| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 07 Julho, 2004
O Júri!
Para os meus alunos, o ano lectivo acabou. Há gente com sorte! Para mim - que também sou aluna - ainda não. Resta-me como enorme preocupação o meu próprio exame de canto. Parece pouco?... Ah! mas não é! Exame de canto é a coisa mais petrificante que eu já experimentei e as pedras... não cantam! Por isso é lógico que devia ser completamente PROIBIDO fazer exames de canto. Para mim o acto de cantar é estritamente íntimo: ou estou absolutamente só; ou tenho um público e é como se estivesse só, pois o público com a sua personalidade colectiva, feita das energias de todos os presentes transforma-se numa massa una e indivisível, tão viva que a sinto em mim!, e a quem me dirijo com a devoção com que escreveria uma carta de amor - tendo em profunda conta quão precioso é quem está do outro lado, entregando-me expressivamente e com abandono, mas sempre à conquista, sempre a cativar... e nunca perdendo de vista que é a minha assinatura que encerra a dádiva. Eu.
Ora, no exame não estarei só de nenhuma destas maneiras. Estará lá o júri, que nem por sombras tem uma personalidade una, pois no fim vai opinar; não escuta transportado pelo que ouve, mas à luz de umas quantas coisas muito racionais; não sente o que vai ouvindo, espera pelo que quer ouvir. Ainda por cima os seus elementos (que raramente são bonitos!) estarão muito visíveis, à luz crua do néon que vem do tecto, não baterão palmas nem lhes farei vénias de agradecimento. Em vez das palmas, retribuirão com intrigantes trejeitos de lábios e sobrancelhas, algumas trocas de olhares - entre eles! - e eu não saberei o que querem dizer com tais coisas. Isto vai-me tornar excessivamente consciente deles e pouco de mim. Bolas!, que energia me há-de restar ao vê-los tomar notas durante o meu canto?! É uma coisa tão anti natural! Ora!... vai ter que ficar como sair!!! Claro que já fiz outros exames de canto. Mas, ai!... nunca consigo ganhar experiência nisso. Nada retenho de mim, só vejo o Júri! O poema que se segue é sobre cantar a muitas, muitas léguas de distância de um júri... Porgi amor qualche ristoro (*) Digo as palavras e sinto-as no coração a crescer Vem um fogo devorar-me o peito sim, fica-me o peito a arder Como quem morre de uma sede misteriosa bebo cada palavra dolorosa com avidez e prazer Como se fosse realmente minha a dor cantada sem doer © Fata Morgana
(*) Título de uma das árias da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart, que é tão linda e eu vou cantar (suspiro?) |
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