Fata Morgana...

 

 
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Avalon, 24 Novembro, 2004

 

 
Confissões XII - Diabruras e Sentimentalismos Meus

Mon Oncle



Juan Miró

Um dos heróis da minha infância foi o Tio Miguel. Eu gostava de todos os irmãos do meu pai, assim como dos da minha mãe, mas o Tio Miguel era especial!
Era bom conversador, dono de um encanto fatal como uma maldição, que resultava da sua natureza bastante inacessível aliada ao desejo de afastar de si o sentimento de solidão indesejada. Muitas raparigas perdiam a cabeça por causa dele em vão, pois ele tinha queda para os amores impossíveis e entregava o coração a afectos que não corriam bem. Também tinha imensas aspirações que não sabia como realizar - na altura faltavam-lhe os meios - e andava muitas vezes com neura. Um dos seus maiores encantos era o sorriso. Não que fosse rasgado e cheio de calor, não era. Era quase um meio sorriso, repartido entre os lábios e o olhar, mas esse pequeno gesto era profundo e mostrava a alma, que era bonita.
Eu desde minúscula que me apercebi que por vezes ele tinha uma espécie de nuvem a acompanhá-lo - sabia lá o que era neura! - e sentava-me ao lado dele muito séria a conversar como os grandes faziam. Perguntava-lhe sobre a Faculdade de Medicina e a namorada, falava dos meus planos para quando fosse para a escola estudar para ser "senhoria" (!) e também de namorados e maridos. Ele respondia-me muito sério, tratando-me por Senhora Dona Morgana. Era a nossa brincadeira privada, em que ele alinhava por longos pedaços. Gostava de me ouvir e às vezes ria-se francamente com as coisas que eu dizia, o que para mim era uma grande vitória. Mas também me levava a sério, foi ele que disse aos meus pais que lhe parecia que eu devia ir para o ballet!
O Tio Miguel vivia no Porto, em casa dos meus avós, pais dele, claro. Eu em Lisboa. Mesmo assim tínhamos muito contacto porque a minha mãe convidava muitas vezes os irmãos e os cunhados para passarem uns dias em nossa casa. O nosso pequeno clã - pai, mãe, eu e mano - também vinha com frequência ao Porto, para além do mês de férias de Verão (passado em Miramar, numa casa de praia, mas fica perto).
Ironias do destino, quando nós viemos viver para cá o Tio Miguel casou com uma rapariga lisboeta e foi viver para Lisboa, de modo que o convívio manteve-se na mesma base: frequente mas não assíduo. Isto em nada interferiu com o facto de sermos especialmente chegados.

A Gabardine!



Um belo dia, andava eu no colégio, na primária, a juntar letras para formar palavras, cheguei a casa e encontrei à minha espera uma caixa enorme com um presente do Tio Miguel que chegara para mim, pelo correio: era uma gabardine! Eu nunca tinha tido uma antes, costumava usar impermeáveis modernaços. Aquela era uma verdadeira gabardine clássica, em tecido impermeável branco, com cinto, uma preciosidade! Lembro-me que fiquei muito aborrecida com o facto de não estar a chover nem parecer que tal coisa fosse acontecer tão cedo. De facto, passaram-se muitos dias, talvez semanas, sem que caísse um pingo e eu perscrutava o céu todas as manhãs, na esperança de ver pelo menos uma nuvem levemente ameaçadora para me deixarem levar vestida a gabardine "do Tio Miguel", como eu dizia. Claro que não seria tão bom como se chovesse mesmo a sério, mas sempre podia estrear a peça até aí inédita no meu guarda-roupa.
Fatalmente, um dia lá choveu! Acordei antes do tempo mas já sobre a manhã... e tive a surpresa de ouvir chuva a bater fortemente na persiana. Fiquei à espera que me chamassem, antecipando o gosto de chegar ao colégio elegantíssima. Acho que nunca antes tinha embirrado com a bata, mas nesse dia foi preciso obrigarem-me a vesti-la, porque eu não queria. Sem outro remédio, lá me conformei, já atrasada por causa da discussão. A minha mãe levou-me e, como sempre, entrou de carro pelos portões largos do colégio para dar a volta até às traseiras, onde ficava a entrada mais próxima das salas de aulas da primária. Eu bem tentei convencê-la a deixar-me ir a pé, já que estava tão bem equipada para tal, mas ela não foi nisso! O carro parou colado ao telheiro da porta por onde eu ia entrar obviamente sem apanhar um pingo da apetecida chuva. Os adultos, como são obtusos, os adultos!... - pensei - é claro que hoje devíamos ter parado mais longe do coberto!

Nesse momento é que o meu diabinho interior me alertou para o facto de eu ter outras opções diferentes da habitual, que era entrar. Muito direitinha, fui até à soleira e voltei-me para acenar à minha mãe. Ela leu-me o pensamento porque não arrancou enquanto eu não me meti pelo corredor dentro!... Ignorei o vestiário, pensei que pelo menos faria uma fantástica entrada triunfal na sala de aulas! Mas quando parei em frente à porta da sala, olhei e vi que a minha mãe já tinha seguido e, por uma sorte verdadeiramente inacreditável, a vigilante daquele corredor não estava lá como de costume. Desandei logo lá para fora!

Mais Praticantes da Modalidade...



Infelizmente não podia ir para o meio do recreio, que estava desolador, debaixo de chuva e cheio de poças de água. Apetecia-me imenso, mas seria vista das janelas. Não sabia que salas ficavam por trás daquelas janelas mas, fossem quais fossem, de certeza que um qualquer adulto desmancha-prazeres ia ver-me e achar que era proibido estar uma miúda sozinha no recreio à chuva em vez de estar na aula. Por isso resolvi dar um passeio sem me afastar muito das paredes do edifício. Decidi-me pelo lado direito e abandonei o abrigo do telheiro, sentindo logo a chuva a cair-me na cabeça e nos ombros - uma maravilha!
Dei uns passos, toda contente, pensando como o Tio Miguel era fantástico e tivera mesmo olho, pois aquela gabardine já me estava a proporcionar um dia magnífico para eu encher de asneiras, tal como eu gostava e tinha até muito jeito...
Aquilo ainda durou um bocado... mas de repente ouvi chamar o meu nome. Voltei-me e vi a minha professora a olhar para mim cheia de pintinhas de chuva nos óculos, com ar de pasmo mas também de poucos amigos, ordenando um "venha cá!" que não admitia réplicas. Mas eu é que também não admitia que ela me estragasse assim a estreia do presente do meu tio! Então, desatei a correr, dobrei a esquina e depois quase voei, a ver se conseguia contornar novamente o edifício e fugir para o jardim, de onde poderia apreciar - debaixo de chuva - a minha professora às voltas ao colégio. Quando dobrei a segunda esquina virei-me rapidamente e... não vi ninguém! Coitada, corre pouco - pensei - escuso de me esfalfar assim, pois levo um grande avanço. Nesse momento a vigilante do corredor apareceu vinda do lado oposto e aquilo pareceu-me suspeito! Ela era um bocado maldisposta e chata, nada o género de gostar de se divertir a apanhar chuva... Pareceu-me que a professora não estivera para maçadas, voltara para a aula e incumbira a Vigilante de me apanhar. Nada mais simples: era uma questão de fazer outra vez o mesmo percurso mas no sentido inverso e manter o plano. Não era tão divertido como ver a minha professora a correr à volta do colégio, mas o principal gozo continuava a ser apanhar toda a chuva que pudesse!
Claro que a vigilante era um reforço, como logo percebi, ao escutar atrás de mim os passos rápidos mas ainda assim calmos, talvez com a solenidade do sermão que carregavam, de quem eu, mesmo antes de olhar, já sabia que ia ver: a minha professora, evidentemente. Ainda olhei para o portão - estávamos as três no frontão do colégio - pensando em sair a correr e continuar o meu passeio na rua, onde aquelas duas não mandavam nada, achava eu. Porém... tinha medo! Reconheci isto e a perda da batalha, mas não vacilei.

Chuva de Mentiras



Quando as duas chegaram ao pé de mim, a Dª. M. A. (que adoraria rever!) fitou-me muito calma e muito séria. Estava encharcada. Estávamos as três... mas só eu por gosto.
- Sabes que horas são, Morgana?
- Não.
- Quase nove e um quarto. Eu vi-te da janela a chegar com a tua mãe. Vinhas cinco minutos atrasada. O que andaste a fazer durante quase meia hora?
- Fui ali ao quiosque comprar um nougat - respondi placidamente enquanto apontava para a paragem do eléctrico que ficava em frente ao colégio, onde realmente havia um pequeno quiosque. Ela ficou a olhar para mim, sem uma palavra. Sabia que eu estava a mentir, eu não duvidava disso e ela percebeu-o. Apenas lhe faltava o motivo, pois eu não costumava ser mentirosa. Simplesmente não queria falar do presente recebido. Para ela entender, eu teria que contar direito, tudo. O orgulho que tinha no meu tio preferido que me mandara um casaco de chuva como eu nunca tinha tido antes, o tempo que levara a querer estreá-lo sem poder; a vaidade matinal; o ter iludido o cuidado da minha mãe e mais a cena de detectives que se seguiu até estar ali encurralada. Era um dramalhão para o coraçãozinho feliz de uma catraia de seis anos.
- Onde está o nougat?...
- Já o comi. Assim que disse isto caiu-me uma gota bem quente pela cara abaixo. Senti que se dissesse coisas importantes ia chorar a sério. E eu naquela altura julgava que chorar era uma fraqueza um pedaço vergonhosa, só mais tarde percebi que não é.
- Bom... o melhor é irmos para dentro depressa.

Final Imprevisto



Dito isto, ela pegou-me na mão. Passámos na sala de aulas e, perante os olhares curiosos dos meus colegas, ela escreveu no quadro um trabalho qualquer para eles fazerem. Depois saímos e fomos para o refeitório, onde me deram uma bata enorme para vestir, umas meias grossas e umas sapatilhas de ginástica para calçar. Levaram as minhas calças, as botas e a gabardine, graças à qual a camisola estava sequinha. Daí a pouco estávamos as duas de batas secas a tomar chá quente junto a um enorme aquecedor a gás, e a conversar, em tom absolutamente concordante, sobre como mentir é tão feio.
Lá fiz a minha entrada na sala de aulas, com uma batona, meias altas e sapatilhas, ao lado da professora envergando modelo idêntico. Foi uma entrada mais triunfal do que qualquer outra que eu pudesse ter feito, pareceu-me.
No final da manhã entregaram-me as minhas roupas e as botas, tudo seco e impecável. Fui-me trocar ao vestiário das meninas, sob o olhar pasmado das outras que, de saída, enfiavam os seus casacos e atiravam para o ar graçolas não muito explícitas. Ninguém me disse nada nem eu dei explicações.
No momento em que acabei de vestir a minha roupa, a Dª M. A. entrou, pegou na minha gabardine e, enquanto me ajudava a vesti-la, comentou:
- Que bonita! É nova?
Voltei-me vivamente e encontrei um sorriso divertido e até compreensivo. Senti-me grata.
- É, estreei-a hoje... Foi uma prenda do meu Tio Miguel!
- Escuta, Morgana. Eu sei que não foste comprar nada ao quiosque. O porteiro tem ordens para não deixar sair meninos. Além disso, bem sabes que andei a correr atrás de ti, assim como a Laura. Por algum motivo, tu mentiste.
- Pois foi.
- Mas parece-me que todos temos direito a guardar para nós algumas das nossas razões, quando as há. E parece-me que tu tens as tuas.
- Pois tenho... fui vaidosa e mentirosa mas não quero dizer porquê.
Ela mordeu o sorriso.
- Para a próxima dizes isso. Mentir é que não.
Concordei com um aceno (não podia falar, tinha um nó) e ela terminou a conversa com um "Vá, agora vai almoçar, que logo à tarde tens muito trabalhinho pela frente!"

Não houve cartas para casa a chamar os meus pais nem qualquer outro tipo de queixa. O assunto morreu ali. A famosa gabardine do Tio Miguel ficou para sempre associada também à Dª M. A. e passou a ser simplesmente a minha gabardine.

© Fata Morgana

Os desenhos infantis são daqui
 

 
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