| Fata Morgana...
|
|
...ou o Claro Obscuro |
|
Todos
os direitos reservados © Fata Morgana, SPA |
||||||||||||||||||||
|
Avalon, 28 Janeiro, 2004
There's no Place Like Nome!
Corria o Inverno invulgarmente gélido de 1925. As terras do Norte enfrentavam temperaturas que chegaram a descer aos cinquenta graus negativos. Nome, cidade do Noroeste do Alaska, situada na costa do Mar de Bering, ficava - e fica! - longe de tudo, solitária, como os seus carismáticos habitantes. Inicialmente cerca de metade eram Eskimos, e a outra metade constava dos chamados não-nativos. Porém, com o tempo, misturaram-se placidamente, e agora não será fácil - nem terá muito interesse! - falar de percentagens. São hoje cerca de 3000 habitantes... e garantem orgulhosamente: ''There's no place like Nome!'' E é verdade. Senão vejamos o que aconteceu nesse Inverno de 1925, em que Nome, fustigada por um intenso nevão e ventos fortes, foi ainda assolada por uma severa epidemia de difteria. Houve muitas mortes e a doença parecia não ceder, antes pelo contrário, estavam sempre a aparecer novos casos. Os medicamentos rapidamente se acabaram e contrair a doença - contagiosa, ainda por cima! -, era quase morte certa, pois entre os pacientes e o ''soro curativo'' havia cerca de 1160 milhas de rigores praticamente intransponíveis, num Alaska que se mostrava especialmente duro nesse ano. Os medicamentos adequados estavam em Anchorage, situada no sopé das Montanhas Chugach, uma grande cidade que mistura a sofisticação e os confortos da modernidade com a natureza agreste. O resultado... é puro charme!
Hoje rapidamente se mobilizaria um esquadrão de helicópteros para levar ajuda e trazer os doentes em pior estado, mas em 1925 não havia aviões capazes de voar com os ventos que se faziam sentir. As linhas-férreas estavam obstruídas. O máximo que se conseguiu foi fazer chegar um vagão carregado de medicamentos a Nenana, 250 milhas mais adiante na direcção de Nome. Mas... como transpor as restante quase 1000 milhas?! Foi aí que a coragem entrou ao serviço da solidariedade! Um grupo de mushers (criadores/treinadores de cães para puxar pequenos trenós, com vários objectivos, desde o simples transporte à competição) empreendeu uma das maiores operações de salvamento de todos os tempos. O primeiro partiu de Nenana, e fez uma parte do percurso, passando o testemunho - os medicamentos! - a outro musher, que fez exactamente o mesmo. Cada um ia deixando para trás uma porção do caminho, e no final, aqueles homens nos seus trenós, puxados pelos seus bravíssimos cães, cumpriram a distância entre Nenana e Nome. Juntos, homens e cães enfrentaram estoicamente as temperaturas baixas, os ventos, e sabe-se lá que mais perigosos obstáculos - esta história é inspiração de numerosas lendas! Decorridos cinco dias e sete horas, a salvação chegava a Nome evitando uma calamidade... e isto é facto, não é lenda. The Iditarod Trail
Em 1972, inspirados neste acontecimento, um grupo de mushers organizou uma corrida que reproduzia a trilha do salvamento Anchorage/Nome, conhecida por Iditarod. A corrida, com o seu fundo heróico de verdade, nunca mais deixou de se realizar, até hoje. Só que não há milhas feitas de comboio, nem se passam testemunhos. Cada equipa - formada por um musher e a sua matilha - tem que fazer as 1160 milhas de trenó. Mas podem parar o tempo que quiserem ou precisarem, pois há vários checkpoints, situados precisamente nos locais onde os mushers salvadores se revezaram em 1925. Estes checkpoints são confortáveis mas simples acampamentos onde comida quente e descanso estão garantidos para todos, assim como a assistência de equipas de médicos e veterinários, que examinam os homens e os cães. Os veterinários são especializados em cães atletas, e assistidos por massagistas. Um cão lesionado, ferido, esgotado, é imediatamente mandado para casa, de avião - o Iditarod é seguido de perto por aviões e helicópteros que, para além de fazerem a cobertura do acontecimento, providenciam tudo o que for necessário. Também é visto com o justo desprezo um musher que coma ou se deixe tratar antes de providenciar ambas as coisas para os seus cães. Aliás, a estreita ligação entre o dono e os seus companheiros de viagem, é conhecida de quem segue estas corridas. Ao longo destes anos, os cães têm alinhado em Anchorage ansiosos pela partida, pois eles é que são realmente os atletas, e adoram correr. Eu adoro os cães, gosto de os ver aos saltos, excitadíssimos, desejosos de que a aventura principie. Têm um ar forte mas os olhos meigos, lindos olhos de cão! Ficam amorosos nas botinhas que usam para não criarem bolas de gelo entre os dedos. O gelo é cortante como pequenas farpas e magoa nas patinhas, por isso eles usam botas! Eu hei-de ir ver isto tudo ao vivo! Se depois não conseguir voltar para cá... oh, talvez me torne musher, como a DeeDee Jonrowe, que corre o Iditarod desde 1980, com um segundo lugar e uma única desistência. Não conto ganhar, apenas ter os meus cães - uma matilha! - e ir correr com eles. Cá não posso, moro num andar e só permitem canitos pequenos, que ladram fininho. Com todo o respeito pelos animaizinhos, eu gosto mais de cães que parecem lobos! Como os dos mushers.
A Iditarod Sled Dog Race de 2004, começa no dia 6 de Março! Pode-se seguir em directo - há sempre videos fantásticos! - aqui mesmo! E o Yukon Quest, outra das muitas competições de Sled Dog que se realizam no Alaska - esta vai até ao Norte do Canadá -, começa no próximo dia 14. Fica o aviso feito. Agora já estou descansada... © Fata Morgana Avalon, 26 Janeiro, 2004
Pronto! Após ter espremido a minha discoteca como se fosse um pobre limão, aqui está o resultado: os dez Álbuns da minha vida! Para o http://papagaioincendiario.blogspot.com/, claro.
The Doors - Doors The Velvet Underground - Velvet Underground & Nico David Bowie - Changes Siouxsie and The Banshees - Hyaena The Clash - London Calling Cocteau Twins - Garlands Dead Can Dance - The Serpents Egg The Sound - From the Lions Mouth The Smiths - Hatful of Hollow Suede - Coming Up Aqui estão as 10 capas de CDs e LPs. Assim, todas juntinhas, ficam tão bonitas... Mas há muito boa música que ali não consta, e devia. Não consigo escolher um disco dos Doors ou um dos Velvet, por exemplo. Como escolhi estes, então? - pergunta óbvia... Foram eles que se evidenciaram, sozinhos: o dos Doors, com o tema The End, e o dos Velvet com... a Nico. O problema do Bowie, resolvi-o com uma das colectâneas, pois! A Siouxsie era simplesmente obrigatória, mas tinha que aparecer representada por este mesmo Álbum, foi uma escolha fácil, portanto. Os Clash... - que grande sarilho! Troquei tantas vezes o Sandinista pelo London Calling!... tive que recorrer à estatística: qual andou mais vezes debaixo do meu braço?... acho que este, mas talvez porque os amigos tivessem todos o Sandinista - não seria de estranhar... - e disso não me lembro! Os Cocteau Twins também tinham que estar, e foi fácil. Gosto da discografia completa do grupo mas o Garlands foi o Álbum que mos apresentou, e marcou-me imenso. Também não me custou escolher The Serpents Egg, dos Dead Can Dance, sempre foi o meu favorito, apesar de gostar de todos os outros. Os Sound estão, com os seus Leões, porque este LP acabou com um furo numa faixa, de tanto que a ouvi! Não pude deixar de incluir um Álbum dos Smiths - porque a voz e a postura de Morrissey mexeram logo comigo. Escolher o CD foi difícil mas não terrível. E os Suede foram uma paixão, com este mesmo CD. Senti-me realmente apaixonada pelas músicas. Pronto, ficaram estes dez. E eu... a dizer adeus aos Bauhaus, Joy Division, China Crisis, ao Sakamoto; aos The The, The Pretenders, Pink Floyd, Roy Orbison; aos Cars, Psychedelic Furs, Marianne Faithfull, Cure, Stranglers, Police, Nick Cave, This Mortal Coil!!! - mais vale mudar de assunto, antes que torne a trocar tudo! (Aiiii!!! - lembrei-me do Sign of the Times, do Prince!!) Também gostei de música dos anos 90 (que já veio dos 80). Claro que sim! Fartei-me de ouvir Nirvana, Janes Addiction, Soundgarden, Faith no More... entre muitos outros, e continuo a ouvir coisas recentes que aparecem, sempre, sempre. Mas optei por escolher algumas das músicas que para mim têm já um peso histórico, ou dava mesmo em doida. Um bocado masoquista, eu espero que o http://papagaioincendiario.blogspot.com/ continue com estes Tops pessoais. Que tal um Top 100? E os Top 10 e Top 100 de temas, também não estavam mal... © Fata Morgana
Já é Segunda Feira
Falas-me naquela língua branda que entendo assim que a pensas E ofereces-me sorrisos que rasgam a escuridão e afastam os mistérios com que me entretinha ainda agora. Que bom partilhares comigo a insónia depois dos dois dias que passámos juntos noutro fuso horário! © Fata Morgana Avalon, 23 Janeiro, 2004
Para Ti... (sim, TU!)
"Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente" Dostoievsky Já me ia embora, mas fiquei a olhar para o Claro Obscuro. Não era assim que eu queria que ficasse, ainda que talvez só até amanhã. Ainda ontem aqui confessei a minha distracção de um modo divertido, relembrando uma das numerosas situações em que me vi metida - e meti outras pessoas! - por causa desse meu defeito. Com que alegria tantos vieram compreender-me e rir comigo, partilhar as suas próprias distracções! Hoje escrevi sobre recordações antigas. Aspectos maus de recordações não tão más assim, no seu todo, sobretudo agora, que não passam de folhas murchas. Que mudança tão brusca para alguém que viesse, contente, escrever mais alguma graça sobre o texto de ontem (acontece-me tantas vezes...)! Além disso, tenho sempre vontade de deixar este lugar com alguma coisa boa, positiva. E, já que me deu para escrever sobre amores antigos, fica aqui - mesmo no topo! - uma citação, que dedico ao meu amor de hoje, que é o meu amor de sempre, pois sinto que o que está para trás parece que nem foi a mim que aconteceu. Quando o conheci, senti imediatamente - entre miríades de outras coisas! - que, com um sorriso assim nos olhos... (e não vou ser maçadora e repetir Dostoievsky!) © Fata Morgana
A Quem Não Amei
(Recordação) Passos mais leves que leves suspeitas ecoam nos meus braços corredores esguios Ouço-os temente causam-me arrepios no corpo liso de paredes estreitas Estranho convento sou quando me deitas e os meus olhos endurecem frios eternas criptas esquifes vazios sem vestígio de mágoas liquefeitas © Fata Morgana
A Noite e o Dia
Embrenho-me noite dentro pelas sombras tenebrosas Bramindo com fúria o vento dá-me asas tão poderosas uiva no meu pensamento sopra-me versos e prosas Ao primeiro alvor do dia deito-me entre as açucenas e os sonhos chegam enfim O sol que me acaricia afasta todas as penas que encontra presas em mim © Fata Morgana Avalon, 22 Janeiro, 2004
Confissões - Lado A (o mais garrido) - I
Eu sou tremendamente distraída. E pouco fisionomista. Ambas as coisas me fazem cometer algumas gaffes, mas não é assim tão mau, principalmente porque tenho pessoas amigas que partilham comigo esses segredos, tentando proteger-me - quando podem! E quando acontecem coisas impossíveis de evitar, rimo-nos juntos. Com as restantes pessoas, passo umas vergonhas, paciência! Mas compensa, para ambas as partes. Elas riem-se à minha custa, o que lhes há-de saber bem; e eu posso fingir que não percebi nada e ficar com um confortável estatuto de maluca. E toda a gente adora malucos, é sabido. Não há quem não se pele por ter um maluquinho de estimação! Ora eu, que de maluca tenho muito pouco, já ganhei uns simpatizantes à custa das minhas distracções. Por vezes, após a simpatia inicial assim tão facilmente conseguida... estabelecem-se verdadeiros laços. É uma questão de, sabendo que sou distraída, reverter as situações com inteligência. Mas, voltando um bocadinho atrás, bom, é estar com os meus amigos, aqueles que já sabem que uma porção de coisas me vão passar completamente ao lado. Os tais que tentam proteger-me, tantas vezes em vão. Os que, nas vergonhas, partilham comigo o riso. O meu Cavaleiro tem o hábito de me segredar rapidamente os nomes daquelas pessoas que, apesar de conhecidas, não são nossas ''habituais'', ou que encontramos apenas num determinado local e surgem inesperadamente fora desse contexto. Algumas já vêm de longe a sorrir rasgadamente na nossa direcção e a gesticular. Ele sabe que na maioria das vezes, não tenho ideia de quem sejam! Mas, após a rápida informação que ele tão gentilmente me dá, posso tornar-me oportuna e loquaz, pois às vezes são pessoas com quem simpatizo imenso apesar de ver pouco. Um dia, em que fomos ao teatro, eu decidi que ia impressiona-lo e lembrar-me dos conhecidos ao primeiro relance. No final do espectáculo, em plena enchente de saída, vi um rapaz olhar para mim e sorrir-me abertamente. Fiquei alarmada? sabia lá quem era?! Não tinha ideia. Mas não querendo pôr de lado os meus planos, fartei-me de olhar? esforçando-me por identificar aquele rosto, cada vez mais sorridente (nem notei o facto de ele sorrir mas não cumprimentar, não vir ter connosco). O meu Cavaleiro esperava pacientemente que o caudal humano diminuísse, para depois sairmos sem apertos, e não dera por nada. Pensei comigo: ''melhor ainda! Hoje o distraído és tu!''? e avancei direitinha ao alvo, agora muitíssimo sorridente. Preguei-lhe dois beijinhos e disse-lhe um bem disposto ''Olá!''. Claro que não o chamei pelo nome, pois não me lembrava quem era - contava descobrir isso durante a conversa. Não houve conversa. O modo como as coisas aconteceram pareceu desconcertar o criaturo. Depois de um esquisito ''Olá'', ele olhou para trás de mim? Pareceu encavacado. Voltei-me e vi que o meu Cavaleiro não se aproximava, olhando-nos com um ar intrigado, e uma certa consternação. Tremendamente confusa, dei meia volta e voltei para junto dele, sem mais uma palavra. - Quem é aquele?! ? perguntei ansiosamente. Ele desatou a rir, percebendo. - Não sei. E acho que tu não o conheces de lado nenhum. - Mas ele riu-se para mim! ? defendi-me, veemente, pois queria mesmo ter feito uma daquelas coisas tão simples, mas que me escapam. - E depois?! Estava-se a fazer ao piso! Não se pode dizer que tenha ficado a ver navios!... © Fata Morgana Avalon, 20 Janeiro, 2004
Avalon, 19 Janeiro, 2004
Dedico este poema e a respectiva tradução à Rute. Eu resolvi - a minhas expensas, verdade seja dita - traduzir uma letra dos Beatles. A primeira resposta que recebi foi a da Rute... e fiquei com vontade de não ter postado o meu problemazito (ter uma canção ''metida'' na cabeça!).
Tens razão, Rute. Para traduzir, mesmo que não seja um verdadeiro poema, há que ser... talvez o Pessoa. Com toda a justiça e respeito, para ti, aqui fica... ANNABEL LEE (by Edgar Allan Poe) It was many and many a year ago, In a kingdom by the sea, That a maiden there lived whom you may know By the name of Annabel Lee; And this maiden she lived with no other thought Than to love and be loved by me. I was a child and she was a child, In this kingdom by the sea; But we loved with a love that was more than love- I and my Annabel Lee; With a love that the winged seraphs of heaven Coveted her and me. And this was the reason that, long ago, In this kingdom by the sea, A wind blew out of a cloud, chilling My beautiful Annabel Lee; So that her highborn kinsman came And bore her away from me, To shut her up in a sepulchre In this kingdom by the sea. The angels, not half so happy in heaven, Went envying her and me- Yes!- that was the reason (as all men know, In this kingdom by the sea) That the wind came out of the cloud by night, Chilling and killing my Annabel Lee. But our love it was stronger by far than the love Of those who were older than we- Of many far wiser than we- And neither the angels in heaven above, Nor the demons down under the sea, Can ever dissever my soul from the soul Of the beautiful Annabel Lee. For the moon never beams without bringing me dreams Of the beautiful Annabel Lee; And the stars never rise but I feel the bright eyes Of the beautiful Annabel Lee; And so,all the night-tide, I lie down by the side Of my darling, my darling, my life and my bride, In the sepulchre there by the sea, In her tomb by the sounding sea. ANNABEL LEE (de Edgar Allan Poe) Foi há muitos e muitos anos já, Num reino de ao pé do mar. Como sabeis todos, vivia lá Aquela que eu soube amar; E vivia sem outro pensamento Que amar-me e eu a adorar. Eu era criança e ela era criança, Neste reino ao pé do mar; Mas o nosso amor era mais que amor -- O meu e o dela a amar; Um amor que os anjos do céu vieram a ambos nós invejar. E foi esta a razão por que, há muitos anos, Neste reino ao pé do mar, Um vento saiu duma nuvem, gelando A linda que eu soube amar; E o seu parente fidalgo veio De longe a me a tirar, Para a fechar num sepulcro Neste reino ao pé do mar. E os anjos, menos felizes no céu, Ainda a nos invejar... Sim, foi essa a razão (como sabem todos, Neste reino ao pé do mar) Que o vento saiu da nuvem de noite Gelando e matando a que eu soube amar. Mas o nosso amor era mais que o amor De muitos mais velhos a amar, De muitos de mais meditar, E nem os anjos do céu lá em cima, Nem demônios debaixo do mar Poderão separar a minha alma da alma Da linda que eu soube amar. Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos Da linda que eu soube amar; E as estrelas nos ares só me lembram olhares Da linda que eu soube amar; E assim 'stou deitado toda a noite ao lado Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, No sepulcro ao pé do mar, Ao pé do murmúrio do mar. Tradução: Fernando Pessoa Avalon, 18 Janeiro, 2004
Toda a gente, de vez em quando, anda com uma música na cabeça. Quando isso acontece, é bastante aborrecido! Por muito que se goste da música, sentimo-nos fartos, massacrados com a cantoria mental a que não conseguimos escapar.
Quando me acontece a mim, fico estarrecida, pois nem consigo dormir descansada, até em sonhos canto a melodia atazanante e, se for uma canção, é com letra e tudo! Um horror! Bem... hoje tenho andado com uma canção na cabeça, por acaso bem conhecida e particularmente horrenda, apesar de ter excelentes autores - do melhor, diga-se com justiça! Quem a produziu merece o mesmo elogio, assim como a editora e... a banda que a popularizou: todos portentosos. A canção... de fugir! Em pleno arrazoado, impossível de conter, comecei a prestar atenção à letra, em que nunca tinha reparado... Primeiro pensei ''mas como é que me lembro desta letra, se nunca ouvi isto senão em lugares públicos?'' (claro que em casa saltei sempre esta faixa!). Depois, pensei, um bocado alarmada: ''não pode ser! ELES não iam escrever uma coisa destas!'' Fui tirar teimas e morri a rir, pois tinha razão! Não só sabia, realmente, a letra - um mistério! - como ELES a escreveram mesmo assim! Aqui vai a dita (claro que a traduzi, o mais à letra possível, reparem na subtileza...): Obladi Oblada Written by John Lennon & Paul McCartney Desmond has a barrow in the market place Molly is a singer in a band Desmond says to Molly girl I like your face And Molly says this as she takes him by the hand Chorus: Obladi oblada life goes on bra La la how the life goes on. Obladi oblada life goes on bra La la how the life goes on Desmond takes a trolley to the jewellers stores, Buys a twenty carat golden ring Takes it back to Molly waiting at the door And as he gives it to her she begins to sing Chorus: Obladi oblada... In a couple of years they have built A home sweet home With a couple of kids running in the yard Of Desmond and Molly Jones Happy ever after in the market place Desmond lets the children lend a hand Molly stays at home and does her pretty face And in the evening she still sings it with the band Chorus: Obladi oblada... In a couple of years they have built A home sweet home With a couple of kids running in the yard Of Desmond and Molly Jones Happy ever after in the market place Molly lets the children lend a hand Desmond stays at home and does his pretty face And in the evening she's a singer with the band Chorus: Obladi oblada... And if you want some fun (hahaha) - Take Obladiblada. Hey! Obladi Oblada (tradução) Desmond tem uma banca no mercado lá do sítio Molly é cantora numa banda Desmond diz à Molly - miúda, tens uma cara gira E a Molly repete-o enquanto o leva pela mão Refrão: Obladi Oblada a vida continua, mano Lala como a vida continua Obladi Oblada a vida continua, mano Lala como a vida continua Desmond apanha um eléctrico para um joalheiro E compra um anel dourado de vinte carates Leva-o à Molly que esperava à porta E enquanto lho dá ela põe-se a cantar Refrão: Obladi Oblada, etc... Num par de anos eles construíram um lar, doce lar Com um par de miúdos a correr no quintal Do Desmond e da Molly Jones Felizes para sempre no mercado lá do sítio O Desmond deixa as crianças "dar uma mão" A Molly fica em casa a tratar da sua cara bonita E à noite ela ainda canta com a banda Refrão: Obladi Oblada, etc... Num par de anos eles construíram um lar, doce lar Com um par de miúdos a correr no quintal Do Desmond e da Molly Jones Felizes para sempre no mercado lá do sítio A Molly deixa as crianças "dar uma mão" O Desmond fica em casa a tratar da sua cara bonita E à noite ela canta com a banda Refrão: Obladi Oblada, etc... E se quiseres algum divertimento (Hahaha) - Aceita Obladiblada Hey! Resta a consolação de que os Beatles tiveram isto guardado uns anos até se decidirem a estreá-la (mas porquê, porquê???) num espectáculo! © Fata Morgana Avalon, 14 Janeiro, 2004
A História que se segue vem na continuação de "As Três Leis da Robótica", lá mais em baixo...
O Cata-Amores (*) As coisas que me aconteceram desde que deixei de ser robofóbica! Além da grande volta que a minha vida deu, para melhor, claro - acabaram-se definitivamente as surpresas, todos os dias são iguaizinhos e corre tudo exactamente conforme o planeado - conheci um melhoramento significativo na minha personalidade: tornei-me menos tímida. Para ser absolutamente sincera, perdi mesmo toda e qualquer timidez. Não é maravilhoso? Bem, os Robots têm esse efeito em nós, pois tudo o que fazemos fica... perfeito! No trabalho já não há um único PC estúpido, e tenho os meus Roboauxiliares, que emendam as minhas gaffes, tratam da minha agenda, dão-me todas as informações de que preciso antes, durante e depois das reuniões - dantes tão stressantes. Até cancelam compromissos se o meu Mood-Bra denunciar um batimento cardíaco menos regular lá para o final do dia. Depois, mal saio do escritório, tenho o simpatiquíssimo Híbrido já parado mesmo em frente à porta do edifício. Com os seus sensores bem alerta a todos os meus indícios, assim que me instalo, é uma questão de segundos até ele escolher uma música que me parece invariavelmente ser a ideal, e iniciar uma conversa adequada ao meu humor, enquanto me conduz a casa, geralmente em piloto-automático. Em casa tenho o Cyc? Claro que há um flirt entre nós, o meu Mordomo e eu. Oh, ele abre-me a porta e é tão gentil, diz-me como estou tão bonita, acompanha-me à sala e responde a tudo o que lhe digo com sugestões cada vez mais adoráveis. Tem todos os Robodomésticos mais do que orientados para responderem a qualquer capricho meu. Pergunto-me o que aconteceria se lhe pedisse um yogurte de bacalhau ou um sumo de costeleta de carneiro?? Só não o faço porque acho que ele era bem capaz de os desencantar e depois, claro que eu não ia comer nem beber semelhantes porcarias, e ele percebia a experiência e melindrava-se. Não quero tal coisa. Gosto de lhe dizer que ele é giro e ouvir a resposta, esperada: - Sugestão: Cyc acompanha jantar de Morgana. Claro que acompanha! Não que coma, pois não tem como, mas senta-se à mesa comigo, costumamos jantar juntos. As nossas conversas são cada vez mais interessantes, é muito bom ter um companheiro que é expert na minha pessoa. A minha auto-estima está ao rubro. A minha timidez... congelou. O problema - claro que há um problema! ? é que ele foi programado para mim. Se Cyc me diz que estou bonita é porque não detecta nada desalinhado e, sabendo que me agrada um piropo, di-lo e pronto. Já experimentei entrar despenteada e com tinta numa manga e ele dessa vez não se mostrou galanteador, pois é sua obrigação avisar-me de qualquer desalinho prejudicial à minha imagem, seja eu bonita ou feia. Quando me lembro destas coisas, não consigo deixar de olhar para o solícito humanóide com algum azedume. E decidi trai-lo! Ora o boneco do Cyc trazer-me pelo beicinho?! E retribuir-me com programação? Eu resolvi que N-Ã-O? e pronto, comprei um Cata-Amores! É um pequeníssimo Robot de pulso, com um visor parecido com um rádio. Tem uma memória imensa e já vem programado de acordo com o formulário que preenchemos na encomenda: conhece todos os nossos gostos e todas as coisas que detestamos. Excelente! Mandei Cyc descobrir uma festa em que a música e as bebidas fossem ao meu gosto. Sem demasiadas pessoas, com uma afluência média dentro da minha faixa etária. Deixei para o fim a recomendação mais importante: - Cyc, tem que haver vários rapazes sem companhia. Não me enfies em festas de casalinhos! - Sugestão: esperar por Sábado - Cyc parecia um tanto ansioso. A Sugestão era muito estúpida, pois aos Sábados todas as festas estão apinhadas. Mas apenas lhe respondi, peremptória: - Não, quero hoje. Agora. Cyc consultou a sua base de dados, ligando-se a outros Mordomos. Num instante encontrou uma festa que reunia as condições por mim escolhidas. Não parecia animado ao comunicar a morada, mas obedeceu, com toda a eficiência. Fez-me imensa falta uma grande discussão? e lá tive que ir à festa. Assim que cheguei à Festa percebi que o meu look ousadíssimo estava exactamente como eu gostava: quase excessivo! Sorri, contentíssima com o quase. O Mordomo da festa ? não muito diferente do meu Cyc, informou-me sobre a localização do bar. Agradeci e fui buscar uma bebida. No caminho deitei uma rápida olhadela ao Cata-Amores - as pequenas luzes indicadoras de actividade piscavam alegremente, sinal de que ele estava a entrar em contacto com os outros aparelhos similares. Claro que ninguém é tão tolo que vá a uma festa sem um Cata-Amores! Foi quando o Robodoméstico misturador de bebidas começou a preparar o meu Daiquiri, que ouvi uma voz quase dentro da minha orelha: - Boa noite! Voltei-me e vi o rapaz que me cumprimentava. Caramba! Era alto, magro - mas não lingrinhas, de ombros largos e com uns olhos verdes muito grandes. Não tinha lábios finos e a voz era grave. Pensei para comigo que é uma grande tolice ser-se Robofóbico. E sorri-lhe, como resposta. Ele pegou no Daiquiri que o Robodoméstico me estendia e entregou-mo. O meu - ?Obrigada?, aliás quase murmurado, dirigia-se mais ao Cata-Amores, graças ao qual ia dançar, conversar... De repente veio-me à ideia que já sabia tudo sobre aquele rapaz. Era previsível que falariamos de cinema, depois de música e que concordaríamos em tudo. Não era previsível... era certo. Afinal, era exactamente para isso que servia um Cata-Amores, para detectar pessoas com maneiras de pensar e gostos idênticos, experiências semelhantes ou complementares e objectivos para a vida praticamente iguais. Pessoas que, para nós, fossem quase tão previsíveis como... Robots. Senti-me horrorizada. E também muito mais interessada no que teria para me dizer o rapaz simpático, gorducho e desafectado que, um pouco adiante, esperava pela sua bebida. Esqueci-me que não estava só e fui ter com ele, que nem deu por mim. O meu Cata-Amores não dava nenhum sinal. Desliguei-o. Tirei-o do pulso e atirei-o ao chão - finalmente o gorducho reparou que eu ali estava! Larguei uma risada alegre e pedi-lhe: - Não se importa de esborrachar esta coisa? - Oh, mas isto é o seu... - ... isso é um Robot. E eu sou Robofóbica. - disse-lhe isto muito, muito baixinho. Ele primeiro pareceu admiradíssimo. Depois sorriu e mostrou-me o pulso: tinha um Cata-Amores. Desligado. Saímos da festa juntos. Não sabíamos nada um do outro. Olhando para ele, eu ia pensando. Ele não quisera saber das sugestões do Robot. Teria o meu look quase excessivo metido ideias na cabeça dele? Dei mais uma risada alegre. O imprevisto era uma coisa tão fresca! Como pudera eu viver sem isso? (Ah! mas ainda era capaz de dar uma bela bofetada!) © Fata Morgana (*) Ver "futurologia" in Exame Informática nº103 de Janeiro 2004 na qual o aparelho nTag surge descrito num pequeno artigo intitulado "O Caçador de Amigos" Avalon, 09 Janeiro, 2004
''Morte, a única das minhas aventuras que não comentarei...''
François Mauriac Adoro o Mauriac, que me tem proporcionado muitas horas de excelente leitura. Escolhi esta citação entre muitas, por ser dele e tão verdadeira, e porque quero aqui deixar um poema que escrevi para alguém que decidiu escolher a hora de viver essa tal aventura que fica sem os comentários do protagonista. O poema cumpriu a sua dedicatória... mas muito mais para os que cá ficaram e lhe eram chegados - que eu saiba, evidentemente!... Por isso, hoje estendo-a a todos aqueles que são parentes e amigos dos que tomam a decisão de se ir embora. Ao T. R. Alma decantada embebida em terços A repousar no claustro brando dos silêncios Desata os pulsos dessas ligaduras frouxas E oferece o ar às tuas feridas roxas Deixa-as voar e vê como são belas Olha-as sereno já esquecido delas Fata Morgana Não querendo fazer julgamento algum, quero é deixar também um grito de vida. Isto, para ser fiel a mim mesma. E, para isso, escolhi Voltaire, numa metáfora que me parece perfeita pois dá-nos um imenso sentido de ocupação terna e útil e feliz. ''A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça'' Voltaire (ou será - até que adormeças?... - emendar Voltaire é UMA OUSADIA!, e a frase fica subvertida, mas a vida não continua?!) Fata Morgana
A Face Oculta
Não sei porque razão me deixo ficar a fitar a noite a filar a lua com as duas faces todas as fases sem excepção. À luz lacrimogénea dessa bola nua que flutua abro a janela romba arrombo-a. A lua é como eu fora-da-lei © Fata Morgana Avalon, 08 Janeiro, 2004
Hoje não pude receber os que me visitaram, não estive cá. Lembrei-me muito de algumas Maçãs que me deixaram nos cestos, tinha vontade de aqui vir dar umas mordiscadelas... mas o meu dia foi muito cheio e só pude vir agora.
Para deixar este recadinho a todos os que me têm escrito. E também para dizer - obrigada! Amanhã já vai ser um bocadinho melhor! Depois de amanhã, então... vai ser mesmo bom! Fata Morgana Avalon, 05 Janeiro, 2004
Um dos Últimos Paraísos da Terra
Eu tenciono ir para o Alaska. Um dia. Quero morar numa casa pequena e acolhedora, de madeira, ter uma matilha de cães para puxar o trenó - o dogsled é um desporto, mas também um transporte habitual por lá. Os cães adoram fazer isso e eu adoro os cães. Apesar de estar mais que habituada - viciada! - em tacões agulha, e gostar de revelar a silhueta - nada de camisolões, por enquanto -, lá, hei-de usar umas grandes botifarras vestir peças quentinhas e lanzudas, sob um casaco de esquimó, com um carapuço enorme! Nunca matei um bicho para comer - compro tudo no supermercado. Se tivesse que matar os bichos que como, seria vegetariana. Mas no Alaska a vida é dura, selvagem, mesmo!, e eu vou ter que aprender a pescar. Depois poderei juntar aos víveres que hei-de ir comprar, de trenó, ao lugarejo mais próximo da minha cabana de madeira, uns magníficos salmões e escamudos pescados por mim. Também terei que ter uma espingarda, não para caçar - isso sei que nunca conseguiria fazer - mas para dar tiros para o ar e assustar os ursos que decidirem rondar-me a porta (cá, só tenho que espantar vendedores de sistemas de telecomunicações, mas sem espingarda!). Em vez de carro terei um avião, um DHC2-De Havilland Beaver, Wheel-Sky (com rodas e skys - para aterrar na neve e no gelo). É mesmo preciso, para percorrer distâncias grandes e transportar turistas pasmados (my job, pois!) aos lugares mais conhecidos, como as nascentes de água quente de Fairbanks, a cidade de Anchorage - a mais sofisticada do Alaska, as ilhas Kodiak, ou as Diomedes, de onde se vê a Rússia! De um certo modo eu já lá estou! Ou, melhor dizendo, já lá aconteço. É que nas enormes extensões de neve verifica-se algumas vezes o fenómeno conhecido como Fata Morgana: uma miragem, em forma de castelo, e que se chama assim em honra da própria Morgana, pois diz a lenda que é ela que faz aparecer o seu Castelo ?Le Vals Sans Retour? para atrair os incautos. Não sei se devia estar a descrever esta vida sossegada, ideal, e, ainda por cima juntar um link com fotografias tão apelativas, que aconselho todos a explorar. Arrisco-me a que o meu lugar de sonho esteja super povoado quando eu lá chegar, ao Vals Sans Retour, no Alaska. Fata Morgana Avalon, 03 Janeiro, 2004
Usando a máscara do riso
fui espreitar as rosas Olhei-as longamente e assim viçosas lembram as fragrâncias do amor os tons do fogo o gelo ardente Fui acendendo as sombras adormecendo o que doía com gestos que eram lassos outros laços neste dia O frio interno há pouco em mim mordente oculto no meu seio agora é quente Já junto às rosas cantam cotovias Morta nos bastidores esqueci no espelho a personagem que não trago mais à cena Fata Morgana Avalon, 02 Janeiro, 2004
Navegar d?Ideias
Por tudo quanto se reza as miragens explodem. Todas as formigas me lembram ossos; E todos os ossos me lembram catedrais. Fata Morgana
Ao Espelho
Quem és tu que comigo te pareces... de olhos tão aguados lábios sorrindo a ocultar as preces; o corpo nu vencendo os trajos bem cuidados? Mãos que esvoaçam quando sei que são pesadas, que em lugar de arabescos traçariam fundos sulcos Peito tranquilo, de respirações pausadas, onde não explodem os vulcões ocultos. Fata Morgana |
||||||||||||||||||||