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Avalon, 24 Maio, 2004
Confissões VI - O Meu Amigo Náufrago
Nesse tempo eu vivia em Lisboa. Estava habituada a brincar todos os dias no relvado em frente ao meu prédio (morava em Alvalade); mas também me levavam muitas vezes até ao jardim da Alameda - eu adorava a fonte, parecia-me umas cataratas; ou ao aeroporto, ver os aviões! Por ali perto e durante a semana, os passeios mais frequentes eram esses, mas claro que também me fartei de brincar no jardim do Campo Grande, em Belém, nos Jerónimos, e também fui vezes sem conta a Sintra, a Queluz, à Boca do Inferno, ao Guincho, enfim os meus pais davam muitos passeios comigo. Visitávamos os monumentos, os arredores, talvez porque não era a cidade deles, faziam verdadeiro turismo - e eu com eles, claro. Habituei-me a monumentos grandes, espaços largos, luminosos, jardins em que me podia fazer de perdida - tinha essa mania! Como tenho metade da família em Lisboa e outra metade no Porto, muitas vezes passava aqui umas temporadas, em casa dos meus avós, e também não faltavam os passeios. Gosto muito das duas cidades. Mas apercebi-me logo de que os monumentos e jardins do Porto eram mais sorumbáticos, sombrios... ou mais selvagens - como os jardins entre a Foz e o Castelo do Queijo. É aí o lugar desta história. O meu pai costumava aproveitar as horas do almoço para ir até à Foz, comigo. Estacionava o carro perto do Lawn Tennis Club e fazíamos os dois uma andada - até ao Castelo do Queijo.
O Homem do Leme Duas das muitas praias da zona da Foz - agrestes, possuidoras de um encanto intimista e de um não-sei-quê que ronda o trágico, são a Praia do Homem do Leme e a Praia do Molhe. Ambas têm estátuas nos jardins que precedem o areal. A primeira tem um pedestal facílimo de trepar (era importantíssimo para mim este detalhe), sobre o qual um homem de bronze, envergando um largo impermeável, chapéu e galochas, maneja um leme, com o olhar perdido na distância. Nota-se perfeitamente que não navega águas calmas mas nunca me pareceu alarmado, o barco vai estável e o homem bem agasalhado. O segundo, o pescador do Molhe, preocupava-me muito. Afligia-me, para ser mais precisa! Igualmente em bronze, é um homem com a roupa esfarrapada, descalço, o cabelo e a barba revoltos, segurando uma bóia salva-vidas com uma expressão esgazeada nos olhos, na boca aberta, tudo evidenciando o esforço... talvez de se equilibrar no seu barco partido ao meio! O conjunto - homem e barco - estão sobre um pedestal de difícil acesso para uma miúda (ainda que esmurrada e habituada como eu era). Nunca fui de muitas perguntas. Olhava para o homem e ficava cheia de pena dele. Além de que não via a sua situação melhorar nem um pouco. Estava sempre esfarrapado num barquito partido. Costumava pedir para interrompermos ali as caminhadas, com o pretexto de que queria brincar. Na realidade não brincava, ficava ali a olhar para a estátua. O meu pai fartava-se, comprava um jornal numa tabacaria do outro passeio da avenida, e sentava-se num banco do jardim. Isto rapidamente se transformou num hábito: a primeira parte do passeio acabava ali, e dali voltávamos para trás até ao carro. Eu acabei por descobrir como escalar aquele pedestal, naturalmente.
O Náufrago do Molhe Quando vi o pescador bem de perto, o coração apertou-se-me, senti que tinha que o ajudar de algum modo e prometi-lho, logo ali! Mas tinha a consciência de que era uma miúda e não podia fazer grande coisa... Ao mesmo tempo sabia que o meu pai e os adultos em geral nunca compreenderiam. Podia vê-los e ouvi-los, num despropositado afago a despentearem-me o cabelo, proferindo a réplica típica de quem não sabe - ''Morgana, é apenas uma estátua''. Para mim não era, nenhuma estátua podia estar tão desesperada e ainda por cima sozinha! Por isso tratei eu de fazer o que podia. A partir desse dia, nunca ia brincar para o jardim do Molhe desprevenida. Metia sempre uns Sugus na boca (aberta, como já disse) do pescador e deixava-lhe uma moeda de 10 tostões numa das mãos. Todos os meus planos para surripiar um cobertor à minha avó falharam. Mas ainda hoje, sempre que ali passo, tenho vontade de agasalhar o pescador do Molhe. © Fata Morgana |
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