| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 19 Agosto, 2004
Do alto do Thor, lanço o olhar por toda a Ilha Sagrada e aproveito para guardar as imagens que já conheço tão bem mas que nunca me canso de contemplar. Quero levá-las comigo. A Ilha, cheia de sol, está envolta num véu de pequenas gotas de água, oculta aos olhos de quem não crê em sonhos - esses não podem conceber que exista um Verão eterno exactamente no meio das brumas! Quando acreditarem sem ver, saberão que Avalon existe e poderão vir cá.
Pela posição do sol sei que é tempo de ir, que já sou esperada na outra margem, para lá das brumas. Olho uma vez mais a toda a volta, inspiro o ar límpido e puro, murmuro as palavras que sempre trago no peito - "Avalon... lar..." - e desço lentamente sentindo a erva acariciante sob os pés descalços. No meu castelo, todos me esperam para me desejar coisas boas para os próximos dias. Rudi vem até junto de mim e executa uma pirueta perfeita, estendendo-me nas suas mãos lindíssimas um delicado par de sapatos de ballet, feitos pelo seu mestre sapateiro particular - um especialista de Londinium (*). Guardo-os e sorrio-lhe. Não digo uma palavra. Não há palavras para uns olhos flamejantes como os dele, que incendeiam logo os meus. Basta que o olhe e a resposta está dada. Glenn também se aproxima de mim. Traz-me umas folhas, num rolo atado com uma fita vermelha. Entrega-mas quase sem me olhar. Ainda antes de as ler sei que não contém palavras, mas sinais. Escrita musical. São as "Variações Goldberg", com os staccatos e os legatos tal como ele os executa, ao piano. Atiro-lhe um beijo, exactamente como se me encontrasse muito longe... pois ele está sempre distante e eu sei que só respeitando isso lhe serei próxima. E finalmente, praguejando, Antonin destaca-se do grupo de hóspedes do meu castelo, aproxima-se de mim e diz-me, como sempre, algo de fantástico: - Morgana, leve consigo esta tocha. A mesma chama arde em Atenas, nos Jogos; eu roubei algum desse fogo para si e você deve fazer bom uso dele, por onde passar. - Entendo. - pego na tocha em chamas - Prometo-lhe que não aceitarei nenhuma medalha. Ele cospe e faz uma careta, assentindo. Detesta cerimónias, só o teatro pestilento da verdadeira humanidade vale a seus olhos. Com um último sorriso olho para os meus hóspedes, especialmente para os três Cavaleiros que me trouxeram algo da sua loucura, as suas insígnias. Mas o meu Cavaleiro, aquele a quem dei o coração, aguarda-me para lá das brumas. Vou direita ao lago, lentamente, antecipando o reencontro.
Os barqueiros aguardam as palavras mágicas, eu digo-as, e as brumas vão-se abrindo à nossa passagem. Assim que desço da barca, ouço o resfolegar dos dois cavalos e vejo o meu amado, que me abraça e beija. Monto o corcel que ele escolheu para mim. Ele monta em seguida e dá um toque no lombo do cavalo, gritando alegremente:
Durante alguns dias, Rudi, Glenn e Antonin ficam a zelar pelos meus domínios. Já é costume. Desta vez, porém, como demoro mais uns dias, fica também La Cauallera, porque eles estão sempre entregues às suas demandas interiores e eu não quero perder nenhuma das mensagens que aqui sejam deixadas, para depois lhes poder responder. © Fata Morgana (*) Era realmente um mestre sapateiro inglês que fazia todas as sapatilhas usadas por Nureyev nos seus bailados. Trabalhava exclusivamente para ele e para Margot Fonteyn. Conhecia tão bem cada milímetro dos pés de ambos, que notava logo a existência de qualquer pequena e passageira lesão só de lhes tirar as medidas para um novo par. Avalon, 15 Agosto, 2004
Cartas de Água
Uma lágrima redonda
Uma lágrima tão redonda
© Fata Morgana Avalon, 11 Agosto, 2004
No coração desta noite o meu olhar em silêncio ecoava solidão Durante as horas sombrias no meio da multidão escutei palavras dispersas sem sentido, tão vazias formando frases banais Respondi-lhes sem falar esboçando apenas sinais A lua a flutuar e eu no chão cruzando-me com a falsa sedução passei sem olhar sem dizer nada lancei-me na escuridão Descobri um farol a cintilar uma luz muito distante segui-a sem hesitar A lua a flutuar e eu no chão prestes a encontrar a autêntica emoção vejo clarear um dia encantado e tu estendes-me a mão. © Fata Morgana Avalon, 07 Agosto, 2004
Confissões VIII - Humor Negro
Já uma vez, a propósito de um desastrado passeio de táxi, falei da minha passagem fugaz, pelos escritórios de uma empresa de importações. Comecei no departamento de contabilidade - detestava! - depois fui substituir uma secretária de administração - era um bocado melhor, principalmente porque secretariava duas pessoas e uma delas era bastante original. ![]() Executivo Yogue (http://www.californiaimage.com/)
Era um eterno rapaz, dos seus quarenta, muito competente no departamento que chefiava, mas percebia-se que a vida para ele não era aquele emprego, que lhe servia para custear os seus múltiplos interesses, como viajar, comprar livros, CDs, ir ao cinema, e frequentar galerias de arte - sobretudo fora dos dias de vernissage - pois, para além de coleccionador, fazia palestras, conferências e chegou a escrever algumas críticas de pintura. Era Mestre Yogue mas não tinha a mania de se exibir a levitar nem nada, e também jogava muito prosaicamente basketball, de cujos treinos contava histórias banais quando nós tentávamos levá-lo para o misticismo. Eu gostava de trabalhar com ele, que, tal como eu, estava apenas de passagem por aquele mundo de executivos, era completamente lunático e compreendia-me - percebeu logo que eu não estava ali para fazer carreira de escritório! O terrível episódio de humor negro não se relaciona directamente com este meu chefe excêntrico... apenas resulta de uma conversa que tínhamos tido na manhã em que tudo aconteceu. Ele tinha estado na ex-União-Soviética e vinha maravilhado com umas coisas e muito mal impressionado com outras. Na empresa eram permitidos coffee breaks (a gerência decidiu não lhes chamar tea breaks pois não éramos ingleses!). Todos tínhamos direito a um de manhã outro de tarde, à hora que quiséssemos, desde que não demorássemos mais de 10 minutos nem saíssem simultaneamente duas pessoas do mesmo departamento. Havia vários cafés nas imediações mas era preciso correr, pois o tempo na realidade não chegava! Eu sempre tomei o pequeno-almoço em casa: uma chávena almoçadeira de café puro e um pão com manteiga - não há nenhuma iguaria que melhor me saiba quando acordo! Durante o dia não toco mais em café, por isso as minhas saídas eram apenas breaks: bebia o que me apetecia - nunca arrisquei umas imperiais (bejecas!) porque podia aparecer um dos chefes. Uma manhã, estava um frio de rachar e eu tinha ido muito mal agasalhada. Sentia-me gelada, precisava de conforto e calor... e lembrei-me de repetir a dose do pequeno-almoço mas com uma cevada dupla a substituir o café. Sentei-me, ao balcão, claro, e quando o empregado se aproximou - ele já me conhecia, sabia que eu estava a morrer de pressa! - pedi-lhe meia torrada e a dita cevada dupla mas, no rescaldo da tal conversa em que se falara dos horrores nucleares, não sei o que me passou pela cabeça e acrescentei - "muito quente, a explodir, como se viesse de Chernobyl!". - Cherno... quê?! - Chernobyl. Errr... a cidade ucraniana, na Rússia... aqueles reactores sobreaquecidos... um acidente nuclear gravíssimo, há uns anos... - expliquei muito toscamente, apercebendo-me de alguns olhares curiosos e também de que podia ter escolhido uma forma melhor de dizer que queria que a bebida viesse quentíssima! Pensei que talvez ele não se lembrasse do lamentável acidente... Ele lembrava-se. E achou graça, repetindo várias vezes o nome, à procura da acentuação correcta: "Chernóbil... Chernobíl..." Por qualquer razão de que não me lembro, não fui lá de tarde, só voltei no dia seguinte e fui recebida pelo mesmo empregado (chamava-se Carlos), que me perguntou com um ar divertido: "Um Chernobyl?..." As pessoas em volta olharam, sem perceber, e pasmaram para o meu "sim". Mais visivelmente pasmadas ficaram quando chegou o "menu" banalíssimo. Lá escaldei a garganta com a cevada, entre incontíveis risadas de que me sentia culpadíssima - não sou muito de humor negro! - e ele, o Carlos, ria também. Supus que se criara uma espécie de pequena cumplicidade entre nós. Estava redondamente enganada, porém. Na vez seguinte atendeu-me o dono do café, a quem eu pedi muito séria "uma cevada dupla e meia torrada"; aquilo tinha começado a saber-me bem, sobretudo porque estavam uns dias realmente muito frios e eu nunca fui de me abafar em camisolões. Estava a instalar-me melhor quando ouvi clara e inequivocamente: - Ó Carlos, tira aí um Chernobyl! ![]() "Hot Hot Coffee" - By Dave Newman
Quase caí do banco abaixo! O Carlos, voltado para a máquina do café-de-saco e da cevada, cumpria o seu dever de excelente empregado e tirava... o Chernobyl! O dono do café, impassível, estava a fazer um comboio de pires com chávenas, colheres e pacotinhos de açúcar pelo balcão adiante, preparando as coisas para a hora-de-ponta e não me ligou nenhuma, comportava-se exactamente como se tivesse dito algo muito comum em linguagem de café - daquelas coisas muito cómicas que já todos conhecemos, do tipo "meia com pouca", ou "um curto em fria". E assim ficou, ali, rebaptizada a cevada dupla.
Muitas vezes, enquanto me mantive naquele emprego e frequentei aquele lugar, que me era simpático, ouvi o mesmo pedido gritado atrás do balcão - quase sempre se destinava a senhoras idosas e recalcitrantes que, apesar de muito agasalhadas, talvez não pudessem ou não quisessem beber café e por isso pediam cevada e... - Sai um Chernobyl! © Fata Morgana PS. Para me redimir, aqui fica um link onde todos podemos recordar as vítimas e ajudar os que ainda têm alguma esperança. Avalon, 03 Agosto, 2004
Conheço essa impressão de coisa esquecida
que volta inesperada de tão longe Não a sinto agora, anda afastada espantei-a com real terror de monge Mas não é impossível de repente num olhar, num cheiro, numa estrada, (até na estupidez de uma canção!) os meus esquecimentos que eram nada ganharem vida e eu perder a razão © Fata Morgana
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