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Avalon, 16 Novembro, 2004
Patinadores, Merceeiros, Fregueses, Jecos, Vozes e a Angústia do Mundo Pós-Moderno
Pego logo no champô de Leite de Baunilha, pois foi o que levei da última vez e era bom; e depois fico a olhar para os amaciadores: há de Óleo de Rosa, de Extracto de Figos, de Azeitonas e Limão, de Leite, de Hera e Mirtilos... Mas que cocktail, penso, e que chatice! Quero apenas um amaciador para cabelos normais, mas as informações úteis estão sempre no fundo das embalagens e eu não vejo os fundos das que estão na prateleira de cima! Só vejo se são à base de Magnólia ou de Toranja. Não sou altona como esta aqui ao meu lado, mas também não sou minorca, estou exactamente na média nacional, o que me devia garantir uma boa visão dos escaparates nos supermercados! Já completamente desconcentrada, esqueço-me do amaciador e empurro o carro, que ainda só tem dentro o item baunilhado. O olhar errante corre as prateleiras mais próximas, lendo à toa, "creme para o corpo com extracto de Amêndoas Doces" e, de raspão, vejo um Gel com Aloé Vera. Brrrr.... gel no corpo, com este frio, nem pensar! O creme é mais espesso, mais quentinho. Pois é, estas coisas metem ideias parvas na cabeça de qualquer um... Ainda me lembro dos produtos similares há uns anos atrás, muito menos sedutores para a vista e o olfacto, mas bastante objectivos. Limitavam-se à informação que interessava: para Cabelos Secos, Normais ou Oleosos; para Peles Mistas. Enfim, não era preciso perder tempo como agora, a tentar perceber que maravilhas os novos produtos feitos de coisas mais apropriadas para compotas, sumos exóticos e arranjos florais se propõem operar nos cabelos e na pele... Como sempre, mergulhei na apatia típica que os supermercados me causam, com o seu néon, os seus patinadores de bloco em punho a serpentear vertiginosamente por entre os alegres consumistas e o brouah... de fundo, a que por vezes se sobrepõem anúncios ao altifalante como nos aeroportos: "informamos os nossos clientes de que..." Mas também nunca consigo fazer as minhas compras na mercearia! Se entro numa, reparo logo na pouca luz, no cheiro forte e no sempre presente jeco, que até é simpático, mas suspeito que seja o provador de muitas das coisas que lá se vendem. Também me enervam as conversas dos fregueses presentes sobre os que estão ausentes. E confesso que não me agrada ser tratada por lindeza, como faz o casal da mercearia próxima de minha casa, apesar de me olhar com ar de quem pensa "qué questa bem fazer práqui?!". Quando eu era miúda adorava o Senhor Vital e o Senhor Manuel, donos das mercearias onde a minha mãe abastecia respectivamente as casas de Lisboa e do Porto. Lembro-me perfeitamente de ambos. Os merceeiros de agora são muito diferentes, estão zangados e desconfiam (no meu caso, com toda a razão...) que só lá vamos buscar as coisas que nos esquecemos de comprar no supermercado. Eles são o comércio tradicional e se não temos um ar que eles entendam como tradicional não adianta sermos simpáticos.
Eu gosto mesmo é dos Mercados. Têm quase tudo - até luz natural! -, são arejados e lindos. Mas não há nenhum perto de nossa casa... nem que fique no caminho dos lugares onde habitualmente nós vamos. É uma pena, pois ali as conversas são sempre engraçadas, ainda se pode regatear os preços e gozar do giríssimo tratamento de "freguesa", usado pelas vozes poderosas das vendedeiras, que me fazem sempre pensar que elas têm naturalmente uma técnica vocal algo operática. Como as montanhesas da Bulgária! Mergulhada nos mistérios das vozes do Bolhão, assusto-me quando o meu Cavaleiro chega junto de mim, ajoujado - deixou-me o carro por gentileza - e atira lá para dentro as compras dele e ainda algumas das que sabe que eu ia buscar, e, de passagem, ele mesmo trouxe. - Então?! Ainda estás aqui na secção de cosméticos?! - pergunta-me incrédulo. - Estou... - concordo, enquanto regresso lentamente das mercearias e dos mercados, pois, na realidade, já não estava ali nos cosméticos. E de repente tenho uma ideia fantástica! Peço-lhe que me escolha um amaciador para cabelos normais (- Para cabelos normais?... - Sim!) e afasto-me perdida de riso, na direcção das compotas. Ainda tenho que levar café, água, vinho, lácteos, arroz e massas, fruta e legumes, temperos, e dar uma vista de olhos nas carnes, a ver se há alguma coisa de jeito. Já sei que vou ter tempo de sobra para tudo... e levo comigo o carro, claro. Ele não vai precisar! © Fata Morgana |
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