| Fata Morgana...
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...ou o Claro Obscuro |
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Avalon, 27 Janeiro, 2005
Pintura de Elvic Steele Duas flores que tu me deste nunca murcharão dentro de mim Encheram-me o ser de alegria, a doer, e eu guardei-as com carinho Mas as duas flores cresceram e enormes encheram o meu coração Ai de mim... Duas flores que me estendeste como quem conta um segredo, baixinho... Dois beijos que não trocámos para nunca terem fim Dois sonhos da tua alma que se esconderam em mim Agora entendo a voz das flores silvestres quando o vento as faz murmurar Pois eu já ganhei o jeito - eu tenho no peito duas flores a morar Ai de mim... © Fata Morgana
Pintura de Elvic Steele Avalon, 25 Janeiro, 2005
Silencioso e ágil, ele segue-me. Sem com isso me perder de vista, observa tudo quanto nos rodeia, calculando ângulos, medindo distâncias, à espera do lugar e do momento certos para executar o seu salto fatal. É tão exímio na sua caçada que, se fosse outro, talvez me passasse completamente despercebido. Ele... nunca.
Os meus sentidos detectam-no imediatamente e começam a funcionar, soltando os meus odores, as minhas cores. Executo, em movimentos aparentemente normais, uma cadência de passos que é na realidade uma dança, para ele mais do que perceptível. Para os outros com quem me cruzo, não sei... não estou preocupada em saber - não é com eles que travo este combate mortalmente lúbrico. Sei que tudo quanto em mim é feminino me transforma numa hiper-predadora, no meu papel de presa - e não há mais doce forma de se ser a presa! Sem deixar de me sentir presente nele, dou voltas inúteis, dificulto o percurso que poderia ser rápido e directo, mas não deixaria qualquer recordação. Recuso a satisfação efémera, quase sempre irremediavelmente esquecida, opto por uma coreografia mais dramática. Quero que esta criatura feroz e felina se recorde para sempre do gosto do meu sangue e de como me morreu aos pés caprichosos e andarilhos de eterna bailarina. Por fim, com argucioso alheamento, entro no lugar que - sei-o muito bem - não tem saída. Aguardo o tal salto, sempre belo no arco amplo que desenha, mas volto-me a tempo... E recebemo-nos, mutuamente subjugados, em risos sufocados por beijos. Finalmente olhamo-nos com aquele ar cansado e casto, de quem combateu até ao último sopro e pode morrer em paz. - Como foi o teu dia?... Rimo-nos ambos da pergunta que nos devolve à humanidade. © Fata Morgana
The Enchanteress (Detail) by Arthur Wardle Avalon, 20 Janeiro, 2005
Costumo desbravar os sentimentos vagos
e os pensamentos esparsos exactamente tratando-os por enigmas Sigo-lhes o silvo que me guia os passos ora devagar, pisando em segurança, ora veloz, em tontos atropelos. No alinhamento que se vai fazendo - como no labirinto de um pente se ordenam os cabelos - descubro harmonias, ora previsíveis, ora surpreendentes Acordes de gestos óbvios outros abstractos. Mergulho nas palavras do silêncio que sempre achei as mais eloquentes tanto para quem não ouve como para quem não vê Por isso não é fácil responder-te quando me vês sorrindo e queres saber porquê © Fata Morgana
Girl Combing Her Hair by E. Degas Avalon, 19 Janeiro, 2005
Cerimónias
No baptizado dos meus actos eu fiz questão de não estar presente. Contaram-me depois (e contra a minha vontade) como lhes tinham chamado Presa daqueles nomes de repente quedei-me pensativa alguns instantes Mas depois retomei o desapego, como dantes. O acto é na essência mais loquaz que aquele a quem catalogá-lo apraz (em cerimónias de entupir artérias) © Fata Morgana
The Parable of the Blind Leading the Blind - Bruegel, o Velho (1568) - Galleria Nazionale di Napoli Avalon, 15 Janeiro, 2005
É findo o longo período de hibernação. Estou sentada ao teu lado, na tua caverna recôndita. Vim para te saudar e aguardo esse momento de olhos fitos no teu rosto adormecido.
A mente eu não domino, e foge-me, divaga, quase livre, presa apenas por uma espécie de fio muito fino e invisível, porém inquebrantável, que a liga à quietude das tuas pálpebras. Estas, poderão abrir-se a todo o momento, chamando-me por inteiro aqui, onde, para já, só o meu olhar se queda em distraída e persistente espera. Em pleno voo, rasando os improváveis e até mesmo os impossíveis, sinto com nitidez o levíssimo puxão que me interrompe e suga instantaneamente. Assim que entreabres os olhos tens-me junto a ti, completa. Silenciosa e quieta, observo os teus desastrados batimentos de pálpebras - lembram-me asas de borboleta a sair da crisálida - e vejo-os tornarem-se mais seguros, mais decididos. Agora o teu olhar procura o onde... Mas eis que se foca em mim e descobre o quem. E o teu primeiro gesto consciente é um sorriso imenso, quase líquido. © Fata Morgana Avalon, 11 Janeiro, 2005
Detalhe de uma pintura de Sir Frank Dicksee Eduardo... Hoje estou na biblioteca do meu castelo a escrever uma carta para ti! Como sabes, tenho divulgado muito pouca correspondência minha: só uma cartita para o Stendhal, uma para o Glenn Gould e duas epístolas para o Rudi. Aos dois primeiros, escrevi a colocar questões muito importantes, respectivamente sobre o amor e sobre a legitimidade de interpretar Bach ao piano em vez de ao cravo. Coisas que eles, melhor do que ninguém, poderiam ajudar-me a resolver - embora na altura tenha sido aconselhada a escrever antes ao Camões, no que respeita ao amor (não sobre pianos, claro!). Ao Rudi escrevo porque gosto de comunicar com ele e não preciso de um motivo. Estarás, talvez, a perguntar aos teus botões - sim, mas porque me escreve ela, que fala tantas vezes comigo nos comentários?! E eu digo-te que deixes os teus botões em paz, que te respondo eu mesma: escrevo-te porque uma carta é uma forma de comunicação especial, favorece imenso um tipo de conversa mais calma e livre como o pensamento. É bom escrever cartas aos amigos e eu sou tua amiga. Além disso apercebi-me de que não sabes uma coisa que tem também a ver contigo e, na sua simplicidade, foi muito importante para mim, terá sempre um significado especial. Hoje apeteceu-me contar! Mas vou deixar-me de mistérios e dizer-te do que se trata. Nos primeiros tempos do Claro Obscuro só o divulguei a muito poucas pessoas. Mais precisamente, nove. Criei este espaço para comunicar, mas não queria ter aqui gente com quem estou no meu dia-a-dia. Tu, melhor do que ninguém, perceberás porquê: eu venho aqui desabafar (como aluna!) quando estou nervosa com os exames; contar que um dia destes as meias-de-ligas me escorregaram pelas pernas abaixo no meio da rua e que aos sete anos estava apaixonada por um vizinho; e também escrevo poemas e textos que às vezes são quase funestos! Enfim, nem imagino o que seria os meus alunos a lerem que eu tenho medo de fazer exames, mais os sarilhos em que me meto por ser distraída... ou os meus colegas a tirarem ilações sobre o que escrevo e a tentarem encaixar coisas que penso como se fossem acontecimentos da minha vida. As tais nove pessoas a quem contei (com duas excepções) também não me conhecem senão virtualmente e por outro lado eram-me muito chegadas - algumas ainda são! Mas sabes quem foi a décima pessoa, a primeira que veio espontaneamente? Tu! Tu, com o teu espírito de descobridor, apareceste nos meus comentários, penso que foi em Novembro, que é o mês do Sagitário. Lembras-te? E hoje, passado mais de um ano - vê que ingrata tenho sido! - retribuo o teu link e a tua chamada de atenção para o meu castelo. Claro que abri logo um atalho para o incontornável Bloguices, onde ao longo destes meses tenho descoberto muitos contactos e muitas amizades em tudo especiais - como a Thita! Tantas vezes tenho percorrido esse caminho que a todos aconselho, pois encontro sempre um lugar acolhedor e cheio de novidades interessantes, já que és um grande divulgador, também. Obrigada, Eduardo, pelo que a mim toca e é muito. Sei que não sabias deste laço e, se calhar, também não sabias que eu te sinto assim, desde o princípio! Hoje é o dia de te contar isto: estava escrito nas estrelas... Fata Morgana PS. Claro que o quadro lá em cima ilustra as tuas entradas aqui em Avalon. Mas isso tu sabes! Avalon, 06 Janeiro, 2005
Nureyev & Fonteyn n' O Lago dos Cisnes Rudi... Hoje é Dia de Reis. E faz 12 anos que tu foste dançar para um palco de todos nós desconhecido. Não tinhas pressa alguma e era tão cedo, ainda, para esse palco! Mas certamente soubeste pisá-lo como a todos os outros: ao teu modo, como um Rei. Com todo o respeito que tenho por Gaspar, Baltazar e Melchior, hoje o meu pensamento vai para ti de uma forma especial. Como tantas vezes!... Mas nunca te guardo como uma recordação, sei que não gostas de te ver fechado ainda que entre doces contornos... Por isso quando penso em ti dou-te ao mundo. Ah!... e tenho a certeza que transformaste a imensidão sem limite desse palco estranho num espaço cénico ideal para a tua arte. Assim como não há espaços que te confinem, não há infinito em que te percas. És teu.
Falou-se muito na serenidade com que foste... Isso não me surpreendeu pois tu sempre soubeste que és uma estrela, mesmo quando, adolescente, dizias que não passavas de um rústico de Ufa que a ninguém interessaria ver dançar; e também nunca te acreditaste em nada finito. Para ti as coisas mudam, não acabam. Pequenito, patinavas nos lagos gelados da Basquíria com tal graça e beleza, que o teu pai proibiu-te os patins... e tu não acabaste. Foste estudar de graça e em segredo, com uma professora que te ensinou tudo quanto sabia. Para a tua sede enorme ela era uma fonte humilde e um dia comunicou-te que secara... e tu não acabaste. Foste audicionar ao Kirov - onde ela mesma fora modesta bailarina do corpo de bailado - e deste-lhe a honra de lá seres aceite, com o famoso Alexander Pushkin a dar continuidade ao trabalho por ela iniciado. Nem a direcção (a ditadura...) nem os colegas (a incompreensão...) lidaram bem com as tuas extravagâncias, achavam-te um caprichoso impertinente e até mau bailarino. Ninguém viu na tua técnica os bons ventos da mudança que haviam de fazer parte do legado inestimável que deixaste aos que dançam e aos que amam o bailado. Só Pushkin percebeu, salvou-te várias vezes da eminente expulsão e acabaste por entrar para a Companhia de Ballet do Kirov, como solista, vencendo todos os obstáculos. Nessa qualidade vieste à Europa, em tournée. Claro que desobedeceste sistematicamente à ordem de recolher ao hotel imediatamente após cada espectáculo. Curioso e ávido, misturaste-te com os artistas das várias cidades. Encantador, chamaste a atenção sobre ti - alguns colegas teus passaram despercebidos... Paris foi a gota de água e deram-te um bilhete para Leninegrado em vez do que te levaria a Londres com o resto da Companhia. Percebeste que nunca mais te seria permitido sair do teu país... mas nem por sombras acabaste! Fugiste aparatosamente, no aeroporto, serpenteando entre filas de passageiros checkin'in, saltando sobre malas que jaziam no chão, num bailado único - uma Dança da Liberdade! - de coreografia espontânea. Depois... depois foi a glória. Erik Bruhn e o Real Ballet da Dinamarca, Margot Fonteyn e o Covent Garden. Dançaste com os maiores bailarinos do mundo e eles chamaram-te Mestre. Os públicos mais esclarecidos pasmaram para os teus monumentais saltos oblíquos (mistura do salto vertical, clássico, com o horizontal, contemporâneo), que davam a ilusão de que voavas. Chamaram-te mesmo "the man who flies''! Foste nomeado Artista Convidado dos maiores teatros do mundo e Étoile da Opèra de Paris, onde também dirigiste a Companhia de Bailado ao longo de seis temporadas memoráveis, sem deixares de dançar por toda a Europa e Estados Unidos. Um dia chegou a sombra de um mal e depois instalou-se no teu corpo o próprio mal, mas tu não acabaste... Abrandaste um pouco o ritmo das tuas apresentações, iniciaste uma carreira de maestro e preencheste mais a tua agenda de professor e coreógrafo. Os teus alunos ainda hoje te mencionam constantemente e as tuas coreografias continuam a ser as mais apresentadas. Em Outubro de 1992 após a estreia de ''La Bayadère'' acalmaste a ovação interminável que te custou a suportar (muito mais do que sentiste!), com aquela declaração espantosamente forte: "é bom estar vivo!" e o pano desceu pela última vez à tua frente. Só tu saberias fazer com que continuasse a sê-lo, até ao dia seis de Janeiro de 1993! Rudi, étoile... man who flies... tu brilharás e voarás sempre. Está escrito no teu nome!... Será que te apercebeste que Nureyev = Raio de Luz?... © Fata Morgana
Rudolf Nureyev Poema de Rimbaud lido na cerimónia fúnebre de Rudolf Nureyev, na Opèra de Paris em 12 de Janeiro de 1993: Il est l'affection et le présent, puisqu'il a fait la maison ouverte à l'hiver écumeux et à la rumeur de l'été, lui qui a purifié les boissons et les aliments, lui qui est le charme des lieux fuyants et le délice surhumain des stations. Il est l'affection et l'avenir, la force et l'amour que nous, debout dans les rages et les ennuis, nous voyons passer dans le ciel de tempête et les drapeaux d'extase. Il est l'amour, mesure parfaite et réinventée, raison merveilleuse et imprévue, et l'éternité: machine aimée des qualités fatales. Nous avons tous eu l'épouvante de sa concession et de la nôtre: ô jouissance de notre santé, élan de nos facultés, affection égoïste et passion pour lui, lui qui nous aime pour sa vie infinie... Et nous nous le rappelons, et il voyage... Et si l'Adoration s'en va, sonne, sa promesse sonne: "Arrière ces superstitions, ces anciens corps, ces ménages et ces âges. C'est cette époque-ci qui a sombré!" Il ne s'en ira pas, il ne redescendra pas d'un ciel, il n'accomplira pas la rédemption des colères de femmes et des gaîtés des hommes et de tout ce péché: car c'est fait, lui étant, et étant aimé. O ses souffles, ses têtes, ses courses; la terrible célérité de la perfection des formes et de l'action. O fécondité de l'esprit et immensité de l'univers. Son corps! Le dégagement rêvé, le brisement de la grâce croisée de violence nouvelle! Sa vue, sa vue! tous les agenouillages anciens et les peines relevés à sa suite. Son jour! l'abolition de toutes souffrances sonores et mouvantes dans la musique plus intense. Son pas! les migrations plus énormes que les anciennes invasions. O lui et nous! l'orgueil plus bienveillant que les charités perdues. O monde! et le chant clair des malheurs nouveaux! Il nous a connus tous et nous a tous aimés. Sachons, cette nuit d'hiver, de cap en cap, du pôle tumultueux au château, de la foule à la plage, de regards en regards, forces et sentiments las, le héler et le voir, et le renvoyer, et sous les marées et au haut des déserts de neige, suivre ses vues, ses souffles, son corps, son jour. Arthur Rimbaud Avalon, 01 Janeiro, 2005
Trovas Populares VI - Vamos Cantar as Janeiras! No dia 13 de Dezembro abri uma nova rubrica no Claro Obscuro, confesso que por absoluta falta de tempo. Tive a minha fase de poesia de gosto popular e, longe de estar agora para aí virada, tinha uma data desses poemas arrumados. Achava que nunca os traria aqui.
Fata Morgana
1.ª
2.ª
3.ª
III
IV
V
VI
Conde Lírios
Talvez cantando possamos
Seguem mais...
IV
O que mais me prende à vida
I
II
M.K.
São excertos do Bumba-meu boi, auto de Natal do Nordeste Brasileiro. Os personagens são Mateus e catirina, dois 'matutos, que conduzem a festa, o Boi, o cavalo-marinho, e outros secundários. A parte da dança do cavalo-marinho é sempre a mais animada. Ah, e em se tratando de folclore, devem ser anônimas. Por isso é ela que lhe mando.
As trovas:
Rui Costa:
Blue:
Orca:
Minho
MJM:
Tmara
GatoVelho
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