Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 28 Setembro, 2004

 

 
Em todos os mistérios
sinto um Norte
na escuridão janelas por abrir
Não é pois de espantar que me fascinem
os enigmas
e que não tema o escuro
Já que os pontos cardeais são de um concreto puro
feito de abstractos
como estigmas.

E o breu...
o breu é subjectivo!...
Contém a exiguidade e o imenso
é leve como o nada ou muito denso
Na imaginação
sereno ou aflitivo.

Sonho frequentemente
com grandes mistérios em plena escuridão
coisas que assustam tanta gente
sem razão
E sigo o meu caminho de temente
e sinto-me segura até mais não!

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 24 Setembro, 2004

 

 
Onde estiveres
lembra-te sempre das tardes
roubadas ao estudo
Dos eléctricos perdidos
porque outro viria a seguir
mas para o lado oposto
e era nesse que tu querias ir

Lembra-te da guitarra de doze cordas
em vez da arquitectura
Das nossas mães
na exposição de pintura
a dar opiniões que nos faziam rir

Nunca te esqueças
da chave no tapete
para me apanhares em flagrante
ainda a dormir
Nem dos horóscopos daquela romaria
que nos falavam em morrer
no mesmo dia

E, já agora, não te esqueças de sorrir
mesmo se te olharem estranhamente
Pois todo o bem se deve repartir
e só te estranha quem de si ficou diferente

© Fata Morgana


Sweet Summer by John Waterhouse

 

 
Avalon, 20 Setembro, 2004

 

 
Confissões X - Mon petit-ami

Foi no Verão em que completei seis anos que me apaixonei pela primeira vez por um rapazito próximo de mim e de carne e osso. Antes dele, as minhas inclinações tinham como alvo cantores, actores bonitos e também rapazes imaginários ou então verdadeiros mas com vinte anos (geralmente eram amigos do meu tio). Claro que o meu grande amor era o Nureyev, e continuou a ser, mas sofreu ali a primeira de algumas traições inevitáveis.
Ainda morávamos em Lisboa e costumávamos passar as férias no Norte, por causa dos meus avós maternos e paternos, que viviam no Porto e os meus pais aproveitavam esses dias livres para os verem mais amiúde. Alugávamos uma casa em Miramar onde fazíamos praia. Ao fim de semana os meus avós vinham juntar-se-nos e era uma alegria.
O meu irmão só tinha três anos e ainda dormia de dia, por isso íamos para a praia de manhã cedinho, regressávamos ao apartamento nas horas de calor, almoçávamos, ele dormia a sesta e eu brincava lá fora onde tinha muito espaço, pois estávamos isolados no meio de um pinhal. Havia o meu bloco de apartamentos, outro igual exactamente em frente e um terceiro em fase final de construção, a unir os dois primeiros em U, ficando no meio um espaço grande de pinhal quase cercado onde eu tinha permissão para andar à vontade. Só voltávamos para a praia por volta das quatro horas, de modo que eu, assim que almoçava, ia brincar lá para fora. Era encantador, aquele bosquetto arenoso, que ficava no espaço entre os três prédios! À sombra dos seus pinheiros brincavam outros miúdos como eu. Claro que, com a minha queda natural para as complicações, caí para o lado com um francesito que não falava uma palavra de português. Eu também não percebia patavina de francês.



Num aprés-midi, andava eu a cantar e a apanhar joaninhas - havia imensas! - que depois deixava passear pelos braços acima, quando ouvi uma algaraviada qualquer. Voltei-me, vi um miúdo muito loiro, giríssimo, e... BUM!, o meu coração deu um grande salto sob aquele intenso olhar azul e os lábios invulgarmente grossos, que sorriam para mim. Não sei o que lhe respondi que o fez acentuar o sorriso. Eu perdi a fala e as joaninhas, que devem ter voado. Ele desatou a dizer palavras que não entendi e também nomes, enquanto fazia gestos. Percebi apenas que se chamava Philipe, era francês e morava numa das casas do prédio da frente. Lá lhe disse o nome, a nacionalidade (!) e apontei para o meu apartamento. Num instante instalou-se entre nós uma doce forma de comunicar, sorrindo, apontando coisas cujo nome um de nós dizia e o outro repetia. Também faziam parte os olhares sempre muito intensos e por vezes dizíamos longas frases... e desatávamos os dois a rir perdidamente, encolhendo os ombros, pois era óbvio que não nos fazíamos entender nem nos ralávamos com isso.
Nesse dia fiquei muito contrariada por ter de voltar para a praia. Mas depois, à hora do banho no mar, precisamente quando me levantei de um valente mergulho, de que imediatamente me orgulhei, dei de caras com aquele sorriso azul que já quase me parecia ter sido apenas um sonho... mas estava ali a provar o contrário. Senti-me maravilhada e também muito intimidada. Ele estava realmente ali. Muito próximo. De repente percebi que ia ser assim durante as férias todas. Sentia uma coisa que, não me sendo estranha, assumia proporções novas, de algo com que nunca antes tinha lidado. Nunca tinha escutado a respiração, nem tocado nas mãos, nem visto pulsar perto de mim o corpo vivo de um rapaz que me despertasse amor. E, de uma certa forma, fugi.



Tal como eu previra, tornamo-nos inseparáveis. Passávamos os dias juntos, a brincar, a rir, a dizer muitas coisas de que apenas entendíamos menos de metade. Ele fazia-me cantar, como no primeiro dia quando me interrompeu, e tentava imitar-me o que me fazia rir até às lágrimas e a ele também. Eu só pensava em estar pertinho dele e sentia-me adorada. Mas se as nossas mãos se tocavam, mesmo que casualmente, ao fazer castelos de areia, a minha saltava imediatamente para longe com um gesto vivo. Eu sabia que ele sentia a barreira construída por mim, lia-lho no olhar que me perscrutava, enchendo-se de confusão e de sombras. Às vezes notava-lhe uma vaga tristesse... e isso produzia em mim um ataque de ternura tão dolorosa que me apetecia colar os lábios aos dele... assim de raspão... ou com muita força. Para afastar tais ideias, voltava-lhe as costas de rompante, gritando "tenho que ir!" e corria para junto dos meus, se estivesse na praia, ou para dentro de casa, se estivéssemos no pinhal.
Depois ficava com medo de o ter perdido e voltava. Era sempre recebida com o mesmo olhar imensamente azul que me envolvia num halo de amor e o sorriso de boas vindas nos lábios grossos.

Um dia, logo pela manhã, saí de casa e, como sempre, olhei para o prédio da frente, para as janelas do Philipe. Estavam todas escancaradas. Procurei o carro e a roulotte - que tinham ficado as férias inteirinhas parados no mesmo lugar - e constatei que tinham desaparecido. Ele partira! E partira sem saber que fora correspondido, que também eu o amava. Nunca mais o veria. Nunca mais lhe podia dizer "salut!" - como ele me ensinou. Nunca mais o ouviria a dizer-me "ôlá!" - com aquele sotaque que eu tentava corrigir em vão.

A minha reacção foi atravessar o pedaço de pinhal entre as nossas casas e entrar na dele. Não procurava nada esquecido - nunca fui de tolices dessas! - queria apenas respirar um restinho de Philipe. Percorri o apartamento, séria, sem me deter especialmente em nenhuma das poucas divisões. Talvez tivesse tentado adivinhar onde ele dormira, não me lembro. Lembro-me da pequena gota de sangue no chão, quase à saída. Tive a certeza que era dele. Hoje essa certeza faz-me sorrir. Não que duvide, até acredito bastante nessas intuições súbitas... mas eu era tão pequenita! Toquei-lhe com a pontinha do indicador, num afago que pretendia repor um bocadinho da proximidade perdida... e saí.
Estava mais triste por lhe ter escondido o que sentia do que por ele se ter ido embora. Hoje uma situação semelhante poderia causar um grande sofrimento, mas quando se tem cinco anos estas coisas resolvem-se com muito maior simplicidade.
Com o coração apertado, mantive-me nas imediações da casa do Philipe e, de repente, ouvi assobiar. Vi que era um dos trolhas que trabalhavam no terceiro bloco de apartamentos. Tinha um ar simpático, lembro-me que achei que ele tinha quarenta anos (mas às tantas tinha vinte e cinco!). Fui ter com ele, que estava agachado a mexer numa papa de cimento com um utensílio metálico triangular com cabo de madeira. Fiquei uns momentos enfeitiçada a olhar para aquilo até que ele deu por mim e parou de assobiar. Cumprimentou-me e fez-me a típica pergunta que sempre detestei: "Então pequenita, já sabes o AEIOU?" Dessa vez não me importei. Disse-lhe que sim mas que ainda só ia para a escola no ano seguinte, pois até aí a escola fora só a brincar.
Depois ganhei coragem. Respirei fundo e ao fim de todo aquele tempo - quase um mês! - finalmente declarei-me:



- O senhor sabe quem é o Philipe?
- O Filipe?!
- Sim. Aquele menino francês que morava ali - e apontei.
- Ah, sim, o lourinho! Sei, sei.
- Eu gostava dele, sabe?
O homem olhou-me admiradíssimo mas eu tinha que dizer tudo, por isso não me deixei intimidar e continuei:
- Gostava mesmo muito dele, assim com amor de namorados. Mas ele não sabia e agora foi-se embora.
Dito isto, acrescentei um rápido "adeus!" e voltei para casa muito aliviada!...

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 16 Setembro, 2004

 

 

Imagem daqui


Alma Gémea
(dedicado ao J.)

A todos os luares
conto os segredos
A todas as marés
digo as vontades
No céu voo em azuis tão variados
Sou tu na essência mesma do que és

Tu és o mar
eu sou a onda
Tu és a lua
eu o luar
Tu és o azul
(o azul do céu)
e eu a ave
nele a voar

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 14 Setembro, 2004

 

 
Fragmentos de Imagens

I

Espelho quebrado
que tenho oculto
guardado
só em ti me reconheço
Meu espelho já partido
que trago sempre comigo
Noutro a mim não me pareço

II

Lapso de linguagem
minha outra margem
Se eu de ti me escapar
der meia volta e fugir
a minha imagem guardada
naquele espelho partido
vai-me sempre perseguir

© Fata Morgana


Girl Before A Mirror, 1932 by Pablo Picasso
 

 
Avalon, 12 Setembro, 2004

 

 
Confissões IX - Excesso de Optimismo

Saí de casa muito bem disposta. A manhã ia a meio, e um sol quente, já primaveril, espalhava-se acariciante nos meus ombros, descendo pelos braços e pelo decote. Toda eu me arrepiava se algum prédio mais alto desenhava sombras no passeio e estugava o passo, até voltar a sentir o calor envolvente que o Rei Sol proporcionava tão precocemente - ainda era Fevereiro!
Fui a pé até ao Parque da Cidade e sentei-me junto ao lago. Os patos nadavam por ali e, como de costume, vieram cumprimentar-me, mas assim que perceberam que dessa vez não lhes levava migalhas de pão, deixaram de me ligar, retomando as suas cómicas rotas. Gosto imenso de patos, são uns animais adoráveis, rouquinhos e engraçados, com gestos rápidos e atitudes alegremente frenéticas. Dá ideia de que acham que a vida é bestial! E eu partilho com eles essa opinião, de uma forma menos ligeira, por acaso até muito pensada... mas partilho.
Um ou dois cisnes - majestosas criaturas, tão bonitas - cortavam elegantemente as águas do lago, devagar, quase com pompa, contrastando com os gansos desastrados, que grasnavam como que a desculparem-se por não serem tão engraçados como os patos nem tão belos como os cisnes. Mas são tão simpáticos, os gansos! E têm um ar amigo.
Mas... eu quero é contar o que vem a seguir, já que não vim escrever sobre a fauna dos lagos do Parque da Cidade, por isso, adiante! Deixei-me ali estar um bom bocado, gozando o sol, o canto dos pássaros e a companhia dos citados bichos, depois levantei-me e segui caminho. Ia almoçar a casa da minha mãe. Tinha que apanhar um autocarro na paragem exactamente em frente ao Parque, coisa que fiz. Assim que entrei, percebi como fora incauta querendo viver ao primeiro raio de sol a Primavera!


Lá dentro parecia um frigorífico! O condutor devia ir ainda mais adiantado do que eu nas estações do ano... A julgar pelo disparate em que tinha o ar condicionado, já estávamos num Verão tórrido. O meu top levezinho de alças largas parecia ideal para apanhar ali o resfriado que a minha óbvia pele de galinha já ameaçava - até na cabeça, sentia os cabelos eriçarem-se mas isso, felizmente, não era visível. Reparei que toda a gente usava camisolas ou casacos ligeiros. Também não pude deixar de notar que todos me olhavam com evidente surpresa, uns com ares simpáticos e penalizados, outros a gozar descaradamente.
Mais ou menos a meio do percurso, numa das paragens, entrou um senhor que... bem... não sei como amaciar isto: era um tolinho, pronto! Já estava a rir-se sozinho na paragem, entrou sempre a rir... e a rir se sentou à minha frente, virado para mim (eu tinha escolhido um lugar daqueles conhecidos como bancos dos palermas - nome aliás muito bem posto, pois as quatro pessoas que os ocupam geralmente não se conhecem de lado nenhum e vão sempre a olhar umas para as outras com ar de palermas).
O tal senhor, assim que se sentou, deixou de rir e observou-me demoradamente, muito sério - mesmo assim tinha ar de tolinho. Desviei o olhar, observando a rua cheia de sol, desejando em vão senti-lo, como quando estivera no Parque, mas claro que continuava transida de frio e ainda um bocado acabrunhada com a inspecção a que me via sujeita. De repente, com uma gargalhadinha, o senhor tolinho emitiu finalmente o veredicto, exclamando numa voz esganiçada que soou perfeitamente audível de um extremo ao outro do autocarro:
- Ai que cachopa tão fresquinha!!!! - (ele disse catchopa!)
A risota foi geral, até eu me ri. E não só enfiei o barrete como pensei que a tolice não é isenta de juízo...
O pior foi que aquilo passou, as pessoas retomaram as conversas, as que iam sós remeteram-se novamente para os seus pensamentos mas eu, pelo contrário, evoluí desastrosamente para um tremendo ataque de riso! Claro que fiz tudo para disfarçar, mas sentia muito bem o rosto contorcido numa expressão esquisitíssima e fiquei afogueada, com lágrimas a cair pela cara abaixo - é terrível engolir gargalhadas! A única pessoa que me acompanhava abertamente e com a maior descontracção (entre piscadelas de olho muito repenicadas!!!)... era o meu tolinho!

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 07 Setembro, 2004

 

 
Ao astro meu

O meu corpo
é uma nave misteriosa
e eu gosto de vogar
em modo lento
Tu crês que chego sempre a ti
sem rumo
ou que é o vento
que me traz aqui

Ora aí está
suspensa a vida
no meu corpo nu
Pois se não sabes que sou sempre tua
que sentido irás dar ao meu desejo cru
imenso como um mar
profundo
abismo que flutua?...

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 01 Setembro, 2004

 

 
A lenda do peixe doméstico
que respira
e vive
é mentirosa
Como aquela outra
da rosa
viva
numa jarra.

Custa-me ver
tédios caseiros a reter
garbosas barbatanas
e a desbotar pétalas outrora caprichosas.

Não posso assim ficar estirada em sonhos
Como se nada soubesse dos mares
e dos jardins.

© Fata Morgana


(Gostaria muito de o mencionar mas desconheço o nome do autor da pintura)

 

 
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