Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 25 Abril, 2004

 

 
Pensando bem, já aqui tenho contado algumas coisas muito minhas. Desde situações absurdas causadas pelas minhas distracções, fobias, ou pequenas manias; a outras coisas muito mais sérias, como a minha história com o ballet, a mania do Alaska, aquele Mês do Sagitário, ou o que cá deixei, daquela vez, Para Ele.
O Claro Obscuro tornou-se num espelho meu ? expressão comum mas verdadeira, apropriada. Aqui, escrevo a minha poesia e os meus textos, guardo imagens que gosto, cito os que moram no meu coração, faço homenagens. Mas não pareceria meu se não contasse coisas mais pessoais, coisas que me acontecem, coisas que faço. Ou fiz!...
Eu tenho uma predilecção, acho que óbvia, pelas coisas do amor. Pois bem: sempre fui assim. Aqui vai mais uma Confissão, uma das minhas favoritas!



Confissões V ? O Meu Vizinho

Eu tinha sete anos. O vizinho tinha dezanove. Era visita assídua de casa do meu avô, onde eu morava provisoriamente, com a minha mãe e o meu irmão. Ele passava muitos serões a estudar com o meu tio solteiro, andavam ambos em Economia.
Esse meu tio proporcionou-me ? sem o saber, porque eu escondia-me debaixo de uma mesa de camilha ? o contacto com as conversas de rapazes. Umas que metiam alguma maroteira, muita estroinice e copos; outras sobre raparigas de quem eles gostavam, quais eram mais giras, mais inteligentes, quais as que lhes dariam troco... e viravam do avesso as várias possibilidades... aquilo era giro! Eu, podendo, escapulia-me para o meu canto e lá ficava, muito calada a ouvir. Uma vez o vizinho contou que andava aflito por causa de uma rapariga.
Acontece que eu tinha um fraquito (não muito extraordinário, mas tinha) por esse amigo do meu tio, que via constantemente. Ficava vexadíssima quando ele passava em frente à nossa casa e me apanhava em flagrante no jardim toda esmurrada ou em cima de alguma árvore, pois esforçava-me imenso por ter um ar adulto à frente dele. E ele achava-me piada, brincava comigo, perguntava-me se eu tinha namorado... e meteu-se-me na cabeça que ele andava naquelas dúvidas por minha causa!
Um dia percebi que não, que não era nada por minha causa, e sim de uma tal JD, sirigaita dos seus dezasseis anos, que andava a dar-lhe cabo do juízo. Primeiro ligava-lhe... depois, afinal, já não... Enfim, ela não era tola nenhuma e tinha-o pelo beicinho!
Fiquei fula. Não com ele, coitadinho, ele era infeliz!! A megera era ela, que até andava no meu colégio, por isso eu havia de resolver aquele caso, provar que ela era uma mazona!
Vai daí, no Colégio, comecei a andar muito pelos corredores ?das grandes?. Sempre que via a JD, toda armada em esperta no meio das amigas, lá ia eu para bem pertinho. Elas deviam achar estranho estar sempre a encontrar-me, um nico de gente ali tão longe do recreio de nicos, mas eu não me ralava, eu tinha motivos muito válidos, ora! Aquilo era uma missão!
Quem não entendia nada era a minha mãe, a quem eu comecei a pedir roupas como as da JD ? lembro-me como se estivesse a vê-la, no seu kit de camisola preta de gola alta, saia de ganga e botas pretas, de tacão, claro! Mas é que, de repente, pareceu-me muito mais lógico que o meu vizinho ? por quem eu então já tinha, não um fraquito, mas a real paixão assolapada ? quando me visse vestida de grande era capaz de se esquecer daquela chatona. A minha mãe julgava que aquilo me tinha ocorrido assim sem mais nem menos, troçou-me amenamente e mandou-me ter juízo, explicou-me que não podia andar de tacões com sete anos!
Os meus planos sofreram um golpe feio. Mas eu decidi contorná-lo. Já que não podia vestir-me como convinha para conquistar o meu rapaz, conquistá-lo-ia sem me mostrar. Um dia tudo se esclareceria e eu, entretanto, escusava de desistir tão novinha de andar pelos telhados, de jogar ao elástico e de cantar a plenos pulmões em cima da mesa de ping-pong que ocupava metade da garagem ao fundo do quintal (era o meu palco e ouvia-se de certeza uma gritaria infernal nas casas mais próximas). E também escusava de andar atrás da chata da JD (ela era gira, mas eu não queria admitir tal coisa!).
Espertíssima, comecei a escrever-lhe umas cartas supostamente em tom interessante e misterioso. Eram declarações de amor. Num estilo desajeitadíssimo, dizia-lhe como o achava tão bonito que mal podia respirar quando o via... mas também que não estava segura dos meus sentimentos, embora gostasse muito dele.
Fartei-me de meter cartas com xaropadas destas na caixa do correio do vizinho de dezanove anos! Cartas escritas com caligrafia de escolinha, as letras eram umas bolas enormes, tudo um bocado esborratado mas num papel muito bonito, que eu palmava à minha mãe.
Eu com o vizinho já não estou nada preocupada: mas as cartas, quem me dera, hoje, lê-las!

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