Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
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Avalon, 27 Junho, 2004

 

 
Maria Brígida

A minha avó materna era uma pessoa muito especial. Foi educada como todas as meninas do seu tempo. Tinha que ser prendada, saber cozinhar e conhecer todos os meandros da lida da casa; bordar em todos os pontos, assim como tricotar e outros trabalhos de lavores em geral; e também tocar piano. Ela fazia tudo isso. Mas não maquinalmente, fazia-o com gosto, com esmero. Mais - fazia-o com arte.
Cedo pôs de parte as músicas de salão que se usavam no seu tempo, e, sobre o teclado, os seus dedos tocavam Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Chopin e Liszt, com alma.
Interessavam-lhe as coisas da cultura, o que era então pouco comum e menos ainda incentivado. Mas o meu bisavô era professor, compreendia aquela curiosidade que o enchia de orgulho, e satisfazia-a. Por isso ela teve acesso a conhecimentos de História, Geografia e Ciências, e sobretudo de Literatura, lia coisas de que as raparigas do seu tempo nem sequer ouviam falar. A minha bisavó achava graça a ver a filha juntando às suas ''prendas'' de rapariga bem criada uma educação de rapaz, igual à dos dois irmãos - os meus tios-avós, dos quais um morreu jovem e o outro foi poeta (é, que os poetas não morrem!).
Interessava-se por política e namorou o então jovem liberal Humberto Delgado, que todos os dias passava os fins de tarde a conversar com ela, descobrindo a rapariga culta que, segundo as conveniências, tinha que ficar à janela à altura de um primeiro andar... por isso ele ia a cavalo fazer-lhe essas visitas diárias, encurtando assim a distância entre ambos.
Um dia o meu bisavô foi colocado noutra escola, numa terra diferente. A minha avó ficou amiga de uma rapariga que encontrou hospedada em casa do reitor da escola, que tinha ficado órfã recentemente. Quando a estadia da sua nova amiga terminou, nenhuma delas supunha que estavam em vias de se tornar quase inseparáveis, sentiam-se tristes por aquele convívio ter chegado ao fim. Mas quem foi buscar a nova amiga da minha avó foi um irmão... era o meu avô.
Casaram-se depois de um namoro comum e a minha avó começou a trabalhar, o que era muito raro naquele tempo, e foi aprender Inglês - tinha pena de só falar a sua própria língua e achava que toda a gente devia falar Inglês. Claro que a sua vasta cultura não possuía o bem merecido certificado oficial, por isso ela foi ensinar Lavores - para o que bastava saber fazer.

Os meus avós foram sempre um casal invulgar. As coisas normais que fizeram foi terem cinco filhos (dois morreram muito novinhos) e dez netos - dos quais eu sou a 5ª. Tudo o resto foi muito à maneira dos dois. É certo que se amaram e que eram muito diferentes. Conheciam bem as suas divergências e decidiram vivê-las juntos, mas nunca por conveniência. Havia entre os dois enormes cumplicidades que nos escapavam e também silêncios longos, em que se voltavam mentalmente as costas... Era óbvio que preferiam isso à companhia de outras pessoas, pois andavam sempre juntos. Sempre.
Por vezes mal se falavam, mas se o meu avô voltava do trabalho e ela estava sentada ao piano, ele esgueirava-se para o sofá e ficava a ouvi-la e se um de nós aparecia e fazia menção de interromper, ele gesticulava e impondo-nos silêncio, mandava-nos embora.
Todos os Natais, a minha avó oferecia a cada um dos seus - marido, filhos, genros e netos - um bonito saco cheio de prendas absolutamente personalizadas, todas feitas por ela ao longo do ano: camisolas, cachecóis, mantas e outras peças tricotadas, saias e vestidos, camisas de dormir, pijamas, peças para enxoval, e havia uma coisa que achei sempre deliciosa: enquanto éramos pequenitas, comprava-nos sempre uma boneca para a qual costurava um guarda-roupa inteiro, envergonhando o prét-à-porter da Barbie!
Era uma mulher bela dizem-no os retratos e os dois quadros em que o meu avô a fez retratar - um indomavelmente jovem; outro, nuns insinuantes 40 anos.
Quando eu nasci os seus longos cabelos doirados já eram curtos e pintados, ela só deixou de os pintar quando embranqueceram completamente e continuou sempre bonita, com os cabelos curtos, muito branquinhos, sempre cuidados, os pequenos caracóis atrás das orelhas, a tez clara e aqueles enormes olhos azuis, sonhadores e cheios de vivacidade, como nunca vi outros.
Para mim, a minha avó era muito Sábia.



Para mim, ela é a Senhora do Lago.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 22 Junho, 2004

 

 
Os Primos de Charlie

Estava completamente esquecida daqueles problemas graves que tive há uns meses, quando me acusaram de ser robofóbica (*). Foram uns tempos bizarros, em que não pude estar com humanos e fui forçada a conviver com Robots, para me curar da fobia - que nos nossos dias tem estatuto de doença grave do foro psicológico. Vivi numa Clínica Inteligente, cercada de Inteligência Artificial, onde era constantemente testada e vigiada. Eventualmente fiquei curada - foi esse o diagnóstico d'A Comissão, em que não acreditei, mas com que me apressei em concordar.
Voltei para minha casa, acompanhada de vários Robots, que me ofereceram. Entre eles, o Mordomo, Cyc; o Híbrido - um misto de automóvel, aparelhagem de alta-fidelidade e amigo de infância; e todos os objectos inteligentes de uso pessoal, pois, tendo sido pré-programados para mim, não serviriam para mais ninguém. Claro que meti o Híbrido na garagem - coberto com um oleado resistente - e os restantes na arrecadação do prédio. Suspirei de alívio e não voltei a pensar no assunto.

Descia calmamente a Avenida da Boavista, a caminho do parque da cidade. Estava um dia lindo, cheio de sol, mesmo bom para me sentar um bocadinho na beira de um dos vários lagos a brincar com os patos - levava-lhes pão! Os patos fazem uma grande festa quando lhes levam de lanchar, são muito engraçados a nadar direitos aos nacos que apanham a correr e mastigam muito depressa, encantados.
Assim que cheguei ao lago grande, sentei-me na margem, ao sol - é tão bom, o sol! - e abri o saco de pão. Eles perceberam logo e nadaram todos para perto de mim, grasnando, contentíssimos.



Não me fiz rogada e dei início ao festim. Comecei a atirar pedaços de pão em várias direcções, para a todos calhar pelo menos uma porção. Tudo corria alegremente, tanto para os patos como para mim, a animação era enorme.
De repente aconteceu uma coisa inesperada. No meu bolso algo produziu uma vibração forte, bem perceptível. Aquilo... bem, parecia ser a terrível Minitela, que costumava espiar-me constantemente e dar-me instruções várias - ordens, isso sim! - durante as minhas saídas da tal Clínica Inteligente, permitidas pelo regime de semi-clausura. Cyc, o Mordomo (acabei por me apaixonar por ele!), controlava todos os meus passos através da Minitela, que eu tinha de levar comigo.
A medo, enfiei a mão no bolso e... não restavam dúvidas, espantosamente, ali estava o temido objecto quadrado. Peguei-lhe, estupefacta, sem perceber como fora aquilo ali parar e sem nenhuma pista sobre que tipo de mensagem teria para mim. A Minitela estava em modo silencioso, não havia imagem alguma no ecrã, apenas uma mensagem escrita, que me deixou estarrecida: ''Afaste-se imediatamente desses patos. São parentes de Charlie, o pato que serviu para as experiências daquele cientista sádico, às quais VOCÊ achou tanta graça''.
- Oh! - exclamei (aquilo tem um micro e milhares de sensores, basta pegar-lhe e sabe se estou nervosa) - mas o pato Charlie, nunca existiu! Era apenas um nome, uma história que o Cientista contava ao Robot para o testar e programar a IA!
Claro que a Minitela, detectou o meu pasmo genuíno mas não se deixou convencer. Emitiu um estranho apito e, de repente, todos os patos voaram ou nadaram freneticamente para longe de mim.



Assim que os patos ficaram a salvo, a Minitela voltou à carga, e eu soube que estava novamente metida em sarilhos:
''Isso não interessa. Para estes patos, Charlie existiu e era um pato igual a eles, o que faz de si uma pessoa malvada, junto de quem nenhum pato sente segurança. Aliás, temos perguntas para si.''
Esperei pelas perguntas. Sabia por experiência que com aquelas traquitanas ninguém leva a melhor.
''Porque não veio no Híbrido?''
- Porque está um dia lindo para andar a pé!
''Porque não trouxe o seu Cata-Amores?''
- Porque não vim em busca de um rendez-vous!
''Porque não tem calçados os seus sapatos Olivetti?''
- Porque hoje é um dia de lazer, não de pesquisa ou de estudo, vim apenas passear e não vou trocar informações com os outros passeantes (ao dizer isto, reparei que todos usavam os feiosos sapatos inteligentes).
''Mas não pode negar que está sol. Onde estão os seu Óculos-Cybernéticos?''
-Bem, trouxe os normais, pois também não estou ligada a ninguém a quem queira passar imagens dos patos, que aliás, já se foram todos embora, graças aquela sua apitadela amistosa!
Após uns breves momentos, surgiu a frase que eu temia:
''Encontrámos motivos para suspeitar de Robofobia reincidente. Queira visitar imediatamente A Comissão''

Pronto, lá estava eu, uma vez mais, metida-numa-espécie-de-processo-de-Kafka e, tal como da primeira vez, tudo por causa do estúpido Charlie - um pato que nunca existiu!

© Fata Morgana

(*) Esta história vem no seguimento de outras.
Para perceber algumas alusões, convém ler: Artifícios Comuns - Dedicado a Michio Kaku (arquivos de Novembro)
Quem quiser ler todos os "episódios", pode continuar pela seguinte ordem: As Três Leis da Robótica I; II e III (arquivos de Novembro); Coisas que Pensam (arquivos de Dezembro) e O Cata-Amores (arquivos de Janeiro).
PS. Todos os patos desta história são obviamente verdadeiros, mas existem Patos-Robots!!!

 

 
Avalon, 21 Junho, 2004

 

 


Do alto da pequena colina observei os dois exércitos a tomarem posições. Nem precisava de usar os meus dons, bastava ver as expressões intensas e determinadas daqueles homens para saber que nas cabeças de todos eles residia uma única ideia: vitória! Era uma contenda pelo tudo ou nada, sem outra saída que não vencer ou perecer. Por isso, em plena refrega, cada qual usava todos os ardis, todas as técnicas de combate, avançando, retrocedendo, aplicando os golpes mais mortíferos sem dó nem piedade, varrendo o campo de batalha com ímpeto imenso e sempre crescente, a cada nova investida.
No final, o exército vencedor atroou os ares com o seu canto de vitória. Um canto possante, bárbaro - palavra geralmente usada para denominar os povos antigos cujas culturas praticam alguns rituais violentos, quase sempre ligados à natureza, ela mesma violenta e incontida.
Também os festejos soavam assim. Cânticos bárbaros numa língua estranha.
Olhando o estandarte, não o reconheci. Não tinha um único símbolo dos que veneramos em Avalon nem pertencia a qualquer dos numerosos reinos da Bretanha. Assim que os guerreiros vencedores recolheram todos os despojos da grande batalha, e desapareceram distanciando o seu cântico de vitória, que ao longe se tornava imensamente nostálgico, desci pelos carreiros de erva macia, atravessei a enorme clareira e embrenhei-me na floresta, em direcção ao lago.
Sobre a minha cabeça um imenso céu de breu, com a lua em quarto crescente - bela mas pouco iluminando a noite escura - e miríades de estrelas lindíssimas; sob os meus pés descalços a areia fina e muito branca das margens do lago sagrado. Curvei-me e li a mensagem na superfície negra das águas. Sorri, repetindo-a em voz baixa, produzindo um som que foi direitinho encontrar-se com as palavras que os guerreiros vencedores cantavam, agora mais longe do que eu podia escutar. A mensagem dizia: ''Parabéns Portugal... já estava escrito nas estrelas''

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 16 Junho, 2004

 

 


Os meus olhos
dois moinhos
em pleno vendaval
perderam-se nos caminhos
à procura de ideal

Não houve amor
nem mistério
nem doçura ou outro império
que parasse o seu labor

As velas
rodando doíam
e as mós sangrentas moíam
as coisas belas
que eu vi
Parar... nunca consegui.

Assim que o vento amainou
perguntei-lhe aonde ia
e porque razão me empurrou

E o vento
num lamento:
«Foste só tu quem soprou!...»

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 15 Junho, 2004

 

 
Jardim do Éden
teu e meu
Lugar ridente
cheio de paz e calma
onde o nosso amor
de corpo e alma
exalta plenamente
o Criador.

Que sentido fariam
a maçã
proibida
e a serpente
tentadora
senão que uma fosse sempre apetecida
e a outra vencedora?...

© Fata Morgana


The Fall of Man (detalhe) - Ticiano
 

 
Avalon, 14 Junho, 2004

 

 


Gosto particularmente
de amores
eternos
assim que principiam
A estranha sensação de déjà-vu
«...já te conheço!»
A doce pretensão
«não te mereço!...»
A louca rendição
em ardores
ainda assim ternos
de que os corpos se arrepiam.

Gosto particularmente
que perdure
nos infernos
mal se extinga
Pois não existe coisa mais bonita
do que um amor extinto
que crepita

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 12 Junho, 2004

 

 
Tu vives na rua das surpresas
onde eu acabo sempre
por passar
apreciando as súbitas belezas
onde nada aparenta realçar
Só os meus olhos
pássaros em voo
encontram os lugares onde pousar
descobrem as ocultas subtilezas
deixadas para mim
para eu olhar

Eu vivo na rua das surpresas
onde acabei um dia
por ficar
apreciando as doces subtilezas
trocadas entre nós
a cada olhar

© Fata Morgana


Antoine Blanchard - Quai du Louvre

 

 
Avalon, 08 Junho, 2004

 

 
Confissões VI I - A Mais Recente Distracção

Era Sábado. Estava marcada para as 17h uma audição de violino na Escola, mas às 15h já teríamos que estar lá, para o ensaio geral dos miúdos com a pianista. O meu Cavaleiro é o regente da cadeira de Violino, para ele as audições representam invariavelmente uma grande dose de nervos. Eu acompanho-o sempre, não que o acalme - eu também fico nervosa! - mas porque, tal como ele, conheço aquelas crianças e adolescentes há quase dez anos, ambos gostamos imenso deles e juntos torcemos por eles. Além disso, desde há três anos, também sou professora lá na Escola, dou aulas de História da Música. No final deste ano lectivo estarão formadas as minhas primeiras turmas (claro que estou orgulhosa) - e gosto de andar por lá, sinto que faço parte do todo.

Infelizmente a véspera fora de noitada, como de costume, e 15h parecia-nos quase de madrugada. Engoli o pequeno-almoço - às duas e meia da tarde! - tomei um duche morno, vesti-me e considerei-me pronta para sair - o meu Cavaleiro, rápido como o vento, já estava no carro, à porta de casa.
No momento em que ia fechar a porta, lembrei-me que não tinha passado creme no corpo e eu adoro sentir a pele macia e hidratada! O meu é frutado, também me agrada imenso o cheiro fresco... mas não podia espalhá-lo assim, vestida. Já sei! - pensei - Se levar o creme comigo, posso pô-lo ao menos nas pernas e nos braços, dentro do carro! Claro que não tinha meias e usava um top de alças, estava muito calor. Voltei a entrar em casa, peguei no frasco, saí, fechei a porta e meti-me no carro, toda contente - apesar do sono.
Pousei o creme na divisória da porta, pus o cinto de segurança e levantei a saia, o que causou um sobressalto no condutor. Porém, apesar de seguir interessadamente as minhas evoluções, ficou calado, dividindo a atenção entre a condução e os meus gestos.
Eu, muito segura de mim, tinha agarrado outra vez no frasco, abrira a tampa e despejara uma boa porção para a palma da mão em concha. Ele não se conteve:
- Que é isso, Morgana? Que vais fazer?
- É o meu creme, não tive tempo de o pôr. Mas não te preocupes que não se vê nada, as pernas ficam muito abaixo do nível da janela!

Ele ficou muito pouco convencido (não é de outro planeta, sabe que existem autocarros e peões...) mas como parecia ser uma operação rápida, aquietou-se. Eu é que não! De repente reparei que o líquido na minha mão não tinha a consistência do creme, nem a cor. Era transparente esbranquiçado... era... era champô!! Era o raio do champô, da mesma marca que o creme e com frasco da mesma cor apenas um tom acima - facílimo de confundir, portanto.
- Catano!!!! - exclamei, consternada só de imaginar as pernas todas pegajosas - Ainda bem que não cheguei a pôr isto!!! Desolada, tornei a baixar a saia.
Ele nem pareceu assim muito surpreendido... apenas me perguntou, obviamente a engolir umas boas gargalhadas:
- Mas afinal isso não era exactamente creme para pôr nas pernas?!
- Isto é champô... enganei-me. Agora vou ter que ir até à Escola com esta papa viscosa na mão - comuniquei de orelha murcha. Ele riu-se gostosamente. Eu também costumo rir-me destes disparates que me acontecem mas, talvez por ser de madrugada, fiquei irritada com ele.

Parámos num semáforo, eu de mão em concha, muito aborrecida, com o champô a começar a secar e a colar - o que era especialmente incomodativo por causa do calor -, e ele divertidíssimo.
Olhei para o carro ao lado, cujo condutor não desfitava o sinal, esperando que o verde caísse... e tive uma ideia brilhante para uma pequena vendetta inofensiva. Ergui mais a mão cheia de champô e, em tom levemente ingénuo e intrigado, comentei, rindo para dentro:

- Olha, que estranho... O condutor deste carro aqui ao lado está a olhar imenso para nós - especialmente para ti! - com um ar mesmo invejoso, porque será?!


Estas são imagens da nossa chegada à Escola. Não sei como os paparazzi descobriram a coisa!

© Fata Morgana

A história é verdadeira, como todas as restantes Confissões, à excepção dos paparazzi!
 

 
Avalon, 06 Junho, 2004

 

 
Cantos Passados

Tudo o que relembro
revivo
reavivo com a força
do sol quente a irromper
rasgando as sombras.
Fica uma humidade mansa
boa
que transforma o mofo
em musgo.
Os ecos agonizantes
dos corredores sombrios
como braços frios
transformam-se em canções
e os braços já transpiram
e desenham emoções
como que as dançam.

São apenas recordações
mas não estão mortas
refloriram
em vez de empalidecerem
sob muitas camadas de escuridão.

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 04 Junho, 2004

 

 


O Rosto da Alma

Nas pontas dos meus dedos
sinto o gume
Com pequenos toques
pelas linhas cortantes desse rosto inquieto
Em pequenos golpes
sinto as marcas do passeio predilecto

O mais longo instante é
nos cantos dos lábios
e flutua
em gesto contrário
ao trejeito descaído que detecto

Se abrisse os olhos,
se te visse,
talvez pudesse
dizer-te: és belo
talvez soubesse,
olhando,
percebe-lo.

Assim,
não sei
mas sinto
e se porventura o disser não minto.

© Fata Morgana

 

 
O Meu Castelo
 
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