microprocessadores que são o seu cérebro. Obviamente precisaria de muitos mais processadores para compreender uma preciosa instrução: pára quieto! Quem me dera poder dizer-lhe isso, mas se o fizesse seria Robofóbica reincidente. Achar Cyc maravilhoso e encantador era a única opinião considerada normal, uma opinião que eu tinha que fingir que era a minha. Suspirei. No meu bolso, um discreto mas perceptível tremor informou-me de que estava a ser contactada na Microtela. Lá estava o rosto inexpressivo de Cyc. Optei por não ligar o som, preferindo a mensagem escrita, que dizia - São horas de regressar a casa. Trânsito congestionado na via marginal. Sugestão: use o Híbrido em piloto automático. Dei um Ok cuja secura, por escrito, ele não podia sentir. Dirigi-me para o Híbrido, uma viatura ovóide que abriu a porta assim que cheguei. Instalei-me e fui saudada por um ?Boa Noite?, ao qual respondi enquanto ligava obedientemente o PA. A voz monótona do Robot informou: - Trânsito congestionado na via marginal - (Haha, como eles se repetem!) ? Sugestão: seguir via central, que está regular. Ignorando o habitual sentimento de ridículo que o falar com as máquinas me causava, balbuciei a minha resposta favorita ? Ok ? mas sem vestígios de secura, que na voz seria facilmente detectável pelos sensores. A viajem decorreu com uma suavidade imensa, quase sem paragens. Fui interpelada uma vez pelo Híbrido, que parecia achar-me uma má companhia (!) e o fez notar: ? Silencio demasiado prolongado. Sugestão: música. Com um sorriso forçado concordei: - Sugestão aceite. Escolhe uma da minha lista. Os dez minutos seguintes passaram ao som da Noite Transfigurada, do Schöenberg, que tive pena de interromper mas a viajem terminara. O Híbrido insensível, calando o Schöenberg, disse-me ?Boa Noite? e abriu a porta para eu sair. Entrei na minha casa provisória ? a Clínica!, tropeçando quase imediatamente em Cyc, que veio saudar-me e dizer-me que fosse à sala de estar, sem me fornecer motivo algum para isso, o que era muito estranho da parte de um Mordomo programado para ser gentil e eficiente. Vi-o deslizar à minha frente, na direcção da sala, parecendo entusiasmado... ou estaria eu a ficar doida? O Robot, entusiasmado?! Pois parecia mesmo, serpenteando pelo corredor fora. Que nervos! - Pára, Cyc. Não tenho pressa. Ele não parou, até me pareceu que começou a andar mais depressa. - Cyc, já disse que não quero ir a correr. - Sugestão: correr na mesma. ? respondeu a criatura supostamente submissa. E cada vez ia mais depressa, e eu também, para o acompanhar. Ora, isto não pode ser assim, pensei furibunda, desta vez eu tenho razão, ele não pode fazer isto! Cheia de certeza, não me contive e berrei: - PÁRA CYC!!!! Ele parou imediatamente, não para me obedecer mas porque estávamos à porta da Sala. Claro que me espatifei de encontro a ele e caímos os dois mas não me importei, de tão triunfante! - Então Cyc?! Não sabes a 2ª Lei da Robótica, a que diz que Um Robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos.... Fui interrompida por um coro de vozes que terminou a frase num desagradável tom de sentença: - ... excepto se essas ordens se opuserem à 1ª Lei. Olhei para eles, sem querer acreditar no que via: A COMISSÃO!! Era óbvio para todos que Cyc tentara que eu corresse para a sala a receber os visitantes-surpresa, antes que cometesse qualquer indelicadeza com ele ou com um Robodoméstico qualquer. Cyc fizera tudo para encurtar o meu tempo de convívio com os Robots enquanto a Comissão ali estivesse. A Comissão, que ali fora para aumentar um pouco as minhas regalias, premiando os meus sinais de cura da Robofobia. Sinais que, depois disto, lhes pareciam erróneos! O Mordomo mexeu-se um pouco sob o meu corpo, e mostrou monocordicamente a sua garra: - Grande contratempo. Sugestão: desmaiar. - Cala-te, Cyc... - sussurrei ? Mais vale enfrenta-los! Fata Morgana O mordomo Cyc é uma adaptação muito livre dos andróides Cyc (criado por Douglas Lenat) e Cog (criado por Rodney Brooks).
Um dia destes comentava com uma amiga minha, por email, que sou muito clássica nos meus gostos literários. E é verdade. Custa-me a literatura em que não há tipóias na baixa lisboeta nem chevrolets na estrada de Sintra; em que ninguém trava duelos por amor ou vai parar ao convento! Arrepelam-me as histórias em que as personagens padecem dos mesmos males urbanos, cinzentos, de que nós padecemos também - ou pelo menos conhecemos perfeitamente! Incomodam-me as alusões ao trânsito e aos engarrafamentos, acho inestética a menção aos táxis, aos autocarros. Gosto que os livros me arremessem violentamente aos sonhos, mesmo que sejam pesadelos, e não que me obriguem a conviver com personagens que sofrem das mesmas angústias que as pessoas com quem falo diariamente.
Devemos ler sempre o mesmo livro... Havia alguém que dizia isto, não me lembro quem era... Mas a ideia é fantástica, subversiva, mesmo! Que desafio imenso o de escrever, se as pessoas decidissem, todas elas, crescer e aprofundar os seus abismos interiores com a leitura de um único livro! Sei que não tenho razão em absoluto, que, mesmo relativamente, a percentagem em que estou certa tende a diminuir, pois é à luz do nosso tempo e por comparação e relatividade com as coisas nossas contemporâneas que aquilo que dizemos encontra sustentáculos. Não eram os românticos que padeciam do fascínio pelo passado distante?! Pronto, sou romântica, então! Devo, aliás, ser muito romântica mesmo! Mas tal não me impede de dizer que o Hotel Spleen, de Bernardo Pinto de Almeida, é um livro imperdível, um livro que eu adorava segurar entre as minhas mãos românticas daqui a uns cento e cinquenta anos! Fata Morgana Avalon, 16 Novembro, 2003
Um poema de que nunca me farto de um poeta de quem nunca me esqueço... Hoje passei um bom bocado no "Instituto Camões" a lê-lo.
Autopsicobiografia O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira,a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração Fernando Pessoa
Avalon, 15 Novembro, 2003
O Meu Primeiro Amor
Um dia condescendi e olhei-te demoradamente, sem que os meus olhos te fugissem como habitualmente, e por pura maldade, fugiam. Sorria e só podia ser um sorriso estranho, vingativo e condescendente, e também de orgulho ferido, enquanto pensava: vês como os meus olhos não são da cor dos dela? Deixa, que importância tem?... Malvado, que te desiludiste comigo nos olhos! Tu não sabias o que eu estava a pensar e eu não sabia ler na tua expressão o que tu estavas a sentir, mas não paravas de me fitar e parei eu. Fui para o outro extremo do salão, do outro lado de toda a gente que ali estava. Ainda vi, disfarçadamente, a tua expressão um pouco estúpida. Estúpida: era assim a tua expressão. Ri-me, para fazer de conta que não estava triste, e meti conversa com toda a gente, que era quem queria conversar comigo. Passou muito tempo. Muitos salões e muitas pessoas. E tu e eu sempre de olhar esquivo. Uma ou outra vez olhei-te por um momento, só para te provar ainda que não tinhas razão. O importante era que soubesses que estavas mesmo enganado e que ignorasses que eu detestava despertar em ti recordações de outra. Toda a paixão era oculta. Muitas vezes suspeitei de que fosse mútua. Outras, tive a certeza de que era só eu. Estava errada. No meu olhar buscavas, não as recordações ? mero pretexto usado! ? mas um refúgio que fosse só teu. Nele te perdeste completamente. Eu apenas me perdi pelos salões. Tu nunca mais descobriste a saída do labirinto escuríssimo em que eu te deixara mergulhar daquela vez. Eu acabei por me rir e conversar com toda a gente sem ser para fingir que não me sentia triste. Tu não tinhas ninguém porque não me tinhas a mim. Eu tinha toda a gente porque não queria ninguém. Toda a minha paixão fora semi-inventada. A tua não. Durante muito tempo, quando te oferecia o meu olhar com indiferença e naturalidade, via-te arder, sabia que te consumias demoradamente... até um dia, muito mais tarde, em que finalmente me esqueceste e eu não sei dizer quando foi. Depois disso, sempre que os nossos olhares se cruzaram sorrimos um ao outro com ternura. Tu não sabes é que fico a pensar com alguma pena: afinal não dei cabo de ti! Fata Morgana Avalon, 12 Novembro, 2003
Hoje não estarei em casa. Só muito tarde, já de noite, quando os relógios de sol estiverem todos avariados, e então não saberei as horas, pois só tenho cá desses relógios, os únicos que suporto.
(Maldito monitor, com o relogito no canto a estragar-me a poesia! Dá para tirar isto daqui?) Fata Morgana Avalon, 11 Novembro, 2003
Uma voz que me escapou!
No meio dos sons que surgem no silêncio não ouvi O Canto do Melro... mas depois segui-lhe o rasto e dei com o canto dele (dela!). Gosto imediatamente deste nome que nos deixa espaço para escolhermos se o canto será a voz a cantar ou o lugar onde fez o ninho. Ainda não descobri... mas tenciono. Obrigada G., por ser também uma Luz aqui, e até breve! Fata Morgana
As Três Leis da Robótica
Parte I Realmente acordei a horas e sem sobressalto. Bastou as persianas subirem lentamente, produzindo apenas um suave zumbido ? o primeiro som do dia que me lembro, e o sol, àquela hora ainda tímido, com uma luz simpática, acabou de me despertar. Deitei uma olhadela inquiridora ao Roblógio modernaço, na mesa-de-cabeceira, tão calado: ainda faltava um minuto! Sorri. Não precisara da música. O duche foi uma delícia, a agua começou a correr exactamente à temperatura que eu gostava no momento em que fechei as portas corrediças da banheira, e a ?Water Music? do Händel era uma escolha acertada, trazia um espírito positivo ideal para começar o dia. O lençol de banho estava ligeiramente aquecido, assim como o tapete no chão, produzindo um conforto físico inacreditável de tão bom, em vez daqueles arrepios do costume. Talvez, afinal, me curasse da Robofobia de que me acusara a Comissão. A minha sorte fora a pena suspensa ? eu não tinha antecedentes, ou em vez de estar na Clínica Inteligente em regime de externato, estaria na Prisão (Inteligente, claro) mais do que aferrolhada! Lá não sei como seria; aqui, para já, só maravilhas! Bem... não gostei da escovadela de dentes, confesso. Mas se me opusesse aquele solícito ?braço? articulado à esquerda do lavatório podia ser mal interpretada, e os dentes ficaram lavados, apesar dos restos de pasta, que fui comendo enquanto voltava para o quarto, para me vestir. Tinha dez minutos, o que significava que, na cozinha, os Robodomésticos já estavam a preparar o sumo de laranja, as torradas e o café. Liguei o simulador, que me deu monocordicamente o ?Bom Dia!? e, após uma rápida consulta mental ? para não parecer que estava à mercê dele, ora! - disse a primeira combinação que me veio à ideia: saia bordeaux + camisola preta. Da parede ao lado do guarda-fatos, surgiu um holograma com a minha imagem em 3D, envergando as ditas peças. Claro que me assustei... mas fiz de conta! Afinal, aquilo não deixava de ser fantástico!, apesar de muito enervante. Reparando melhor na figura descalça, acrescentei rapidamente: sapatos pretos. Foi-me apresentado um menu, com os meus vário pares de sapatos pretos. Escolhi, enquanto revirava os olhos. O holograma voltou, desta vez eu estava pronta e não era má escolha. Aprovei e a porta do armário abriu-se, para eu retirar as roupas e os sapatos. Minutos depois estava sentada na cozinha a saborear o pequeno-almoço e a ouvir as notícias, enquanto escrevia num Robobloco o menu do almoço: pargo assado com um pimento verde; batatas cozidas; gelado de baunilha; café. Soou um apito desagradável e apareceu no bloco um aviso a piscar, onde li, bastante consternada: excedeu a dose diária de cafeína; sugestão ? descafeinado. Fiquei zangada. Não bastava a solidão que todas aquelas coisas a aparecerem já feitas me causavam?! Ainda tinha que vir o esperto do bloco electrónico dizer quantos cafés me era permitido beber, como se eu tivesse doze anos! Isso não! Escrevi em maiúsculas ? IGNORAR MENSAGEM. Ele respondeu imediatamente ? ignorar pedido. Para meu horror, acrescentou... polidamente... sempre em minúsculas... ? ao abrigo da Lei nº1 da Robótica. Pronto, estava instalada a guerra! Gritara com um Robodoméstico que estava a cumprir aquilo que, para ele era a Lei nº 1: Um Robot não pode causar dano a um ser humano nem deixar, por inacção, que um ser humano seja prejudicado. Conseguira, logo no primeiro dia, obrigar um Robot a invocar uma Lei! Para cumprir um mes de pena com sucesso, era fundamental que no decorrer desse tempo não fossem jamais invocadas as três leis, as únicas três leis dos Robots! Fata Morgana A Lei nº 1 da Robótica, em itálico no texto, é retirada do livro Visões, de Michio Kaku.
Um Recado na Porta...
Hoje quando aqui cheguei não encontrei o botão para acender as luzes! O botão até estava cá mas, por mais que eu carregasse, lhe desse voltas, praguejasse e por todas as formas tentasse - até com bofetadas!, as luzes não acenderam, os "Comentários" tinham-se evaporado! Não havia vozes a ecoar... Ora, logo hoje, que vinha dizer à Naza como gostei de a ver aqui? Hoje, que tinha tempo para me sentar um pedaço a conversar com o Mario Ruoppolo - coisa mesmo especial porque ele tem a poética ilusão de ser prosaico, que nem o Neruda lhe tirou! Já cá não estavam, nem eles nem ninguém... Que dia mau para avarias! Mas, exactamente quando volto com este "bilhete", disposta a deixa-lo entalado na porta, bem visível por quem aqui se assome, vejo que tudo voltou ao normal. Ainda bem. O "bilhete"... pouso-o aqui mesmo, pronto. Fata Morgana Avalon, 09 Novembro, 2003
A minha primeira impressão no dia em que cá deixei os dois primeiros textos foi a de que me faltava alguma coisa. Sentia-me num estado semi-cataleptico, lia e relia as palavras várias vezes e elas pareciam-me tão vivas como sempre mas eu é que não estava tão viva quanto elas, faltava mesmo alguma coisa e era isso! Hoje sei que tinha mesmo razão. Sempre que abro o quadro dos ?Comentários? acontece-me sentir que carreguei num botão e acendi as luzes! É bom escutar as vozes que surgem no silêncio.
Obrigada Duende, por teres cá vindo resmungar que me desencontrei de ti, chegando tarde. Obrigada Linda Pinto, ao som de Gershwin a preocupar-se com os efeitos da minha correria e se eu tinha conseguido mesmo morrer ? sim, exactamente como contei! Obrigada Aguaceiro, por leres aqui como num livro de cabeceira, por todo o envolvimento que sinto nas tuas visitas em que me dizes exactamente isto: estou aqui tão perto! Obrigada Maré, sempre do lado de dentro, a colorir as paredes que ainda estão em branco com grafittis sonhadores que justificavam o ?Seguro? do recheio. Também a ti agradeço, Hotlulu, por trazeres a tua alegria contagiante! Não me deste nada cabo disto tudo (rio-me sempre que leio esse teu dito). Obrigada DinahW. por trazer ao Claro Obscuro as suas impressões sempre tão intensas e cheias da poesia de quem vive sem nenhum medo de ir ao âmago das questões (ou vir de lá?), e também pela Magnólia. E hoje, um Domingo muito parado neste sítio, fica a ecoar mesmo só este sentido OBRIGADA! Fata Morgana Avalon, 07 Novembro, 2003
Artifícios Comuns
Dedicado a Michio Kaku O senso comum é lógico mas não matematicamente. Este mero pequeníssimo facto tem dado cabo da paciência aos cientistas, sobretudo aos que se voltaram para o campo da Inteligência Artificial. Por isso as comunidades de investigadores de IA, após alguns resultados pouco animadores ? se bem que muito cómicos! ? nas suas tentativas de criar computadores e robots inteligentes, perceberam que, para estes serem capazes de agir inteligentemente, teriam que ser dotados de senso comum. Isto porque uma coisa óbvia pode não sê-lo segundo as leis da lógica. Um exemplo de erro cometido pelas máquinas: Cientista: Todos os patos voam. Charlie é um pato. Robot: Então Charlie voa. Cientista: Mas Charlie está morto. Robot: Então Charlie está morto e voa. Claro que eu diria logo ? Olha! O Robot será religioso?! À cautela, experimentava outra vez e claro que a resposta seria sempre a mesma, e então eu já podia sair para contar a toda a gente que os Robots podem possuir uma inteligência mística! É por estas e por outras que não sou cientista e virei para as Letras bem cedinho! A atitude correcta ? para um cientista, bem entendido, pois a minha não estava nada mal!, seria franzir as sobrancelhas com desagrado e equacionar imediatamente a reprogramação do Robot de forma a este ficar a saber que aquilo que está morto não se move, logo, não voa. Para isso... um nunca acabar de números e sinais rabiscados num caderninho de apontamentos (mais computadores e monitores a estragar a minha história bizarra não!). E depois, a experiência seguinte! E após ser informado pelo Cientista de que Charlie está morto... Robot: Então Charlie não voa. Hurra! Certo! Viram, o Robot já é inteligentíssimo! Mas os cientistas nunca estão contentes com nada. E este aproveita para torturar o Robot mais um bocado, resolve que está um dia mesmo bom para prosseguir as experiências com IA. E não se fica por ali! Com um ar até um pedaço sinistro (talvez estivesse num dia não), olha para o inexpressivo Robot e atira-lhe com esta (quase um Postulado de senso comum!): Cientista: Mas Charlie está morto na roda de uma avioneta em pleno voo. Robot: Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa. Que maçada, este Robot muda constantemente de opinião, pensa o cientista enquanto desencrava o coitado. Pois, novos rabiscos: é preciso dizer-lhe que a acção não parte daquilo que não mexe porque está morto e sim da avioneta, que é quem voa, não o pato! Ora, eu com as minhas Letras, digo daqui da minha ignorância dessas coisas, que concordo com os cientistas e o Robot precisa mesmo de um Senso Comum! Mas ele só entende coisas matematicamente lógicas, não há como meter-lhe dentro uma coisa que o não seja! Só será possível uma aproximação tosca se dotarem o Robot de uma verdadeira Enciclopédia de Senso Comum!!!! Ora!? E qual é a dificuldade?! A Internet não foi já inventada?? Pois dotem-no também dessa ilusão de que aqui se fica por tempos intermináveis a trabalhar, a comunicar! Ele que não seja um individualista e que venha aqui à Net pesquisar sobre os imensos sentidos das palavras e das frases! Afinal, se nós que somos pessoas e temos muito mais que fazer ? mesmo que não pareça e fique tudo às três pancadas -, estamos aqui, que venha o felizardo do Robot também! Que leia; que faça o seu surf, pois!; que vá perguntar nas Salas de Chat; que instale um Mensageiro e leia e crie Blogs! Foi nesta altura que A Comissão me chamou e dei comigo metida numa espécie de Processo de Kafka. Fata Morgana O primeiro diálogo entre o Cientista e o Robot é retirado do livro Visões de Michio Kaku. A expressão Enciclopédia de Senso Comum também. Avalon, 04 Novembro, 2003
Estive a hesitar. Tenho adiado a própria vontade de trazer aqui o meu auto-retrato poético. Claro que poético! Mas mesmo assim, acabo sempre por escolher outro poema, escrever um novo... ou ainda por me atirar a toda a brida pelo surrealismo dentro, e passo verdadeiros momentos numa outra dimensão a ler a maravilhosa literatura deles, mais a dos percursores e a dos proscritos pelo grupo, para escolher alguns desses textos e poemas que me fascinaram sempre e traze-los para aqui.
Pois hoje fica cá o auto-retrato. Meu. Poético, claro. E fica já, antes que volte a hesitar, pois gosto dele, quero-o aqui. E sempre me senti, é verdade, um novelo. Mulher-novelo enrolada joelho suave de vertente húmida. Compasso atrasado. O cheiro repentino no tapete de cabelos desenrolado estendido Quietude de sono. Imagens informes, sonoras Movimentos de descontraída preguiça criativa. Criatura de ovos doces redonda Com um único vértice no olho. O outro olho tem a mobilidade vagarosa de um biombo. O sorriso é um mastro e o motivo a meia haste. Desalinhados padrões de sugestão dispersa. Fata Morgana Avalon, 03 Novembro, 2003
A arte dos surrealistas.... Sobretudo fascinaram-me sempre os seus ideais (artísticos?...) de automatismo absoluto, de pensamento puro, de imaginação sem quaisquer limitações, subconsciente. Tentei mesmo manter uma postura surrealista, durante um tempo, mas... percebi que tinha que me despojar de quase tudo e não fui capaz. Nem disso nem de ser pura, absolutamente, verdadeiramente livre da güidança do meu pensamento consciente. Não pude abdicar de muitas coisas a que era suposto sentir uma autêntica alergia no caso de realmente ser surrealista - mas tinha-lhes um afecto verdadeiro; nem repudiar ferozmente toda e qualquer instituição. Por mais indomável que me sentisse, cedia perante certas coisas mas mantive-me pelo menos sincera, admitindo: não consegui. Ficou-me o poder ainda e sempre apreciar a arte surrealista... e a consolação de que eles também não conseguiram.
De todos os que fundaram, pertenceram ou apenas simpatizaram com o movimento surrealista, aquele que mais profundamente me tocou, a um nível como que de conhecimento pessoal!, foi sempre o Antonin Artaud. Precisamente o que foi expulso do grupo, por ter posto a nu o facto de os surrealistas se terem deixado adoptar por uma sociedade ultrachique que, passado o choque inicial, os achou deliciosos. E simultaneamente, se ligarem ao Comunismo ? seguramente uma instituição! E se o espírito, livre por definição, pode ser automaticamente revolucionário, já a militância não lhe é nada habitual. O Artaud era o mais surrealista de todos, afinal. O seu caminho foi sempre pela beira de todos os abismos e ele trilhou-o sem desvios. Nunca pagou com a menor cedência qualquer das suas manifestações artísticas: quem queria ter Artaud, só podia aceitá-lo por inteiro. Gosto de imaginar que assisti à conferência dele no Teatro Vieux Colombier, em 1947, ano em que eu estava longe de ser nascida. Sinto como se lá tivesse estado. E estive. Afinal, se era mesmo Artaud que tinha encontros-alucinação com tanta gente que nunca realmente viu... porque não posso eu também tê-lo encontrado uma só vez, talvez em sonhos, já que não tenho alucinações? Vieux Colombier (Dedicado a Antonin Artaud) Onde no tempo foi tua miséria que todo o sinistro naipe de paus me contou? Mas sobretudo porque foi que por caminhos demorados de mim te desencontrou? Maior é o sentimento em que te tenho E ao teu farrapo-corpo corroído é minha imensa dor não ter podido dar do meu sangue um longo e jacto banho. Ter-se assim o destino enganado Tu envolto em fogo eu em saudades Sempre os dois juntos num tempo desfasado. Fata Morgana
Excertos de As Excursões Psíquicas de Antonin Artaud, por Sarane Alexandrian
(Selecção e tradução de Aníbal Fernandes) Marselha é quem decide a chama para incendiar o futuro e singular espectáculo; mal ousará referir-se esta cidade toda complicada de labirintos, porto de mar, para citar outra, a mesma, ponto de partida de um apocalipse, o gelo de fogo e sangue que ele, Artaud, não deixará nunca - em 52 anos - de viver. (Nada me lembra nascer em Marselha na noite de 3 para 4 de Setembro de 1896, como diz o meu registo, mas lembra ter debatido lá um problema grave, num local que nem sei, localizado em qualquer parte entre o espaço e um mundo sinistro, fortuito, invisível, grotesco e pavorosamente inexistente.) Muito menino oferece-lhe, Marselha, a meningite; e esse período de gaguez, de horrível contracção da língua e nervos faciais que aos dezanove, já no ópio, é que se acalma; oferece-lhe a casa de repouso, a tropa que o dispensa - tão intrigada com o desenho de uma saúde esquisita, o sonambulismo que percorre, indisciplinado, as casernas. Depois, o Paris de 1920 é Max Jacob, é André Masson, é Michel Leiris, é Dubuffet. E a mulher do Doutor Toulouse, psiquiatra e pai, mais tarde diria impressionada: «Entendi logo que tinha à frente um ser excepcional ao máximo, da raça que tem dado Baudelaires, Nervais, ou Nitzsches.» Por isto, argúcia de mulher que ronda consultórios e em casa exerce poderes paralelos e satisfeitos, lhe coloca o Doutor Toulouse uns versos, uns artigos, o leva ao Tric-Trac du Ciel editado a expensas da Galeria Simon. A Gallimard de 1923 - com menos anos, a mesma que hoje tutela a sua obra exaustivamente completa - à mão de Jacques Riveère recusa-lhe poemas e dá-lhe conselhos de bom comportamento literário. Artaud pergunta: Estará assim tão confusa a substância do meu pensamento, e a sua beleza geral tão pouco activa pelas impurezas e as indecisões que a salpicam, ao ponto de não chegar literariamente a existir? O problema do meu pensamento é que se encontra, todo ele, em jogo. E confessa: Dou perfeitamente conta das paragens e dos solavancos dos meus poemas, que chegam a atingir a própria essência da inspiração e provêm da minha indelével impotência em concentrar-me sobre um objecto. Por fraqueza fisiológica, fraqueza que toca a própria substância daquilo que se chama, por convenção, alma e é emanação da nossa força nervosa coagulada em redor dos objectos. Do fracasso nasce a fulgurante ruptura. Artaud responde à Gallimard recusando tudo o que não seja o «completo abismo». Em 1925, o Pèse-Nerfs declara uma inabalável convicção. Já vos disse: nem obra, nem linguagem, nem palavra, nem espírito, nem nada. Nada além de um belo Pesa-Nervos. Espécie de incompreensível estação muito direita ao meio de tudo no espírito. E em 1929 a resposta de uma descida a pique na carne, chamada A Arte e a Morte. (O intervalo foi intenso de todas as revoltas. Artaud já deu o Não definitivo aos surrealistas quando se aproximaram, afoitos, do Partido Comunista - Que tenho eu a ver com todas as Revoluções do mundo, se sei permanecer eternamente doloroso e miserável no seio do meu próprio ossário? - já se entregou ao teatro com Charles Dullin e Pitoeff, já fundou o Teatro Alfred Jarry com Roger Vitrac e Robert Aron, já montou o Sonho de Strindberg que os surrealistas inviabilizaram com acções de sabotagem. Já foi Marat no Napoleão de Gance, o monge Nassieu na Paixão de Joana d'Arc de Dreyer, o secretário Mazaud em O Dinheiro de L'Herbier.) A poesia é, cada vez mais, uma multiplicidade triturada que se desfaz em labaredas. E a poesia, que traz consigo a ordem, primeiro ressuscita a desordem, a desordem de aparências inflamadas; faz o entrechoque das aparências e converge-as num só ponto: fogo, acto, sangue, grito. Artaud afirma isto no Heliogábalo ou O Anarquista Coroado, última obra que escreve antes de partir para o México, onde vai participar com índios no rito do peyotl, passar através de homens e espaço para chegar, numa convulsão, a si próprio. Quando regressa traz sinais muito visíveis de uma «loucura», ou seja, virtude inflamada de oposição, de negação, do martírio; um apostolado de radical mudança. O episódio de Dublin, onde aparece a restituir o bordão de St. Patrick aos irlandeses, onde se envolve em tumultos de rua, devolve-o compulsivamente à França. Artaud vai ser encarcerado 9 anos em manicómios para sair, em 1946, e viver mais dois de raiva contra Deus, contra o sexo, contra o seu corpo roído por um cancro no ânus, contra a sociedade que o suicidou. Da sua missão de escritor, resta-lhe uma impotência. É preciso acabar, de igual forma, com o Espírito e a literatura. Digo que o Espírito e a vida comunicam em todos os graus. Eu queria fazer um livro que incomodasse os homens, que fosse como uma porta aberta capaz de os levar lá, onde não teriam nunca consentido ir, uma porta que chegasse pura e simplesmente a comunicar com a realidade. De seus livros antigos resta-lhe uma estupefacção: Na altura pareceram-me cheios de fendas, falhas, chatezas e como que recheados de espontâneos abortos. Vinte anos depois deixam-me estupefacto, não de êxito que me diga respeito, mas que respeita ao inexprimível. Um sobressalto de lucidez fá-lo escrever ainda Van Gogh o Suicidado da Sociedade, Artaud le Mômo, Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus. A 4 de Março de 1948 é encontrado morto, sentado ao pé da cama. E horas mais tarde dá-se o roubo de todos os seus livros, das suas notas, dos seus manuscritos. Um ano antes, Artaud vencera resistências de um corpo que se desfazia para o derradeiro espectáculo de si no Teatro do Vieux Colombier, numa conferência de «violências extremas», como disse Breton, «que espumavam uma completa orgia verbal e manifestavam uma tensão interna da mais impressionante espécie, que nada poderá impedir de nos deixar perturbados durante muito tempo.» André Gide também lá esteve e não pôde deixar de senti-lo como um instante desses, capazes de marcar com singular incómodo a vida de quem o sofreu. Num texto escrito mais tarde, homenageou-o. E que bem, pensando sobretudo que é Gide, pensando sobretudo que é Artaud. Homenageou-o assim: «No fundo da sala - nessa velha sala querida do Vieux Colombier que dava para cerca de trezentas pessoas - meia dúzia de folgazões tinha aparecido à sessão na esperança de umas graçolas. Oh! Nem duvido que fossem apertados - pelos amigos fervorosos de Antonin Artaud distribuídos na sala, onde já não havia lugar nenhum. Mas não: depois de uma tentativa tímida de fazer chinfrim, mais razão não houve para se intervir... Assistimos todos a um prodigioso espectáculo que era: Artaud a triunfar, a inspirar respeito à galhofa, à estupidez insolente; a dominar... Eu conhecia há muito Artaud, e a sua miséria, e o seu génio. Pois mais admirável do que nunca ele me pareceu. Do ser material já só restava o expressivo. A grande e desengonçada silhueta, o rosto consumido numa labareda interior, aquelas mãos de quem se afoga estendidas para um auxílio indefinível, ou torcidas numa angústia, ou envolvendo as mais das vezes estreitamente a sua face, a ocultá-la e logo depois a mostrá-la, tudo nos falava da miséria humana abominável, uma espécie de maldição implacável que apenas encontrava fuga num lirismo furioso e só capaz de atingir o público por cintilações imundas, imprecatórias e cheias de blasfémia. Também ali se encontrava, claro está, o maravilhoso actor que o artista poderia vir a ser; no entanto, o que ele ofertava ao público era a sua própria personagem, e fazia-o com uma espécie de cabotinismo sem vergonha onde uma autenticidade total transparecia. A razão deitava-se a bater em retirada; e não só a sua como da assembleia inteira, de nós todos, espectadores daquele drama atroz, reduzidos ao papel de malévolos comparsas, meias-tigelas, casca-grossas. Oh! Nem uma só pessoa, na assistência, tinha vontade de rir. Forçava-nos a entrar no seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que nós admitíamos e para ele, mais puro, era inadmissível. Nós ainda não nascemos. Ainda não estamos no mundo. O mundo ainda não existe. As coisas ainda não estão feitas Nem foi encontrada a razão de ser... Ao sair da memorável sessão, o público calou-se. Podia dizer-se o quê? Acabávamos de ver um homem miserável atrozmente sacudido por um deus, como se estivesse no limiar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila onde não se tolera nada profano, onde era exposto um vates como num Carmelo poético, oferecido a implacáveis iras, aos abutres devoradores, ao mesmo tempo sacerdote e vítima... Sentia-se vergonha do regresso a um lugar no mundo, onde o conforto se constrói de compromissos. - André Gide.» |
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