Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 27 Fevereiro, 2004

 

 
Um bom fim-de-semana para todos os que aqui passarem, seja para me visitar ou apenas por acaso.
O meu, vou passá-lo aqui, a ignorar tudo o que me aborrece, evidentemente.

Fata Morgana

 

 

 

 
Hoje

Hoje vou ignorar
tudo o que me aborrece
No sonho acordada
que assim me acontece
olharei a lua
e sentirei
que jamais alguém lá esteve

Espantar-me-ei
a desvendar mistérios
conhecidos
bem devagar
porque os mistérios me são queridos

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 25 Fevereiro, 2004

 

 
Senda

Sempre sozinha
entre toda a gente
venho de longe
e longe hei-de ir
quieta
Tenho a visão
de paisagens
repleta
Pareço assim
viver
placidamente

No peito escondo um lume
que faz sede
É essa a força que me instiga e mede

© Fata Morgana

 

 

 

 
Estou sem Maçãs ? para quem não sabe, aqui os comentários são maçãs, e costumo ter três cestos diferentes: um para as Golden, outro para as Granny Smith, outro para as Starking?

Conto resolver o assunto à hora do almoço. Adoro o silêncio, mas não aqui, no Claro Obscuro!

Vou pensar noutra coisa, para me abstrair?

Fata Morgana


Vincent van Gogh - Girassóis I
 

 
Avalon, 20 Fevereiro, 2004

 

 
É a paixão
em toda a sua força

Todos os medos
parecem
devaneios poéticos
e perecem
estrangulados pelos meus dedos

Uma inquietação
constante
persiste no meu coração
radiante
consumido sem lhe querer fugir

É a paixão
Em todo o seu ardor
Prelúdio
e interlúdio do amor

© Fata Morgana


 

 
Avalon, 18 Fevereiro, 2004

 

 
É neste lugar
junto a esta fonte
que as formas do meu corpo
dão raízes
E embrenham-se, espreguiçam-se
felizes
nas profundezas térreas deste monte

E obstinada em me firmar aqui
Esquecida por momentos
da lonjura
Com que espanto olhei o alto e vi
A árvore frágil
mas grande em altura
Num gesto ágil
eu
chegando a ti

© Fata Morgana


Acer Rubrum - Árvore de cuja madeira têm sido feitos os mais belos violinos
 

 
Avalon, 17 Fevereiro, 2004

 

 
Misteriosa estrada
serpenteante
palidamente iluminada
perturbante

Rasguei-a eu
sob os meus passos leves
de alegre e resoluta viajante.
Na avidez do longe
a cada instante
deixei os medos breves
que sentia.

Misteriosa estrada
onde eu vivia.

© Fata Morgana



Le Vals Sans Retour
 

 
Avalon, 15 Fevereiro, 2004

 

 
Costumo ir ao cinema duas vezes por semana (pelo menos!). Mas não sou uma cinéfila, vou sem aquele sentido crítico punitivo de manifestações românticas consideradas fora de moda (acho isso uma pena...) ou de finais felizes, ou melodramaticamente infelizes. Vou porque gosto de cinema, naturalmente e sem preconceitos pseudo-intelectuais (claro que não estou a cascar nos Intelectuais, mas esses não podem ir muito ao cinema, não há assim tantos filmes para eles). Claro que faço questão de ver bom cinema, querendo com isto dizer que gosto de uma boa história, bem desempenhada, inteligente, que transmita ideias, mesmo que o faça com simplicidade, ou com humor, desde que este esteja longe da palhaçada!
Sou sensível a um bom guarda-roupa, às reconstituições históricas bem feitas, a uns bons efeitos especiais. Gosto da caracterização ? fantástica aquela Nicole Kidman nariguda, interpretando Virginia Woolf (The Hours). E uma banda sonora primorosa, seja original ou feita de temas conhecidos, medievais ou de ontem mesmo, não importa, desde que sejam bons e oportunamente relacionados com as cenas, faz-me sempre vibrar.
É evidente que prefiro os filmes que passam a fazer parte de mim para sempre, que entram fundo, com uma força capaz de me fazer pairar durante dias e depois, quando assento, estou diferente, mais completa, mais educada. Mas esses são raríssimos, não posso esperar que todos os filmes sejam como o "Cinema Paraíso"!... Especialmente porque gosto mesmo de ir ao cinema pelo menos duas vezes por semana!



Ontem fui ver ?Girl With a Pearl Earring?, de Peter Webber. Se já tinha ficado muito bem impressionada com a Scarlett Johansson, perfeita ao lado de Bill Murray no "Lost in Translation" ? um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos! ? ontem confirmei a minha opinião.
A rapariga (tem 19 ou 20 anos) provou outra vez ser uma verdadeira actriz. Fantasticamente sóbria e subtil, inspirando, colaborando, enlouquecendo um Colin Firth à altura de si mesmo, que desempenha o papel de Vermeer Van Delft (1632-1675), pintor holandês (de Delft!), da escola flamenga (embora bastante mais intimista e pouco catalogável).

Não vou contar nada, apenas deixar um conselho (!), quase um pedido: não deixem de ver este filme, que ficou quase de fora dos Óscares por nada ter de hollywoodesco nem de tipicamente outsider desse mesmo circuito. A sensação que se tem é a de ter entrado dentro da pintura genial de Jan Vermeer.


Mulher com um Colar de Pérolas; Rapariga com um Copo de Vinho;
Mulher com um Jarro de Água; A Lição de Música.

Alguns destes quadros que aqui deixo, aparecem no filme. Não apenas as telas, também o ambiente, as luzes, - a famosa câmara obscura usada por Vermeer, responsável pela luz e perspectiva invulgares dos seus quadros -, as cenas da sua pintura, os bastidores, as pessoas em movimento nos seus dramas pessoais. As personagens parecem-se imensamente com os modelos e o estúdio do pintor foi recriado com perfeição! A tela que dá o nome ao filme, é uma das mais procuradas de Vermeer, e esta é uma das suas possíveis histórias (uma ficção que só podemos agradecer!).



Nota: O Filme ?Girl With a Pearl Earring? foi nomeado para três Óscares (Direcção Artística; Fotografia; Guarda Roupa); e dois Globos de Ouro, que não ganhou, (Actriz Principal; Banda Sonora)

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 13 Fevereiro, 2004

 

 
Suponho que quase toda a gente já conhece este Alfabeto Humano. Mas é tão bom olhar para estes corpos a formar letras de uma forma tão harmoniosa!... Eu acho que aqueles que já viram, não se importarão de rever!

ALFABETO_HUMANO.pps

Fata Morgana
 

 

 

 
Tenho o hábito de olhar nos olhos as pessoas por quem passo na rua. Sempre tive. Gosto de ver os rostos, as expressões - quase sempre carregadas! Agrada-me apreciar a diversidade de caras tão diferentes, a que apenas uns poucos traços dão origem. Há pessoas muito expressivas, gente que caminha sorrindo no vago, outros com um ar ocupadíssimo. Uns de pasta, outros de cão pela trela, alguns com as mãos crispadas nas pegas das carteiras a tiracolo, outros com bebés ao colo, ou pela mão, ou ainda num carrinho. Vejo braços livres, a balançar harmoniosamente ao ritmo dos passos, outros hirtos, como se pesassem muito, muito!
Ontem li no blog A Forma do Jazz a Vir, umas considerações muito cómicas que o Nuno Catarino teceu sobre a autêntica perseguição que as personagens da blogosfera estão a exercer nele. O Nuno tem andado pela rua, pelos cafés, centros comerciais, enfim, pelos lugares onde pára!, a pensar em nós ? sim nós, que lemos e comentamos o Blog dele! Põe-se a olhar para toda a gente e a tentar imaginar que podemos estar ali, pertinho...
Pois, Nuno, és tu e eu! Eu também nunca mais andei como dantes, só a olhar caras anónimas. Agora tenho a mania de tentar imaginar quem são: tu, o Hartley, a Miss Kafka, todos, todos passam pelas minhas suposições, é impossível enumerá-los.
Fora de Portugal, é muito comum encontrar fotografias dos autores nos seus blogs e homepages. Cá não, parece uma espécie de tabu... Será?! Pois vou quebrá-lo - como já o fez a Wild Berry! Aqui estou eu, nas minhas três versões possíveis - há uma quarta, com permanente!, mas foi tal flop que nunca mais!!!
E vou deixar uma ali em cima ? do Verão passado, como alguns bem sabem! - a receber quem vier. Ah, se me virem na rua a olhar bem nos vossos olhos, lembrem-se que não vi fotografias vossas... e venham-me dizer "olá!"

Pronto, Valentina, considera que tenho tanto gosto em te mostrar que tipo de bruxinha sou como pena de que vás fazer um interregno bloguístico!

(Podíamos ir todos lá e deixar tantas pegadas que ela ficasse entretida a segui-las...)



© Fata Morgana
 

 
Avalon, 11 Fevereiro, 2004

 

 
Considerações de Limiar

Nunca aprendi nada,
só fiquei a suspeitar de algumas coisas.
Não quero certezas, nenhumas certezas;
apenas a liberdade para acreditar.
Não idealizo, sonho.
Não nego, ironizo.

Falta-me uma coisa qualquer.
Deve ser a coisa que explica o que eu não quero saber.

© Fata Morgana

 

 

 

 


Eu faço calendários
com pedrinhas
Seixos a representarem Setembros
Equinócios vários
Assinalo dias extraordinários
E quase todos são invenções minhas.

Eu faço dicionários
com folhas e flores
Pétalas representam mentiras
com sentidos vários
Espinhos de rosa nos motivos extraordinários
E em quase todos uso lindas cores.

Eu leio histórias
que escrevo com estrelas
Vejo-as no céu
e invento-as sempre belas
como as memórias
do que nunca aconteceu.

© Fata Morgana




 

 
Avalon, 06 Fevereiro, 2004

 

 
O meu olhar no teu
enche-se de constelações
És o meu hóspede
inesperadamente o meu

Não te possuo
ainda
e quem sabe nunca

Apenas te olho
e sem saber sorrio
E o riso, sem porquê,
veio do frio
lugar que não se vê

Tudo isto me lembra jejuns, macerações
Mas nada tem de sacro
a não ser, talvez, o almiscarado simulacro
de todas as humanas seduções

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 04 Fevereiro, 2004

 

 
O Riso e as Lágrimas

Vagaroso manto
feito de sopro
de encanto
pende dos meus ombros.
Trago-o pelas lajes do tempo
lentamente
atrás de mim o arrasto
mudamente
e nunca sem deixar rasto.

Os mutismos
acontecem sem razão.
Escondido no meu peito um coração
bate
mas não é meu
dá-te
a substância do breu.

E eu, a voz de única e enorme lágrima
diluída em canto,
rasgo a escuridão
que é nada
e escorre do meu olho
a sonora gargalhada.

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 02 Fevereiro, 2004

 

 
Poema Sinfónico

Gosto de sentir a musicalidade de um poema, relacioná-la com as palavras. Quando, por exemplo, a mensagem é dura e as palavras formam frases difíceis, que soam abruptas, o conteúdo é reforçado pelos recursos estilísticos; mas se a mesma dureza surge expressa em palavras fluidas e frases serpenteantes, que escorrem com facilidade pela nossa língua, a oposição conteúdo-forma pode ser igualmente interessantíssima.
Hoje fiz uma escolha especial. Se, após uma leitura, a dissermos em voz alta, o resultado é...


Poema concretista

Filomena Adriana Isabel Assunção
Patrícia Andreia Rita Aurora Joana
Antónia Augusta Rosa Encarnação
Sara Sandra Celeste Miriam Ana

Judite Márcia Emília Dores Maria
Elvira Elisabete Júlia João
Josefa Arminda Lúcia Aida Sofia
Cristina Estrela Diana Conceição

Mariana Marta Acácia Lurdes Laura
Margarida Inês Silvina Sílvia Neuza
Paloma Elisa Elsa Alda Isaura

Beatriz Ângela Helena Luz Tereza
Manuela Ilda Rosário Rute Maura...
Qual de todas deixou a luz acesa?

Bernardo Pinto de Almeida
in ?Hotel Spleen?


Quero aqui guardar, no meu canto predilecto, este poema curioso. O autor, Bernardo Pinto de Almeida, crítico e historiador da arte, escritor e poeta, exprime de um modo assaz invulgar aquilo que os seus olhos vêem e também o que pensa e sente. Gosto de como ele tornou uma sucessão de nomes de mulheres, em algo tão sugestivo! Alguns versos são doces, soam doces, arredondados, como formas femininas. Outros são mais bicudos, com vértices, a sugerir elementos de tensão. O todo diz tanto, que me surpreendo, pois são apenas nomes!
Fico, assim, com a impressão de que nem todos precisarão de escrever uma Ode intitulada ?As Mulheres da Minha Vida?. Poderia ser suficiente enumerá-las, conjugando os sons dos nomes das que fizeram a diferança, com o travo que tenham deixado na vida do poeta. Este, só aparece no final com uma pergunta factual. E essa pergunta faz-me divagar, por muito "concretista" que seja para quem assim a faz. Gosto muito deste poema, que retirei do MEU exemplar do livro "Hotel Spleen", esperando que o autor não me leve a mal roubar-lho emprestado.

© Fata Morgana
 

 
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