Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 31 Outubro, 2004

 

 
Confissões XI - Adoro chocolate!

Até tenho vergonha de dizer isto, mas este caso passou-se quando eu tinha apenas oito anos e o meu irmão quatro. Claro que nenhum de nós tinha jamais provado álcool nem mostrava qualquer desejo ou carência de tão volátil substância. Ambos estávamos perfeitamente felizes com as bebidas que nos eram permitidas em família ou em convívio social (as festas dos amiguinhos da nossa idade ou então casamentos e outras coisas chatíssimas de adultos). Bebíamos água, leite, sumos, refrigerantes, refrescos de groselha e xaropes para a tosse (quando eram doces contavam como bebidas).
Mas um dia aconteceu uma coisa que, na sua insignificância, veio despoletar um grande sarilho! Alguém ofereceu ao meu pai um Licor de Chocolate e, para além dos comentários que o presente suscitou, claro que eu li o rótulo. Não percebi tudo, não era português, mas percebi a palavra mágica: chocolate! Pareceu-me interessante. Como nunca fui de muitas perguntas, fiquei a observar as manobras. Vi que a garrafa foi para aquele armário giro que cheirava bem, onde havia copos de vários tamanhos e formatos, rodelinhas de cartão com fotografias engraçadas, e alguns utensílios estranhos. As coisas menos apelativas eram as garrafas, onde eu lia nomes que sabia serem de bebidas apreciadas pelos adultos mas achava sem sentido algum, como Gin, Rum, Bols, Calem... nada de jeito! Pelo menos nunca tinha estado nas minhas prioridades ir bisbilhotar, bastava-me o que via, quando via, e não me interessava beber aquelas coisas.
Esse armário estava fechado à chave e só era aberto quando vinha alguém de fora e todos se lembravam de o acompanhar e ''tomar alguma coisa''. Parecia-me idiota que à frente das visitas dissessem tomar, quando diariamente usavam o termo beber. Se, às refeições, bebiam água ou bebiam vinho, porque seria que tomavam aqueles líquidos com os de fora?!...


by Nicole Etienne

Isso e o chocolate é que foram os meus motivos para, numa tarde, me empoleirar num banco e ir à prateleira da estante onde estava escondida a chave, atrás dos livros, coisa que eu estava farta de saber mas nem me ralava. O meu irmão, excitadíssimo, fez de vigia, para não sermos apanhados em flagrante enquanto eu, a muito custo, retirei a chave e desci, prontinha para me deliciar com uns copázios do tal licor de chocolate, que estava decidida a beber (qual tomar!)... e o meu irmão também, claro.
Só nos restava um problema: como gozar juntos a experiência sem ninguém a vigiar?! Com muita pena decidimos que teria que ser à vez. Primeiro fui eu, que sabia ler. Lá abri a porta, com um estalido que me pareceu o som mais aventureiro do mundo, e baixei-a cuidadosamente até ela ficar horizontal como uma mesa. O tal cheiro invadiu-me as narinas. Era mesmo bom!
Da porta o meu irmão informou que não havia novidades e a minha mão avançou certeira para o licor. Peguei na garrafa e... nem queria acreditar na decepção, que não esperava: estava fechada! Claro que não podíamos abrir uma garrafa do bar, davam logo com a marosca!...
Rápida como um relâmpago, tomei uma decisão. Provaríamos o tal Porto! Não era assim que diziam quando falavam aquele dialecto para visitas e escolhiam a garrafa onde eu apenas lia Calem? Ora... Porto é o nome de uma cidade, uma das nossas cidades, por acaso. Porque chamariam eles assim ao Calem?! Não seria uma aventura tão deliciosa como a do chocolate, mas talvez até desvendássemos um mistério, o que seria ainda melhor que uma gulodice.
Tirar a rolha - plop! -, fanar um copito dos meus preferidos, os pequeninos de shot (eu na altura sabia lá o que isso era!) e enchê-lo foi o que fiz em menos de um fósforo. Da porta veio o sinal afirmativo. E eu, a medo, molhei os lábios no líquido que - hmmmm... - era doce! Bebi o resto. Ardia um bocado mas era muito bom. Tornei a encher o copo e troquei com o meu irmão, que lá bebeu tudo, sem ser informado de que aquilo não era licor de chocolate... não gostou e declarou que picava, coisa que me pareceu mesmo de irmão pequeno. Protestei e ele, irredutível, acrescentou que aquilo era uma porcaria e queria provar aquela coisa da garrafa que tinha palhinhas - era o Rum! Concordei mas primeiro bebi outro Porto, aos golinhos que, verdade verdadinha, já não me pareceram tão bons. Depois abri a garrafa de Rum - não me lembro de nenhum plop! - e felizmente o meu irmão quis cheirá-lo antes de provar e quase que caiu para o lado, ficou tontíssimo! Eu provei um tico, que me deu a impressão de que aquela bebida estaria melhor no armário dos venenos - que ficava no anexo, lá nos fundos do quintal, e a chave andava sempre com o meu avô, junto com as da casa.
O resto da história é muito confusa...
Claro que fomos descobertos, porque a chave não foi reposta. Hahaha... mesmo que tivesse sido, de nada teria adiantado. Nós - os nicos! - estávamos incrivelmente bêbedos e isso nunca escaparia ao meu pai, nem a ninguém. Na realidade, não perceberam logo de onde tinha vindo a bebida e, com uma calma que pretendia ganhar a nossa confiança, interrogavam-me a mim, na qualidade de mais velha - ''Morgana, o que foi que vocês beberam?''. A veemência do meu ''Absolutamente nada!!!!!!'' deixava todos muito transtornados e até aterrorizados.
Veio o tio médico e um tratamento nada divertido. Depois foram os vários raspanetes. Cada um, à vez, nos ia dizendo a sua versão do futuro inevitável dos meninos bêbedos. Dois dias de dieta. E o vexame.
Guardei duas sequelas: detesto Vinho do Porto e o cheiro de todos os armários-bar!

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