Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 14 Outubro, 2004

 

 

"Love" by Stanley Widjaja (detalhe)

Oh, vem para junto de mim, fica ao meu lado!... Era o meu modo, dantes, quando eu ainda não era eu. Não resultava. Ele sabia que eu esperaria o tempo que fosse preciso e a pressa nunca lhe ocorria. Depois, quando finalmente chegava, eu não tinha esperado - contra todas as expectativas tanto dele quanto minhas. Hoje sei que isso acontecia precisamente porque nos esquecemos de esperar por quem não sentimos sempre ao nosso lado, mesmo que fisicamente longe. Porém, demorei algum tempo a descobrir isto.
Tendo aprendido que a súplica que nos sobe à garganta acabadinha de nascer no ambiente piegas que é o coração imaginário não é sequer sincera, passei a dizer-lhe, sobranceiramente, que viesse quando entendesse (e não digo que não se notasse o gesto interno de encolher os ombros). Pois se quase tudo era imaginação e até me esquecia dele num instante, para que havia de estar a massacrar-me antecipadamente com umas saudades que não ia sentir, nem tão fortes, nem tão duradouras? Claro que não valia a pena. No entanto, assim é que resultava muito mais! Ele vinha mais cedo e a correr - isto, se chegasse a afastar-se, coisa que só fazia se tivesse mesmo que ser! E ficava... e atirava os seus próprios sentimentos imaginários para a fogueira de orgulho que até parecia amor de tanta labareda. Aquilo era tóxico! O afastamento, espontâneo, inevitável, deixava sequelas porque o orgulho é fonte de muitos males... mas depois lá voltava tudo ao normal.
Acabei por me sentir muito desiludida, pois descobrira que afinal aquilo que julgamos ser amor é quase sempre produto da imaginação e, pior!, se a alimentarmos com orgulho, a ilusão dura mais do que se o fizermos com carinho. Achava isto mesmo triste! Nessa altura comecei a caminhar na minha própria direcção, a encontrar-me.
Decidi passar um tempo sozinha. Olhava para as pessoas com um interesse em que predominava o desapego. Não pretendia nada de especial, apenas conhecê-las, descobrir se também sentiam o mesmo que eu acerca do amor. Eventualmente acautelá-las... mas para isso é preciso respeitar a sua vontade e o seu grau de preparação para aceitarem verdades difíceis. E opiniões, claro.

"Love" by Sarah Bain

Um dia, sem eu fazer nada, ele chegou. Percebi logo que era quem eu sempre procurara mas nunca lhe pedi que ficasse. Apenas sorri, encantada por me reconhecer inteira em todas as minhas atitudes e tudo, afinal, ser tão simples. Reparei que a sinceridade substitui palavras por gestos que são mútuos apelos muito fortes. Ele ficou. E eu também. Não imaginei amá-lo - amei-o, realmente -, e muito menos deixei que o orgulho interferisse no sentimento profundo e bom que vinha do coração - do verdadeiro! - e me deixava muda, mergulhada num silêncio cheio de vontades, de descobertas e de partilhas. Nesse mágico silêncio, também escutei o bater do coração dele onde me vi completa. Eu.

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