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Avalon, 12 Setembro, 2004
Confissões IX - Excesso de Optimismo
Saí de casa muito bem disposta. A manhã ia a meio, e um sol quente, já primaveril, espalhava-se acariciante nos meus ombros, descendo pelos braços e pelo decote. Toda eu me arrepiava se algum prédio mais alto desenhava sombras no passeio e estugava o passo, até voltar a sentir o calor envolvente que o Rei Sol proporcionava tão precocemente - ainda era Fevereiro! Fui a pé até ao Parque da Cidade e sentei-me junto ao lago. Os patos nadavam por ali e, como de costume, vieram cumprimentar-me, mas assim que perceberam que dessa vez não lhes levava migalhas de pão, deixaram de me ligar, retomando as suas cómicas rotas. Gosto imenso de patos, são uns animais adoráveis, rouquinhos e engraçados, com gestos rápidos e atitudes alegremente frenéticas. Dá ideia de que acham que a vida é bestial! E eu partilho com eles essa opinião, de uma forma menos ligeira, por acaso até muito pensada... mas partilho. Um ou dois cisnes - majestosas criaturas, tão bonitas - cortavam elegantemente as águas do lago, devagar, quase com pompa, contrastando com os gansos desastrados, que grasnavam como que a desculparem-se por não serem tão engraçados como os patos nem tão belos como os cisnes. Mas são tão simpáticos, os gansos! E têm um ar amigo. Mas... eu quero é contar o que vem a seguir, já que não vim escrever sobre a fauna dos lagos do Parque da Cidade, por isso, adiante! Deixei-me ali estar um bom bocado, gozando o sol, o canto dos pássaros e a companhia dos citados bichos, depois levantei-me e segui caminho. Ia almoçar a casa da minha mãe. Tinha que apanhar um autocarro na paragem exactamente em frente ao Parque, coisa que fiz. Assim que entrei, percebi como fora incauta querendo viver ao primeiro raio de sol a Primavera! ![]() Lá dentro parecia um frigorífico! O condutor devia ir ainda mais adiantado do que eu nas estações do ano... A julgar pelo disparate em que tinha o ar condicionado, já estávamos num Verão tórrido. O meu top levezinho de alças largas parecia ideal para apanhar ali o resfriado que a minha óbvia pele de galinha já ameaçava - até na cabeça, sentia os cabelos eriçarem-se mas isso, felizmente, não era visível. Reparei que toda a gente usava camisolas ou casacos ligeiros. Também não pude deixar de notar que todos me olhavam com evidente surpresa, uns com ares simpáticos e penalizados, outros a gozar descaradamente.
Mais ou menos a meio do percurso, numa das paragens, entrou um senhor que... bem... não sei como amaciar isto: era um tolinho, pronto! Já estava a rir-se sozinho na paragem, entrou sempre a rir... e a rir se sentou à minha frente, virado para mim (eu tinha escolhido um lugar daqueles conhecidos como bancos dos palermas - nome aliás muito bem posto, pois as quatro pessoas que os ocupam geralmente não se conhecem de lado nenhum e vão sempre a olhar umas para as outras com ar de palermas). O tal senhor, assim que se sentou, deixou de rir e observou-me demoradamente, muito sério - mesmo assim tinha ar de tolinho. Desviei o olhar, observando a rua cheia de sol, desejando em vão senti-lo, como quando estivera no Parque, mas claro que continuava transida de frio e ainda um bocado acabrunhada com a inspecção a que me via sujeita. De repente, com uma gargalhadinha, o senhor tolinho emitiu finalmente o veredicto, exclamando numa voz esganiçada que soou perfeitamente audível de um extremo ao outro do autocarro: - Ai que cachopa tão fresquinha!!!! - (ele disse catchopa!) A risota foi geral, até eu me ri. E não só enfiei o barrete como pensei que a tolice não é isenta de juízo... O pior foi que aquilo passou, as pessoas retomaram as conversas, as que iam sós remeteram-se novamente para os seus pensamentos mas eu, pelo contrário, evoluí desastrosamente para um tremendo ataque de riso! Claro que fiz tudo para disfarçar, mas sentia muito bem o rosto contorcido numa expressão esquisitíssima e fiquei afogueada, com lágrimas a cair pela cara abaixo - é terrível engolir gargalhadas! A única pessoa que me acompanhava abertamente e com a maior descontracção (entre piscadelas de olho muito repenicadas!!!)... era o meu tolinho! © Fata Morgana |
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