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Avalon, 31 Março, 2004
Lamento d?Ariana Eu disse tudo gastei o desalento Chorei todo o passado meu e teu. Agora já não sei pergunta ao vento São dele as cinzas de tudo o que ardeu. Se te lembras do amor que foi o nosso Pouco durou bem sei dura é a vida Conforma-te, por ti já nada posso Não tenho temperamento de esquecida © Fata Morgana Avalon, 30 Março, 2004
Detail of: Woman Writing a Letter, by Vermeer Caro Senhor Stendhal: Começo por lhe apresentar os meus sinceros respeitos. Não resisto a acrescentar que me agrada muito escrever-lhe e inverter a nossa relação: agora quem me lê é V. Excelência! Eu sou a sua leitora Morgana (sim, chamam-me a Fada!). Conhece-me, evidentemente ? não sei porque não me mencionou no seu tratado acerca do amor? nem me deixou entrar n? O Vermelho e o Negro - Julien Sorel ter-lhe-ia ficado gratíssimo! Mas adiante, não quero desviar-me dos meus intentos. Escrevo-lhe porque me encontro numa situação um bocadinho embaraçosa, que passo a descrever-lhe: Eu tenho um Blog que se chama Fata Morgana ou o Claro Obscuro. Tal coisa não existia no seu tempo mas, em traços largos, explico-lhe do que se trata. É um lugar virtual onde escrevemos o que nos apetece, sem canetas, nem folhas de papel, sem virar páginas. Temos visitas, que também vêm escrever opiniões, assim como nós vamos opinar aos Blogs das visitas. Zangamo-nos muito quando alguém fica uns dias sem escrever nada. Também há quem se engalfinhe por causa destas coisas, por não aceitar bem as opiniões. De vez em quando o ambiente parece que gela... outras vezes é tudo mel e rosas (se isto fosse no século XIX o Senhor Stendhal certamente que escreveria um tratado sobre Blogs!). Felizmente para nós, quanto a isso ficámos fora do alcance da sua pena. Talvez agora já possa compreender a tal situação embaraçosa que lhe venho contar. Durante quatro dias não pude blogar (é feio mas diz-se assim). Nada, nem um poema, nem uma história ou um texto temático em jeito de artigo ? como o do Nureyev (sei que não conhece mas pode encontrá-lo no Claro Obscuro). Ontem à noite, sabendo que hoje iria ter tempo para dedicar à escrita, deixei um recado para as minhas visitas avisando que ia escrever (o Phileas estava já um bocado impaciente, acusando-me até de só querer andar de trenó!). Pareceu-me pouco. Então citei-o a si, senhor Stendhal, postei (também se chama postar!) uma frase retirada Do Amor. Era para abrilhantar o simples recadito, deixar algo de bonito e inspirador de reflexões sobre o meu sentimento favorito. Ainda que nas suas palavras, seria algo que eu transmitia. Mas todos os que me leram, retiraram da forma algo desastrada e pouco precisa com que (mal) me expliquei, que eu iria hoje discorrer sobre o amor, mais precisamente sobre o saudável receio como base de felicidade no amor, e escrever sobre isso. E agora, Senhor Stendhal? E agora?! É que não estou para aí virada!? Hoje isso até me parece um assunto chatí? aborrecidíssimo! Se eu pudesse entrar no seu livro, na página onde o Senhor escreveu as palavras citadas ? se ele fosse o seu Blog, chamado Do Amor, podia! -, deixar-lhe-ia o seguinte comentário: O que tu foste escrever, Marie-Henri Beyle!!!! (aqui poria um smile a piscar o olho com cumplicidade, pois ambos sabemos que eu sei que tu és o Stendhal). Citei-te e agora estou metida num imbróglio! Não queres ir lá tu dizer qualquer coisinha do amor?! (tens link, claro!) Link, Senhor, é uma frasezita sublinhada, uma hiper ligação (atenção, não estou a falar de amor!) sobre a qual, dando um clic com o rato? Bem, esqueça completamente tudo isto. Desanimei de contar com a sua ajuda! Não estou para lhe explicar o que se tem feito nos últimos cento e muitos anos. Perdoe tê-lo acordado de forma tão estremunhada, ter dito tantas coisas incompreensíveis para si ? que é tão inteligente! ? e sair assim, sem mais explicações. Vou ver se os seus últimos escritos acusam a confusão que lhe causei (!) Sua leitora e amiga, © Fata Morgana
O Saudável Receio Como Base de Felicidade no Amor
Sempre uma pequena dúvida a acalmar, eis o que faz a sede de todos os instantes, eis o que constitui a vida do amor feliz. Como o receio nunca o abandona, os seus prazeres não podem nunca entediar. O carácter desta felicidade é a sua extrema seriedade. Stendhal, in "Do Amor" Amanhã vou escrever, eu (não que vá fazer melhor que o Stendhal!...) Fata Morgana Avalon, 25 Março, 2004
Eu tenho horas boas do tempo escondidas pelo tempo esquecidas pertencem-me a mim Num gesto risonho eu guardo e esconjuro o desejo puro a quedar-se assim. Não que o tempo tenha fim ou o desejo, jamais. Mas eu gosto quando os vejo em luta com frenesim pois são eternos rivais. © Fata Morgana Avalon, 23 Março, 2004
Adeus Toco no teu rosto ao de leve com as pontas dos meus dedos cumes de neve que mal sinto A frieza dessensibiliza E no cais o barco precisa do seu passageiro: eu © Fata Morgana Avalon, 22 Março, 2004
A lupa não aumenta a lógica do que eu te disse. Apenas revela algumas limalhas que, devido ao atrito, se soltaram e caídas nas gretas do meu pensamento, magoam. Mais ainda porque a lupa te permite vê-las e usá-las como argumento contra mim. Lascas de mim, não lhes buscas a essência - darias comigo e bem o sabes! Ages como se fossem desperdícios, lixo que eu devia ter varrido e não varri. Já podes guardar a lupa, antes que eu a use para te mostrar o que jaz nas gretas do meu pensamento ? os argumentos que atropelaste com uma condução de espalhafato veloz, que me deixou muda, colada ao assento.
Ao fim de uns instantes em que não penso, apenas sinto, sem saber se o líquido em que mergulhei é feito de lágrimas, sangue ou suor, ofereces-me aquilo porque me bati tão veementemente. Primeiro não quero. Mas percebo a sinceridade do teu gesto rasgado. É carinhoso. É genuíno! Se insistir na negação, as feridas vão infectar, porque o orgulho é um veneno muito forte. Agora sou eu que tenho a lupa e vejo que, afinal, poucas limalhas se soltaram e caíram nas gretas do meu pensamento. Foram menos ainda as que magoaram. Vejo-te a curar-me cada pequeno ferimento, sem te lembrares mais de ti. Noto que também tens marcas que devem ter doído. Trato logo de as fazer sarar. Agora partilhamos a lupa, certificando-nos de que não restam vestígios de dor. Sorrimos um para o outro, um sorriso absoluto. No teu rosto, como no meu, a expressão do amor. Guardamos a nossa lupa das discussões, com uma espécie de cuidado muito próximo do carinho. Sabemos muito bem como usá-la e que é preciosa. © Fata Morgana
The Lovers (1923) - Pablo Picasso
?O mais forte nunca é suficientemente forte se não conseguir transformar a sua força em direito e a obediência em dever?
Rousseau in Contrato Social Os dirigentes do mundo inteiro deviam ser periodicamente submetidos a umas aulas de Filosofia! Fata Morgana Avalon, 19 Março, 2004
Confissões I I I ? Com Certeza! Trabalhei durante uns tempos nos escritórios de uma grande empresa importadora. Foi o meu primeiro emprego, ainda estava a estudar e já não me apetecia andar à pala da mesada. Suponhamos que a tal empresa se chamava Importex - inventei um nome feioso porque nunca gostei de trabalho de escritório, foi mesmo só para ganhar uns cobres. Mas quero contar uma coisa que se passou comigo num táxi, e preciso de explicar uns pormenores relevantes para o caso , que obrigam a que algum nome seja atribuído à empresa, pronto. Eu trabalhava na contabilidade, juntamente com mais cinco pessoas. Cada um tinha um telefone na secretária, o que, acho eu, é habitual. Atendíamos os telefonemas internos que nos eram feitos, e como não havia telefonista, quando a chamada vinha do exterior (o toque era diferente!), atendia quem estivesse menos ocupado. Bastava clicar na linha - piscava em todos os telefones - e atender. Ninguém se importava, aquilo quebrava a rotina. Tínhamos ordens para levantar o auscultador e dizer simpaticamente ?Importex, bom dia? - ou boa tarde, claro, conforme a hora! Eu (que sou das artes e das letras) lá andava, todo o dia, a preencher formulários de bancos, a calcular juros de amortizações, descontos de pronto pagamento, enfim, aquilo era uma grande seca, sempre contas e mais contas, que eu fazia (no pc, claro!) muito concentrada, porque o facto de não apreciar aquele trabalho dava-me medo que alguma falha minha trouxesse problemas à empresa - por acaso, nunca aconteceu. E de vez em quando... ?Importex, boa tarde!?, ao que se seguia uma pequena conversa e o reencaminhamento da chamada, ou não, se o assunto fosse comigo. Acho que acabei por me habituar a que uma interrupção da minha concentração fosse seguida de um ?Importex, boa tarde!? (ou bom dia! Porque será que fixei mais o boa tarde?!). Uma vez, em Janeiro, foi preciso acabar o inventário até ao final do dia e ficámos lá todos. Aquilo foi quase até às nove da noite e eu depois apanhei um táxi, já mais do que perdida a habitual boleia de uma dupla vizinha (de morada e de trabalho). Sentei-me no banco de trás do carro e mergulhei imediatamente nos meus pensamentos, esqueci-me onde estava. Fiz a viagem física sem lhe prestar atenção nenhuma, entregue a divagações que nada tinham a ver com as voltas do táxi (o taxista era calado!). Quando parámos em frente a minha casa, o senhor, naturalmente, olhou para o taxímetro, depois para mim. Vendo-me impávida, disse-me quanto custara a corrida. Eu pensei vagamente - ah, pois, mais contas! Abri a carteira, contei o dinheiro, dei-lho... e saí. Mas sabia que faltava alguma coisa... uma coisa em forma de frase - era um ?obrigada e boa noite?, claro - mas eu atirei-lhe sonoramente com o ?Importex, boa tarde!?, batendo com a porta logo a seguir, e ai!... ainda por cima com toda a força! Por acaso, reparei na cara de pasmo do homem, todo voltado para trás e abaixado, para me conseguir ver. Depois tudo se passou num daqueles relâmpagos de pessoa distraída que é colhida de chofre pela realidade. Percebi o que tinha dito e também que fora uma bruta com a porta; e não sei o que se passou na minha cabeça que me fez ter a ideia rocambolesca de emendar a asneira, em vez de desaparecer rapidamente para dentro de casa. Abri novamente a porta do táxi, com a única intenção de a tornar a fechar como devia ser - verdade! Só que, infelizmente para mim, em vez do delicado ?com licença? saiu-me um absolutamente disparatado ?com certeza!?, dito com um ar suave e ajuizado que só confirmava as impressões que eu percebia no rosto do taxista - olha! parecia tão sossegada e afinal é completamente chalada!!!! Tornei a bater com a porta ? era o raio da porta que não fechava devagar! Ele, convencido de que tinha transportado uma doida, não queria perder eventuais desenvolvimentos, e não parava de olhar, cada vez mais abaixado para me poder ver bem. Finalmente decidi-me a correr para dentro de casa. Foi dificílimo sacar da chave e abrir a porta, e quando me voltei para a fechar, o táxi lá estava, imóvel, e o taxista de olhos atentamente pregados em mim. Ainda passei por maluca mais um bocadinho, pois no dia seguinte tive vários pequenos ataques de riso no trabalho, sempre que alguém atendia o telefone, coisa que eu não fiz. © Fata Morgana Avalon, 17 Março, 2004
O Livro das Saudades
O ballet marcou presença na minha vida. Como uma pessoa que eu tivesse amado mas decidisse abandonar por me fazer sofrer, chegou trazendo alegria e algum receio; partiu deixando alívio e muita saudade. Que não tem como passar. Se passasse, eu deixaria de ser eu. Para mim, o ballet sempre teve um rosto, um corpo, uma presença e um nome: Nureyev. Quis ir para o ballet por causa dele; foi a minha inspiração enquanto lá andei ? sim, imaginei sempre qualquer exercício, ainda que simplório, como um maravilhoso pas-de-deux, em que eu era eu e o meu par era ele; e deixei porque, para mim, dançar ballet nunca poderia ser senão a minha vida. E a minha vida tomou um rumo em que o ballet jamais poderia estar acima de tudo. De repente amei outras coisas com mais força. Nureyev desapareceu das minhas aulas. E eu desisti.
Rudi Para mim é muito difícil escrever algo de objectivo acerca de Nureyev, porque o adoro a ponto de perder o sentido crítico. Mas quero muito escrever sobre ele. Por isso hoje vou apenas enumerar alguns dados históricos e biográficos, com o coração ao largo. Rudi nasceu em Ufa, na Basquíria, longe dos grandes teatros e companhias de bailado. Aprendeu na escola as danças do folclore da sua terra, como todas as crianças, e patinava nos lagos gelados, como toda a gente. Mas fazia ambas as coisas de um modo que despertou imediatamente o desagrado de seu pai, militar de carreira, que percebeu que não era o folclore nem a patinagem que a criança buscava e sim a expressão veemente de si mesmo, através da dança. Rudi começou a dançar mais tarde do que o habitual e sem o conhecimento, ou aprovação, dos pais. Saía para patinar e ia para casa da sua primeira professora, uma obscura bailarina aposentada ? não uma solista, apenas uma das do corpo de ballet do longínquo Kirov ? que lhe ensinou tudo quanto sabia e o amou mais do que à própria filha. Esta, acabou por oferecer ao bailarino a única coisa especial que herdara dos pais: um pratinho de porcelana da Rússia dos Czares, na sua sumptuosa caixa de madeira (quando Rudi morreu foi leiloado pela Sothebys por um preço exorbitante).
Teatro Kirov Aos 16 anos, já com conhecimento dos desolados pais, apresentou-se em Leninegrado para o exame de entrada na conhecida e prestigiada Escola de Dança da cidade, que funcionava no edifício do Teatro Kirov. Conseguiu passar. Apesar da sua técnica pouco perfeita, impressionou favoravelmente o júri, que lhe viu um não-sei-o-quê de verdadeiramente único. Rudi deveria mudar-se para Leninegrado, onde passaria a viver a expensas do Partido. A viagem de comboio, porém, não estava incluída, e Rudi desesperava pois não tinha mais dinheiro. Valeu-lhe o pai, contra todas as espectativas, oferecendo-lhe quanto andara a juntar para a compra de uma espingarda automática ? um pormenor passível de diversas interpretações ? e tudo acabou por acontecer como o Rudi sonhava desde pequeno: afinal, já estava no Kirov, ainda que como aluno. Aqui conheceu Aleksandr Pushkin, o professor que nunca cessou de venerar, mesmo no exílio, transmitindo, mais tarde, aos seus próprios alunos as palavras ouvidas ao Mestre.
Porta da Escola de Dança de Leninegrado (traseiras do Teatro Kirov) 15 de Abril de 1950 Rudik, A magia de uma dança, meu jovem, é algo puramente acidental. O que há de irónico nisto é que tens de trabalhar mais afincadamente do que qualquer outra pessoa para que o acidente ocorra. Então, quando acontece, é a única coisa na tua vida com a garantia de que não volta a acontecer. Isto, para algumas pessoas, é um infeliz estado de coisas, no entanto, para outras, é o único êxtase. Talvez então, devesses esquecer tudo o que te disse e lembrar-te apenas disto: a verdadeira beleza na vida é essa beleza que por vezes ocorre. Sacha. (Aleksandr Pushkin) Nureyev era tremendamente narcisista, e tinha o desejo veemente de conseguir os seus objectivos e ser como Nijinski, o melhor bailarino do mundo. Nijinski tinha ficado conhecido por conseguir dar a ilusão de parar, por instantes, no ar, quando dava saltos. E rapidamente Rudi lhe era comparado, pois as suas paragens no ar duravam instantes que pareciam cada vez mais longos! Não se preocupava mesmo nada em ser bom colega. Procurava o melhor lugar na barra, a melhor posição frente ao espelho, a melhor orientação relativamente a Pushkin, cujos ensinamentos queria escutar claramente e observar de um ângulo perfeito. Não era condescendente com parceiras lesionadas, literalmente trocando-as por outras em perfeita forma, pois sabia muito bem que não poderia tirar partido de um exercício se tivesse que ter em conta o pulso lesionado da companheira. Também não esperava a condescendência dos outros. Nem a tinha. ?Vemo-lo no estúdio do sótão, à luz da manhã, mais cedo do que qualquer outra pessoa, executando por intuição um movimento que nos levou três dias a aprender (?) Vemo-lo na Rua Rossi de bota alta acima da barriga da perna e o seu longo lenço ao pescoço roçando o chão atrás dele; vemo-lo com a sua gola revirada, mãos no fundo dos bolsos, os sapatos com protectores de metal que fazem saltar faíscas; (?) vemo-lo a caminhar rindo às gargalhadas; vemo-lo a passar por nós na rua sem sequer mover os olhos na nossa direcção e pensamos que ele está um pouco zangado ou solitário ou perdido e, de repente, atravessa a avenida na direcção da rapariga chilena, que abriu os braços para ele; vemo-lo partir, sentimo-nos vazios (?) sentamo-nos ali a olhar fixamente, com vontade de lhe perguntar se alguma vez conheceu alguém de quem goste mais do que ele próprio, mas já sabemos qual é a resposta, por isso não fazemos a pergunta. (?) vemo-lo a rasgar um ligamento e deliciamo-nos com a notícia, mas depois, vemo-lo a dançar e imaginamos se o nosso ódio ajudou a curar-lhe o tornozelo; vemo-lo, antes da aula, a praticar a variação de Kitri, o seu pé em meia ponta-alta, toda a gente fitando deslumbrada, está a dançar um papel de mulher e até as raparigas fazem um compasso de espera para observar; vemo-lo a estudar as Pepitas originais, (?) podendo mostrar-nos qualquer combinação com as mãos, os próprios dedos num bailado complicado, duro e fluído; (?) vemo-lo mesmo a chamar Pushkin pelo diminuitivo Sacha; vemo-lo a escorraçar outros estudantes quando falham um passo e vemos a forma como aceita os seus olhares, os seus gritos, os seus pequenos ódios; vemo-lo a irromper pelo gabinete do director e a chamar-lhe idiota (?); mais tarde vemo-lo a chorar desalmadamente por ter a certeza de que será recambiado para casa e, mais tarde ainda, vemo-lo a fazer o pino à porta do gabinete do director, com um sorriso invertido na cara, até que Pushkin aparece para o salvar mais uma vez da expulsão. (?) vemo-lo a fazer o que costumávamos fazer; depois, vemo-lo a executar melhor do que nós próprios e depois vemos que não precisa de ir até ao fim, porque aquilo passou a fazer parte dele (?); vemo-lo a fingir impavidez junto ao quadro de avisos quando lhe é atribuído o papel que sempre desejámos. (?) vemos o próprio Pushkin dizendo que um dia entrará directamente no Kirov como solista.? In ?O Bailarino? de Colum McCann
Nureyev na Escola de Dança Concentrava-se apaixonadamente em vencer todos os obstáculos entre si e a perfeição na dança. Tinha a habilidade de deixar a sua marca em tudo o que fazia, em tudo o que tocava, e um instinto profundamente apurado, que o conduzia ao âmago de tudo quanto lhe interessava, como se soubesse onde cortar caminho para ir sempre a direito. O que não significa que não fosse um trabalhador árduo ? era incansável! O seu modo rebelde e excêntrico deu muito que falar, só a influência de Pushkin e o seu imenso talento lhe valeram o curso terminado e a entrada para solista da Companhia de Bailado do Kirov, onde logo se tornou famoso. Em 1961, durante uma tournée da Companhia pela Europa, Rudolf Nureyev largou a correr em pleno aeroporto, em Paris, onde pediu asilo político. Se já era conhecido e apreciado na Europa, após o auto-exílio tornou-se uma lenda viva, objecto constante de acesa idolatria por parte do público de todo o mundo. 1961 16 Juin. A l?aéroport du Bourget, alors que la Compagnie embarque pour Londres, Noureev se voit signifier que lui seul retourne à Moscou. Il «choisit la liberté», échappe aux agents du KGB et demande le droit d?asile. En quelques heures, il devient une star, proie des médias. In Rudolf Noureev à Paris (livro publicado em 1993 pela Opéra National de Paris) Foi logo convidado para Etoile do Ballet de L?Opéra de Paris de que mais tarde seria, também, o Director ? lugares que ocupou de forma inspirada e inspiradora, e que conservou ao longo da sua vida. Foi neste palco que dançou pela última vez em Outubro de 1990, três anos antes de morrer. Porém, muitas outras igualmente prestigiadas companhias de bailado do mundo queriam ter a honra de o incluír nos seus elencos, e Nureyev era Bailarino Convidado em todos os palcos do mundo livre. Destaco o Royal Ballet de Covent Garden, em 1962, onde pela primeira vez dançou com Margot Fonteyn ? dando origem a um par mítico na História da Dança. E também o Ballet Royal da Dinamarca, onde conheceu Erik Bruhn, outro eminente bailarino, com quem também formou um par mítico, mas desta vez romântico (embora também dançassem juntos).
Margot Fonteyn A vida pessoal de Rudolf Nureyev conheceu um período dourado nesta época, que durou até finais dos anos 70. A profunda amizade mutua e a perfeita sintonia artística desenvolvidas com Margot Fonteyn ? vinte anos mais velha e experiente; e a estabilidade da sua relação com Erik Bruhn, que possuía um temperamento fiel ? ao contrário de Rudi - contribuíram para isso. Claro que nunca deixou de ser espalhafatoso e não perdeu um pingo de carisma ou originalidade. Nureyev era e seria sempre Nureyev, o homem cujo nome se ouvia constantemente no mundo artístico, mas não só, pronunciado com os mais diversos sotaques; o homem que fazia suspirar todas as mulheres ? muitas adoptaram o penteado à Nureev! Outras ficavam horas à porta dos teatros só para o verem sair, e era comum gritarem ?queremos Nureev nu!?. Paris, 1961 O que foi lançado sobre o palco durante a primeira temporada de Rudolf Nureyev em Paris: dez notas de cem francos, atadas com um elástico; um pacote de chá russo; (?) narcisos roubados dos jardins do Louvre, de tal forma que os jardineiros tiveram que trabalhar em horário extraordinário (?) para garantir que os canteiros não fossem de novo pilhados; lírios brancos com cêntimos colados com fita gomada na base dos caules, ganhando o peso perfeito para atingirem o palco; (?) um casaco de peles que navegou pelo ar na décima segunda noite (?) dezoito peças de roupa interior feminina ? um fenómeno nunca antes presenciado no teatro ? (?) uma das quais ele apanhou após a última descida do pano, deliciando os assistentes de palco ao cheirá-la ostensivamente; um retrato do busto do cosmonauta Yuri Gagarine, com uma mensagem na base que dizia : Plana, Rudi, Plana! (?) dúzias de fotografias eróticas com nomes e números de telefone de mulheres rabiscados no verso; (?) vidro partido lançado por contestatários comunistas para interromper o espectáculo (?) ameaças de morte; chaves de hotel; cartas de amor; (?) (A lista é bastante mais longa, e já apareceu diversas vezes em revistas e jornais, desde a primeira temporada francesa de Rudolf Nureyev, e também em pelo menos duas das suas biografias.) Na mesma semana o seu rosto foi capa da Time e da Newsweek, ambas com artigos que comentavam a revolução por ele operada no bailado, sobretudo na importância e intensidade dramática conferidas aos papéis masculinos. Justiça lhe seja feita, Nureyev mudou radicalmente a carreira dos bailarinos solistas, tornando-a tão glamorosa como a sua equivalente feminina, aumentando-lhe a par com o protagonismo, o nível de exigência e de trabalho. Os média perseguiam-no, sempre em busca de um exclusivo ? uma imagem, uma história em torno do artista fetiche. A Cosmopolitain dedicou-lhe um grande artigo de fundo intitulado ?O Homem Mais Belo do Mundo? (é por isso que nunca digo mal desta revista). E até os soviéticos publicavam pequenas notícias - desapaixonadas, mas publicavam! - sobre os seus triunfos. Pouco depois da sua fuga, mencionaram-no como traidor à Pátria num documento oficial, invocando razões algo cómicas: Informamos por este meio que, a 6 de Junho de 1961, NUREYEV Rudolfo Hametovich, nascido em 1938, tártaro, não membro do Partido, natural de Ufa, artista do Teatro Kirov de Leninegrado, que era membro da companhia itinerante em França, traiu a Mãe Pátria em Paris. NUREYEV violou as regras de conduta dos cidadãos soviéticos no estrangeiro, saiu para a cidade e regressou ao hotel ao fim da noite. (?) In absentia, foi condenado, em Novembro de 1961, a sete anos de trabalhos forçados. (?) Comité de Ufa de Segurança do Estado Fevereiro de 1962 Rudi, cedo juntou à carreira de bailarino, a de coreógrafo e professor, pelo prazer que ambas lhe davam. Os bailarinos geralmente voltam-se para estes trabalhos quando pretendem abrandar o ritmo das suas carreiras ou quando deixam de dançar, mas Nureyev conciliou-os por gosto, tornando-os complementares, interligados. Revelou igual talento para ambas as coisas. Coreografava de acordo com a sua perspectiva inovadora do ballet; preparava os seus alunos para interpretações menos ?carte postal?, mais cheias de exigências, de subtilezas, mas sem jamais sacrificar minimamente a emoção. Muitas vezes parecia quase psicanalisar as personagens. Isto requeria um rigor enorme, um perfeito domínio técnico e... muito trabalho! A princípio as suas medidas foram contestadas. Mas quase logo reconhecidas como necessárias. Ainda hoje se dançam as suas coreografias. Ainda hoje as gerações de alunos de ballet escutam dos seus mestres as palavras que Nureyev costumava dizer, as imagens duras, muito cruas, que usava, para transmitir a importância do trabalho árduo, da técnica, da criatividade na interpretação de um papel. Ainda hoje, 11 anos após a sua morte (a 6 de janeiro de 1993), Nureyev é a dança. Ou a dança é que é Nureyev. © Fata Morgana Leituras indispensáveis para quem gosta de ballet: ?Autobiography? de Rudolf Nureyev ?Nureyev, His Life? de Diane Solway ?Nureyev: Aspects of the Dancer? de John Percival ?Rudolf Noureev à Paris? um tributo da Opéra Nacional de Paris ?O Bailarino? de Colum McCann Avalon, 12 Março, 2004
Tenho estado pouco tempo aqui no meu castelo e também pouco tenho andado pelos meus caminhos favoritos, que me levam a visitar outros mundos, outros sonhos, outros castelos - os vossos. Ainda falta uma semana para voltar tudo ao ritmo habitual. E, talvez por sentir a falta de escrever como habitualmente, esta menção ao contar do tempo deu-me vontade de dizer mais alguma coisa. Eu meço o tempo como os antigos, olho para a minha sombra e faço as contas. Não uso relógio. Não gosto do objecto, aparentemente desligado do movimento da terra, ao contrário dos relógios de sol. Os relógios (analógicos ou digitais) sejam de pulso, de parede, de campanário, ou outros, são meros contadores de algo que não existe - um pouco como os relógios de água, só que estes possuem verdadeiro encanto! Quanto a serem, actualmente, também acessórios de moda, é indiscutível. Eu é que não sigo muito as modas, apenas o indispensável, e prefiro que os poucos acessórios que uso sejam meramente estéticos e não utilitários. Se me esquecer deles não fico mais feia - apenas menos enfeitada - nem me sinto perdida, porque a minha sombra está sempre comigo. Estas coisas têm assumidamente ocultos sentidos. Óbvios, mesmo se ocultos. Desejo a todos os meus amigos e conhecidos, aos quase desconhecidos e aos completamente desconhecidos, que aqui venham - de visita, de passagem, ou por acaso - um bom fim-de-semana. O meu, à excepção de duas idas ao cinema - sessões da meia-noite, 6ª e Sábado -, vai ser passado a voar...
... mas não assim (sempre quis ter umas asas. Parece-me que vai ser um desejo sempre insatisfeito, bolas!) © Fata Morgana Avalon, 09 Março, 2004
Confissões I I - Na minha vida nem tudo é poesia...
Manhã bonita, o sol a entrar pela janela e a invadir os cantos da sala, virada a nascente. As plantas, todas contentes, as folhinhas todas voltadas para as janelas, parecia que me diziam ? vai lá para fora, não fiques aqui encafuada! Eu ia lá para fora. Ia ao banco, depois aos correios. Por isso, apesar do dia lindíssimo, não me apetecia nada sair, pois ia tratar de coisas chatas. Ainda se pudesse ir dar um passeio!, pensei cobiçosa de tanto sol, cheia de vontade de o sentir na pele - já sei, faz mal, mas eu gosto e uso um creme com filtro para UVA e UVB (apontamento pós moderno). O apelo era tão forte que resolvi ir tratar dos fretes a pé. O banco fica perto de minha casa, uns quinze minutos. Os correios nem tanto? mas a ideia era precisamente andar lá fora, ao sol! Fui meter-me no duche. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço com toda a calma, a olhar para os pássaros que voavam, chilreando contentes, no jardim em frente ao prédio. Era um daqueles dias em que não trabalho e faço tudo para não pensar nos outros dias, em que trabalho quase a dobrar. Deixei a água escorrer morna, enquanto cantava umas árias de As Bodas de Fígaro ? tenho uns vizinhos compreensivos e, verdade seja dita, não canto mal, mas claro que é um bocado ridículo porque a voz dá sempre uns estremeções conforme me vou ensaboando (o costume!). Findo o duche, sequei-me e passei um creme no corpo, com gestos vigorosos, fazendo parecer que a Condessa de Almaviva cantava a sua Kavatine (o belíssimo Porgi Amor) no epicentro de um sismo, em vez de melancolicamente estendida sobre o leito. Vesti-me rapidamente, ansiosa por me ver na rua! O creme não tinha penetrado completamente na pele, os cabelos estavam molhados, mas não me importei, estava com pressa. Intermezzo (aparentemente despropositado a meio da história do Dia Lindo! ? mas? nunca se fiem nas aparências, este é importante): [Não uso collants. Eu detesto collants! A minha regra é: saias com rachas, mini-saias, etc, requerem collants; calças e saias médias ou compridas, não! Com essas uso meias de liga, muito mais leves e sexy. Mesmo não se vendo, as meias são poderosas, bulem com o ego de uma mulher! As ligas não passam de um ornamento, não apertam nada. Não é necessário, pois a renda esconde, do lado de dentro, que fica em contacto com a pele, duas tirinhas de silicone a toda a volta, que aquecem com o calor do corpo e prendem as meias sem prender a circulação. Nada de elásticos, portanto. Nesse dia vesti uma saia comprida, por isso? calcei as ditas meias.] Final do Intermezzo. Finalmente fui lá para fora, e meti-me ao caminho, muito bem disposta. Durante alguns metros, não aconteceu coisa de monta. Porém, mais adiante, a uns cem metros de casa, uma meia mexeu-se. Descontraidamente, parei e dei-lhe um toque, um leve puxão para cima ? talvez não a tivesse posto no lugar, quando a calcei. Continuei, gozando o dia quente que assim viera a meio da estação fria. Dei mais uns passos, e a teimosa da meia tornou a mexer-se. Mau! ? pensei enquanto repetia o gesto, e - ai! - cumprimentava um condómino (!) Andei mais um bocadinho, para aumentar a distância entre mim e o condómino, e tornei a parar. Agarrei na liga, por cima da saia, claro!, e puxei-a bem para cima. Foi quando a meia da outra perna escorregou uns centímetros. Puxei-a também. Bolas!, exclamei para mim mesma, pensando - quem estiver à janela deve estar a divertir-se! Fiquei um bocadinho parada, com ar de quem verifica se está tudo bem, gesto e expressão do rosto certamente insólitos para quem assim me visse, porém lógicos para mim: estava e sentir as meias, ora! Pareciam quietas. Continuei. Mas a cada passo as reles das meias iam descerem devagarinho, pernas abaixo, escorregando no creme que eu não deixara secar ? lembrei-me de repente. E não se pode contar com silicone besuntado: não adere e pronto! Não tive outro remédio. Voltei-me, muito devagarinho, e comecei a caminhar de regresso a casa, a uns penosos duzentos metros. Coloquei os braços ao longo do corpo e segurei numa pontinha de cada liga, portanto ? forçosamente! ? também da saia. Claro que comecei a pensar na minha figura. Devia parecer um boneco de pau, assim hirta, caminhando sem mexer os braços e sem ponta de flexibilidade. Ao mesmo tempo, segurava a saia pelas pontinhas, como fazem as bailarinas e outras artistas, ao agradecer aplausos. Muito contraditórias atitudes... Uma autêntica figureta! Para cúmulo, apesar de aquilo estar a ser um inferno!, sentia uma enorme vontade de rir, e não conseguia evitar? ria-me! Para meu desespero, ao longo do afinal tão curto trajecto de volta, fui fustigada pela passagem de autocarros cheios de gente a olhar, cruzei-me com várias pessoas e alguns vizinhos que não disfarçaram o pasmo, vi que a senhora que mora exactamente por cima da minha casa estava à janela, com todo o ar de ter assistido, desde o início, ao meu estranho passeio, e o condómino ainda estava à porta do prédio a conversar com outro vizinho. Tive que largar as meias para tirar a chave da carteira ? o condómino até é gentil, mas não estava suficientemente perto para me abrir a porta! Uma das meias aterrou imediatamente no tornozelo. Não me lembro como é que fui parar dentro da minha casa. Sei que me atirei para um sofá e ri até às lágrimas, perante o pasmo das minhas expressivas gatas, que sabem muito bem que a gente não costuma entrar em casa naqueles modos. © Fata Morgana Avalon, 04 Março, 2004
Como uma espécie de sibila airosa sábia de cerimónias não me mexo Na língua uma palavra vagarosa ecoa como um doce sacramento Reside no olhar o movimento de profundeza aquática e lonjura Mergulhas nele como quem se cura de todos os cansaços, do tormento Num gesto calmo sempre sorridente invento um salmo e canto para ti Como uma espécie de sibila airosa sem cerimónias digo docemente - Agora vai. Não fiques por aqui © Fata Morgana
Avalon, 02 Março, 2004
A concórdia muda
ilude saudades Longe de ti tal como temias descubro as verdades e desfaço o laço Como é que sabias? © Fata Morgana
A sorte é apenas uma abstracção
mas é nela que me inspiro e nunca na razão quando em todos os meus gestos te prometo às cegas: amanhã. Nem sei se viste © Fata Morgana |
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