Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 22 Janeiro, 2004

 

 
Confissões - Lado A (o mais garrido) - I

Eu sou tremendamente distraída. E pouco fisionomista. Ambas as coisas me fazem cometer algumas gaffes, mas não é assim tão mau, principalmente porque tenho pessoas amigas que partilham comigo esses segredos, tentando proteger-me - quando podem! E quando acontecem coisas impossíveis de evitar, rimo-nos juntos. Com as restantes pessoas, passo umas vergonhas, paciência! Mas compensa, para ambas as partes. Elas riem-se à minha custa, o que lhes há-de saber bem; e eu posso fingir que não percebi nada e ficar com um confortável estatuto de maluca. E toda a gente adora malucos, é sabido. Não há quem não se pele por ter um maluquinho de estimação!
Ora eu, que de maluca tenho muito pouco, já ganhei uns simpatizantes à custa das minhas distracções. Por vezes, após a simpatia inicial assim tão facilmente conseguida... estabelecem-se verdadeiros laços. É uma questão de, sabendo que sou distraída, reverter as situações com inteligência.

Mas, voltando um bocadinho atrás, bom, é estar com os meus amigos, aqueles que já sabem que uma porção de coisas me vão passar completamente ao lado. Os tais que tentam proteger-me, tantas vezes em vão. Os que, nas vergonhas, partilham comigo o riso.

O meu Cavaleiro tem o hábito de me segredar rapidamente os nomes daquelas pessoas que, apesar de conhecidas, não são nossas ''habituais'', ou que encontramos apenas num determinado local e surgem inesperadamente fora desse contexto. Algumas já vêm de longe a sorrir rasgadamente na nossa direcção e a gesticular. Ele sabe que na maioria das vezes, não tenho ideia de quem sejam! Mas, após a rápida informação que ele tão gentilmente me dá, posso tornar-me oportuna e loquaz, pois às vezes são pessoas com quem simpatizo imenso apesar de ver pouco.
Um dia, em que fomos ao teatro, eu decidi que ia impressiona-lo e lembrar-me dos conhecidos ao primeiro relance.
No final do espectáculo, em plena enchente de saída, vi um rapaz olhar para mim e sorrir-me abertamente. Fiquei alarmada? sabia lá quem era?! Não tinha ideia. Mas não querendo pôr de lado os meus planos, fartei-me de olhar? esforçando-me por identificar aquele rosto, cada vez mais sorridente (nem notei o facto de ele sorrir mas não cumprimentar, não vir ter connosco). O meu Cavaleiro esperava pacientemente que o caudal humano diminuísse, para depois sairmos sem apertos, e não dera por nada. Pensei comigo: ''melhor ainda! Hoje o distraído és tu!''? e avancei direitinha ao alvo, agora muitíssimo sorridente. Preguei-lhe dois beijinhos e disse-lhe um bem disposto ''Olá!''. Claro que não o chamei pelo nome, pois não me lembrava quem era - contava descobrir isso durante a conversa. Não houve conversa. O modo como as coisas aconteceram pareceu desconcertar o criaturo. Depois de um esquisito ''Olá'', ele olhou para trás de mim? Pareceu encavacado. Voltei-me e vi que o meu Cavaleiro não se aproximava, olhando-nos com um ar intrigado, e uma certa consternação. Tremendamente confusa, dei meia volta e voltei para junto dele, sem mais uma palavra.
- Quem é aquele?! ? perguntei ansiosamente. Ele desatou a rir, percebendo.
- Não sei. E acho que tu não o conheces de lado nenhum.
- Mas ele riu-se para mim! ? defendi-me, veemente, pois queria mesmo ter feito uma daquelas coisas tão simples, mas que me escapam.
- E depois?! Estava-se a fazer ao piso! Não se pode dizer que tenha ficado a ver navios!...

© Fata Morgana
 

 
Os Meus Castelos
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares