Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 31 Maio, 2004

 

 
Chanson de Matin, for violin & piano, Op. 15/2 - by Edward Elgar

Era noite. Não me refiro às horas em que a lua é deusa e o sol reina no outro hemisfério. Era noite de breu - e particularmente escura! - mas exactamente ali, no meu coração. Embora fosse noite também fora do meu peito, essa porém, de curta duração.
O vestido chinês envolvia-me o corpo mas, apesar disso, dos raminhos de flores exóticas em relevo de seda macia, eu estava nua e vazia também. E só. Sobretudo estava profundamente só. Não havia um sorriso que me aquecesse o coração ensopado, nenhuma palavra calorosa lograva chegar a mim, apesar de tanta gente me tratar com afabilidade. No meio das pessoas, eu caminhava de cabeça erguida - o meu porte habitual! - e a cada passo só eu sabia que pisava espinhos... ou vidros, não estou certa disso. Mas andar era um acto dolorosamente trágico, a ponto de que me lembro de mim, no meio de tantos olhares, falando em tom casual; e sangrando como uma fonte de mágoa, que partia das plantas dos meus pés e descia pela escadaria até ao exterior do teatro e, rua abaixo, cidade fora, juntava-se ao rio, como um afluente vermelho que era, então, a minha única verdade... e eu só desejava cair, esvair-me, ser socorrida. Mas continuava de pé. Firme e sorrindo, dona de mim - meu mal.
O sinal sonoro avisou que o espectáculo ia começar e ocupei o meu lugar na sala. Assisti, entregando-me como pude e pude pouco, mas enfim, creio que dei o que nem para mim tinha.
No final fui aos bastidores. Cumprimentei, aplaudi, troquei algumas impressões com pessoas que, distraídas de mim, suadas, cansadas, arrumavam as suas coisas, acondicionavam os seus instrumentos nos estojos, queriam continuar as suas vidas cheias... Eu não tinha nada para arrumar.
No camarim das crianças um violino parecia chamar-me. Segui o som, ciente do que ia encontrar. O pequeno mas prodigioso violinista, sem vontade de parar, tocava fragmentos de obras lindas, entrecortando-os, encadeando-os como se fossem uma amálgama de todas as minhas emoções, dir-se-ia que ele as conhecia! Entrei... e pouco depois alguém, sorrindo, lhe sugeriu que tocasse para mim.
Fiquei ali em pé, pela primeira vez esquecida dos espinhos - ou vidros - sob os pés, enquanto o escutava, sentindo que o pequeno virtuoso me mostrava tudo quanto eu já não tinha e talvez nunca mais voltasse a ter: a luz, o glorioso despontar do sol, em Chanson de Matin, de Elgar.
E nunca a ouvi tão bela. Foi a minha luz ao fundo do túnel.

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 28 Maio, 2004

 

 


Os risos e as rosas
não se desvanecem
nos vasos
sanguíneos.
Ecoam
florescem
os sons curvilíneos
os doces odores
nos meus olhos rasos
da água que guardo
para as minhas flores

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 26 Maio, 2004

 

 
Hoje estive ocupada com questões algo complicadas. Bach é o meu compositor favorito. Glenn Gould é o meu pianista favorito. Tudo começou por aí... Dito assim, parece uma coisa simples, mas não é! De pensamento em pensamento, acabei por perceber que não ia ser capaz de arrumar as ideias sozinha, por isso tive que escrever ao Glenn Gould.
Não é uma desculpa para justificar a minha ausência! Até precisava de um selo, se alguém me emprestasse um, a carta seguia ainda hoje...



Caro Glenn:

Preciso de falar consigo, pois tenho andado com perguntas na cabeça, perguntas cuja resposta o meu amigo é a pessoa ideal para me dar. Dantes, costumava visitar-me frequentemente (ou seria eu a procurá-lo?), e deixava-me sempre esclarecida a respeito de todas aquelas suas extravagâncias que são tão bonitas e naturais em si e, embora eu nem sempre as compreendesse racionalmente, o meu coração entendia perfeitamente os seus motivos.
Como não tem vindo... escrevo-lhe. Hoje preciso da sua opinião sobre algo que não lhe diz respeito directamente, mas em que participa e, além disso, a sua autoridade na matéria é incontestável.
Começo por lhe dizer que sei que devia escrever a Herr Bach e não a si. Porém, não tenho com ele a menor intimidade, não me atrevo a importuná-lo. É um homem prático, cheio de afazeres, com uma família numerosa e tem com certeza o tempo muito bem gerido - pode estar ocupadíssimo a compor. Ao passo que o Glenn é um eremita, um homem contemplativo, complexo, mentalmente hiperactivo... mas quieto. É, tal como eu, um apaixonado pelas coisas-que-nos-escapam, pelo ruído de fundo, quiçá pelas interrupções! É-me muito mais fácil irromper pelos seus invisíveis labirintos mentais do que chegar ao pé de Herr Bach e calar-lhe o cravo, ou, pior! - apanhá-lo sentado frente ao órgão e interromper algum coral! Sempre são coisas que se ouvem e vêem.
A questão que pretendo colocar-lhe vem no seguimento de um assunto em que sei que estamos de acordo, o Glenn, eu e o aqui visado. Como bem sabe, Ludwig (claro, o van Beethoven!) sempre se sentiu muitíssimo frustrado com o som do piano do seu tempo, que era um som pequeno para as obras monumentais que ele compôs para o instrumento. O Glenn tocou-as - como ninguém! - em pianos modernos, bem sabe que os musicólogos fanáticos não têm razão nenhuma em defender que tais obras devem ser tocadas em pianos ''da época'', assim como sabe que um verdadeiro purista entenderá que Ludwig escreveu as suas Sonatas e Concertos (sobretudo os três últimos) para um instrumento que sentia e idealizava mais poderoso. É até uma crueldade condená-lo eternamente ao piano do seu tempo, que tanto o agastava! - é negar-lhe a qualidade de visionário e a verdadeira dimensão à sua música.
Até aqui... estamos os três de acordo, nem precisamos de incomodar Ludwig, que está certamente com a sua amada desconhecida (para nós, naturalmente).
Mas, Glenn, o que acha de Herr Bach? - é esta a verdadeira questão que me atormenta! Ele jamais se queixou do cravo (o órgão não é para aqui chamado, só as obras para cravo me preocupam). Mas eu gosto muito mais das Variações Goldberg tocadas ao piano. Assim como do Teclado bem Temperado. Eu acho que Herr Bach nunca se aborreceria consigo por ter feito aquelas geniais interpretações - e gravações! - ao piano. Acho que a música perfeita do compositor, a mestria evidente nas suas fugas gigantescas, as harmonias ousadas mas de resoluções sempre correctas, provam sobejamente uma inteligência criativa muito grande. Mas, por outro lado, sabemos que, apesar dos filhos terem aderido alegremente ao então recém aparecido piano, ele não o fez!
O que acha Glenn? Herr Bach estará zangado consigo por tocá-lo ao piano? Comigo, por achar que as Variações Goldberg, tocadas por si, são a música que eu escolhia se tivesse que ouvir apenas uma obra durante toda a vida?
Escusa de responder por escrito, esta noite sonho consigo de certeza, pois estou preocupada com este caso - não se faça esquivo, não? Um abraço, meu amigo, e até logo!

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 24 Maio, 2004

 

 
Confissões VI - O Meu Amigo Náufrago

Nesse tempo eu vivia em Lisboa. Estava habituada a brincar todos os dias no relvado em frente ao meu prédio (morava em Alvalade); mas também me levavam muitas vezes até ao jardim da Alameda - eu adorava a fonte, parecia-me umas cataratas; ou ao aeroporto, ver os aviões! Por ali perto e durante a semana, os passeios mais frequentes eram esses, mas claro que também me fartei de brincar no jardim do Campo Grande, em Belém, nos Jerónimos, e também fui vezes sem conta a Sintra, a Queluz, à Boca do Inferno, ao Guincho, enfim os meus pais davam muitos passeios comigo. Visitávamos os monumentos, os arredores, talvez porque não era a cidade deles, faziam verdadeiro turismo - e eu com eles, claro. Habituei-me a monumentos grandes, espaços largos, luminosos, jardins em que me podia fazer de perdida - tinha essa mania!
Como tenho metade da família em Lisboa e outra metade no Porto, muitas vezes passava aqui umas temporadas, em casa dos meus avós, e também não faltavam os passeios.
Gosto muito das duas cidades. Mas apercebi-me logo de que os monumentos e jardins do Porto eram mais sorumbáticos, sombrios... ou mais selvagens - como os jardins entre a Foz e o Castelo do Queijo. É aí o lugar desta história.
O meu pai costumava aproveitar as horas do almoço para ir até à Foz, comigo. Estacionava o carro perto do Lawn Tennis Club e fazíamos os dois uma andada - até ao Castelo do Queijo.


O Homem do Leme

Duas das muitas praias da zona da Foz - agrestes, possuidoras de um encanto intimista e de um não-sei-quê que ronda o trágico, são a Praia do Homem do Leme e a Praia do Molhe. Ambas têm estátuas nos jardins que precedem o areal. A primeira tem um pedestal facílimo de trepar (era importantíssimo para mim este detalhe), sobre o qual um homem de bronze, envergando um largo impermeável, chapéu e galochas, maneja um leme, com o olhar perdido na distância. Nota-se perfeitamente que não navega águas calmas mas nunca me pareceu alarmado, o barco vai estável e o homem bem agasalhado. O segundo, o pescador do Molhe, preocupava-me muito. Afligia-me, para ser mais precisa! Igualmente em bronze, é um homem com a roupa esfarrapada, descalço, o cabelo e a barba revoltos, segurando uma bóia salva-vidas com uma expressão esgazeada nos olhos, na boca aberta, tudo evidenciando o esforço... talvez de se equilibrar no seu barco partido ao meio! O conjunto - homem e barco - estão sobre um pedestal de difícil acesso para uma miúda (ainda que esmurrada e habituada como eu era).
Nunca fui de muitas perguntas. Olhava para o homem e ficava cheia de pena dele. Além de que não via a sua situação melhorar nem um pouco. Estava sempre esfarrapado num barquito partido. Costumava pedir para interrompermos ali as caminhadas, com o pretexto de que queria brincar. Na realidade não brincava, ficava ali a olhar para a estátua. O meu pai fartava-se, comprava um jornal numa tabacaria do outro passeio da avenida, e sentava-se num banco do jardim. Isto rapidamente se transformou num hábito: a primeira parte do passeio acabava ali, e dali voltávamos para trás até ao carro. Eu acabei por descobrir como escalar aquele pedestal, naturalmente.


O Náufrago do Molhe

Quando vi o pescador bem de perto, o coração apertou-se-me, senti que tinha que o ajudar de algum modo e prometi-lho, logo ali! Mas tinha a consciência de que era uma miúda e não podia fazer grande coisa... Ao mesmo tempo sabia que o meu pai e os adultos em geral nunca compreenderiam. Podia vê-los e ouvi-los, num despropositado afago a despentearem-me o cabelo, proferindo a réplica típica de quem não sabe - ''Morgana, é apenas uma estátua''. Para mim não era, nenhuma estátua podia estar tão desesperada e ainda por cima sozinha! Por isso tratei eu de fazer o que podia. A partir desse dia, nunca ia brincar para o jardim do Molhe desprevenida. Metia sempre uns Sugus na boca (aberta, como já disse) do pescador e deixava-lhe uma moeda de 10 tostões numa das mãos. Todos os meus planos para surripiar um cobertor à minha avó falharam. Mas ainda hoje, sempre que ali passo, tenho vontade de agasalhar o pescador do Molhe.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 21 Maio, 2004

 

 


Chuva
vem esbater os traços
com que eu fui feita
Varre os meus antigos passos
de abertura estreita
Lava-me
do sal chorado
a tua água é doce,
o meu rosto é salgado
Provo-te
dentro de mim
sorrio
não tens gosto,
não tenho frio
Abrigo-me enfim
agora cheia de águas de céu
envolta na beleza
do teu véu

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 18 Maio, 2004

 

 


Não sei dizer o que ausência significa.
Sei que pode ser morte
que pode ser esperança
viagem constante onde apenas se alcança
o lugar vazio da pessoa
ou a pessoa
mas isenta do seu ser.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 17 Maio, 2004

 

 
Meu Cavaleiro Andante

Que seja
como tu sonhaste...
Uma jornada longa em que descobriste
o teu caminho
meu
e o floriste.
Uma promessa
de que estarei no fim
Agora.

Uns olhos tristes
(como os meus
quando fechados)
nunca mentem
Por isso o teu caminho
é sem cuidados.

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 14 Maio, 2004

 

 
Hoje não posso escrever. Colou-se-me uma chiclete nas ideias. Estava a pensar com tal desenvoltura que não prestei atenção e poisei um pensamento ao acaso... com o resultado de ter esborrachado aquela coisa muito mastigada e colante, que agora ocupa toda a minha atenção. Não gosto, mas se não me dedico a esta coisa ridícula e de ínfima importância - da qual me quero livrar rapidamente! -, todas as ideias vão ficar pegajosas. Eu não suporto ideias pegajosas.
(O pensamento é absolutamente livre, excepto quando se lhe cola uma chiclete...)

© Fata Morgana


Rubber Trees

(as ideias ensarilhadas, que maçada!)

 

 
Avalon, 11 Maio, 2004

 

 


La Cauallera

Ela tem uma personalidade forte. Fortíssima. A razão persegue-a - quase não a larga! -, enche-a de ideias lógicas, de motivos plausíveis e de bofetadas.
Mas ela tem, sobretudo, um coração enorme e é atrás dele que vai trilhar caminhos serpenteantes, matizados de sonhos de sóis, caminhos intensos, floridos até ao extremo dos tons identificáveis a olho. Lá vai ela galopando livremente a descobri-los. Indomável e destemida, sonhadora, vai direita à tempestade já quase cor de anil que se aproxima vertiginosamente, com nuvens altas de um amarelo místico, e outras cinzentas, a roçarem-lhe os momentâneos sonhos. Ela sabe atravessar a tempestade, é uma grande amazona - gosto mais de dizer cavaleira, por causa de uma canção renascentista que ela me lembra e se chama La Cauallera - e atravessa-a como tem que ser, fustigada pela chuva e pelo vento gelado, rasgando as sombras quase negras. Os relâmpagos encantam-na como luzes de outro mundo, os trovões atemorizam o cavalo, que resfolega nervosamente, quase a espantar-se à desfilada, não fossem as mãos que o guiam à rédea curta, as pernas firmes a apertar-lhe o lombo, nas ajudas. Aquilo acalma-o, ele conhece bem a cavaleira, sabe que ela não se mete em caminhos sem saída.
Atravessada a tempestade, o cavalo rapidamente se aquieta. Num passo calmo, sabe que agora é ele que guia a cavaleira e não o contrário. Ela fica sempre abalada, depois. Quando desmonta e o escova, enche-o de carinhos e de pedaços de cenouras. Ele de vez em quando puxa-lhe a camisola com os dentes, a espicaçá-la - ''agora não fiques tu assustada, já passou!''. Ela sorri, um sorriso amigo mas que não lhe chega aos olhos muito sérios, e dá-lhe palmadinhas no pescoço. Não está assustada, só precisa de fazer uma avaliação, agora puramente racional, de tudo aquilo por que acabou de passar. Repensar tudo o que ficou pelo caminho, descobrir onde se fortaleceu e em que se tornou mais frágil. Localizar as feridas. Pensa que talvez nunca mais se sujeite - nem ao animal, que adora - a cavalgar no meio dos trovões.
Quando entra em casa tem aquela expressão de nunca mais que lhe enche o rosto de um encanto inacessível.

© Fata Morgana

(A cavaleira nasceu n' O Mês do Sagitário)

 

 
Avalon, 05 Maio, 2004

 

 


Poema Frio

Onde for o mar de gelo
que tu habitas
eu mostro-te:
não estás só.
Como tu, outros seres
escolhem o frio
e as noites que duram meses
de solidão.

Fica no teu pólo distante,
não tenhas a ideia perturbante
de te aventurares
em mares de corais
com litorais amenos
onde ao degelo
inesperado
chamamos calamidade.

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 04 Maio, 2004

 

 


Penélope

Teço este manto
com fios de certezas que não tenho.
Tarda em ser pronta
esta tarefa desmedida!
Nela tudo aquilo quanto sinto,
cicatriza e torna a abrir
como uma ferida.

Faço por ser apenas mãos
e dedos
por esquecer os medos vãos
e meço
nas linhas com que teço
o nosso amor
neste manto que é um bastidor
onde eu te quero tanto como sempre quis...
Porém, mais de mil vezes o desfiz.

© Fata Morgana


Penélope sempre me fascinou pela certeza e determinação com que esperou por Ulisses. Pressionada a escolher um consorte que sucedesse o seu marido - a seu lado e no trono -, inventou um ardil quase hipnótico. Comprometeu-se a escolher um dos pretendentes, assim que acabasse de tecer um manto (tapete, em algumas versões). E logo principiou o trabalho, serenamente.
Adivinha-se - porque o fazia a ocultas, correndo risco de ser descoberta -, que não estaria tão serena quando todas as noites desfazia uma porção do manto/tapete... que ela transformou assim numa obra interminável. Pois quanto à luz do dia era tecido, à noite voltava a ser novelo.
Ulisses partira contrariado. As recordações que Penélope tinha da vida com ele partilhada eram certamente felizes, muito boas. Mas passaram-se anos, sem notícias! Ela era uma jovem e tornou-se numa mulher madura, sempre só. A memória do rosto dele esvaiu-se com o tempo - ela mais tarde não reconheceria Ulisses! ? mas não o sentimento. Ele, por sua vez, voltou por ela e para ela. Tornaram a viver felizes, como eram antes. Foi uma dupla ?aposta radical no outro? ? como é costume dizer-se.
Não quero esmiuçar o assunto, o que me agrada é precisamente lançar a questão. Eu tenho a minha ideia, que apenas exprimi, em parte, no poema que escrevi e também na escolha desta citação:

?Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.?
Friedrich Nietzsche

Na realidade, foi por causa da citação que me lembrei - uma vez mais! - da Penélope e do Ulisses.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 03 Maio, 2004

 

 



Ontem à noite adoeci. Não é grave, mas tenho que estar deitada, neste dia agreste e ventoso de Primavera. Está a saber-me bem, o que é muito raro. Geralmente, adoecer enche-me de tédio, e hoje não, hoje lembrei-me deste poema do Sá-Carneiro, que queria meter-se na cama, aconchegar-se como se num abrigo protector da vida, que o horrorizava. Achei que talvez fosse uma boa ideia lê-lo - que coisa romanesca! Esgueirei-me da cama em busca do livro e não pude deixar de me rir, pois não sinto isto, evidentemente. Sinto é uma admiração reverente pelo poeta - Sá-Carneiro era grande! É grande, que os poetas não morrem.
Esgueirei-me um bocadinho mais... até aqui. Onde o deixo.
Se cá não estou, ouvem-se sempre as vozes dos que eu amo.


Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro



Até amanhã... Volto para a cama a aninhar-me, bem quentinha.

Fata Morgana



 

 
Avalon, 01 Maio, 2004

 

 
Hoje não vou deixar um texto ou um poema. Estou mesmo com espírito de fim-de-semana, de descanso e lazer absolutos. Vou namorar, sair, conversar ? adoro conversar! ? e divertir-me.
Só regressarei ao meu castelo bem tarde na noite... certamente com vontade de fazer umas visitas, errar pelos atalhos que abri para outros lugares, os vossos, onde me sinto bem a ler-vos.



Se entretanto aqui vierem, eu depois, logo, sigo-vos as pegadas...
Desejo a todos um bom fim-de-semana!

Fata Morgana

 

 
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