Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 23 Julho, 2004

 

 
Contos Da Floresta



(Acontecimentos mentalmente registados pela
Fata Morgana
mais tarde escritos pelo seu próprio punho e ocultos na
Arca do Esquecimento Eterno)

I
Merlin

Todas as pessoas um dia se perdem na floresta. E o sentimento comum a todas elas é o receio, para não dizer medo! Olhando para as árvores, lindíssimas, de troncos rugosos e copas altaneiras a buscar o sol bem lá no cimo; escutando os milhares de sons que conheço, um a um, mas sei que são um verdadeiro mistério para os ouvidos de um forasteiro; vislumbrando o distante céu azul, muito para lá do tecto de folhagem rica em verdes, de onde por vezes as nuvens cinzentas deixam cair grossas pingas de chuva que raramente chega a molhar este chão vivo... posso perceber que para muitos este lugar ideal pareça inóspito, implacável no fluir da seiva indiferente ao susto de quem quer que seja.
Para mim a floresta é o lar. Não temo a densidade do arvoredo muitas vezes revestido de trepadeiras várias, algumas com espinhos mas também há a doçura de diferentes qualidades de frutos silvestres. Conheço muito bem a voz dos pássaros e sei qual a envergadura de cada um, mesmo sem olhar, apenas pelo som do bater das asas. Cada uma das pequenas criaturas debaixo da caruma, do musgo, da folhagem e das pedras que recobrem o chão me presta o tributo da sua utilidade, que sei muito bem qual é. Até a inclinação das línguas de luz que chegam até ao solo húmido me vão dizendo a quantas ando e me avisam da hora de recolher. E jamais a floresta me faltou com um confortável lugar para eu poisar a cabeça e descansar, ao abrigo das feras - que também não temo! Oferece-me sempre um leito seco e perfumado onde nenhum temporal me toca, apenas se derenrola como um espectáculo para melhor adormecer, se a noite não for serena. Serena não quer dizer silenciosa, jamais! Os sons da floresta são a música que embala o sono verdadeiramente revigorante e em cada som habita um dos incontáveis sonhos muito peculiares, típicos de quem aqui vive e dorme. Quem nunca assim passou uma noite ao relento, em toda a magnitude desta expressão quase sempre utilizada com um sentido negativo, talvez nunca tenha tido um verdadeiro sonho. O relento na floresta nada tem de semelhante ao relento sórdido de Londinium, por exemplo.
Mas, no que a mim diz respeito, que cada um se deixe ficar onde bem lhe aprouver. Cada mortal pertence ao lugar onde melhor se encontra a si mesmo. E eu não tenho dificuldade em chegar à fala com quem o queira fazer comigo, ainda que tenha de ir longe! Eu sou Morgana das Fadas, para mim não existe perto nem longe, nem mistérios de tempo e lugar, apenas dificuldades que não me intimidam e menos ainda impedem de ir onde me levem os meus desejos. Estes nem sempre são muito compreensíveis para as almas mais piedosas, que me julgam má. Mas no fim as coisas todas ficam nos seus lugares e todas as artes que eu tenha usado acabam por se revelar positivas e não apenas para mim.



Somente devo acautelar-me com Merlin, o Eremita da Floresta. Ele, tal como eu, pertence ao Povo das Fadas e chama sua casa a este lugar. Grande Bardo e Druida, os seus poderes são superiores aos meus. Uma coisa, porém, mo tem tornado absolutamente inofensivo: a sua alma pertence-me. Eu sou as trevas que moram dentro dele, um canto de breu no seu ser de luz.
Merlin nunca se atreveu a medir forças comigo porque me teme, bem nas profundezas do seu desejo, que o torna tão cego! E não sabe que poderia vencer-me mas teria que, primeiro, vencer-se a si próprio... e ele é muitíssimo poderoso!

© Fata Morgana
 

 
O Meu Castelo
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares