Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 03 Maio, 2004

 

 



Ontem à noite adoeci. Não é grave, mas tenho que estar deitada, neste dia agreste e ventoso de Primavera. Está a saber-me bem, o que é muito raro. Geralmente, adoecer enche-me de tédio, e hoje não, hoje lembrei-me deste poema do Sá-Carneiro, que queria meter-se na cama, aconchegar-se como se num abrigo protector da vida, que o horrorizava. Achei que talvez fosse uma boa ideia lê-lo - que coisa romanesca! Esgueirei-me da cama em busca do livro e não pude deixar de me rir, pois não sinto isto, evidentemente. Sinto é uma admiração reverente pelo poeta - Sá-Carneiro era grande! É grande, que os poetas não morrem.
Esgueirei-me um bocadinho mais... até aqui. Onde o deixo.
Se cá não estou, ouvem-se sempre as vozes dos que eu amo.


Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro



Até amanhã... Volto para a cama a aninhar-me, bem quentinha.

Fata Morgana

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