| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 28 Julho, 2004
Rudolf Nureyev Oh Rudi...
Hoje lembrei-me de ti. Foi por causa de uma coisa que tu fizeste no Kirov, quando lá prestaste provas para ingressares na Escola de Dança como aluno de Pushkin. Lembras-te da tua determinação?... Passavas os dias a dançar. Dentro de casa, no pátio, nas ruas - espantavas as pessoas que contigo se cruzavam e nada sabiam de ti nem que eras tão especial... a menos que fitassem a tua expressão extraordinária, a vivacidade do teu olhar em conjugação com o sorriso inexplicavelmente triste - algo que nunca foste! Mas, ainda assim, mesmo os que te fitavam e percebiam que estavam perante uma pessoa intensa, não eram capazes de perceber porquê. Hoje eu fiz exame de canto perante o júri, tal como tu no Kirov! E, como tu então fizeste com a dança, também não parei de cantar nos dias que precederam este, estive constantemente a preparar-me, a articular pequenas frases do reportório, a arriscar vocalizos no carro ou a pé pela rua, a caminho de alguns passeios no parque - ar livre e espaço fazem bem aos pulmões e à voz! Confesso-te que me estou a sorrir enquanto escrevo, imaginando as tuas sobrancelhas arqueadas e o ataque de zombaria prestes a explodir numa resposta que eu adoraria receber... Mas não, nem por sombras me estou a comparar contigo! Baixa as sobrancelhas - olha que tu és vaidoso e isso faz rugas, muitas rugas! -, guarda o tom trocista para quando eu estiver realmente a merecer e ouve-me, que isto é um elogio para ti. Tu adoras elogios. Também os detestas. Saberei fazê-lo, prometo... Foste tu o meu modelo, o meu exemplo, na preparação deste exame. Inspirei-me em ti, na tua entrega, no estares-te nas tintas para a opinião de quem te via aos saltos. Também me entreguei completamente e consegui uma relativa ausência de preocupação de que me tomassem por louca, mesmo quando fui apanhada em flagrante por umas pessoas que não tinha visto, sentada no banco de jardim, completamente sozinha, a articular a arrevesada frase "und warum du er wachen kannst am Morgen mit Lachen?" (bem sabes que não é fácil cantar alemão!!!)..... mas o pior foi a repetição "lachen.... laaaaa-chen!.... LAAAA-CHEN..."
Riram-se, claro, mas tudo valeu a pena e eu quero agradecer-te por fazeres parte do meu mundo, és absolutamente inspirador, mesmo quando não se trata de dançar. Acima de tudo, Rudi, obrigada por teres dançado durante o meu exame - julgavas que não te tinha visto? Ter-me-ía lembrado de ti na mesma, por causa da tua audição do Kirov... mas vi-te. Sei muito bem o que ensinaste aos teus alunos, em Paris: "quer se trate de uma famosa e prestigiada sala de espectáculos ou de um pequeno teatro humilde, num subúrbio obscuro, um palco pisa-se sempre com devoção e o compromisso é sempre o mesmo - fazer o melhor que sabemos". Por isso, te estou especialmente grata, porque o teu palco de hoje foi a minha escola completamente desconhecida fora do meu país, e tu dançaste-te completo, ao som da minha voz, que respondeu aos teus movimentos tão bonitos, num pas-de-deux que me valeu uma excelente nota! Beijos, Rudi... Morgana PS. Reparaste que algumas das pessoas que assistiram à minha prova estavam especialmente sorridentes e calorosas? Gosto tanto delas que as deixei ler esta carta...
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