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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 30 Julho, 2004
Meus caros leitores:
Ainda estou... em estado de choque! Passo a explicar: Como sabem, tenho andado sem tempo, poucas visitas tenho feito, e mesmo no meu blog tenho escrito menos. Mas tudo o que escrevo brota de mim, sou eu, é a minha imaginação, o meu sentir. Hoje andei a retribuír visitas, algumas feitas por pessoas que aqui estiveram pela primeira vez e deixaram comentários, e fui parar a este blog, Cartago, onde li um poema, que é um plágio descarado ao MEU poema "Amor, Amigo". O triste falho de imaginação que se assina "darkwish" não fornece qualquer contacto, não data os "seus" posts, não tem sistema de comentários, não deixa pistas. Acontece que eu tenho as minhas pistas muito bem marcadas. E não permito que me roubem a essência. Espero que o darkwish retire de imediato do seu blog a mixórdia que fez com as minhas palavras e outras que talvez sejam dele, ou vai ter uma série de complicações, pois TODOS OS MEUS TRABALHOS ESTÃO REGISTADOS NA SPA. Entretanto, também já seguiu uma queixa para o Blogger. Espero que todos os meus amigos, que publicam, como eu, textos originais - alguns são lindíssimos e apelativos para quem carece de imaginação e desconhece o respeito pelo DIREITO DE AUTOR - se acautelem. Vejam se naquele blog não haverá nada vosso. Que lástima! Fata Morgana Avalon, 28 Julho, 2004
Rudolf Nureyev Oh Rudi...
Hoje lembrei-me de ti. Foi por causa de uma coisa que tu fizeste no Kirov, quando lá prestaste provas para ingressares na Escola de Dança como aluno de Pushkin. Lembras-te da tua determinação?... Passavas os dias a dançar. Dentro de casa, no pátio, nas ruas - espantavas as pessoas que contigo se cruzavam e nada sabiam de ti nem que eras tão especial... a menos que fitassem a tua expressão extraordinária, a vivacidade do teu olhar em conjugação com o sorriso inexplicavelmente triste - algo que nunca foste! Mas, ainda assim, mesmo os que te fitavam e percebiam que estavam perante uma pessoa intensa, não eram capazes de perceber porquê. Hoje eu fiz exame de canto perante o júri, tal como tu no Kirov! E, como tu então fizeste com a dança, também não parei de cantar nos dias que precederam este, estive constantemente a preparar-me, a articular pequenas frases do reportório, a arriscar vocalizos no carro ou a pé pela rua, a caminho de alguns passeios no parque - ar livre e espaço fazem bem aos pulmões e à voz! Confesso-te que me estou a sorrir enquanto escrevo, imaginando as tuas sobrancelhas arqueadas e o ataque de zombaria prestes a explodir numa resposta que eu adoraria receber... Mas não, nem por sombras me estou a comparar contigo! Baixa as sobrancelhas - olha que tu és vaidoso e isso faz rugas, muitas rugas! -, guarda o tom trocista para quando eu estiver realmente a merecer e ouve-me, que isto é um elogio para ti. Tu adoras elogios. Também os detestas. Saberei fazê-lo, prometo... Foste tu o meu modelo, o meu exemplo, na preparação deste exame. Inspirei-me em ti, na tua entrega, no estares-te nas tintas para a opinião de quem te via aos saltos. Também me entreguei completamente e consegui uma relativa ausência de preocupação de que me tomassem por louca, mesmo quando fui apanhada em flagrante por umas pessoas que não tinha visto, sentada no banco de jardim, completamente sozinha, a articular a arrevesada frase "und warum du er wachen kannst am Morgen mit Lachen?" (bem sabes que não é fácil cantar alemão!!!)..... mas o pior foi a repetição "lachen.... laaaaa-chen!.... LAAAA-CHEN..."
Riram-se, claro, mas tudo valeu a pena e eu quero agradecer-te por fazeres parte do meu mundo, és absolutamente inspirador, mesmo quando não se trata de dançar. Acima de tudo, Rudi, obrigada por teres dançado durante o meu exame - julgavas que não te tinha visto? Ter-me-ía lembrado de ti na mesma, por causa da tua audição do Kirov... mas vi-te. Sei muito bem o que ensinaste aos teus alunos, em Paris: "quer se trate de uma famosa e prestigiada sala de espectáculos ou de um pequeno teatro humilde, num subúrbio obscuro, um palco pisa-se sempre com devoção e o compromisso é sempre o mesmo - fazer o melhor que sabemos". Por isso, te estou especialmente grata, porque o teu palco de hoje foi a minha escola completamente desconhecida fora do meu país, e tu dançaste-te completo, ao som da minha voz, que respondeu aos teus movimentos tão bonitos, num pas-de-deux que me valeu uma excelente nota! Beijos, Rudi... Morgana PS. Reparaste que algumas das pessoas que assistiram à minha prova estavam especialmente sorridentes e calorosas? Gosto tanto delas que as deixei ler esta carta...
© Fata Morgana Avalon, 23 Julho, 2004
Contos Da Floresta
(Acontecimentos mentalmente registados pela Fata Morgana mais tarde escritos pelo seu próprio punho e ocultos na Arca do Esquecimento Eterno) I Merlin
Todas as pessoas um dia se perdem na floresta. E o sentimento comum a todas elas é o receio, para não dizer medo! Olhando para as árvores, lindíssimas, de troncos rugosos e copas altaneiras a buscar o sol bem lá no cimo; escutando os milhares de sons que conheço, um a um, mas sei que são um verdadeiro mistério para os ouvidos de um forasteiro; vislumbrando o distante céu azul, muito para lá do tecto de folhagem rica em verdes, de onde por vezes as nuvens cinzentas deixam cair grossas pingas de chuva que raramente chega a molhar este chão vivo... posso perceber que para muitos este lugar ideal pareça inóspito, implacável no fluir da seiva indiferente ao susto de quem quer que seja. Para mim a floresta é o lar. Não temo a densidade do arvoredo muitas vezes revestido de trepadeiras várias, algumas com espinhos mas também há a doçura de diferentes qualidades de frutos silvestres. Conheço muito bem a voz dos pássaros e sei qual a envergadura de cada um, mesmo sem olhar, apenas pelo som do bater das asas. Cada uma das pequenas criaturas debaixo da caruma, do musgo, da folhagem e das pedras que recobrem o chão me presta o tributo da sua utilidade, que sei muito bem qual é. Até a inclinação das línguas de luz que chegam até ao solo húmido me vão dizendo a quantas ando e me avisam da hora de recolher. E jamais a floresta me faltou com um confortável lugar para eu poisar a cabeça e descansar, ao abrigo das feras - que também não temo! Oferece-me sempre um leito seco e perfumado onde nenhum temporal me toca, apenas se derenrola como um espectáculo para melhor adormecer, se a noite não for serena. Serena não quer dizer silenciosa, jamais! Os sons da floresta são a música que embala o sono verdadeiramente revigorante e em cada som habita um dos incontáveis sonhos muito peculiares, típicos de quem aqui vive e dorme. Quem nunca assim passou uma noite ao relento, em toda a magnitude desta expressão quase sempre utilizada com um sentido negativo, talvez nunca tenha tido um verdadeiro sonho. O relento na floresta nada tem de semelhante ao relento sórdido de Londinium, por exemplo. Mas, no que a mim diz respeito, que cada um se deixe ficar onde bem lhe aprouver. Cada mortal pertence ao lugar onde melhor se encontra a si mesmo. E eu não tenho dificuldade em chegar à fala com quem o queira fazer comigo, ainda que tenha de ir longe! Eu sou Morgana das Fadas, para mim não existe perto nem longe, nem mistérios de tempo e lugar, apenas dificuldades que não me intimidam e menos ainda impedem de ir onde me levem os meus desejos. Estes nem sempre são muito compreensíveis para as almas mais piedosas, que me julgam má. Mas no fim as coisas todas ficam nos seus lugares e todas as artes que eu tenha usado acabam por se revelar positivas e não apenas para mim.
Somente devo acautelar-me com Merlin, o Eremita da Floresta. Ele, tal como eu, pertence ao Povo das Fadas e chama sua casa a este lugar. Grande Bardo e Druida, os seus poderes são superiores aos meus. Uma coisa, porém, mo tem tornado absolutamente inofensivo: a sua alma pertence-me. Eu sou as trevas que moram dentro dele, um canto de breu no seu ser de luz.
Merlin nunca se atreveu a medir forças comigo porque me teme, bem nas profundezas do seu desejo, que o torna tão cego! E não sabe que poderia vencer-me mas teria que, primeiro, vencer-se a si próprio... e ele é muitíssimo poderoso! © Fata Morgana Avalon, 21 Julho, 2004
- Morgana?...
- ... - Morgana, não faças de conta que não me ouves! - ... - Morgana!! Estou mesmo aqui ao lado, é impossível que não me ouças a chamar-te! - Desculpa. Não ouvi mesmo. O que me queres? - Não é que eu o queira... mas há uma coisa que tens de fazer. Para o teu bem. - ... sim?... E o que é? - Tens de ir ao círculo de pedras e mostrar aos Druídas as tuas capacidades para eles saberem quais são, como são, quanto valem. - Oh... mas são coisas que valem pelo silêncio que trazem em si e de repente se quebra! Por acontecerem a propósito! Não têm um valor exacto. Para uns será nada; para outros... tudo! Tu bem sabes que é assim. - Pois sei, mas os Druídas também o sabem e tem de ser. São ciclos que se cumprem e se fecham. Outros, novos, que se abrem. Pertences a este meio por tua vontade, tens de cumprir os rituais. - ... - Então?... - Estava a pensar na melhor forma de quebrar o silêncio... Em como fazer com que venha a propósito... Em renascer para uma nova realidade, fortalecida e... - Calculei que detestarias a ideia e também que não lhe resistirias. Lá nos veremos. - Merlin! Tu sabes qual é a minha força... Merlin sorriu. Seguiu caminho. Morgana ergueu-se, estendeu os braços para o sol e os pássaros cantaram e voaram em seu redor, girando vertiginosamente, até ela fazer aquele som sibilante que os deixava na dúvida sobre se ela era uma mulher ou uma serpente. Também não estavam certos se uma serpente, naquele caso, seria má. Depois voaram para longe, livres, e Morgana - carregada das vozes das aves, mas não ao ponto de as ter deixado, a elas, mudas -, caminhou pela floresta até chegar a lua. Dormiu ao relento: dava-lhe sempre forças e redobrados poderes. Faria tudo o que lhe reforçasse os dons até ao dia de se apresentar no círculo de pedras. Na antevéspera desse dia, chegou um inesperado emissário. Atabalhoado, encarou Morgana e disse-lhe: «não encerraremos este ciclo». Foi um momento em que o mundo e todas as coisas que nele habitam ficaram estáticas, suspensas. Morgana nada replicou, de tão furiosa. Suspirou lentamente... sentindo o seu próprio pulsar. E decidiu procurar Merlin, que interpelou com incredulidade e veemência, em voz muito baixa (ele sabia que ela estava zangada): - Não há como parar algo que foi começado e prosseguiu com tanta energia que desencadeou uma coisa nova! É preciso criar o ciclo correspondente. - Estás certa. Esperaremos sete dias. O mundo e as coisas que nele habitam recomeçaram a mexer-se, primeiro a custo, depois depressa demais e, finalmente, como de costume. Morgana poderia esperar mais sete dias. Já quase gostava de dormir ao relento e sentir o silêncio carregado de presenças no coração da floresta. © Fata Morgana PS. É exactamente isso: o meu exame foi adiado para o dia 27! O Júri não poderia estar presente na data inicialmente prevista. Avalon, 17 Julho, 2004
Amor, Amigo!...
© Fata Morgana Avalon, 13 Julho, 2004
Poema com enredo e personagens Corpo celeste que tu quizeste teu Roseira triste em que te feriste, meu O corpo é a rosa triste é a prosa celeste é a ferida. E acabámos de representar uma vida! Cai o pano e saem os actores (nós!) contentes de voltar aos bastidores © Fata Morgana
Avalon, 09 Julho, 2004
Umbral
A vastidão fazia-me sentir pequena e frágil. Coisas que eu não sou. Ali, parada no meio de tanto espaço aberto, longe de todas as pessoas, de todos os seres, olhava em mim e via um poço sem fundo. Atirei uma pedra e ela saiu do mundo, atravessando-me e seguindo sempre, em queda livre pelo espaço. Há-de entrar na órbita de um astro qualquer. Mas a pedra não sou eu. Apenas carregou consigo algo de mim porque me atravessou. Rio-me para dentro do meu poço. O som do meu riso faz eco e perde-se no espaço, também. Mas nunca será um satélite. Terá uma existência errante, sem destino nem descanso, vogará pelo espaço, rindo sempre e assombrando os lugares habitados por onde passar. Continuo com vontade de fazer experiências. Parece-me mais sensato voltar para a minha floresta. Assim que comecei a andar choquei de encontro a um obstáculo muito consistente. Com surpresa, vi, à luz mortiça do candeeiro de tecto, que era uma parede. Não vou ficar aqui a sentir-me invisível e desintegrada no sistema universal como se não fosse real Poço sem fundo atiro uma pedra e ela sai do mundo. Luz artificial amarela descolorida janelas estreitas na cal abrem uma ferida © Fata Morgana
Avalon, 07 Julho, 2004
O Júri!
Para os meus alunos, o ano lectivo acabou. Há gente com sorte! Para mim - que também sou aluna - ainda não. Resta-me como enorme preocupação o meu próprio exame de canto. Parece pouco?... Ah! mas não é! Exame de canto é a coisa mais petrificante que eu já experimentei e as pedras... não cantam! Por isso é lógico que devia ser completamente PROIBIDO fazer exames de canto. Para mim o acto de cantar é estritamente íntimo: ou estou absolutamente só; ou tenho um público e é como se estivesse só, pois o público com a sua personalidade colectiva, feita das energias de todos os presentes transforma-se numa massa una e indivisível, tão viva que a sinto em mim!, e a quem me dirijo com a devoção com que escreveria uma carta de amor - tendo em profunda conta quão precioso é quem está do outro lado, entregando-me expressivamente e com abandono, mas sempre à conquista, sempre a cativar... e nunca perdendo de vista que é a minha assinatura que encerra a dádiva. Eu.
Ora, no exame não estarei só de nenhuma destas maneiras. Estará lá o júri, que nem por sombras tem uma personalidade una, pois no fim vai opinar; não escuta transportado pelo que ouve, mas à luz de umas quantas coisas muito racionais; não sente o que vai ouvindo, espera pelo que quer ouvir. Ainda por cima os seus elementos (que raramente são bonitos!) estarão muito visíveis, à luz crua do néon que vem do tecto, não baterão palmas nem lhes farei vénias de agradecimento. Em vez das palmas, retribuirão com intrigantes trejeitos de lábios e sobrancelhas, algumas trocas de olhares - entre eles! - e eu não saberei o que querem dizer com tais coisas. Isto vai-me tornar excessivamente consciente deles e pouco de mim. Bolas!, que energia me há-de restar ao vê-los tomar notas durante o meu canto?! É uma coisa tão anti natural! Ora!... vai ter que ficar como sair!!! Claro que já fiz outros exames de canto. Mas, ai!... nunca consigo ganhar experiência nisso. Nada retenho de mim, só vejo o Júri! O poema que se segue é sobre cantar a muitas, muitas léguas de distância de um júri... Porgi amor qualche ristoro (*) Digo as palavras e sinto-as no coração a crescer Vem um fogo devorar-me o peito sim, fica-me o peito a arder Como quem morre de uma sede misteriosa bebo cada palavra dolorosa com avidez e prazer Como se fosse realmente minha a dor cantada sem doer © Fata Morgana
(*) Título de uma das árias da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart, que é tão linda e eu vou cantar (suspiro?) |
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