Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 08 Junho, 2004

 

 
Confissões VI I - A Mais Recente Distracção

Era Sábado. Estava marcada para as 17h uma audição de violino na Escola, mas às 15h já teríamos que estar lá, para o ensaio geral dos miúdos com a pianista. O meu Cavaleiro é o regente da cadeira de Violino, para ele as audições representam invariavelmente uma grande dose de nervos. Eu acompanho-o sempre, não que o acalme - eu também fico nervosa! - mas porque, tal como ele, conheço aquelas crianças e adolescentes há quase dez anos, ambos gostamos imenso deles e juntos torcemos por eles. Além disso, desde há três anos, também sou professora lá na Escola, dou aulas de História da Música. No final deste ano lectivo estarão formadas as minhas primeiras turmas (claro que estou orgulhosa) - e gosto de andar por lá, sinto que faço parte do todo.

Infelizmente a véspera fora de noitada, como de costume, e 15h parecia-nos quase de madrugada. Engoli o pequeno-almoço - às duas e meia da tarde! - tomei um duche morno, vesti-me e considerei-me pronta para sair - o meu Cavaleiro, rápido como o vento, já estava no carro, à porta de casa.
No momento em que ia fechar a porta, lembrei-me que não tinha passado creme no corpo e eu adoro sentir a pele macia e hidratada! O meu é frutado, também me agrada imenso o cheiro fresco... mas não podia espalhá-lo assim, vestida. Já sei! - pensei - Se levar o creme comigo, posso pô-lo ao menos nas pernas e nos braços, dentro do carro! Claro que não tinha meias e usava um top de alças, estava muito calor. Voltei a entrar em casa, peguei no frasco, saí, fechei a porta e meti-me no carro, toda contente - apesar do sono.
Pousei o creme na divisória da porta, pus o cinto de segurança e levantei a saia, o que causou um sobressalto no condutor. Porém, apesar de seguir interessadamente as minhas evoluções, ficou calado, dividindo a atenção entre a condução e os meus gestos.
Eu, muito segura de mim, tinha agarrado outra vez no frasco, abrira a tampa e despejara uma boa porção para a palma da mão em concha. Ele não se conteve:
- Que é isso, Morgana? Que vais fazer?
- É o meu creme, não tive tempo de o pôr. Mas não te preocupes que não se vê nada, as pernas ficam muito abaixo do nível da janela!

Ele ficou muito pouco convencido (não é de outro planeta, sabe que existem autocarros e peões...) mas como parecia ser uma operação rápida, aquietou-se. Eu é que não! De repente reparei que o líquido na minha mão não tinha a consistência do creme, nem a cor. Era transparente esbranquiçado... era... era champô!! Era o raio do champô, da mesma marca que o creme e com frasco da mesma cor apenas um tom acima - facílimo de confundir, portanto.
- Catano!!!! - exclamei, consternada só de imaginar as pernas todas pegajosas - Ainda bem que não cheguei a pôr isto!!! Desolada, tornei a baixar a saia.
Ele nem pareceu assim muito surpreendido... apenas me perguntou, obviamente a engolir umas boas gargalhadas:
- Mas afinal isso não era exactamente creme para pôr nas pernas?!
- Isto é champô... enganei-me. Agora vou ter que ir até à Escola com esta papa viscosa na mão - comuniquei de orelha murcha. Ele riu-se gostosamente. Eu também costumo rir-me destes disparates que me acontecem mas, talvez por ser de madrugada, fiquei irritada com ele.

Parámos num semáforo, eu de mão em concha, muito aborrecida, com o champô a começar a secar e a colar - o que era especialmente incomodativo por causa do calor -, e ele divertidíssimo.
Olhei para o carro ao lado, cujo condutor não desfitava o sinal, esperando que o verde caísse... e tive uma ideia brilhante para uma pequena vendetta inofensiva. Ergui mais a mão cheia de champô e, em tom levemente ingénuo e intrigado, comentei, rindo para dentro:

- Olha, que estranho... O condutor deste carro aqui ao lado está a olhar imenso para nós - especialmente para ti! - com um ar mesmo invejoso, porque será?!


Estas são imagens da nossa chegada à Escola. Não sei como os paparazzi descobriram a coisa!

© Fata Morgana

A história é verdadeira, como todas as restantes Confissões, à excepção dos paparazzi!
 

 
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