Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 22 Junho, 2004

 

 
Os Primos de Charlie

Estava completamente esquecida daqueles problemas graves que tive há uns meses, quando me acusaram de ser robofóbica (*). Foram uns tempos bizarros, em que não pude estar com humanos e fui forçada a conviver com Robots, para me curar da fobia - que nos nossos dias tem estatuto de doença grave do foro psicológico. Vivi numa Clínica Inteligente, cercada de Inteligência Artificial, onde era constantemente testada e vigiada. Eventualmente fiquei curada - foi esse o diagnóstico d'A Comissão, em que não acreditei, mas com que me apressei em concordar.
Voltei para minha casa, acompanhada de vários Robots, que me ofereceram. Entre eles, o Mordomo, Cyc; o Híbrido - um misto de automóvel, aparelhagem de alta-fidelidade e amigo de infância; e todos os objectos inteligentes de uso pessoal, pois, tendo sido pré-programados para mim, não serviriam para mais ninguém. Claro que meti o Híbrido na garagem - coberto com um oleado resistente - e os restantes na arrecadação do prédio. Suspirei de alívio e não voltei a pensar no assunto.

Descia calmamente a Avenida da Boavista, a caminho do parque da cidade. Estava um dia lindo, cheio de sol, mesmo bom para me sentar um bocadinho na beira de um dos vários lagos a brincar com os patos - levava-lhes pão! Os patos fazem uma grande festa quando lhes levam de lanchar, são muito engraçados a nadar direitos aos nacos que apanham a correr e mastigam muito depressa, encantados.
Assim que cheguei ao lago grande, sentei-me na margem, ao sol - é tão bom, o sol! - e abri o saco de pão. Eles perceberam logo e nadaram todos para perto de mim, grasnando, contentíssimos.



Não me fiz rogada e dei início ao festim. Comecei a atirar pedaços de pão em várias direcções, para a todos calhar pelo menos uma porção. Tudo corria alegremente, tanto para os patos como para mim, a animação era enorme.
De repente aconteceu uma coisa inesperada. No meu bolso algo produziu uma vibração forte, bem perceptível. Aquilo... bem, parecia ser a terrível Minitela, que costumava espiar-me constantemente e dar-me instruções várias - ordens, isso sim! - durante as minhas saídas da tal Clínica Inteligente, permitidas pelo regime de semi-clausura. Cyc, o Mordomo (acabei por me apaixonar por ele!), controlava todos os meus passos através da Minitela, que eu tinha de levar comigo.
A medo, enfiei a mão no bolso e... não restavam dúvidas, espantosamente, ali estava o temido objecto quadrado. Peguei-lhe, estupefacta, sem perceber como fora aquilo ali parar e sem nenhuma pista sobre que tipo de mensagem teria para mim. A Minitela estava em modo silencioso, não havia imagem alguma no ecrã, apenas uma mensagem escrita, que me deixou estarrecida: ''Afaste-se imediatamente desses patos. São parentes de Charlie, o pato que serviu para as experiências daquele cientista sádico, às quais VOCÊ achou tanta graça''.
- Oh! - exclamei (aquilo tem um micro e milhares de sensores, basta pegar-lhe e sabe se estou nervosa) - mas o pato Charlie, nunca existiu! Era apenas um nome, uma história que o Cientista contava ao Robot para o testar e programar a IA!
Claro que a Minitela, detectou o meu pasmo genuíno mas não se deixou convencer. Emitiu um estranho apito e, de repente, todos os patos voaram ou nadaram freneticamente para longe de mim.



Assim que os patos ficaram a salvo, a Minitela voltou à carga, e eu soube que estava novamente metida em sarilhos:
''Isso não interessa. Para estes patos, Charlie existiu e era um pato igual a eles, o que faz de si uma pessoa malvada, junto de quem nenhum pato sente segurança. Aliás, temos perguntas para si.''
Esperei pelas perguntas. Sabia por experiência que com aquelas traquitanas ninguém leva a melhor.
''Porque não veio no Híbrido?''
- Porque está um dia lindo para andar a pé!
''Porque não trouxe o seu Cata-Amores?''
- Porque não vim em busca de um rendez-vous!
''Porque não tem calçados os seus sapatos Olivetti?''
- Porque hoje é um dia de lazer, não de pesquisa ou de estudo, vim apenas passear e não vou trocar informações com os outros passeantes (ao dizer isto, reparei que todos usavam os feiosos sapatos inteligentes).
''Mas não pode negar que está sol. Onde estão os seu Óculos-Cybernéticos?''
-Bem, trouxe os normais, pois também não estou ligada a ninguém a quem queira passar imagens dos patos, que aliás, já se foram todos embora, graças aquela sua apitadela amistosa!
Após uns breves momentos, surgiu a frase que eu temia:
''Encontrámos motivos para suspeitar de Robofobia reincidente. Queira visitar imediatamente A Comissão''

Pronto, lá estava eu, uma vez mais, metida-numa-espécie-de-processo-de-Kafka e, tal como da primeira vez, tudo por causa do estúpido Charlie - um pato que nunca existiu!

© Fata Morgana

(*) Esta história vem no seguimento de outras.
Para perceber algumas alusões, convém ler: Artifícios Comuns - Dedicado a Michio Kaku (arquivos de Novembro)
Quem quiser ler todos os "episódios", pode continuar pela seguinte ordem: As Três Leis da Robótica I; II e III (arquivos de Novembro); Coisas que Pensam (arquivos de Dezembro) e O Cata-Amores (arquivos de Janeiro).
PS. Todos os patos desta história são obviamente verdadeiros, mas existem Patos-Robots!!!

 

 
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