| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 19 Outubro, 2004
Faz hoje um ano que abri as portas do meu castelo. Desde então, tenho passado alguns momentos extraordinários, umas vezes sozinha com os meus pensamentos e sentimentos; outras com quem me visita e me fala e aqui deixa tanto de si mesmo. Tantos rastos que segui e coisas que aprendi, tantas descobertas que fiz, de outros reinos, de outras paragens. Quantas coisas aconteceram porque resolvi percorrer o meu caminho de luz e sombras a falar sozinha... e de repente já não estava sozinha! Coisas belas, outras feias. Vida, tudo. Tenho para com a vida a desfaçatez de achar que ela não passa. Não é que não passe, mas fá-lo como um rio. Nunca estamos perante a mesma água mas sempre perante o mesmo rio. E é ele que conta, o leito onde os nossos olhos encontram sempre o seu próprio reflexo estejamos próximos da nascente ou mais para jusante. Parece-me tolice fazer questão daqueles litros que já hão-de ir longe, talvez mesmo mesclados com as ondas salgadas de algo tão maior como o mar. Mar que é fonte de vida e até nos devolve mesmo as águas passadas, mas de um modo transformado, irreconhecível para nós. Mesmo sem as reconhecermos, identificamo-nos... como eu ainda me identifico com o primeiro texto que aqui partilhei, apesar de já o não ler do mesmo modo. Foi este:
O Lago-limiar (Dedicado a Salvador Dali) - Oh, porque estás aqui? E porque tens no olho a cornucópia? - Não sei. Mergulhei num lodo espesso de gorduras onde boiavam algumas criaturas e esta cravou-se-me num olho. - E doeu? - Fez muito sangue e o meu sangue que escorreu fez-se lodo também. - Não te ajudou alguém? - Vinda de ti me espanta essa pergunta, que te pareces com uma mulher que ali estava junto à margem, pendurada num ramo, entre a folhagem, que se ria como um gato e como um gato ela possuía uma cauda muito longa; e tu pareces-te com ela. - Como és tolo e como é curto o teu saber! Julgavas tu que eu, vendo-te morrer, ficava assim, dormindo entre a folhagem? Não vês que logo eu desceria à margem e a minha longa cauda te estenderia? Depois, quando a segurasses, rir-me-ia. - Com o teu riso de gato. Nesse preciso momento houve um forte ondular das águas pantanosas, movidas pelos enormes pés nela mergulhados e eles calaram-se medindo distâncias, apenas a umas escassas milimétricas-milhas do osso do tornozelo que, num gesto mais brusco, era capaz de os desfazer só pela deslocação do ar. Mas os pés novamente se aquietaram, sabe-se lá por quantos séculos-instantes e a conversa continuou como se nenhuma interrupção houvera. - Exactamente. Logo a seguir a ter-te bem seguro, num dar à cauda alucinado, de repente, com um riso gritado, agudo e intermitente, lançava-te no fundo destas águas mas providenciaria para que no teu outro único olho se cravasse uma qualquer ideia. Foi então que o voo inesperado do gigantesco peixe dourado interrompeu a conversa e terminou com ela. A mulher-gato e o seu companheiro calaram-se e ficaram para sempre a vê-lo evoluir majestosamente, direito ao infinito céu cor-de-laranja. © Fata Morgana |
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