| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 11 Maio, 2004
![]() La Cauallera Ela tem uma personalidade forte. Fortíssima. A razão persegue-a - quase não a larga! -, enche-a de ideias lógicas, de motivos plausíveis e de bofetadas. Mas ela tem, sobretudo, um coração enorme e é atrás dele que vai trilhar caminhos serpenteantes, matizados de sonhos de sóis, caminhos intensos, floridos até ao extremo dos tons identificáveis a olho. Lá vai ela galopando livremente a descobri-los. Indomável e destemida, sonhadora, vai direita à tempestade já quase cor de anil que se aproxima vertiginosamente, com nuvens altas de um amarelo místico, e outras cinzentas, a roçarem-lhe os momentâneos sonhos. Ela sabe atravessar a tempestade, é uma grande amazona - gosto mais de dizer cavaleira, por causa de uma canção renascentista que ela me lembra e se chama La Cauallera - e atravessa-a como tem que ser, fustigada pela chuva e pelo vento gelado, rasgando as sombras quase negras. Os relâmpagos encantam-na como luzes de outro mundo, os trovões atemorizam o cavalo, que resfolega nervosamente, quase a espantar-se à desfilada, não fossem as mãos que o guiam à rédea curta, as pernas firmes a apertar-lhe o lombo, nas ajudas. Aquilo acalma-o, ele conhece bem a cavaleira, sabe que ela não se mete em caminhos sem saída. Atravessada a tempestade, o cavalo rapidamente se aquieta. Num passo calmo, sabe que agora é ele que guia a cavaleira e não o contrário. Ela fica sempre abalada, depois. Quando desmonta e o escova, enche-o de carinhos e de pedaços de cenouras. Ele de vez em quando puxa-lhe a camisola com os dentes, a espicaçá-la - ''agora não fiques tu assustada, já passou!''. Ela sorri, um sorriso amigo mas que não lhe chega aos olhos muito sérios, e dá-lhe palmadinhas no pescoço. Não está assustada, só precisa de fazer uma avaliação, agora puramente racional, de tudo aquilo por que acabou de passar. Repensar tudo o que ficou pelo caminho, descobrir onde se fortaleceu e em que se tornou mais frágil. Localizar as feridas. Pensa que talvez nunca mais se sujeite - nem ao animal, que adora - a cavalgar no meio dos trovões. Quando entra em casa tem aquela expressão de nunca mais que lhe enche o rosto de um encanto inacessível. © Fata Morgana (A cavaleira nasceu n' O Mês do Sagitário) |
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