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Avalon, 29 Dezembro, 2004
Trovas Populares - V e Confissões - XIII
(sim, em conjunto!)
Pintura de Adolphe William Bouguereau Traiçoeira Amar-te-ei, nunca ou sempre Sempre ou nunca te hei-de amar Mas não me peças medidas Que o crer não sabe contar Eu escondi-me e de mansinho Fiquei a ouvir-te falar Aprendi num bocadinho Mais do que estava a contar Desfiz as tranças, cortei-as Já não sou rapariguinha Tu preferias-me como eu era Co'as tranças como eu as tinha Agora vou-te amar sempre Ou nunca te vou amar Traiçoeira me tornaste Farei como me agradar © Fata Morgana A canção que hoje se ouve n'O Meu Castelo é a faixa nº 8 de um CD em que participei. A minha trova, "Traiçoeira", é a letra, como é óbvio. Por questões de musicalidade sofreu pequeníssimas alterações. Era assim que eu cantava no ano em que comecei a ter aulas de canto. Esta é a maior partilha de todas as que tenho feito convosco, desde o primeiro dia deste Claro Obscuro... e para mim é também um exorcismo. Claro que hoje canto de uma outra forma e, além disso, não se pode comparar o estilo ligeiro com o Bel Canto, mas quero parar de sentir arrepios quando ouço o meu antigo som "destreinado". Era assim que eu cantava em 1991. Tal e qual.
Avalon, 26 Dezembro, 2004
Miguel Torga (foto daqui) "A Consoada do Mendigo De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste oficio, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse doutra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta, passava das quatro. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio sento ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-lhe lá. E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa... Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes. Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças! Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura. Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha. Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não. Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar.Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. - Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo. Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava? Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. - É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira. - Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. - A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José."
Avalon, 21 Dezembro, 2004
Trovas Populares - IV
Sem Doer Coração louco a sofrer Mãos sensatas a fiar Fios alvos de algodão Que acolhem o meu penar Oh! Solidão, solidão... Que enches o meu peito a arder Espetei o fuso num dedo E nem o sinto a doer Coração louco a sofrer Num quieto e mudo pranto E as mãos calmas a tecer Lençóis de linho tão branco Oh! Solidão, solidão... No meu peito a ferir O amor do meu coração Neles não há-de dormir Oh! solidão, solidão... No meu canto magoado A roca é o bordão Que ampara o meu triste fado © Fata Morgana
Postal Antigo (detalhe) - Autor desconhecido PS. Peço a quem não leu o desafio que lancei em "Venham Mais Cinco" que o faça agora. Conto com todos, os que gostam de trovar e os que sentirem vontade de experimentar. O prazo para envio das vossas trovas termina a 31 de Dezembro, pois quero saudar o ano de 2005 convosco aqui em Avalon. Avalon, 18 Dezembro, 2004
Venham Mais Cinco (*) Aos amigos, aos leitores - os que comentam e os que apenas lêem -, aos que passando por acaso e lendo isto, se sintam tentados a participar, gostaria de lançar um repto. Eu explico: As "Trovas Populares" que aqui deixei encontraram um grande acolhimento, muito maior do que aquele que eu, para ser absolutamente sincera, (nem) esperava. Talvez esperasse um bocadito (mas muito pequenito). É que agora toda a gente está muito mais disponível para se interessar pelos avanços da electrónica; já passou o tempo... já lá vai a década de 80, tão revivalista da cultura e das tradições do povo, em que se fazia muita música popular, pura ou misturada com sonoridades mais sofisticadas. No entanto, os trabalhos fantásticos da Banda do Casaco, as célebres "recolhas populares" feitas a solo pela única e redonda Né Ladeiras (quem esqueceu La Sarandilhera?...), na senda dos registos incomparáveis de Fausto, Vitorino, Janita Salomé, e tantos que é impossível nomear todos, são... inesquecíveis! Assim como os que mais tarde foram tão marcantes, vindos de outras áreas musicais ou nascidos já nesse espírito. Os Heróis do Mar, os Sétima Legião, o António Variações, a Anamar, os Madredeus, a Anabela Duarte, os Sitiados, os Essa Entente... Uns como experimentalistas muito sérios, outros apenas com algumas incursões esporádicas, outros ainda quase irreverentes na mistura da rusticidade tradicional, rude mas doce, com os sons rockeiros, urbanos e cinzentos, em que se tinham musicalmente formado. Cantores ou vocalistas, todos quiseram ser cantadeiras e trovadores, à sua maneira. Todos importantíssimos! Chegou a existir um rótulo muitíssimo polémico - Fado Pop! - para designar uma grande quantidade de estilos musicais diferentes entre si, mas que tinham em comum esse espírito de renascimento da ruralidade característica do povo das aldeias e lugares, sem deixar de se ser citadino, por vezes punk, sónico ou até mesmo vítima de spleen! O Fado Pop prevaleceu ao longo da década de 80, entrou na de 90, e deixou-nos alguns dos maiores embaixadores da música portuguesa. A meu ver o rótulo não era usado com muito critério e era redutor, como todos os rótulos. Escandalizou uns... agradou a outros... depois caiu no esquecimento. Ficaram alguns nomes incontornáveis que evoluíram para géneros mais refinados, eruditos mesmo. E ficará sempre a tradição pura do povo que inspirou todos eles, os que ainda continuam, embora noutros rumos, e os que ficaram pelo caminho. Os costumes, as rimas, as quadras populares tão antigos... são eternos. Nos comentários às minhas Trovas, muitos deixaram também as suas. E eu lembrei-me de fazer um post com "Trovas Populares Colectivas", juntando todas as que me enviaram, e espero que continuem a enviar. Gostava que as deixassem nos comentários ou as mandassem por e-mail (fatamorgana@romanesca.com ou backinavalon@yahoo.com), todas serão publicadas. Se não forem originais vossos, não se esqueçam de indicar a proveniência (nome do autor, anónima, Cancioneiros, etc...). Quem não for português não se coíba de cantar a sua terra natal, será bem-vindo! O post final, com o que tiver chegado, inaugurará o ano de 2005 aqui no Claro Obscuro.
Aqui ficou o repto! Fata Morgana (*) O título da famosa canção/poema do Zeca parece-me o melhor incentivo à vossa participação!
Paisagem Alentejana de Manuel Faia Avalon, 15 Dezembro, 2004
Trovas Populares - III
O Avental O meu avental branquinho Leva tanto que contar Quando à tardinha no rio For como sempre a lavar Leva lágrimas redondas Que se vão enfim soltar Rio abaixo até às ondas As ondas do nosso mar Leva no bolso um raminho De malmequeres amarelos Que apanhaste no caminho E me prendeste aos cabelos Depois disseste-me adeus Que não te quisesse mal E as lágrimas dos olhos meus Sequei-as ao avental © Fata Morgana
Avalon, 13 Dezembro, 2004
Resolvi iniciar hoje mais uma rubrica, que encontrará um espaço regular no Claro Obscuro, como as "Confissões", por exemplo. Tal como estas, não terá uma periodicidade definida, surgirá completamente ao sabor dos ventos e das marés. Ao fim e ao cabo, como tudo o que aqui tenho feito. Dezembro será um mês de profusão de "Trovas Populares" - assim se chamará a inovação - mas apenas porque elas trazem um sentimento que eu procuro nesta altura e só encontro junto das coisas e das pessoas mais simples.
Apesar de ser muito diferente da poesia que costumo escrever, não é que a sinta menos, apenas menos vezes, talvez porque tenho tendência a lançar sobre as coisas um olhar mesclado de luz e sombras, que me faz ser ora difusa, ora crua, sempre com duas visões e também dois sentires que lutam e se misturam ou se sobrepõe, sucessivamente. Mas nesta expressão feita sem metáforas subjectivas nem complicações, sem véus nem grandes figuras de estilo, contrariamente ao que acontece na restante poesia que aqui tenho vindo a dizer, encontro aquilo que mais me agrada nesta quadra: pureza e simplicidade de ser. Alguns destes trabalhos foram escritos para canções. E algumas dessas canções muito cantadas. Trovas Populares - I
Foto: autor desconhecido Coração Arredio O meu coração arredio não se prende não compreende o amor é frio e é sombrio Não bate com força, não Nem parece um coração! © Fata Morgana Trovas Populares - II
Foto daqui Ribeira, Adeus!... Adeus, ó cais da Ribeira, tão sozinho a esta hora... Amanhã, dia de feira, já eu fui p'ra sempre embora. Não quero fazer barulho vou-me assim, devagarinho... Levo a saudade arrastada pelas pedras do caminho. © Fata Morgana Avalon, 09 Dezembro, 2004
De olhos postos em mim, ela segue todos os meus gestos com uma curiosidade enorme. Eu ando de volta do pinheiro - que é falso mas é muito bonito! - colocando luzes, fitas, bolas, sinos, bonecos e finalmente a estrela, lá no alto.
Como a conheço bem, aproximo-me da mesa redonda, ergo lentamente a camilha e espreito. Lá está ela, a Laranja, com um sininho vermelho acabadinho de roubar da árvore de Natal no meio das patinhas estendidas. O mesmo de sempre, com que ela cisma há sete anos. A única peça que todos os anos, vezes sem conta, ela retira sistematicamente lá do meio do arranjo sem estragar nada! Rio-me e afago-lhe a cabeça e as patas, enquanto ela fecha os olhos e ronrona muito alto: Rrrrrrrrrrrrrr.......
Avalon, 06 Dezembro, 2004
Dezembro. O meu ex mês preferido do ano. Actualmente passo-o num estado de angústia latente, não sei porquê. Ou sei, em parte. Detesto o consumismo agravado até aos limites, faz-me impressão ver as falências domésticas, adivinhar os Janeiros, Fevereiros e Marços de penúria escusada que este mês custa a tanta gente, como se fosse obrigatório gastar tudo quanto se ganha (mais, muito mais, à pala dos malditos cartões de crédito, esses falsos amigos). Faz-me impressão os olhos de quem não pode gastar nada e gostaria de poder. Quase sempre são pessoas que desconhecem por completo o vazio que fica no dia 26, depois de rasgados os papéis dos embrulhos e uma vez silenciado o frenesim de exclamações de um prazer efémero. Custa-me ver os excessos gastronómicos de uns; a fome de outros. E a hipocrisia!
Mas não sou nenhuma fundamentalista anti-Natal. Gosto da festa de Alegria que para mim representa - eu tenho Fé - e assinalo-a trocando pequenas lembranças com os meus amores. Aos que não estão sempre comigo faço algumas visitas de Pai Natal. E gosto da Consoada, também. Em minha casa é um jantar alegre, com uma sobremesa em que não faltam os doces tradicionais. Sem exageros. E com um motivo que não perco de vista, que é festejar o Menino Jesus. Nos anos em que não é cá, porque o Natal é a festa da família e temos que nos repartir por todos, claro, custa-me um bocadinho... Hoje o meu Cavaleiro ofereceu-me o CD dos Air, Talkie-Walkie. Obviamente, isso nada teve a ver com o Natal. Mas já é Dezembro... e reparei que a tal angústia latente foi enxotada para mais longe e a música trouxe-me um sentimento bom, de alegria simples. Há um tema que ele diz conter imagens que lhe vêm à cabeça quando me vê de longe. Achei uma doçura! Partilho-o aqui convosco, espero que todos consigam ouvir a música, e dedico-o aos olhares de todos os Cavaleiros sobre as suas Damas, quando elas passam. © Fata Morgana
![]() Foto: Autor desconhecido Música: Cherry Blossom Girl By Air
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