Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 30 Novembro, 2004

 

 

The Rose Bower by John William Waterhouse

A Lenda da Rapariga Arrependida

Dormia abraçada a mim mesma, o mais enrolada possível no lençol e no edredon, que formavam uma espécie de casulo onde eu tentava sentir calor. Mas não conseguia. Acordava sempre com frio, apesar do Verão lá fora, apesar da cama artilhada para o Inverno rigoroso que havia dentro de mim. E constatava sempre que tinha dormido apenas uma ou duas horas, que ainda tinha a noite pela frente. As noites demoravam sempre muito tempo a passar!
Desistia de dormir. Saía da cama e ficava a olhar para aquela casa que não me parecia a de sempre. Andava pelos vários compartimentos exactamente como um fantasma, escutando sons, revendo gestos, encontrando buracos que eu mesma tinha cavado ali e tentando, ainda, enchê-los - apesar de ser muito tarde para isso. Mas sentia-me noutra dimensão. Talvez ali os gestos fossem intemporais e viajassem até aos seus lugares certos, preenchendo os vazios do passado. Crente na força do querer, e mais ainda na do bem-querer, ia repondo todo o carinho, todo o amor, espalhando pela casa escura e fria uma imensa paixão.
Muito cansada mas insone, acabava sentada na cozinha com um baralho de cartas e uma chávena de chá, na tentativa de ocupar a cabeça com paciências infinitas. Incapaz de lhes prestar atenção, nunca conseguia terminá-las e ficava a olhar para as cartas que me sobravam nas mãos, lendo-as, interpretando-as. Esta Dama de Ouros devo ser eu... e este Valete de Ouros deves ser tu. E todas estas cartas entre o dois, deixa lá ver se têm um ar simpático?... Não tinham. E eram demasiadas.
Vestia-me e saía ao romper da aurora. Escolhia quase sempre um vestido vermelho, pois estava de uma palidez quase transparente e essa cor trazia-me uma ténue imitação do fogo que eu antes tinha no peito e me subia ao rosto, num rubor vivo, aceso. Andava um pouco pelas ruas ao acaso, e este levava-me sempre até um enorme jardim onde havia um roseiral. Era ali o meu refúgio. De todas as coisas que eu fazia, aquela era a única que quase me permitia não pensar. No meio de todas aquelas rosas tão perfeitamente belas, sentia-me invadida por alguma paz, como se tivesse morrido num dos bancos de pedra e as pessoas que passavam me fossem cobrindo de pétalas, com a maior naturalidade. Romanticamente, acreditava que pensavam para consigo, num suspiro misto de pena e deleite, "lá está ela, a rapariga arrependida!"... enquanto lançavam as suas pétalas, como quem cumpre um ritual de alguma lenda triste.

Mas não foi nada assim! Eu não morri no roseiral. Tampouco me tornei cartomante ou fantasma vivo e gesticulador. E à noite deixei de habitar em solitários casulos frios! Porque os meus gestos tardios ainda valeram a pena e desencadearam uma grande festa de amor.

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 24 Novembro, 2004

 

 
Confissões XII - Diabruras e Sentimentalismos Meus

Mon Oncle



Juan Miró

Um dos heróis da minha infância foi o Tio Miguel. Eu gostava de todos os irmãos do meu pai, assim como dos da minha mãe, mas o Tio Miguel era especial!
Era bom conversador, dono de um encanto fatal como uma maldição, que resultava da sua natureza bastante inacessível aliada ao desejo de afastar de si o sentimento de solidão indesejada. Muitas raparigas perdiam a cabeça por causa dele em vão, pois ele tinha queda para os amores impossíveis e entregava o coração a afectos que não corriam bem. Também tinha imensas aspirações que não sabia como realizar - na altura faltavam-lhe os meios - e andava muitas vezes com neura. Um dos seus maiores encantos era o sorriso. Não que fosse rasgado e cheio de calor, não era. Era quase um meio sorriso, repartido entre os lábios e o olhar, mas esse pequeno gesto era profundo e mostrava a alma, que era bonita.
Eu desde minúscula que me apercebi que por vezes ele tinha uma espécie de nuvem a acompanhá-lo - sabia lá o que era neura! - e sentava-me ao lado dele muito séria a conversar como os grandes faziam. Perguntava-lhe sobre a Faculdade de Medicina e a namorada, falava dos meus planos para quando fosse para a escola estudar para ser "senhoria" (!) e também de namorados e maridos. Ele respondia-me muito sério, tratando-me por Senhora Dona Morgana. Era a nossa brincadeira privada, em que ele alinhava por longos pedaços. Gostava de me ouvir e às vezes ria-se francamente com as coisas que eu dizia, o que para mim era uma grande vitória. Mas também me levava a sério, foi ele que disse aos meus pais que lhe parecia que eu devia ir para o ballet!
O Tio Miguel vivia no Porto, em casa dos meus avós, pais dele, claro. Eu em Lisboa. Mesmo assim tínhamos muito contacto porque a minha mãe convidava muitas vezes os irmãos e os cunhados para passarem uns dias em nossa casa. O nosso pequeno clã - pai, mãe, eu e mano - também vinha com frequência ao Porto, para além do mês de férias de Verão (passado em Miramar, numa casa de praia, mas fica perto).
Ironias do destino, quando nós viemos viver para cá o Tio Miguel casou com uma rapariga lisboeta e foi viver para Lisboa, de modo que o convívio manteve-se na mesma base: frequente mas não assíduo. Isto em nada interferiu com o facto de sermos especialmente chegados.

A Gabardine!



Um belo dia, andava eu no colégio, na primária, a juntar letras para formar palavras, cheguei a casa e encontrei à minha espera uma caixa enorme com um presente do Tio Miguel que chegara para mim, pelo correio: era uma gabardine! Eu nunca tinha tido uma antes, costumava usar impermeáveis modernaços. Aquela era uma verdadeira gabardine clássica, em tecido impermeável branco, com cinto, uma preciosidade! Lembro-me que fiquei muito aborrecida com o facto de não estar a chover nem parecer que tal coisa fosse acontecer tão cedo. De facto, passaram-se muitos dias, talvez semanas, sem que caísse um pingo e eu perscrutava o céu todas as manhãs, na esperança de ver pelo menos uma nuvem levemente ameaçadora para me deixarem levar vestida a gabardine "do Tio Miguel", como eu dizia. Claro que não seria tão bom como se chovesse mesmo a sério, mas sempre podia estrear a peça até aí inédita no meu guarda-roupa.
Fatalmente, um dia lá choveu! Acordei antes do tempo mas já sobre a manhã... e tive a surpresa de ouvir chuva a bater fortemente na persiana. Fiquei à espera que me chamassem, antecipando o gosto de chegar ao colégio elegantíssima. Acho que nunca antes tinha embirrado com a bata, mas nesse dia foi preciso obrigarem-me a vesti-la, porque eu não queria. Sem outro remédio, lá me conformei, já atrasada por causa da discussão. A minha mãe levou-me e, como sempre, entrou de carro pelos portões largos do colégio para dar a volta até às traseiras, onde ficava a entrada mais próxima das salas de aulas da primária. Eu bem tentei convencê-la a deixar-me ir a pé, já que estava tão bem equipada para tal, mas ela não foi nisso! O carro parou colado ao telheiro da porta por onde eu ia entrar obviamente sem apanhar um pingo da apetecida chuva. Os adultos, como são obtusos, os adultos!... - pensei - é claro que hoje devíamos ter parado mais longe do coberto!

Nesse momento é que o meu diabinho interior me alertou para o facto de eu ter outras opções diferentes da habitual, que era entrar. Muito direitinha, fui até à soleira e voltei-me para acenar à minha mãe. Ela leu-me o pensamento porque não arrancou enquanto eu não me meti pelo corredor dentro!... Ignorei o vestiário, pensei que pelo menos faria uma fantástica entrada triunfal na sala de aulas! Mas quando parei em frente à porta da sala, olhei e vi que a minha mãe já tinha seguido e, por uma sorte verdadeiramente inacreditável, a vigilante daquele corredor não estava lá como de costume. Desandei logo lá para fora!

Mais Praticantes da Modalidade...



Infelizmente não podia ir para o meio do recreio, que estava desolador, debaixo de chuva e cheio de poças de água. Apetecia-me imenso, mas seria vista das janelas. Não sabia que salas ficavam por trás daquelas janelas mas, fossem quais fossem, de certeza que um qualquer adulto desmancha-prazeres ia ver-me e achar que era proibido estar uma miúda sozinha no recreio à chuva em vez de estar na aula. Por isso resolvi dar um passeio sem me afastar muito das paredes do edifício. Decidi-me pelo lado direito e abandonei o abrigo do telheiro, sentindo logo a chuva a cair-me na cabeça e nos ombros - uma maravilha!
Dei uns passos, toda contente, pensando como o Tio Miguel era fantástico e tivera mesmo olho, pois aquela gabardine já me estava a proporcionar um dia magnífico para eu encher de asneiras, tal como eu gostava e tinha até muito jeito...
Aquilo ainda durou um bocado... mas de repente ouvi chamar o meu nome. Voltei-me e vi a minha professora a olhar para mim cheia de pintinhas de chuva nos óculos, com ar de pasmo mas também de poucos amigos, ordenando um "venha cá!" que não admitia réplicas. Mas eu é que também não admitia que ela me estragasse assim a estreia do presente do meu tio! Então, desatei a correr, dobrei a esquina e depois quase voei, a ver se conseguia contornar novamente o edifício e fugir para o jardim, de onde poderia apreciar - debaixo de chuva - a minha professora às voltas ao colégio. Quando dobrei a segunda esquina virei-me rapidamente e... não vi ninguém! Coitada, corre pouco - pensei - escuso de me esfalfar assim, pois levo um grande avanço. Nesse momento a vigilante do corredor apareceu vinda do lado oposto e aquilo pareceu-me suspeito! Ela era um bocado maldisposta e chata, nada o género de gostar de se divertir a apanhar chuva... Pareceu-me que a professora não estivera para maçadas, voltara para a aula e incumbira a Vigilante de me apanhar. Nada mais simples: era uma questão de fazer outra vez o mesmo percurso mas no sentido inverso e manter o plano. Não era tão divertido como ver a minha professora a correr à volta do colégio, mas o principal gozo continuava a ser apanhar toda a chuva que pudesse!
Claro que a vigilante era um reforço, como logo percebi, ao escutar atrás de mim os passos rápidos mas ainda assim calmos, talvez com a solenidade do sermão que carregavam, de quem eu, mesmo antes de olhar, já sabia que ia ver: a minha professora, evidentemente. Ainda olhei para o portão - estávamos as três no frontão do colégio - pensando em sair a correr e continuar o meu passeio na rua, onde aquelas duas não mandavam nada, achava eu. Porém... tinha medo! Reconheci isto e a perda da batalha, mas não vacilei.

Chuva de Mentiras



Quando as duas chegaram ao pé de mim, a Dª. M. A. (que adoraria rever!) fitou-me muito calma e muito séria. Estava encharcada. Estávamos as três... mas só eu por gosto.
- Sabes que horas são, Morgana?
- Não.
- Quase nove e um quarto. Eu vi-te da janela a chegar com a tua mãe. Vinhas cinco minutos atrasada. O que andaste a fazer durante quase meia hora?
- Fui ali ao quiosque comprar um nougat - respondi placidamente enquanto apontava para a paragem do eléctrico que ficava em frente ao colégio, onde realmente havia um pequeno quiosque. Ela ficou a olhar para mim, sem uma palavra. Sabia que eu estava a mentir, eu não duvidava disso e ela percebeu-o. Apenas lhe faltava o motivo, pois eu não costumava ser mentirosa. Simplesmente não queria falar do presente recebido. Para ela entender, eu teria que contar direito, tudo. O orgulho que tinha no meu tio preferido que me mandara um casaco de chuva como eu nunca tinha tido antes, o tempo que levara a querer estreá-lo sem poder; a vaidade matinal; o ter iludido o cuidado da minha mãe e mais a cena de detectives que se seguiu até estar ali encurralada. Era um dramalhão para o coraçãozinho feliz de uma catraia de seis anos.
- Onde está o nougat?...
- Já o comi. Assim que disse isto caiu-me uma gota bem quente pela cara abaixo. Senti que se dissesse coisas importantes ia chorar a sério. E eu naquela altura julgava que chorar era uma fraqueza um pedaço vergonhosa, só mais tarde percebi que não é.
- Bom... o melhor é irmos para dentro depressa.

Final Imprevisto



Dito isto, ela pegou-me na mão. Passámos na sala de aulas e, perante os olhares curiosos dos meus colegas, ela escreveu no quadro um trabalho qualquer para eles fazerem. Depois saímos e fomos para o refeitório, onde me deram uma bata enorme para vestir, umas meias grossas e umas sapatilhas de ginástica para calçar. Levaram as minhas calças, as botas e a gabardine, graças à qual a camisola estava sequinha. Daí a pouco estávamos as duas de batas secas a tomar chá quente junto a um enorme aquecedor a gás, e a conversar, em tom absolutamente concordante, sobre como mentir é tão feio.
Lá fiz a minha entrada na sala de aulas, com uma batona, meias altas e sapatilhas, ao lado da professora envergando modelo idêntico. Foi uma entrada mais triunfal do que qualquer outra que eu pudesse ter feito, pareceu-me.
No final da manhã entregaram-me as minhas roupas e as botas, tudo seco e impecável. Fui-me trocar ao vestiário das meninas, sob o olhar pasmado das outras que, de saída, enfiavam os seus casacos e atiravam para o ar graçolas não muito explícitas. Ninguém me disse nada nem eu dei explicações.
No momento em que acabei de vestir a minha roupa, a Dª M. A. entrou, pegou na minha gabardine e, enquanto me ajudava a vesti-la, comentou:
- Que bonita! É nova?
Voltei-me vivamente e encontrei um sorriso divertido e até compreensivo. Senti-me grata.
- É, estreei-a hoje... Foi uma prenda do meu Tio Miguel!
- Escuta, Morgana. Eu sei que não foste comprar nada ao quiosque. O porteiro tem ordens para não deixar sair meninos. Além disso, bem sabes que andei a correr atrás de ti, assim como a Laura. Por algum motivo, tu mentiste.
- Pois foi.
- Mas parece-me que todos temos direito a guardar para nós algumas das nossas razões, quando as há. E parece-me que tu tens as tuas.
- Pois tenho... fui vaidosa e mentirosa mas não quero dizer porquê.
Ela mordeu o sorriso.
- Para a próxima dizes isso. Mentir é que não.
Concordei com um aceno (não podia falar, tinha um nó) e ela terminou a conversa com um "Vá, agora vai almoçar, que logo à tarde tens muito trabalhinho pela frente!"

Não houve cartas para casa a chamar os meus pais nem qualquer outro tipo de queixa. O assunto morreu ali. A famosa gabardine do Tio Miguel ficou para sempre associada também à Dª M. A. e passou a ser simplesmente a minha gabardine.

© Fata Morgana

Os desenhos infantis são daqui
 

 
Avalon, 18 Novembro, 2004

 

 

by Thomas Kinkade

Cantiga de Amigo

Se tiveres que rasgar-me a alma
fá-lo com expressão
Detestaria morrer-te nas mãos frouxas
sem mesmo o perceber
cheia de anestesias
Só poderei ser eu inteiramente
se abrir o peito às dores como faço às alegrias

Nunca ouses suprir a verdade de viver
com mentiras douradas e ilusões
(qual enchimento para mona sorridente)
Se fizeres como te digo
eu hei-de sempre ser
uma mulher inteira
a caminhar entre os vulcões
contigo

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 16 Novembro, 2004

 

 
Patinadores, Merceeiros, Fregueses, Jecos, Vozes e a Angústia do Mundo Pós-Moderno

Pego logo no champô de Leite de Baunilha, pois foi o que levei da última vez e era bom; e depois fico a olhar para os amaciadores: há de Óleo de Rosa, de Extracto de Figos, de Azeitonas e Limão, de Leite, de Hera e Mirtilos... Mas que cocktail, penso, e que chatice! Quero apenas um amaciador para cabelos normais, mas as informações úteis estão sempre no fundo das embalagens e eu não vejo os fundos das que estão na prateleira de cima! Só vejo se são à base de Magnólia ou de Toranja. Não sou altona como esta aqui ao meu lado, mas também não sou minorca, estou exactamente na média nacional, o que me devia garantir uma boa visão dos escaparates nos supermercados!
Já completamente desconcentrada, esqueço-me do amaciador e empurro o carro, que ainda só tem dentro o item baunilhado. O olhar errante corre as prateleiras mais próximas, lendo à toa, "creme para o corpo com extracto de Amêndoas Doces" e, de raspão, vejo um Gel com Aloé Vera. Brrrr.... gel no corpo, com este frio, nem pensar! O creme é mais espesso, mais quentinho. Pois é, estas coisas metem ideias parvas na cabeça de qualquer um...
Ainda me lembro dos produtos similares há uns anos atrás, muito menos sedutores para a vista e o olfacto, mas bastante objectivos. Limitavam-se à informação que interessava: para Cabelos Secos, Normais ou Oleosos; para Peles Mistas. Enfim, não era preciso perder tempo como agora, a tentar perceber que maravilhas os novos produtos feitos de coisas mais apropriadas para compotas, sumos exóticos e arranjos florais se propõem operar nos cabelos e na pele...
Como sempre, mergulhei na apatia típica que os supermercados me causam, com o seu néon, os seus patinadores de bloco em punho a serpentear vertiginosamente por entre os alegres consumistas e o brouah... de fundo, a que por vezes se sobrepõem anúncios ao altifalante como nos aeroportos: "informamos os nossos clientes de que..."

Mas também nunca consigo fazer as minhas compras na mercearia! Se entro numa, reparo logo na pouca luz, no cheiro forte e no sempre presente jeco, que até é simpático, mas suspeito que seja o provador de muitas das coisas que lá se vendem. Também me enervam as conversas dos fregueses presentes sobre os que estão ausentes. E confesso que não me agrada ser tratada por lindeza, como faz o casal da mercearia próxima de minha casa, apesar de me olhar com ar de quem pensa "qué questa bem fazer práqui?!". Quando eu era miúda adorava o Senhor Vital e o Senhor Manuel, donos das mercearias onde a minha mãe abastecia respectivamente as casas de Lisboa e do Porto. Lembro-me perfeitamente de ambos. Os merceeiros de agora são muito diferentes, estão zangados e desconfiam (no meu caso, com toda a razão...) que só lá vamos buscar as coisas que nos esquecemos de comprar no supermercado. Eles são o comércio tradicional e se não temos um ar que eles entendam como tradicional não adianta sermos simpáticos.



Eu gosto mesmo é dos Mercados. Têm quase tudo - até luz natural! -, são arejados e lindos. Mas não há nenhum perto de nossa casa... nem que fique no caminho dos lugares onde habitualmente nós vamos. É uma pena, pois ali as conversas são sempre engraçadas, ainda se pode regatear os preços e gozar do giríssimo tratamento de "freguesa", usado pelas vozes poderosas das vendedeiras, que me fazem sempre pensar que elas têm naturalmente uma técnica vocal algo operática. Como as montanhesas da Bulgária!

Mergulhada nos mistérios das vozes do Bolhão, assusto-me quando o meu Cavaleiro chega junto de mim, ajoujado - deixou-me o carro por gentileza - e atira lá para dentro as compras dele e ainda algumas das que sabe que eu ia buscar, e, de passagem, ele mesmo trouxe.

- Então?! Ainda estás aqui na secção de cosméticos?! - pergunta-me incrédulo.
- Estou... - concordo, enquanto regresso lentamente das mercearias e dos mercados, pois, na realidade, já não estava ali nos cosméticos.

E de repente tenho uma ideia fantástica! Peço-lhe que me escolha um amaciador para cabelos normais (- Para cabelos normais?... - Sim!) e afasto-me perdida de riso, na direcção das compotas. Ainda tenho que levar café, água, vinho, lácteos, arroz e massas, fruta e legumes, temperos, e dar uma vista de olhos nas carnes, a ver se há alguma coisa de jeito. Já sei que vou ter tempo de sobra para tudo... e levo comigo o carro, claro. Ele não vai precisar!

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 14 Novembro, 2004

 

 


Golden Apples of the Sun by Susan R. Ball


Em Avalon a maçã não é o fruto proibido!!...


Aconteceu alguma coisa esquisita aos comentários Haloscan. Umas vezes abrem normalmente, como bons cestos de maçãs que são (têm sido); outras, abrem, mas aparece esta mensagem:

Forbidden
You don't have permission to access /comments/on this server.
Additionally, a 403 Forbidden error was encountered while trying to use an ErrorDocument to handle the request.


Não sei o que se passa, claro que ninguém está proibido de comentar e eu própria recebo o mesmo recado metade das vezes que tento ir aos Cestos de Maçãs!
Como gosto deste sistema de comentários, antes de me decidir a trocar para outro, vou esperar que o achaque passe...
Entretanto, aqui no meu castelo fica este Recado na Porta, que vos diz que são muito bem vindos!

Nota: Agradeço o possível feedback da vossa parte, já que não sei se é só comigo que as maçãs se estão a fazer difíceis!


Fata Morgana

 

 
Avalon, 12 Novembro, 2004

 

 

Há dias em que acordo e sei, com a mesma naturalidade com que se sabem as coisas simples, que é dia de partida; que, em tempo incerto, estarei num outro lugar ainda por mim desconhecido, mesmo que se trate de um regresso. Não acredito em verdadeiros regressos.
Em dia de partida meto-me ao caminho preparada para enfrentar toda a sorte de surpresas que só vou descobrindo em pleno percurso. De antemão, apenas sei que este pode ser assustador, rasando o sempre e o nunca que, quando não pretendem desafiar-nos, são apenas dois abismos obviamente perigosos, um de cada lado do caminho estreito.
Porém, o sempre e o nunca também aparecem como suaves planícies agradáveis e convidativas, sugerindo, um e outro, em cativantes sussurros: fica aqui...



Outras vezes, um mostra-se aprazível e o outro muitíssimo inóspito. Não há limites para as formas que assumem, nem para os jogos que fazem, pois eles são os fantasmas que assombram os caminhos, chegando a assumir mais essa forma enganosa, de verdadeiros caminhos que levam a algum lado. Como se fossem infinitos no conteúdo e não apenas na forma...
Porém não os temo, pois eu sigo o caminho do meio. É o mais assombrado de todos, mas também o mais difícil de falsear. Tem sido o meu, não sem algumas paragens e desvios, feitos de um lado e de outro. Sempre por amor. Nunca por medo.

Por isso quando sei que é dia de partida sinto-me cheia de entusiasmo. Respondo alegre ao destino que me chama, lá onde tiverem medrado as sementes que vou encontrando nos caminhos e não gosto de guardar porque me morrem nas mãos. Eu prefiro atirá-las ao vento, que as dá à terra, e a chuva rega e o sol aquece. Depois as sementes germinadas tornam-se apelo e o longe que me chama já está tão repleto de mim que só lá falto eu. E eu vou sempre. E nunca me arrependo.


© Fata Morgana

PS. Este texto omite propositadamente o meu companheiro de viagem. Porque fala da minha viagem. A dele é a dele. A possibilidade de cada um fazer o percurso que é verdadeiramente seu, partilhando o caminho com o outro, é que contém o Tesouro escondido nas nossas vidas!

 

 
Avalon, 05 Novembro, 2004

 

 

"Porta dos Sonhos"
(desconheço o autor...)


Um sinal
um gesto
por vezes sem sentido
Um ritual
um grito
para mim desconhecido
Um solavanco
a funda travagem
já sei que não arranco
de mim a tua imagem

Gosto de voar
mas acabo por voltar
acabo por ficar
é uma questão de coragem

Sinto à tangente
mas de repente
descubro que é essa
a única margem

E dizer adeus não faz parte dos meus planos


© Fata Morgana

 

 
Avalon, 02 Novembro, 2004

 

 
Samhain

Muitas sendas se abrem hoje
diante dos meus pés
que as passeiam saudosos
de quem as desbravou
Muitos passos
por outros inventados
são hoje aqui dançados
por quem os recordou

Tantas danças
outrora rituais
hoje são cantadas
e parecem casuais
Tantos cantares antigos
cujos gestos me são estranhos
e eu hoje desenho-os
arabescos conhecidos

É o véu separador
que se esbate
A porta do corredor
que se entreabre

Hoje andamos todos juntos pela rua

E eu encontro os meus
e os que me sentem sua


© Fata Morgana



Samhain
(Around the 1st of November
in the Celtic Calendar)


"Doorway to the sanctum sanctorum
Beyond this doorway lies the deep cavern of the Earth Mother's womb"


 

 
O Meu Castelo
 
Arquivos
 
 
Listed on BlogShares