Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 14 Janeiro, 2004

 

 
A História que se segue vem na continuação de "As Três Leis da Robótica", lá mais em baixo...

O Cata-Amores (*)

As coisas que me aconteceram desde que deixei de ser robofóbica! Além da grande volta que a minha vida deu, para melhor, claro - acabaram-se definitivamente as surpresas, todos os dias são iguaizinhos e corre tudo exactamente conforme o planeado - conheci um melhoramento significativo na minha personalidade: tornei-me menos tímida. Para ser absolutamente sincera, perdi mesmo toda e qualquer timidez. Não é maravilhoso?
Bem, os Robots têm esse efeito em nós, pois tudo o que fazemos fica... perfeito! No trabalho já não há um único PC estúpido, e tenho os meus Roboauxiliares, que emendam as minhas gaffes, tratam da minha agenda, dão-me todas as informações de que preciso antes, durante e depois das reuniões - dantes tão stressantes. Até cancelam compromissos se o meu Mood-Bra denunciar um batimento cardíaco menos regular lá para o final do dia. Depois, mal saio do escritório, tenho o simpatiquíssimo Híbrido já parado mesmo em frente à porta do edifício. Com os seus sensores bem alerta a todos os meus indícios, assim que me instalo, é uma questão de segundos até ele escolher uma música que me parece invariavelmente ser a ideal, e iniciar uma conversa adequada ao meu humor, enquanto me conduz a casa, geralmente em piloto-automático. Em casa tenho o Cyc?
Claro que há um flirt entre nós, o meu Mordomo e eu. Oh, ele abre-me a porta e é tão gentil, diz-me como estou tão bonita, acompanha-me à sala e responde a tudo o que lhe digo com sugestões cada vez mais adoráveis. Tem todos os Robodomésticos mais do que orientados para responderem a qualquer capricho meu. Pergunto-me o que aconteceria se lhe pedisse um yogurte de bacalhau ou um sumo de costeleta de carneiro?? Só não o faço porque acho que ele era bem capaz de os desencantar e depois, claro que eu não ia comer nem beber semelhantes porcarias, e ele percebia a experiência e melindrava-se. Não quero tal coisa. Gosto de lhe dizer que ele é giro e ouvir a resposta, esperada:
- Sugestão: Cyc acompanha jantar de Morgana.
Claro que acompanha! Não que coma, pois não tem como, mas senta-se à mesa comigo, costumamos jantar juntos. As nossas conversas são cada vez mais interessantes, é muito bom ter um companheiro que é expert na minha pessoa. A minha auto-estima está ao rubro. A minha timidez... congelou.
O problema - claro que há um problema! ? é que ele foi programado para mim. Se Cyc me diz que estou bonita é porque não detecta nada desalinhado e, sabendo que me agrada um piropo, di-lo e pronto. Já experimentei entrar despenteada e com tinta numa manga e ele dessa vez não se mostrou galanteador, pois é sua obrigação avisar-me de qualquer desalinho prejudicial à minha imagem, seja eu bonita ou feia. Quando me lembro destas coisas, não consigo deixar de olhar para o solícito humanóide com algum azedume.
E decidi trai-lo! Ora o boneco do Cyc trazer-me pelo beicinho?! E retribuir-me com programação? Eu resolvi que N-Ã-O? e pronto, comprei um Cata-Amores!

É um pequeníssimo Robot de pulso, com um visor parecido com um rádio. Tem uma memória imensa e já vem programado de acordo com o formulário que preenchemos na encomenda: conhece todos os nossos gostos e todas as coisas que detestamos. Excelente!
Mandei Cyc descobrir uma festa em que a música e as bebidas fossem ao meu gosto. Sem demasiadas pessoas, com uma afluência média dentro da minha faixa etária. Deixei para o fim a recomendação mais importante:
- Cyc, tem que haver vários rapazes sem companhia. Não me enfies em festas de casalinhos!
- Sugestão: esperar por Sábado - Cyc parecia um tanto ansioso. A Sugestão era muito estúpida, pois aos Sábados todas as festas estão apinhadas. Mas apenas lhe respondi, peremptória:
- Não, quero hoje. Agora.
Cyc consultou a sua base de dados, ligando-se a outros Mordomos. Num instante encontrou uma festa que reunia as condições por mim escolhidas. Não parecia animado ao comunicar a morada, mas obedeceu, com toda a eficiência.
Fez-me imensa falta uma grande discussão? e lá tive que ir à festa.

Assim que cheguei à Festa percebi que o meu look ousadíssimo estava exactamente como eu gostava: quase excessivo! Sorri, contentíssima com o quase.
O Mordomo da festa ? não muito diferente do meu Cyc, informou-me sobre a localização do bar. Agradeci e fui buscar uma bebida. No caminho deitei uma rápida olhadela ao Cata-Amores - as pequenas luzes indicadoras de actividade piscavam alegremente, sinal de que ele estava a entrar em contacto com os outros aparelhos similares. Claro que ninguém é tão tolo que vá a uma festa sem um Cata-Amores!
Foi quando o Robodoméstico misturador de bebidas começou a preparar o meu Daiquiri, que ouvi uma voz quase dentro da minha orelha:
- Boa noite!
Voltei-me e vi o rapaz que me cumprimentava. Caramba! Era alto, magro - mas não lingrinhas, de ombros largos e com uns olhos verdes muito grandes. Não tinha lábios finos e a voz era grave. Pensei para comigo que é uma grande tolice ser-se Robofóbico. E sorri-lhe, como resposta. Ele pegou no Daiquiri que o Robodoméstico me estendia e entregou-mo. O meu - ?Obrigada?, aliás quase murmurado, dirigia-se mais ao Cata-Amores, graças ao qual ia dançar, conversar...
De repente veio-me à ideia que já sabia tudo sobre aquele rapaz. Era previsível que falariamos de cinema, depois de música e que concordaríamos em tudo. Não era previsível... era certo. Afinal, era exactamente para isso que servia um Cata-Amores, para detectar pessoas com maneiras de pensar e gostos idênticos, experiências semelhantes ou complementares e objectivos para a vida praticamente iguais. Pessoas que, para nós, fossem quase tão previsíveis como... Robots. Senti-me horrorizada.
E também muito mais interessada no que teria para me dizer o rapaz simpático, gorducho e desafectado que, um pouco adiante, esperava pela sua bebida. Esqueci-me que não estava só e fui ter com ele, que nem deu por mim. O meu Cata-Amores não dava nenhum sinal. Desliguei-o. Tirei-o do pulso e atirei-o ao chão - finalmente o gorducho reparou que eu ali estava! Larguei uma risada alegre e pedi-lhe:
- Não se importa de esborrachar esta coisa?
- Oh, mas isto é o seu...
- ... isso é um Robot. E eu sou Robofóbica. - disse-lhe isto muito, muito baixinho. Ele primeiro pareceu admiradíssimo. Depois sorriu e mostrou-me o pulso: tinha um Cata-Amores. Desligado.
Saímos da festa juntos. Não sabíamos nada um do outro. Olhando para ele, eu ia pensando. Ele não quisera saber das sugestões do Robot. Teria o meu look quase excessivo metido ideias na cabeça dele? Dei mais uma risada alegre. O imprevisto era uma coisa tão fresca! Como pudera eu viver sem isso? (Ah! mas ainda era capaz de dar uma bela bofetada!)

© Fata Morgana

(*) Ver "futurologia" in Exame Informática nº103 de Janeiro 2004 na qual o aparelho nTag surge descrito num pequeno artigo intitulado "O Caçador de Amigos"
 

 
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