Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 27 Janeiro, 2005

 

 

Pintura de Elvic Steele


Duas flores
que tu me deste
nunca murcharão dentro de mim
Encheram-me o ser de alegria, a doer,
e eu guardei-as com carinho
Mas as duas flores cresceram
e enormes encheram o meu coração
Ai de mim...

Duas flores
que me estendeste
como quem conta um segredo,
baixinho...
Dois beijos que não trocámos
para nunca terem fim
Dois sonhos da tua alma
que se esconderam em mim

Agora entendo a voz das flores silvestres
quando o vento as faz murmurar
Pois eu já ganhei o jeito -
eu tenho no peito
duas flores a morar
Ai de mim...

© Fata Morgana


Pintura de Elvic Steele



 

 
Avalon, 25 Janeiro, 2005

 

 
Silencioso e ágil, ele segue-me. Sem com isso me perder de vista, observa tudo quanto nos rodeia, calculando ângulos, medindo distâncias, à espera do lugar e do momento certos para executar o seu salto fatal. É tão exímio na sua caçada que, se fosse outro, talvez me passasse completamente despercebido. Ele... nunca.
Os meus sentidos detectam-no imediatamente e começam a funcionar, soltando os meus odores, as minhas cores. Executo, em movimentos aparentemente normais, uma cadência de passos que é na realidade uma dança, para ele mais do que perceptível. Para os outros com quem me cruzo, não sei... não estou preocupada em saber - não é com eles que travo este combate mortalmente lúbrico. Sei que tudo quanto em mim é feminino me transforma numa hiper-predadora, no meu papel de presa - e não há mais doce forma de se ser a presa!
Sem deixar de me sentir presente nele, dou voltas inúteis, dificulto o percurso que poderia ser rápido e directo, mas não deixaria qualquer recordação. Recuso a satisfação efémera, quase sempre irremediavelmente esquecida, opto por uma coreografia mais dramática. Quero que esta criatura feroz e felina se recorde para sempre do gosto do meu sangue e de como me morreu aos pés caprichosos e andarilhos de eterna bailarina.
Por fim, com argucioso alheamento, entro no lugar que - sei-o muito bem - não tem saída. Aguardo o tal salto, sempre belo no arco amplo que desenha, mas volto-me a tempo... E recebemo-nos, mutuamente subjugados, em risos sufocados por beijos.
Finalmente olhamo-nos com aquele ar cansado e casto, de quem combateu até ao último sopro e pode morrer em paz.
- Como foi o teu dia?...
Rimo-nos ambos da pergunta que nos devolve à humanidade.

© Fata Morgana



The Enchanteress (Detail) by Arthur Wardle
 

 
Avalon, 20 Janeiro, 2005

 

 
Costumo desbravar os sentimentos vagos
e os pensamentos esparsos
exactamente tratando-os por enigmas
Sigo-lhes o silvo
que me guia os passos
ora devagar,
pisando em segurança,
ora veloz, em tontos atropelos.
No alinhamento que se vai fazendo
- como no labirinto de um pente
se ordenam os cabelos -
descubro harmonias,
ora previsíveis,
ora surpreendentes
Acordes de gestos óbvios
outros abstractos.
Mergulho nas palavras
do silêncio
que sempre achei as mais eloquentes
tanto para quem não ouve como para quem não vê

Por isso não é fácil responder-te
quando me vês sorrindo e queres saber porquê

© Fata Morgana



Girl Combing Her Hair by E. Degas

 

 
Avalon, 19 Janeiro, 2005

 

 
Cerimónias

No baptizado
dos meus actos
eu fiz questão de não estar presente.
Contaram-me depois
(e contra a minha vontade)
como lhes tinham chamado
Presa daqueles nomes
de repente
quedei-me pensativa alguns instantes
Mas depois retomei o desapego,
como dantes.

O acto é na essência mais loquaz
que aquele a quem catalogá-lo apraz
(em cerimónias de entupir artérias)

© Fata Morgana



The Parable of the Blind Leading the Blind - Bruegel, o Velho (1568) - Galleria Nazionale di Napoli

 

 
Avalon, 15 Janeiro, 2005

 

 

Tanzawa Nanasawa, veio daqui

É findo o longo período de hibernação. Estou sentada ao teu lado, na tua caverna recôndita. Vim para te saudar e aguardo esse momento de olhos fitos no teu rosto adormecido.
A mente eu não domino, e foge-me, divaga, quase livre, presa apenas por uma espécie de fio muito fino e invisível, porém inquebrantável, que a liga à quietude das tuas pálpebras. Estas, poderão abrir-se a todo o momento, chamando-me por inteiro aqui, onde, para já, só o meu olhar se queda em distraída e persistente espera.
Em pleno voo, rasando os improváveis e até mesmo os impossíveis, sinto com nitidez o levíssimo puxão que me interrompe e suga instantaneamente. Assim que entreabres os olhos tens-me junto a ti, completa.
Silenciosa e quieta, observo os teus desastrados batimentos de pálpebras - lembram-me asas de borboleta a sair da crisálida - e vejo-os tornarem-se mais seguros, mais decididos.
Agora o teu olhar procura o onde... Mas eis que se foca em mim e descobre o quem.
E o teu primeiro gesto consciente é um sorriso imenso, quase líquido.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 11 Janeiro, 2005

 

 

Detalhe de uma pintura de Sir Frank Dicksee

Eduardo...

Hoje estou na biblioteca do meu castelo a escrever uma carta para ti! Como sabes, tenho divulgado muito pouca correspondência minha: só uma cartita para o Stendhal, uma para o Glenn Gould e duas epístolas para o Rudi. Aos dois primeiros, escrevi a colocar questões muito importantes, respectivamente sobre o amor e sobre a legitimidade de interpretar Bach ao piano em vez de ao cravo. Coisas que eles, melhor do que ninguém, poderiam ajudar-me a resolver - embora na altura tenha sido aconselhada a escrever antes ao Camões, no que respeita ao amor (não sobre pianos, claro!). Ao Rudi escrevo porque gosto de comunicar com ele e não preciso de um motivo.
Estarás, talvez, a perguntar aos teus botões - sim, mas porque me escreve ela, que fala tantas vezes comigo nos comentários?! E eu digo-te que deixes os teus botões em paz, que te respondo eu mesma: escrevo-te porque uma carta é uma forma de comunicação especial, favorece imenso um tipo de conversa mais calma e livre como o pensamento. É bom escrever cartas aos amigos e eu sou tua amiga.
Além disso apercebi-me de que não sabes uma coisa que tem também a ver contigo e, na sua simplicidade, foi muito importante para mim, terá sempre um significado especial. Hoje apeteceu-me contar!
Mas vou deixar-me de mistérios e dizer-te do que se trata. Nos primeiros tempos do Claro Obscuro só o divulguei a muito poucas pessoas. Mais precisamente, nove. Criei este espaço para comunicar, mas não queria ter aqui gente com quem estou no meu dia-a-dia. Tu, melhor do que ninguém, perceberás porquê: eu venho aqui desabafar (como aluna!) quando estou nervosa com os exames; contar que um dia destes as meias-de-ligas me escorregaram pelas pernas abaixo no meio da rua e que aos sete anos estava apaixonada por um vizinho; e também escrevo poemas e textos que às vezes são quase funestos! Enfim, nem imagino o que seria os meus alunos a lerem que eu tenho medo de fazer exames, mais os sarilhos em que me meto por ser distraída... ou os meus colegas a tirarem ilações sobre o que escrevo e a tentarem encaixar coisas que penso como se fossem acontecimentos da minha vida.
As tais nove pessoas a quem contei (com duas excepções) também não me conhecem senão virtualmente e por outro lado eram-me muito chegadas - algumas ainda são! Mas sabes quem foi a décima pessoa, a primeira que veio espontaneamente? Tu!
Tu, com o teu espírito de descobridor, apareceste nos meus comentários, penso que foi em Novembro, que é o mês do Sagitário. Lembras-te? E hoje, passado mais de um ano - vê que ingrata tenho sido! - retribuo o teu link e a tua chamada de atenção para o meu castelo. Claro que abri logo um atalho para o incontornável Bloguices, onde ao longo destes meses tenho descoberto muitos contactos e muitas amizades em tudo especiais - como a Thita!
Tantas vezes tenho percorrido esse caminho que a todos aconselho, pois encontro sempre um lugar acolhedor e cheio de novidades interessantes, já que és um grande divulgador, também. Obrigada, Eduardo, pelo que a mim toca e é muito. Sei que não sabias deste laço e, se calhar, também não sabias que eu te sinto assim, desde o princípio!
Hoje é o dia de te contar isto: estava escrito nas estrelas...

Fata Morgana


PS. Claro que o quadro lá em cima ilustra as tuas entradas aqui em Avalon. Mas isso tu sabes!

 

 
Avalon, 06 Janeiro, 2005

 

 

Nureyev & Fonteyn n' O Lago dos Cisnes

Rudi...

Hoje é Dia de Reis. E faz 12 anos que tu foste dançar para um palco de todos nós desconhecido. Não tinhas pressa alguma e era tão cedo, ainda, para esse palco! Mas certamente soubeste pisá-lo como a todos os outros: ao teu modo, como um Rei.
Com todo o respeito que tenho por Gaspar, Baltazar e Melchior, hoje o meu pensamento vai para ti de uma forma especial. Como tantas vezes!...
Mas nunca te guardo como uma recordação, sei que não gostas de te ver fechado ainda que entre doces contornos... Por isso quando penso em ti dou-te ao mundo. Ah!... e tenho a certeza que transformaste a imensidão sem limite desse palco estranho num espaço cénico ideal para a tua arte. Assim como não há espaços que te confinem, não há infinito em que te percas. És teu.
Falou-se muito na serenidade com que foste... Isso não me surpreendeu pois tu sempre soubeste que és uma estrela, mesmo quando, adolescente, dizias que não passavas de um rústico de Ufa que a ninguém interessaria ver dançar; e também nunca te acreditaste em nada finito. Para ti as coisas mudam, não acabam.
Pequenito, patinavas nos lagos gelados da Basquíria com tal graça e beleza, que o teu pai proibiu-te os patins... e tu não acabaste. Foste estudar de graça e em segredo, com uma professora que te ensinou tudo quanto sabia. Para a tua sede enorme ela era uma fonte humilde e um dia comunicou-te que secara... e tu não acabaste. Foste audicionar ao Kirov - onde ela mesma fora modesta bailarina do corpo de bailado - e deste-lhe a honra de lá seres aceite, com o famoso Alexander Pushkin a dar continuidade ao trabalho por ela iniciado.
Nem a direcção (a ditadura...) nem os colegas (a incompreensão...) lidaram bem com as tuas extravagâncias, achavam-te um caprichoso impertinente e até mau bailarino. Ninguém viu na tua técnica os bons ventos da mudança que haviam de fazer parte do legado inestimável que deixaste aos que dançam e aos que amam o bailado. Só Pushkin percebeu, salvou-te várias vezes da eminente expulsão e acabaste por entrar para a Companhia de Ballet do Kirov, como solista, vencendo todos os obstáculos. Nessa qualidade vieste à Europa, em tournée. Claro que desobedeceste sistematicamente à ordem de recolher ao hotel imediatamente após cada espectáculo. Curioso e ávido, misturaste-te com os artistas das várias cidades. Encantador, chamaste a atenção sobre ti - alguns colegas teus passaram despercebidos... Paris foi a gota de água e deram-te um bilhete para Leninegrado em vez do que te levaria a Londres com o resto da Companhia. Percebeste que nunca mais te seria permitido sair do teu país... mas nem por sombras acabaste! Fugiste aparatosamente, no aeroporto, serpenteando entre filas de passageiros checkin'in, saltando sobre malas que jaziam no chão, num bailado único - uma Dança da Liberdade! - de coreografia espontânea.
Depois... depois foi a glória. Erik Bruhn e o Real Ballet da Dinamarca, Margot Fonteyn e o Covent Garden. Dançaste com os maiores bailarinos do mundo e eles chamaram-te Mestre. Os públicos mais esclarecidos pasmaram para os teus monumentais saltos oblíquos (mistura do salto vertical, clássico, com o horizontal, contemporâneo), que davam a ilusão de que voavas. Chamaram-te mesmo "the man who flies''! Foste nomeado Artista Convidado dos maiores teatros do mundo e Étoile da Opèra de Paris, onde também dirigiste a Companhia de Bailado ao longo de seis temporadas memoráveis, sem deixares de dançar por toda a Europa e Estados Unidos.
Um dia chegou a sombra de um mal e depois instalou-se no teu corpo o próprio mal, mas tu não acabaste... Abrandaste um pouco o ritmo das tuas apresentações, iniciaste uma carreira de maestro e preencheste mais a tua agenda de professor e coreógrafo. Os teus alunos ainda hoje te mencionam constantemente e as tuas coreografias continuam a ser as mais apresentadas.
Em Outubro de 1992 após a estreia de ''La Bayadère'' acalmaste a ovação interminável que te custou a suportar (muito mais do que sentiste!), com aquela declaração espantosamente forte: "é bom estar vivo!" e o pano desceu pela última vez à tua frente.
Só tu saberias fazer com que continuasse a sê-lo, até ao dia seis de Janeiro de 1993!
Rudi, étoile... man who flies... tu brilharás e voarás sempre. Está escrito no teu nome!... Será que te apercebeste que Nureyev = Raio de Luz?...

© Fata Morgana


Rudolf Nureyev


Poema de Rimbaud lido na cerimónia fúnebre de Rudolf Nureyev, na Opèra de Paris em 12 de Janeiro de 1993:

Il est l'affection et le présent,
puisqu'il a fait la maison ouverte à l'hiver écumeux
et à la rumeur de l'été, lui qui a purifié les boissons et les aliments,
lui qui est le charme des lieux fuyants et le délice surhumain
des stations.
Il est l'affection et l'avenir, la force et l'amour que nous,
debout dans les rages et les ennuis, nous voyons passer dans le ciel
de tempête et les drapeaux d'extase.

Il est l'amour, mesure parfaite et réinventée,
raison merveilleuse et imprévue, et l'éternité:
machine aimée des qualités fatales. Nous avons tous eu l'épouvante
de sa concession et de la nôtre: ô jouissance de notre santé,
élan de nos facultés, affection égoïste et passion
pour lui, lui qui nous aime pour sa vie infinie...

Et nous nous le rappelons, et il voyage...
Et si l'Adoration s'en va, sonne, sa promesse sonne:
"Arrière ces superstitions, ces anciens corps, ces ménages et ces âges.
C'est cette époque-ci qui a sombré!"

Il ne s'en ira pas, il ne redescendra pas d'un ciel,
il n'accomplira pas la rédemption des colères de femmes
et des gaîtés des hommes et de tout ce péché:
car c'est fait, lui étant, et étant aimé.

O ses souffles, ses têtes, ses courses; la terrible célérité de la perfection
des formes et de l'action.

O fécondité de l'esprit et immensité de l'univers.

Son corps! Le dégagement rêvé, le brisement de la grâce croisée de
violence nouvelle!

Sa vue, sa vue! tous les agenouillages anciens et les peines relevés à sa suite.

Son jour! l'abolition de toutes souffrances sonores et mouvantes dans
la musique plus intense.

Son pas! les migrations plus énormes que les anciennes invasions.

O lui et nous!
l'orgueil plus bienveillant que les charités perdues.

O monde!
et le chant clair des malheurs nouveaux!

Il nous a connus tous et nous a tous aimés. Sachons, cette nuit d'hiver,
de cap en cap, du pôle tumultueux au château, de la foule à la plage,
de regards en regards, forces et sentiments las, le héler et le voir,
et le renvoyer, et sous les marées et au haut des déserts de neige,
suivre ses vues, ses souffles, son corps, son jour.


Arthur Rimbaud
 

 
Avalon, 01 Janeiro, 2005

 

 

Trovas Populares VI - Vamos Cantar as Janeiras!

No dia 13 de Dezembro abri uma nova rubrica no Claro Obscuro, confesso que por absoluta falta de tempo. Tive a minha fase de poesia de gosto popular e, longe de estar agora para aí virada, tinha uma data desses poemas arrumados. Achava que nunca os traria aqui.
Eis que, em final de período lectivo, me deparo com a tal falta de tempo para alimentar este canto que não gosto de deixar como se estivesse abandonado. E lembrei-me das trovas! Achei que vinha a propósito, que em época de Festas apetece é dar à língua em rimas simples, dizer verdades cantantes, chorar sem doer ou ser irreverente sem chocar ninguém. Coloquei o "Trovas Populares - I", com uma pequena explicação, pois todos os que me lêem sabem muito bem que não é este o meu estilo. Acaba por ser um (talvez) ex-estilo, mas nunca o tinha manifestado aqui.
A reacção, entusiástica e imediata, trouxe-me a surpresa de os meus amigos e leitores começarem a trovar espontaneamente, nos comentários! Fiquei encantada e numa das respostas a algum trovador, disse que iria fazer umas "Trovas Populares" colectivas com tudo o que recebesse. O feliz resultado foi que choveram ainda mais rimas, umas mais populares, outras menos, mas muitas... e com géneros muito diferentes! Como se me escrevessem El Rei D. Dinis ou Ricardo Coração de Leão... mas também cortesãos e até Os Goliardos.
Cantar a terra por vezes sem lhe esconder as facetas madrastas. Cantares de Amor mas também de Escárnio e Maldizer. Perfeito!
E, no dia 18, lancei O Repto!
Hoje, às 4h do primeiro dia do ano de 2005, tenho um post colectivo, trifásico e gigante para colocar. Colectivo, por razões óbvias, trifásico conforme acima ficou explicado, e gigante porque, ao todo, recebi 42 Trovas, enviadas por 21 leitores. O que mais me agrada é a diversidade das escolhas e algumas considerações que foram tecidas por quem as fez, e eu mantive (retirei apenas o que me era pessoalmente dirigido).
Agradeço muito especialmente a todos os que participaram, transformando O Meu Castelo num animado ponto de passagem de Trovadores e Menestréis neste ano que hoje principia. E também agradeço aos que, como eu, vierem ler e trovar. Cada trovador se apresenta a si mesmo e ao seu modo, eu estou aqui para vos dar as mãos e sair, convosco, a cantar as Janeiras.

Fata Morgana




Thita:


Estou a rabuscar uns papéis que p'aqui tenho e lembrei-me desta trova:


"De correr venho cansada
De cansada me assentei
Achei o que procurava
Agora descansarei"


Excelente ideia e agora que estou de férias vou participar e deixo aqui já uma:


"O meu coração é terra,
Hei-de o mandar cavar,
Para semear os desejos
Que tenho de te falar."


Esta é do Cancioneiro de Aveiro, recolhidas por João Sarabando (...) Agora vou à procura de mais e se calhar faço uma minha, hihihi...


Vim deixar aqui três trovas. A primeira é-te dedicada por causa duma coisa que nós as duas sabemos. A segunda é dum senhor que dizem ter sido um dos maiores trovadores: Gonçalo Anes Bandarra.
A terceira fui eu que inventei, hihi...

1.ª
"E dará grande rugido
Seu brado será ouvido
A todos subjugará
Correrá e morderá
E fará mui grandes danos
a muitos reis dos arianos
e a todos assombrará"

2.ª
"Por desgraça ou por ventura
Em dois sítios me achareis:
Os ossos na sepultura
A minha'alma nos papéis"

3.ª
Nas trovas cantai o fado
Deste meu povo português
De dia sempre suado
Em cidade e campo rural
angustiado ao fim do mês
Não deixa de amar Portugal


E pronto! O que eu já me diverti pela pesquisa afora.



Conde-Lírios:


I
Boas trovas pa pulares
Com um olhar de 10velo
E as ondas de 7 mares
Nas ondas do teu cabelo


II
Vim eu 100 sal e 100 lágimas,
100 avental e 100 touca...
Doparei-me com tais rimas...
Moudeus! ca cousa mai louca

III
Já provaste o bolo-rei
E agora, por favor, provas...
Vá lá... vais gostar... eu sei!
É um belo bolo de trovas!

IV
Escrevi uma epopeia
Com apenas 4 versos
Pra não cansar a quem leia
Seus 3 neurónios dispersos

V
Bai sair uma ide e som
lindamente em cu adornada
- de trovas -. "Com pila, São",
Bai sair num tarda nada!...

VI
Por isso trovem, fregueses,
Tá a chegar o Ano Novo
E as trovas são tantas vezes
A melhor fala do povo!

Conde Lírios



Eduardo:


Seguindo as pisadas da sabedoria popular, aqui te deixo uma trova que já não sei onde fui buscar ;):


Morena, morena,
Dos olhos castanhos,
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?


I
Trovas de Coimbra de ALVARO SERENO
Musicadas pela CONDESSA DE PROENÇA-A-VELHA (D. Maria de Melo Furtado Caldeira Giraldes de Bourbon) e cantadas por um grupo de quintanistas da Universidade de Coimbra na noite de 9 Março de 1904, no Teatro Príncipe-Real de Coimbra, por ocasião da sua récita de despedida com a peça "Uma véspera de feriado", escrita por José Bruno Carreiro.

Talvez cantando possamos
Em nosso peito abafar,
Certa herança de pesar,
Que de Coimbra levamos ...
Partamos, pois, a cantar.


Foi murchando a mocidade
A cada beijo que demos ...
Que importa que cantemos
Se vive na alma a saudade
Dos beijos que já perdemos!


Chorar à mesma lembrança
De alegres e tristes dias,
É juntar na mesma herança
As tristezas e alegrias.

Seguem mais...


II
Considera-se a Cantiga da Ribeirinha a primeira trova do texto literário português. A mulher de quem se fala, Ribeirinha, teria sido a preferida de D. Sancho I. Texto literário, provavelmente escrito em 1189.


No mundo non m'ei parelha
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós, e ai!
Mia senhor, branca e vermelha,
queredes que vos retraia,
quando vos eu vi en saia.
Mao dia me levantei,
que vos enton non vi fea!


E, mia senhor, dês aquelha
I me foi a mi mui mal, ai!
E vós, filha de don Paai
Moniz, e bem vos semelha
d'aver eu por vós garvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós ouve nen ei
valia d'ua correa


III
CANTIGA DE ESCÁRNIO de Gomes Eanes de Zurara
Conheceis uma donzela
Por quem trovei e a que um dia
Chamei dona Beringela?
Nunca tamanha porfia
Vi nem mais disparatada.
Agora que está casada
Chamam-lhe Dona Maria.
Algo me traz enojado,
Assim o céu me defenda:
Um que está a bom recato
(negra morte o surpreenda
e o Demónio cedo o tome!)
quis chamá-la pelo nome
e chamou-lhe Dona Ausenda.
Pois que se tem por formosa
Quanto mais achar-se pode,
Pela Virgem gloriosa!
Um homem que cheira a bode
E cedo morra na forca
Quando lhe cerrava a boca
Chamou-lhe Dona Gondrode.

As últimas:

IV
Cantiga de Amigo, de Pero Gonçalves Portocarreiro


Por Deus, eu vivo sofrendo:
pois meu amado não vem:
pois não vem, que farei?
meus cabelos com a fita
eu não os prenderei.


Pois ele não chegou de Castela,
ou não é vivo, ai pobre de mim,
ou o rei o detém:
minhas toucas da Estela,
eu não as usarei.


V
Cantiga de Amor, de D. Dinis, o Trovador


Hun tal home sei eu, ai, ben talhada,
que por vós ten a sa morte chegada;
vede quem é e seed'en nembrada:
eu, mia dona!


Hun tal home sei eu que preto sente
de si morte chegada certamente;
vede quem é e venha-vos en mente:
eu, mia dona!


E aqui tens Notas de Teophilo Braga sobre o Cancioneiro Portuguez:


Esquecia as Trovas do Zeca Afonso:

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.


Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar


Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém


No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores



Odyseo:


Rio abajo,
va una botella,
con un mensaje
para quien lo lea...



Henrique Dória:


Aqui vai uma trova,que não é minha, é popular:


A mulher é uma canoa
para a gente navegar
vai de cima, vai de lado
de barriga para o ar.


Confesso que este povo é muito machista. Mas a sua sabedoria é demasiado ancestral para ser desprezada.



Titas:


Aqui vai uma amostra:


Subi acima duma arvori
Para ver se te via,
Como não te vi,
Descia-a!


Atirê um limão rolando...
À tua porta parou...
Depois fiquei pensando...
Será que o cabrão se cansou???


Ê vi-te no tê jardim,
Andavas colhendo hortelã!
Ê ca gosto de ti,
E tu? Hããããããã??


Subi a um ecapitre
Com o tê retrato na mão
Desencaliptrê-me lá de cima
Malhê com os cornos no chão!!!


Perdi a minha caneta
Lá prós lados da várzea.
Se lá fores e a vires...
Trázea!


(é evidente que nem sequer esta é minha...)



Yardbird:

I
O teu avental é branco
É verde, amarelo e vermelho
também azul como o mar
Tem as cores da natureza
E como é teu e de fada
Será com certeza espelho
E só reflecte beleza

II
Queria deixar-te uma trova
De que tu gostasses muito
Saiu uma coisa torcida
Mal feita como um presunto


Chamavas-me tu, fada, poeta
E vê no que deu a poesia
Vou ter sincera pena de quem ler
Porque vai decerto ter azia



Miss Kafka:


Apesar das trovas não serem o meu forte não pude deixar de querer responder ao teu desafio, e resolvi deixar uns versos de outrém. Neste caso, de Bernardo de Passos, um poeta algarvio, que penso ainda ter tido alguma relação familiar afastada com a minha família. Estes versos foram posteriormente colocados em música por um maestro chamado Rebelo Neves.
M.K.


" Ecos da Serra


Ó ribeirinho de serra,
não corras, vai devagar...
Leva lembranças da terra,
que vais ser onda do mar...
A correr, por entre flores,
vais, ribeirinho, a cantar...
Dize adeus aos teus amores,
repara que os vais deixar!


Um dia, longe de tudo,
ribeirinho, hás-de mudar,
feito onda do mar sem fundo,
perdido e triste hás-de andar...
Já sem rouxinóis cantando,
Já sem flores p'ra beijar,
só no mar ermo, chorando,
quererás então voltar...


Foi assim a minha vida
no seu louco delirar:
Como correu de fugida!
Como fugiu a sonhar!
Foi assim uma ilusão!
a minha vida a amar!
Um ribeirinho era então
e hoje é onda do mar...


Mas tu podes, ribeirinho,
ainda um dia tornar
às flores do teu caminho,
voltando nuvem do ar...
Só minha vida anda aos ais,
de praia em praia a chorar,
ai! nunca mais, nunca mais
pode ao passado voltar."


Bernardo de Passos



Márcia Maia:

São excertos do Bumba-meu boi, auto de Natal do Nordeste Brasileiro. Os personagens são Mateus e catirina, dois 'matutos, que conduzem a festa, o Boi, o cavalo-marinho, e outros secundários. A parte da dança do cavalo-marinho é sempre a mais animada. Ah, e em se tratando de folclore, devem ser anônimas. Por isso é ela que lhe mando.

As trovas:


vem, meu boi bonito
vem, dançar agora
não deu meia-noite
inda tarda a aurora.


cavalo-marinho
chega mais pra frente
faz uma mesura
pra toda essa gente


cavalo marinho
dança na calçada
que a dona da casa
tem galinha assada


cavalo-marinho
dança no terreiro
que a dona da casa
tem muito dinheiro


cavalo-marinho
já são horas já
faz uma mesura
e vai pro seu lugar


vem meu boi bonito
vem vamos embora
já deu meia-noite
já rompeu a aurora.



Nautilus:


Envio (...) um poema de um amigo meu para a tua iniciativa das trovas populares. Gosto muito do modo como ele escreve, e gosto deste poema uma mescla do antigo com o moderno.
Nautilus


MEDIEVAL II


Onda, suposição de ser que só consome
a própria boca aflita que não some e o mais
inunda. boca funda, boca, respiração
de lâmpada e de seio por dizer e monstro
alado. no chão concreto da mão que afunda
a ferida e o pecado, boca de asas e de sexo
no meu quarto e no teu mundo então
que nem se fala. incrível no espaço e de sofrer
convulso, ah boca que te alagas: cala.
mas se te digo que amo e desvario nela
a terra, o mar, o fogo, o pensamento,
as mil formas desta dor que não esqueço
porque sei que tudo o mais é vento e água,
amor dormindo, onda, já não peço: fala.


Rui Costa



Rui Costa:


Nao sei se isto e uma trova, talvez seja um soneto!


Arrastado em alta vaga em pensamento
contorno do teu corpo a aresta líquida
subo ao perfil mais alto e na subida
de ti arranco a fome e o alimento


Mas quero mais eu quero o tormento
das folhas verdes em ti humedecidas
borboletas em teu colo rosas lívidas
constelações pedrinhas em que aumento


O fogo vertigem o sobressalto do rio
o canto de assombro no sangue que corre
como quem nuvem nasce de repente


E já não se teme o fim o sono frio
porque quem ama assim, amor, não morre
Quem ama assim vive eternamente


Rui Costa



Micas:


Venho contribuir para cantar as Janeiras!! Escolhi umas Trovas das quais gostei muito, aqui vão elas:


"Textos del Cançoner de Barqueiros - Maria Adelaide da Silva Paiva, 1962"


SENHOR ARRAIS DO BARCO


Ó senhor Arrais do barco,
olhe lá a sua barquinha,
olhe lá a sua espadela
que não esbarre na minha.


Ó senhor Arrais do barco,
Caiu uma rata à panela.
Não me tire cá o caldo
que eu não quero comer dela.


Ó senhor Arrais do barco,
salte fora e venha ver.
Venha ver a sua filha
que se vai "arreceber".



Blue:


Olha, quase prometi que te enviava uma trova...


Laranjinha, tão canina, quinininha...


A minha laranja é canina
Tão canina que até dói,
Mas esta laranjinha,
Pequenina, é tão cheirosa,
Queria apertá-la sem dó.
A minha canina laranja
Redondinha e amorosa,
É a mais canina, quinininha,
Que há por estas bandas.
A minha laranja é canina,
Tão canina que dá dó,
Dá vontade de abraça-la,
Dar-lhe colo para nunca estar só.
A minha laranja é minha mestre,
Fruto de perfeição natural,
Nasceu em laranjal celeste
E como ela não há igual.


Blue



Orca:


Quadras de sabor popular, à desgarrada, com açúcar e com afecto:


Quem me dera ser o bolso
Desse avental de brancura
Para acolher o teu lenço
Da tua mão a brandura


Quem me dera ser o laço
Que te cinge o avental
Viveria num abraço
A ti preso tal e qual


Quem me dera ser tão branco
Sem mácula e tão intenso
Que fosse de ti o encanto
Maior que o mar mais imenso


Quem me dera então a mim
Ser cravo da tua lapela
Ficar-me tão perto assim
Flor de ti à tua janela.


Orca


(...) terei muito gosto em colaborar e responder ao teu desafio. Aqui vão, da autoria de Jorge Castro (temática dispersa):


A guerra é filha da guerra
O pai será não sei quem
Viúva nos fica a terra
Todos nós órfãos também


Diz que saúde é riqueza
Assim o diz tanta gente
Mas com tamanha pobreza
Deve o mundo andar doente


Sem graça vi a desgraça
Tanta graça desgraçar
Que p'r'aqui fiquei sem graça
Desgraçado só de olhar


Flores, nuvens e paixões
Prendem-se a alguns poetas
Como as penas aos pavões
E o sorriso aos patetas


Um órfão que era talhante
Tudo trinchando sem medo
Certo dia num rompante
Ficou mais órfão de um dedo


Uma ideia de justiça
Dum livro que alguém abriu
Deu de caras com a cobiça
Nunca mais ninguém a viu


Ai vida tão videirinha
Em vaidade ataviada
Por ciúmes da vizinha
Nem é vida nem é nada


Há palavras que me trazem
Gritos de tal solidão
Que nem caladas me fazem
Esquecer tanta aflição


Jorge Castro



Espadana de alegria
O OrCa em trova acesa
E o Jorge reverencia
A Fata pela gentileza...


Orca


Por graça, com leite-creme e rabanadas, depois do bacalhau cozido, o meu presente de Natal:


POEMINHO


Neste Natal
Afinal
Vou embrulhar o poema
Numa folha de jornal
Vou deixá-lo assim quentinho
Entre passas e azevinho
Regá-lo com um bom vinho
E chamar-lhe poeminho
Decerto que assim tratado
Ficará mais animado
Quem sabe?...
Mais redondinho


Só então o lançarei
Aos quatro ventos da sorte
Para que não perca o Norte
Nem se engane no caminho


Ao bater à tua porta
Recebe-o com carinho
De mim ele leva um abraço
E o papel de jornal
É só p'ra ficar quentinho


Porque afinal
É Natal
E ele é só um poeminho.


Jorge Castro
Dezembro de 2004



Helena Domingues:


Não sei sequer se cabe no tema, no propósito. Aqui vai:


PORTUGAL ÀS AVESSAS
(Ou de como caçar com gato, quando não há cão)


Descobrir num único texto arcaismos, neologismos, estrangeirismos e todos os "ismos" que contaminam a língua portuguesa é complicado. Daí, ter resolvido inventar este texto para ensinar essa matéria.
(que me desculpem os professores de História)


I
Ouvi bem, Vossas Mercês,
Uma história de espantar!
Foi um robot português
Que asinha m'a veio contar


II
Por mor espanto que mostreis,
Nada me fará calar.
Chegou um cowboy c'os reis
Para a Lua conquistar.


III
Em corcéis vinham montados
Vestindo fatos de treino.
Traziam nos pés calçados
Os melhores Nikes do reino

IV
Foram chegando ao Terreiro
Onde o chauffeur os esperava.
O Afonso foi o primeiro,
Mas Dona Urraca tardava.


V
Como vinha na disquete,
Antes da grande partida,
Juntavam-se em tête-à-tête
Fazendo honras à comida.


VI
A fome era mais que muita
E o menu era baril:
Saíam do micro-ondas
Iguarias mais que mil.


VII
Hamburgers, bitoques, pastas,
Croissants, tartes, que sei eu?
Estava tudo esfomeado,
Quando a Urraca apareceu.


VIII
Espantai-vos, gente, espantai!
Pois sabeis como chegou?
Na mais bela passarola
Que em Olissipo aterrou.


IX
Vinha toda produzida,
Com uma roupa muito chic.
Logo as damas lhe pediram
A morada da boutique.


X
Só os homens não gostaram
Do atraso da Urraca,
E logo ali a xingaram
Dando uma grande barraca.


»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»


XI
A história acabou mal
E, à Lua não chegaram
Ficaram-se em Portugal
E por cá continuaram


Helena Domingues



Clark59:


(...) também te mando uma minha (uma minha?, isto não começa bem....)


Ora cá vai, do Clark


Tentei o Mar com uma dança
Mas caí em tentação
Ficou-me esta contradança
Como única lembrança
De um Mar que me quer irmão


Ao Mar fui pedir perdão
Por pecado de descrença
Ficou-me esta contrição
No lugar de uma canção
Que ao Mar não leguei pertença


Tem o Mar uma tendência
De de mim só querer sermão
Eu quero mais, a premência
(muito mais que a reverência)
De cair em tentação


Vou ao Mar mais uma vez
Do Mar venho nunca mais
Se não me traz nunca Paz
Traga-me então português
Traga-me a vez dos heróis


Monalisa:


Dos meus poemas acho que este é o único que se enquadra nesse espírito de poesia popular. Fi-lo numa fase em que (...) só me saíam coisas assim muito portuguesas:

Minho


Água que caia
na roda da azenha
no caminho estreito
vinha a sombrear.


Concertina ao longe
a ensaiar as voltas
e só ruído de água
de calor, de pássaros
e o cheiro a terra,
a quente, a paz.


Passado a espreitar
na pedra do muro
e no peito um múrmurio
a pedir ao tempo
para voltar atrás.


Março de 1998
Monalisa



Menina_Marota:


Canto como quem usa
Os versos em legitima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza."
(Excerto de um poema de Miguel Torga.)



Badalo:


Cá na nossa terra
Há um belo castelo;
Tanto tu o contemplas
Quanto eu o contempé-lo.


Da minha janela à tua
Vai uma grande distância;
Ao sair à rua
Escorrego numa casca de melância...


(depois posso participar com um soneto da minha autoria? Já mais sério e tal?)



MJM:


Eu vinha toda lampeira...
tic tic...de mansinho
c'uns versitos n'algibeira
e salta a fera ao caminho!!


*


[Ai, meu Deus, que já se chega
O limite dado pela Fata
Presto! Presto! Um manifesto!
Da capo, com muita lata!]


Fecha-se o ano em soprano
Mezzo, piano; em bocca ciusa
Queixa-se o povo, calando
Pois cantar já nem se usa!


Que venha o Novo cantando
Glissando trovas catitas
Sforzando a nota e esperando
Te traga coisas bonitas!



Tmara:


Aí vão!


SÓ, NA SOLEIRA SENTADA


Corre o rio para o mar
Intensa é sua corrida.
Assim minha alma corre
Desde a tua partida.


Desde a tua partida,
Desde a tua abalada.
Foste pra longe e quedei-me
Só, na soleira sentada.


Só, na soleira sentada,
Viajando largos mundos
Sempre por ti perguntando
Sem sair do meu lugar


Pelas estradas viajei,
naveguei pelo mar,
e nos espaços voei
sem nunca te encontrar.


Sem nunca te encontrar
Procurei sem te achar.
Voei alto, para o longe
Em busca da estrela polar.


Em busca da estrela polar
Rosa-dos-ventos da vida
Tu, meu norte, sul, poente
Minha fonte, meu nascente


Só, na soleira sentada
Viajei pra te encontrar.

Tmara

TROVAS PERDIDAS

São trovas, senhor, são trovas.
Trovas que nunca trovei
e que em minha'alma guardei
Desde o dia em que te vi


Desde o dia em que te olhei.
Desde o dia em que te vi
Trovas e trovas trovei
Em minh' alma as guardei


Nela bem as aferrolhei.
Minha alma se encantou
Eu, poeta me tornei.
Poeta de sete-chaves


Mil trovas aferrolhei,
Pois se a ti as não cantara
Nenhum sentido lh' achei


TMara


Ai te envio mais umas quadrinhas de pé quebraaaado...


Ai, que triste vida a minha
Ai que triste é meu viver
Desde o dia em que te vi
Não deixei de te querer.


Não deixei de te querer
Não deixei de te amar
Ai que triste vida a minha
Ai que triste é meu penar.


Ai, que triste é meu penar.
Por este amor sem ter troco
Minha alma a definhar
Meu cabelo a branquear.


Meu cabelo a branquear
Por alguém que me não quer.
Ai, que triste vida a minha
Ai que triste é meu viver.


Ai que triste é meu viver
Ai que triste é meu penar
Vendia a alma ao diabo
Para receber teu olhar.


Para receber teu olhar
Ia às profundas do demo
Onde ele está a reinar.
Ai, que triste é meu penar...


Ai, que triste vida a minha
Perdi-me no teu mirar
Sem que de mim tu lograsses
Meu amor visionar.


Ai, que triste é meu viver...
Ai, que triste é meu penar...
Vendi a alma ao diabo
Não tenho mais sossegar.


Não tenho mais sossegar
Quando com ela te vejo
Em qualquer rua passar
Na face lhe dando um beijo.


Ai que triste é meu viver.
Perdi-me no teu olhar
Ficaste com minha alma
Não tenho mais sossegar.


Ai, que triste é meu penar!


TMara


Vou enviando à medida que escrevo....

Partiste mares afora
Fiquei na praia chorando
Até ao raiar da aurora
A ouvir as águas cantando.


A ouvir as águas cantando
Com elas cantei rezando:
Que te protejam os céus
Que sempre te guarde Deus.


Que sempre te guarde Deus
Que sempre Deus te guarde
Que nesta terra esperando
Aqui ficaram os teus.


Aqui ficaram os teus
Os teus que tanto te querem
De volta te tragam os céus
Das longes terras d'além.


Pra longes terras d'além
Partiste mares afora
Sozinha fiquei na praia
Chorando não sei por quem.


Chorando não sei por quem
Pois não sei por quem chorava
Se por ti ou por mim era
Que assim sola me quedava.


Veio uma onda e levou
Minha cansada alminha.
Ao vento abri o peito
E meu coração voou.


E meu coração voou
Feito água, feito brisa
Mar afora navegou
Numa louca e vã pesquisa.


Numa louca e vã pesquisa
Foi minha alma abalada
Célere soprava a brisa
Que tua alma levava.


Partiste mares afora
Na praia fiquei esperando
Veio uma onda e levou
As lágrimas do meu pranto.


As lágrimas do meu pranto
Misturadas com o mar
Ouve minha voz, meu canto
Fico aqui a te esperar.


TMara


Mais uma trova de um amigo que começou a colaborar no meu blog
Escreveu um texto há dois dias.


Sou trovador, trovadora
E a trovar eu não brinco
Desejo-lhe minha senhora
Um feliz 2005.


Que seja uma maravilha
Para si e para quem
Dias e noites partilha
Para os gatinhos também.


Que só lhe traga benesses
E bem-estar e amor
São estas as minhas preces:
GatoVelho-Trovador.

GatoVelho


 

 
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