| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 21 Julho, 2004
- Morgana?...
- ... - Morgana, não faças de conta que não me ouves! - ... - Morgana!! Estou mesmo aqui ao lado, é impossível que não me ouças a chamar-te! - Desculpa. Não ouvi mesmo. O que me queres? - Não é que eu o queira... mas há uma coisa que tens de fazer. Para o teu bem. - ... sim?... E o que é? - Tens de ir ao círculo de pedras e mostrar aos Druídas as tuas capacidades para eles saberem quais são, como são, quanto valem. - Oh... mas são coisas que valem pelo silêncio que trazem em si e de repente se quebra! Por acontecerem a propósito! Não têm um valor exacto. Para uns será nada; para outros... tudo! Tu bem sabes que é assim. - Pois sei, mas os Druídas também o sabem e tem de ser. São ciclos que se cumprem e se fecham. Outros, novos, que se abrem. Pertences a este meio por tua vontade, tens de cumprir os rituais. - ... - Então?... - Estava a pensar na melhor forma de quebrar o silêncio... Em como fazer com que venha a propósito... Em renascer para uma nova realidade, fortalecida e... - Calculei que detestarias a ideia e também que não lhe resistirias. Lá nos veremos. - Merlin! Tu sabes qual é a minha força... Merlin sorriu. Seguiu caminho. Morgana ergueu-se, estendeu os braços para o sol e os pássaros cantaram e voaram em seu redor, girando vertiginosamente, até ela fazer aquele som sibilante que os deixava na dúvida sobre se ela era uma mulher ou uma serpente. Também não estavam certos se uma serpente, naquele caso, seria má. Depois voaram para longe, livres, e Morgana - carregada das vozes das aves, mas não ao ponto de as ter deixado, a elas, mudas -, caminhou pela floresta até chegar a lua. Dormiu ao relento: dava-lhe sempre forças e redobrados poderes. Faria tudo o que lhe reforçasse os dons até ao dia de se apresentar no círculo de pedras. Na antevéspera desse dia, chegou um inesperado emissário. Atabalhoado, encarou Morgana e disse-lhe: «não encerraremos este ciclo». Foi um momento em que o mundo e todas as coisas que nele habitam ficaram estáticas, suspensas. Morgana nada replicou, de tão furiosa. Suspirou lentamente... sentindo o seu próprio pulsar. E decidiu procurar Merlin, que interpelou com incredulidade e veemência, em voz muito baixa (ele sabia que ela estava zangada): - Não há como parar algo que foi começado e prosseguiu com tanta energia que desencadeou uma coisa nova! É preciso criar o ciclo correspondente. - Estás certa. Esperaremos sete dias. O mundo e as coisas que nele habitam recomeçaram a mexer-se, primeiro a custo, depois depressa demais e, finalmente, como de costume. Morgana poderia esperar mais sete dias. Já quase gostava de dormir ao relento e sentir o silêncio carregado de presenças no coração da floresta. © Fata Morgana PS. É exactamente isso: o meu exame foi adiado para o dia 27! O Júri não poderia estar presente na data inicialmente prevista. |
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