Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 26 Fevereiro, 2005

 

 

Pintura de John William Waterhouse


Dança das Horas (*)

Ao som da melodia
aberta na caixa de música
vem-me a infância
e rasga-me a carne
com seu gume suavíssimo
afiado.
O sangue é uma invenção
que nunca jorra de tão fundos sulcos
A dor é quente
o grito é deliciado.

Ainda me lembro
da ciência inata
aguda
que não pus de lado
quando adulta
Apenas a guardei dentro da caixa
ou talvez na música
que toca assim que a abro
umas vezes tímida,
outras, resoluta.


© Fata Morgana


(*) Título de uma valsa de "La Gioconda", de Ponchielli

 

 
Avalon, 24 Fevereiro, 2005

 

 

Foto de Elissa Gore


Não olho mais para ti
Se te vejo é como se não visse
e se te falo não te digo coisa alguma.
Tocar-te é uma lembrança
racional somente:
Não há qualquer reminiscência táctil
e até a memória visual se desligou completamente.

Esqueci a tua voz
sempre que falas sinto uma surpresa.

De tudo quanto sucede
o que me faz impressão
é ter-me escapado a razão
de tão súbita indiferença.


© Fata Morgana

 

 
Avalon, 19 Fevereiro, 2005

 

 

Ballet School by Arthur Dogan

Dança

Não sinto a tua falta, realmente.
Estás longe
e eu não queria estar aí...
Isso prova o que eu não sinto por ti!

Quanto à dor sem lenitivo
pelo afastamento enorme
é o meu coração assertivo
que dança sempre que dorme
e salta até eu ceder

Eu queria ter razão
mas este meu coração
até acordado sonha
por mais razões que eu lhe oponha

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 16 Fevereiro, 2005

 

 
O Elogio do Silêncio


Pintura (detalhe) de Franz von Stuck

I
Molho na língua as palavras
e entrego-tas num beijo
que te diz ardentemente:
- Sou tua, inteira, ora sente!

Tu recebes,verdadeira,
a voz da alma
somente...


II
Por não ter bom viver com o silêncio
vai-se estafando
em ditos que dão pena!
Eu fico em mim tranquila
enquanto penso...


Pintura (detalhe) de Kinuko


© Fata Morgana

 

 
Avalon, 12 Fevereiro, 2005

 

 
Depressa, tragam-me um Manual de Instruções!

Tenho um tio que vive nas nuvens. É uma pessoa cheia de recursos intelectuais, com uma formação absolutamente surpreendente, apta a resolver assuntos complicados nas áreas para que se voltou mas, em contrapartida, não possui um pingo de senso comum nem a menor desenvoltura para tomar algumas decisões bem simples: só estuda, só lê... e é um bom profissional, em constante reciclagem. Os parentes e amigos já o conhecem, sabem como o manter aterrado, mas quem não aprendeu o manual de instruções - só mesmo com prática... - não faz ideia de como há-de lidar com tão improvável estilo de distracção. Eu confesso que me pelo por assistir às coisas inacreditáveis que lhe acontecem, pois abeiram o inverosímil, são sempre ultra cómicas e sabe-me bem não ser eu a fazer a figureta, para variar. Por questões de vizinhança, houve uma altura em que era a mim que ele recorria para resolver alguns assuntos triviais, que a ele pareciam uns bichos-de-sete-cabeças.
Uma vez convidaram-no para um casamento e ele constatou que precisava de uns sapatos, cá...! - ("cá" é uma abreviatura de carago, que ele usa constantemente quando alguma coisa o aborrece, como se lhe faltasse a paciência até para dizer a palavra completa). Dessa vez aborrecia-o o traje requerido ser a rigor - Vê lá tu, Morgana, vai um gajo ter que se enfiar num fraque com este calor -, e o dele já não estava nenhuma maravilha. - Achas que preciso de um novo? Eu queria era uma câmara de vídeo, cá...!
Pois, a embrulhada geralmente começava mais ou menos assim...



Claro que eu não sabia se o fraque se aguentava para mais essa vez ou não, pois não o tinha visto. Mas, em resposta a uma pergunta-diagnóstico - futurologista, claro - ele respondeu-me que sim, que "os gajos (os amigos dele) gostam de casar a rigor e como lhes deu a todos para começar a casar... (eram, no mínimo, trintões avançados como ele), vou precisar mais vezes da fatiota". Posto isso, aconselhei-o a comprar. A ideia causou-lhe um humor ainda mais cavernoso, mas encolheu os ombros, numa concordância resignada e muda...
Lá fomos para as lojas. Primeiro os sapatos, que sempre eram uma compra mais fácil (os de homem!!) - a decisão foi minha, para ganhar algum embalo, que aquilo não ia ser nada fácil. Depois de muitas voltas, lá localizámos numa montra uns que lhe agradaram - praticamente iguais aos do costume. Entrámos na loja e ele pediu "um par daqueles, nº não-sei-quantos". A funcionária desapareceu, já informada (por mim...) de que não valia a pena trazer modelos semelhantes. Assim que ela virou costas, o meu tio desligou completamente daquele assunto, rumo... à lua, claro. Notava-se no modo como os olhos dele se desfocavam, a expressão carregada desaparecia e ele ficava sério mas satisfeito. Quando a rapariga voltou, foi direita a ele informando que "nesse modelo, de momento, não temos o seu nº..." Ele ouviu perfeitamente a frase e voltou lá dos confins, mas, na realidade, não sabia do que ela estava a falar. Ficou uns momentos a olhar... ora no vago, ora o rosto da rapariga... Por fim, com um ar contristado, saiu-se com esta tirada: "Pois não, cá...!"
Ela ficou confusa, parecia mesmo que ele sabia que não havia aquele nº!, e ele embeiçado - sempre achou graça às raparigas que demonstram qualquer tipo de perturbação. E lá se arranjaram uns sapatos, depois de muitas hesitações dele, conselhos meus e risadas da funcionária, que começou, brilhantemente!, a entrar no índice do manual de instruções...

Faltava o mais difícil, o fraque. Levei-o a uma conhecida loja de roupas de homem, onde trabalhava uma amiga dele - e em alturas difíceis os reforços fazem sempre jeito! A Cristina (supondo que se chamava assim) ajudou imenso, com uma série de sugestões sábias e ajuizadas. Acabou por ficar a par de quanto o atormentava ir gastar um balúrdio num fraque, exactamente quando estava a pensar em comprar uma câmara de vídeo - consultou-me vivamente com um lampejo interrogativo do olhar, estranhando o desejo de possuir um aparelho que não servia nenhum dos principais interesses dele. Consolou-o com um misto de conversa de vendedora e troça amiga - revelando-se perita no capítulo das ligações básicas do manual. Orientou-o para uns modelos bem bonitos e não muito caros, tendo em conta que eram fraques, claro! Feita a escolha (renitente!...), respirámos ambas de alívio, enquanto ele foi direito aos provadores. Pouco depois reaparecia, elegantíssimo... mas com as mangas pelo meio das mãos. Chamou-se a senhora modista - "aquilo arranja-se de um dia para o outro" - que veio com uma almofadinha de alfinetes. A Cristina voltou ao seu posto e nós os três - o meu tio, a modista e eu, ficámos mesmo ali, à entrada dos provadores, pois a coisa era simples, eram só as mangas. A senhora não era minimamente peca a dar ordens:
- Estique bem o braço! - olhar apreciativo. - Agora dobre até meio... isso!
Depois inclinou-se, até ficar à altura do punho, e começou a prender os alfinetes, afanosamente. Eu estava a espera que ele desligasse, mas não. Dessa vez ficou a magicar na compra, cada vez mais carrancudo. E subitamente tomou uma decisão.
Com a maior gentileza (sempre se mostrou especialmente cuidadoso com quem tem trabalhos mais humildes), segurou no cotovelo da senhora modista e, a custo, fê-la erguer-se. Ela mirou-o surpreendida e interrogativa. Ele não se fez rogado, explicou logo o porquê da interrupção:
- Ó minha senhora... eu não quero comprar um fraque. Eu quero é uma câmara de vídeo, cá...!
Começara a despir o detestado andrajo, perante o pasmo escancarado da modista, que olhava para mim com uma expressão de entendimento esclarecedora do que ela estava a pensar - "coitada da mocinha, ter que andar assim a tomar conta dele, pois então!?".
Eu estava morta de riso mas lá expliquei que o fato era caro e o meu tio preferia a câmara, que também não era nada barata; que ele andava a hesitar... mas, pelos vistos, acabara de se decidir! "Ah, afinal ela também é maluquinha..." foi a última impressão com que fiquei, antes de quase fugirmos da loja. Nem me lembro como viemos parar à rua, sei que o meu tio não comprou aquele fraque, ou qualquer outro - pelo menos naquela altura - nem a famigerada câmara de vídeo!

Lembro-me que ele me levou a casa e foi todo o caminho a gabar-se da quantidade de dinheiro que acabava de poupar e a explicar que nos casamentos de gente possidónia (coisa que a maioria dos amigos dele nunca foi) quase todas as mulheres usam vestidos emprestados, alugados ou mal ajambrados e os fraques, então, nem são bem fraques, remontam quase sempre aos tempos da faculdade e do traje académico, são sobrecasacas, e quem não tem uma, aluga. Daí haver sempre um forte cheiro a mofo.
Não lhe perguntei como explicava que, sendo os amigos dele bastante simpáticos e sem manias, escolhessem casar a rigor, pois há mil e uma explicações válidas para isso. Fiquei mas foi a pensar que, afinal, ele nem sempre é tããão distraído, cá!...

© Fata Morgana
 

 
Avalon, 09 Fevereiro, 2005

 

 

Pintura de William Bourguereau


Ao J.

O espectro de uma rosa
assombra os meus tormentos
Faz-me sorrir
sem ter de quê
Traz-me sentimentos
que não tenho como sentir

Mergulho no aroma das pétalas
que faz de mim uma alienada
do cinzento geral
Fico quase morta na delícia
deste perfume letal

Quisera ser fria...
Mas veio a rosa que me deste
e me arrepia
num grito de prazer agreste
Eu estendo-me para ela sobre a mesa

Larguem-me os fantasmas e os ciprestes
que eu agora vou usar as vestes
desta flor que em delícia me fez presa

© Fata Morgana


 

 
Avalon, 07 Fevereiro, 2005

 

 
Ontem entrei numa conhecida loja de artigos exóticos, daquelas com uma mistura de aromas de vários incensos e cheias de objectos variados que, a mim, dão logo vontade de redecorar a casa toda (mas depois, talvez, alugá-la!), ou então comprar um guarda-roupa extravagante e ir direitinha para o aeroporto tratar de arranjar um bilhete de avião para um destino condizente.


Foto de Autor Desconhecido

Andei por lá a ver as pequenas maravilhas, quase todas a preços muito convidativos, pois era maré de saldos. Confesso que encontro sempre muitas coisas que adoraria comprar mas nunca o faço, já que tenho plena consciência de possuír uma aparência muitíssimo velho mundo, condizente com os meus mui ocidentais hábitos e modo de vida. Estas coisas excluem praticamente todo o stock da loja e, como embirro solenemente com monos, mesmo que sejam bonitos, limito-me a ir lá vê-los. Se fosse uma loja celta... mas não.
A certa altura, eis que me deparo com umas estatuetas bastante extraordinárias, de umas divindades femininas não identificadas (mas nem por um momento duvido que representem de facto uns seres estupendos), dispostas em fila sobre uma mesa. Aos pés da primeira daquelas tão sublimes imagens, encontrava-se um bonito cartão de papel reciclado, de espessura consistente, com a seguinte revelação escrita a marcador vermelho (!) :



Como aqui em Avalon nunca se verificam semelhantes desvalorizações - a deusa em saldo?!... - não resisti a manifestar-vos a minha imensa surpresa.

© Fata Morgana

PS. Sim, a minha hilaridade também. Claro que me fartei de rir, até fui muito gentilmente arrastada para fora da loja por um certo Cavaleiro que costuma ser vítima dos meus ataques de riso incontrolável!

 

 
Avalon, 05 Fevereiro, 2005

 

 
Um dia
é feito de luz
mas também de
obscuridade
já que em si contém a noite.
É esta que acende luzeiros
no fundo do meu coração...



Acordo e olho para a noite que, lá fora, lembra uma rainha trágica e altiva. Largo o aconchego das cobertas e salto da cama, já desperta. Da janela do meu quarto no cimo da torre, debruço-me para a escuridão, sorrindo-lhe à infindavel lonjura. Paradoxalmente estendo as mãos às estrelas, que parecem estar ao alcance dos meus dedos. É como se a via láctea partisse da minha janela... Foi por isso que escolhi o ponto mais alto do castelo para dormir - ou para passar as noites.
As horas obscuras deixam de parecer tristes ou intimidantes a quem toma parte nelas, e tornam-se envolventes, cheias de revelações. Também mostram muitos segredos que de dia permanecem escondidos. Esbatem-se os véus que ocultam numerosos mistérios e enigmas.
A noite é assaz cativante e eu não a temo. A única coisa que nunca faço é convidá-la a entrar no meu castelo, pois pode ser que depois não queira saír... e nesse caso a luz não teria mais lugar aqui. Eu não quero tal coisa, por isso saio ao seu encontro, até que o dia me desperte com outras canções, não tão próximas ao tom da minha alma, mas mais rasgadas. É a elas que eu me restituo!...

Ah noite!
Como foi que
descobriste em mim
o encanto pelos silêncios?...
E o canto da minha alma neles derramada
em harmonia com os sons
da tua afectuosa solidão povoada?...


© Fata Morgana

 

 
Avalon, 01 Fevereiro, 2005

 

 
Contos da Floresta II

(Acontecimentos mentalmente registados pela
Fata Morgana
mais tarde escritos pelo seu próprio punho
e ocultos na
Arca do Esquecimento Eterno)

Caminho por entre as árvores, em plena floresta cerrada. Não sei bem se estou perdida... talvez esteja! A ideia faz-me sorrir. Sabeis como gosto de me perder... E da floresta, também. Sem estas coisas nunca me encontraria; jamais seria devolvida a mim própria, por inteiro. Aqui, durmo ao relento se preciso for, pois sinto-me sob a protecção de tão denso e poderoso abrigo, para mim sempre acolhedor.
O sol vai esmorecendo, decaindo lentamente em lânguidos raios doirados que chegam coados pela folhagem. Daqui a pouco na cúpula imensa brilhará a lua, reflexo encantado entre os milhões de luzeiros que a enfeitam sempre. Mundos distantes, sóis muito remotos, juntam-se para no céu prestarem culto à misteriosa deusa da noite.
Ao último fulgor solar, a Estrela da Tarde mostra-se, anunciando-a. E ela ergue-se majestosa e lenta, tomando conta do firmamento. Os meus olhos lêem-lhe os mistérios. Quando, aureolada anuncia perigos! Porém, muitas vezes vem nua e generosa, ora crescente a favorecer progressos, ora minguante, a levar consigo as coisas de que nos queremos livrar. Hoje mostra-se cheia, de um tom amarelado, místico. Aproxima-se uma daquelas noites em que os lunáticos encontram em si a confirmação de todas as verdades mais improváveis e exultam, enquanto os outros se sentem perturbados, remexidos nos seus pontos mais recônditos, despojados de todas as suas pequeníssimas certezas.


Night, by Edward Burne-Jones

Já se ouve ao longe o pio do mocho e os lobos deixam os seus covis, silenciosamente. Os seres lunares têm as suas confluências habituais, conhecidas...
Desisto de voltar ao meu castelo, mesmo sem saber se estou perdida. Passei a estar. Vou bebendo das folhas as primeiras gotas do orvalho fresco, enquanto sigo o trilho deixado por um lobo enorme - a julgar pela envergadura das pegadas. Desemboco numa clareira onde avisto, muito perto, o animal soberbo e aproximo-me dele, passando-lhe a mão contra o correr do pelo, até fitá-lo nos olhos brancos, cheios de luar - conhecemo-nos. Sento-me a seu lado, sobre a terra clara, salpicada de tufos de erva húmida.
Num instante o lugar enche-se de silvos, pios, cantos e silêncios. Sabe-me bem verificar que sou o único elemento humano. É estranhamente repousante...
Encosto-me ao peito do lobo que, de cabeça voltada para o alto, lança o seu uivo longo e cavado, e é assim que adormeço, embalada pelo grito que de tão próximo do meu ouvido soa como se fosse meu. Tínheis razão, é libertador.



Lady in the meadow, by Kinuko

Quando acordo, já o sol vai alto. Levanto-me e apresso-me a saudá-lo. Dou-lhe algumas notícias da sua amada, não muitas porque dormi tranquilamente toda a noite, mas, ainda assim, ele parece redobrar, alegre, o seu fulgor.
Sem grande surpresa, agarro no manto que não me pertence e me cobria. Coloco-o sobre os ombros e ocupo-me novamente do sol e da lua. Que amor tão enigmático e tão belo, penso... E devo tê-lo pensado longamente, pois mal dei pelos meus passos e já estou no átrio do meu castelo.
- Viva Morgana! Porque passastes a noite ao relento, na floresta? - perguntais-me com os olhos flamejantes.
Sorrio por dentro e, com um pequeno gesto de reconhecimento, estendo-vos o manto que vos pertence. "Eis uma pergunta cuja resposta não é da vossa conta, Merlin..." respondo sem esboçar uma só palavra - apenas o sorriso que se exterioriza levemente, e vós compreendeis com a mesma facilidade com que lêdes tudo quanto está escrito nas estrelas.
Abro a pesada porta e fecho-a novamente atrás de mim, deixando-vos, não surpreendido, mas descoroçoado.
Os nossos encontros são sempre assim, absolutamente extraordinários e fugazes.

© Fata Morgana


 

 
O Meu Castelo
 
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