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Avalon, 20 Setembro, 2004
Confissões X - Mon petit-ami
Foi no Verão em que completei seis anos que me apaixonei pela primeira vez por um rapazito próximo de mim e de carne e osso. Antes dele, as minhas inclinações tinham como alvo cantores, actores bonitos e também rapazes imaginários ou então verdadeiros mas com vinte anos (geralmente eram amigos do meu tio). Claro que o meu grande amor era o Nureyev, e continuou a ser, mas sofreu ali a primeira de algumas traições inevitáveis. Ainda morávamos em Lisboa e costumávamos passar as férias no Norte, por causa dos meus avós maternos e paternos, que viviam no Porto e os meus pais aproveitavam esses dias livres para os verem mais amiúde. Alugávamos uma casa em Miramar onde fazíamos praia. Ao fim de semana os meus avós vinham juntar-se-nos e era uma alegria. O meu irmão só tinha três anos e ainda dormia de dia, por isso íamos para a praia de manhã cedinho, regressávamos ao apartamento nas horas de calor, almoçávamos, ele dormia a sesta e eu brincava lá fora onde tinha muito espaço, pois estávamos isolados no meio de um pinhal. Havia o meu bloco de apartamentos, outro igual exactamente em frente e um terceiro em fase final de construção, a unir os dois primeiros em U, ficando no meio um espaço grande de pinhal quase cercado onde eu tinha permissão para andar à vontade. Só voltávamos para a praia por volta das quatro horas, de modo que eu, assim que almoçava, ia brincar lá para fora. Era encantador, aquele bosquetto arenoso, que ficava no espaço entre os três prédios! À sombra dos seus pinheiros brincavam outros miúdos como eu. Claro que, com a minha queda natural para as complicações, caí para o lado com um francesito que não falava uma palavra de português. Eu também não percebia patavina de francês.
Num aprés-midi, andava eu a cantar e a apanhar joaninhas - havia imensas! - que depois deixava passear pelos braços acima, quando ouvi uma algaraviada qualquer. Voltei-me, vi um miúdo muito loiro, giríssimo, e... BUM!, o meu coração deu um grande salto sob aquele intenso olhar azul e os lábios invulgarmente grossos, que sorriam para mim. Não sei o que lhe respondi que o fez acentuar o sorriso. Eu perdi a fala e as joaninhas, que devem ter voado. Ele desatou a dizer palavras que não entendi e também nomes, enquanto fazia gestos. Percebi apenas que se chamava Philipe, era francês e morava numa das casas do prédio da frente. Lá lhe disse o nome, a nacionalidade (!) e apontei para o meu apartamento. Num instante instalou-se entre nós uma doce forma de comunicar, sorrindo, apontando coisas cujo nome um de nós dizia e o outro repetia. Também faziam parte os olhares sempre muito intensos e por vezes dizíamos longas frases... e desatávamos os dois a rir perdidamente, encolhendo os ombros, pois era óbvio que não nos fazíamos entender nem nos ralávamos com isso. Nesse dia fiquei muito contrariada por ter de voltar para a praia. Mas depois, à hora do banho no mar, precisamente quando me levantei de um valente mergulho, de que imediatamente me orgulhei, dei de caras com aquele sorriso azul que já quase me parecia ter sido apenas um sonho... mas estava ali a provar o contrário. Senti-me maravilhada e também muito intimidada. Ele estava realmente ali. Muito próximo. De repente percebi que ia ser assim durante as férias todas. Sentia uma coisa que, não me sendo estranha, assumia proporções novas, de algo com que nunca antes tinha lidado. Nunca tinha escutado a respiração, nem tocado nas mãos, nem visto pulsar perto de mim o corpo vivo de um rapaz que me despertasse amor. E, de uma certa forma, fugi.
Tal como eu previra, tornamo-nos inseparáveis. Passávamos os dias juntos, a brincar, a rir, a dizer muitas coisas de que apenas entendíamos menos de metade. Ele fazia-me cantar, como no primeiro dia quando me interrompeu, e tentava imitar-me o que me fazia rir até às lágrimas e a ele também. Eu só pensava em estar pertinho dele e sentia-me adorada. Mas se as nossas mãos se tocavam, mesmo que casualmente, ao fazer castelos de areia, a minha saltava imediatamente para longe com um gesto vivo. Eu sabia que ele sentia a barreira construída por mim, lia-lho no olhar que me perscrutava, enchendo-se de confusão e de sombras. Às vezes notava-lhe uma vaga tristesse... e isso produzia em mim um ataque de ternura tão dolorosa que me apetecia colar os lábios aos dele... assim de raspão... ou com muita força. Para afastar tais ideias, voltava-lhe as costas de rompante, gritando "tenho que ir!" e corria para junto dos meus, se estivesse na praia, ou para dentro de casa, se estivéssemos no pinhal. Depois ficava com medo de o ter perdido e voltava. Era sempre recebida com o mesmo olhar imensamente azul que me envolvia num halo de amor e o sorriso de boas vindas nos lábios grossos. Um dia, logo pela manhã, saí de casa e, como sempre, olhei para o prédio da frente, para as janelas do Philipe. Estavam todas escancaradas. Procurei o carro e a roulotte - que tinham ficado as férias inteirinhas parados no mesmo lugar - e constatei que tinham desaparecido. Ele partira! E partira sem saber que fora correspondido, que também eu o amava. Nunca mais o veria. Nunca mais lhe podia dizer "salut!" - como ele me ensinou. Nunca mais o ouviria a dizer-me "ôlá!" - com aquele sotaque que eu tentava corrigir em vão. A minha reacção foi atravessar o pedaço de pinhal entre as nossas casas e entrar na dele. Não procurava nada esquecido - nunca fui de tolices dessas! - queria apenas respirar um restinho de Philipe. Percorri o apartamento, séria, sem me deter especialmente em nenhuma das poucas divisões. Talvez tivesse tentado adivinhar onde ele dormira, não me lembro. Lembro-me da pequena gota de sangue no chão, quase à saída. Tive a certeza que era dele. Hoje essa certeza faz-me sorrir. Não que duvide, até acredito bastante nessas intuições súbitas... mas eu era tão pequenita! Toquei-lhe com a pontinha do indicador, num afago que pretendia repor um bocadinho da proximidade perdida... e saí. Estava mais triste por lhe ter escondido o que sentia do que por ele se ter ido embora. Hoje uma situação semelhante poderia causar um grande sofrimento, mas quando se tem cinco anos estas coisas resolvem-se com muito maior simplicidade. Com o coração apertado, mantive-me nas imediações da casa do Philipe e, de repente, ouvi assobiar. Vi que era um dos trolhas que trabalhavam no terceiro bloco de apartamentos. Tinha um ar simpático, lembro-me que achei que ele tinha quarenta anos (mas às tantas tinha vinte e cinco!). Fui ter com ele, que estava agachado a mexer numa papa de cimento com um utensílio metálico triangular com cabo de madeira. Fiquei uns momentos enfeitiçada a olhar para aquilo até que ele deu por mim e parou de assobiar. Cumprimentou-me e fez-me a típica pergunta que sempre detestei: "Então pequenita, já sabes o AEIOU?" Dessa vez não me importei. Disse-lhe que sim mas que ainda só ia para a escola no ano seguinte, pois até aí a escola fora só a brincar. Depois ganhei coragem. Respirei fundo e ao fim de todo aquele tempo - quase um mês! - finalmente declarei-me:
- O senhor sabe quem é o Philipe? - O Filipe?! - Sim. Aquele menino francês que morava ali - e apontei. - Ah, sim, o lourinho! Sei, sei. - Eu gostava dele, sabe? O homem olhou-me admiradíssimo mas eu tinha que dizer tudo, por isso não me deixei intimidar e continuei: - Gostava mesmo muito dele, assim com amor de namorados. Mas ele não sabia e agora foi-se embora. Dito isto, acrescentei um rápido "adeus!" e voltei para casa muito aliviada!... © Fata Morgana |
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