Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 30 Março, 2005

 

 
Escrevi o texto que se segue sem um objectivo de continuidade mas, inesperadamente, o assunto não me largou enquanto não me embrenhei muito mais nele. Por isso, passei a considerar os "Artifícios Comuns" como uma espécie de Prólogo de "As Três Leis da Robótica".


Artifícios Comuns
Dedicado a Michio Kaku

O senso comum é lógico mas não matematicamente. Este mero pequeníssimo facto tem dado cabo da paciência aos cientistas, sobretudo aos que se voltaram para o campo da Inteligência Artificial. Por isso as comunidades de investigadores de IA, após alguns resultados pouco animadores - se bem que muito cómicos! - nas suas tentativas de criar computadores e robots inteligentes, perceberam que, para estes serem capazes de agir inteligentemente, teriam que ser dotados de senso comum. Isto porque uma coisa óbvia pode não sê-lo segundo as leis da lógica. Um exemplo de erro cometido pelas máquinas:

Cientista: Todos os patos voam. Charlie é um pato.
Robot: Então Charlie voa.

Cientista: Mas Charlie está morto.
Robot: Então Charlie está morto e voa.

Claro que eu diria logo, Olha! O Robot será religioso?! À cautela, experimentava outra vez e claro que a resposta seria sempre a mesma, e então eu já podia sair para contar a toda a gente que os Robots podem possuir uma inteligência mística! É por estas e por outras que não sou cientista e virei para as Letras bem cedinho!
A atitude correcta - para um cientista, bem entendido, pois a minha não estava nada mal!, seria franzir as sobrancelhas com desagrado e equacionar imediatamente a reprogramação do Robot de forma a este ficar a saber que aquilo que está morto não se move, logo, não voa. Para isso... um nunca acabar de números e sinais rabiscados num caderninho de apontamentos (mais computadores e monitores a estragar a minha história bizarra não!).

E depois, na experiência seguinte, após ser informado pelo Cientista de que Charlie está morto:

Robot: Então Charlie não voa.

Hurra! Certo! Viram, o Robot já é inteligentíssimo! Mas os cientistas nunca estão contentes com nada. E este aproveita para torturar o Robot mais um bocado, resolve que está um dia mesmo bom para prosseguir as experiências com IA. E não se fica por ali!
Com um ar até um pedaço sinistro (talvez estivesse num dia não), olha para o inexpressivo Robot e atira-lhe com esta (que requer quase um Postulado de senso comum!):

Cientista: Mas Charlie está morto na roda de uma avioneta em pleno voo.
Robot: Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa. Então Charlie voa.


Robot

Que maçada, este Robot muda constantemente de opinião, pensa o cientista enquanto desencrava o coitado. Pois, novos rabiscos: é preciso dizer-lhe que a acção não parte daquilo que não mexe porque está morto e sim da avioneta, que é quem voa, não o pato! Ora, eu com as minhas Letras, digo daqui da minha ignorância dessas coisas, que concordo com os cientistas e o Robot precisa mesmo de um Senso Comum! Mas ele só entende coisas matematicamente lógicas, não há como meter-lhe dentro uma coisa que o não seja! Só será possível uma aproximação tosca se dotarem o Robot de uma verdadeira Enciclopédia de Senso Comum!!!!

Ora!? E qual é a dificuldade?! A Internet não foi já inventada?? Pois dotem-no também dessa ilusão de que aqui se fica por tempos intermináveis a trabalhar, a comunicar! Ele que não seja um individualista e seja dotado para vir aqui à Net pesquisar sobre os imensos sentidos das palavras e das frases! Afinal, se nós que somos pessoas e temos muito mais que fazer - mesmo que não pareça e fique tudo às três pancadas -, estamos aqui, que venha o felizardo do Robot também! Que leia; que faça o seu surf, pois!; que vá perguntar nas Salas de Chat; que instale um Mensageiro e leia e crie Blogs!

Foi nesta altura que A Comissão me chamou e dei comigo metida numa espécie de Processo de Kafka.

© Fata Morgana

O primeiro diálogo entre o Cientista e o Robot é retirado do livro Visões de Michio Kaku. A expressão Enciclopédia de Senso Comum também.

Nota: Foto de autor desconhecido


 

 
Avalon, 25 Março, 2005

 

 
Desejo a todos aqueles que me visitam, os que comentam aqui ou no e-mail e os que apenas lêem; e também aos que o acaso traga de passagem, uma Boa Páscoa. Que, Cristãos ou não, todos vivam em Paz e Amor estes dias tão extraordinários.


O Bom Pastor - postal de autor desconhecido


Quase não tenho podido estar aqui e tampouco andar nos meus habituais passeios, em que vos encontro. Tenho imensas saudades de percorrer ou cruzar os vossos caminhos. Mas os motivos desta súbita e transitória falta de tempo são bons e hei-de partilhá-los aqui.
Normalmente, quando me afasto, fica o eco das vozes dos que o meu coração escolheu (Rudolfo Nureyev, Glenn Gould e Antonin Artaud). Costumo deixar uma foto, uma citação... algo que, sendo deles, me dá o maior gosto partilhar aqui com todos.
Desta vez, porém, ficou uma das minhas cartas para Rudi (mais uma!), já que lhe escrevi por ocasião do seu aniversário - 17 de Março. Não tinha intenção de a deixar aqui pousada. Mas, sem tempo para escolher outra coisa, também é verdade que ao menor pretexto - ou mesmo sem nenhum - adoro acender-lhe as luzes do palco.

Nos próximos dias não vou escrever ou escolher textos novos. O tempo livre que tiver, será para vos ir ler e comentar, assim como responder aos vossos comentários aqui. Também vou reeditar uma história que remonta aos primórdios do Claro Obscuro e muito poucos conhecem: a do processo que a Comissão me pôs acusando-me de ser Robofóbica! Eu gosto particularmente dessa minha faceta - tanto quanto detesto ser curiosa.


Foto de autor desconhecido

Depois do meio de Abril voltará tudo ao normal e estarei cá como sempre, para vos receber.
Agora meto-me ao caminho como intrépida viandante que não recua frente ao perigo, antes lhe lança vários reptos!...

© Fata Morgana


 

 

 

 

Rudolph Nureyev, foto de autor desconhecido

Carta escrita no passado dia 17 de Março

Rudi...

Hoje terias completado 66 anos. Não sei porquê, este ano assaltou-me uma visão muito nítida dos festejos que teria havido e apeteceu partilhá-la contigo assim, numa carta que fique tua. Escusas de fazer esse ar trocista. Ficas muito bem com os cantos dos lábios assim descaídos e o esgar zombeteiro tem sempre graça quando aparece nos teus olhos profundos e húmidos, mas sabes que eu tenho razão. Ora ajuíza tu:
Diz-me que não terias mandado organizar, segundo todas as tuas preferências e também caprichos, uma daquelas festas simultaneamente íntimas e muito notadas. Uma festa em que farias questão de oferecer as tuas iguarias predilectas - incluindo os pratos Tártaros - a uma estranhíssima fauna cosmopolita e extravagante, composta por celebridades, algumas delas mais famosas pela devassidão do que propriamente pela carreira... Ou por ambas as coisas. A esses misturar-se-iam outros notáveis mais tranquilos e enigmáticos e também algumas pessoas modestas e dos ditos brandos costumes. A estes conheceras pela competência no desempenho de algum ofício simples ligado à tua arte.
Diz-me que não ias armar um escândalo, ameaçando não aparecer, precisamente à hora de chegarem os primeiros convidados. E que não viria um dos teus amigos debelar o teu mauvais-humour garantindo-te que todos ali estavam apenas pela comida e para ter o nome nos jornais do dia seguinte. Esse desafio ao teu magnetismo é que te decidiria a comparecer. Chegarias com o queixo impetuosamente erguido, as pálpebras um pouco baixas, a olhar o mundo de alto, com um brilho inquebrantável, impetuoso e distante, nos olhos. "Eles não vieram realmente por mim. Foi por eles mesmos, porque não suportariam deixar de me adorar" - sim, ouvi o teu pensamento ao avaliares a sala e percebi, com a minha habitual surpresa, que embora tu já soubesses, continuarias a duvidar sempre. És um estranho inseguro, que usa o espalhafato para se esconder.
Diz-me, Rudi, que não te sentarias ao piano a tocar Bach - o teu predilecto - e talvez também Beethoven, recusando os aplausos finais, que extinguirias com um gesto enérgico. Tendo-te tu na conta de pianista regular, aquelas palmas exasperavam-te (tanto quanto adoravas receber ovações intermináveis após um bailado, pois essas premiavam o verdadeiro génio).
Vodka seria a tua bebida, sem que se notassem grandes efeitos, e muito provavelmente envolver-te-ias nalguma brincadeira escandalosa (que rapidamente faria notícia) e quando a festa estivesse ao rubro, sentir-te-ias subitamente só... Num determinado momento andariam todos à tua procura e já não estarias lá.
Eu sei que te encontraria junto ao Sena, caminhando contra a tristeza e pensando na Rússia - em Farida e em Sacha; e também nos teus primeiros tempos de exílio - em Erik e Margot. Não saberias dizer quais as mais vivas saudades.
Seria esse momento o meu escolhido para te dizer: "Parabéns, Rudik"... (sei quando precisas de ouvir o diminutivo russo). Pedir-te-ia que parasses de me olhar com uma expressão que não me era destinada a mim. E faria tudo para que voltasses a zombar...

Morgana

PS. Esqueci-me de te dizer que tocavas mesmo bem piano e merecias aqueles aplausos.

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 15 Março, 2005

 

 

O Pensador, de Auguste Rodin (1880)



A lenda do pensador que não fazia parte de legiões

Não tirava os olhos da sua figura inerte, perguntando-me se estaria ciente da multidão que o circundava tão obviamente possuída de um desejo momentâneo e tardio da sua aprovação. A maioria dos que ali estavam nunca poderia inspirar-lha, sobretudo tendo vindo precisamente no dia menos indicado para usar de hipocrisias. Claro que a hipocrisia é um costume, não assumido mas tacitamente instituído nos rituais da Grande Tribo. Mas ele não se acertava com quase nenhum costume da Grande Tribo e esse, então, era-lhe particularmente odioso. Nunca fora do género de fazer concessões que se opusessem à sua crença profunda de que temos de agir de acordo com o que somos e ir pagando as contas que isso nos custar. Todos aqueles gestos vazios de sentido; as expressões faciais, imbuídas de um sentimento estranho, imitativo do que não poderia lá estar; as línguas treinadas para as mesmas palavras que ninguém desmascarava... eram abominações. Eu via-os assim, por mim própria, mas também através dele.
Fiquei com pena dos que, falando, disseram verdades, pois isso não se notou. Era como se durante uma grande peça de teatro fossem feitas revelações autênticas, reais, entre as falas dos actores. Estas só podiam ser percebidas por quem conhecesse ao menos uma das duas: a realidade ou a peça.
Sentia-me contente por não ter falado com ninguém e ter ficado quieta, apenas a vê-lo. Tinha algumas palavras sinceras para dizer mas sabia que eram parecidas com outras, mentirosas, que ecoavam naquelas paredes. As palavras são tão toscas, mal traduzem aquilo que as dita. Acredito que todo o nosso corpo fala bem melhor por nós e esperava que ele me entendesse, ali sentada, quase ausente! Era uma possibilidade, já que a nossa convivência, apesar de reduzida, sempre denotara uma comunicação peculiar, subterrânea. De concreto, dois registos apenas. Dele para mim, um conselho, dito (não dado) em tom de frase jocosa, mas percebi logo que era muito sério... e ainda bem que o segui. De mim para ele, uma pessoa que lhe enviei num serão que o apanhou desprevenido e dolorosamente só, e não pude ir eu fazer-lhe companhia. Soube que falaram de Balzac e que Ursule Mirouet era o seu romance favorito.
Dois laços de que me lembrava bem, mas supunha não ser por isso que ele me parecia mais próximo do que a convivência o justificava. Há coisas insondáveis, como a minha compreensão para tudo quanto ele fazia ser independente da aprovação. E a aprovação dele para tudo quanto eu fazia, ser independente da compreensão. Sempre sem o desfitar, interrogava-me sobre isso... em vão.

© Fata Morgana




 

 
Avalon, 11 Março, 2005

 

 
Confissões XIV - Momentos extraordinários, trapos, basbaques e portinholas

Quando terminei os meus estudos preferidos, os musicais, fui trabalhar como bibliotecária num lugar muito antigo e bonito, um monumento nacional situado na parte velha da cidade. Tinha um horário bastante carregado e ocupações que não me davam descanso, pois trabalhava na produção de espectáculos que dependiam também das minhas tarefas, muito técnicas, estarem prontas e bem executadas. Uma coisa de que me orgulho é nunca ter sido responsável pela não realização de qualquer desses espectáculos, mas esse galhardete às vezes custava-me algumas horas extra. Tal não acontecia tão frequentemente com os meus chefes, que trabalhavam por vezes com um ano de antecedência, e menos ainda com os meus colegas que tinham cargos administrativos e estavam mais ligados às coisas que aconteciam em horário de expediente. O meu trabalho não tinha hora nem quando.
A parte administrativa funcionava num andar e a de técnica e produção noutro. Quase todos os dias, eu passava a tarde completamente sozinha numa sala enorme que ficava no extremo mais recôndito do segundo andar, para lá de grandes escadarias e longos corredores. Sentia-me muito bem, gostava de trabalhar sossegada, em silêncio, naquele ambiente austero, de paredes em pedra, tectos altíssimos, portas enormes e pesadas, daquelas que possuem uma segunda portinhola, mais pequena (do tamanho das portas modernas!) que desce quase até abaixo mas sem chegar mesmo ao chão. Muitas vezes um ou outro apressado esquecia-se disso e tropeçava na madeira grossa dando consigo estatelado e surpreendido. Isso jamais me aconteceu... mas não deixei de ter o meu caso embaraçoso e cabeludo com uma das tais portinholas. Foi precisamente à saída, depois de uma sessão de horas extraordinárias.
Já me tinham telefonado a avisar que só lá ficava eu, que a porta da rua ia ser fechada, e que quando saísse deveria ter o cuidado de a bater com força, pois estava algo empenada (mais tarde o porteiro, que morava ali muito perto, iria lá fechá-la à chave, era o costume).


Foto de autor desconhecido

Eu acabei tudo o que tinha a fazer e preparei-me para sair. Percorri as salas e salões, os corredores e as escadarias, apagando as luzes, até chegar ao átrio de colunas (a portaria...). Abri a porta, a pequena, claro, e fui recebida pela luz cor-de-rosa de um sol de fim de tarde, quase noite, primaveril. Avancei sobre a ripa de madeira, que ficava um bom bocado acima da altura dos meus tornozelos, voltei-me, segurei na maçaneta e bati com quanta força tinha. Ia pôr-me a caminho mas mal dei um passo constatei que... estava presa. Para meu desalento e alarme, tinha deixado um bocado da saia agarrado à porta. Estava presa do lado de fora!
Baixei-me, segurei no pano e tentei esgueirá-lo pela frincha esperando que deslizasse, o que evidentemente não aconteceu. Puxei suavemente... depois com um bocado mais de força (acho que até me chegou a passar pela cabeça pedir "saia, por favor sai!!!") mas o raio da bainha não se soltava.
Voltei-me e olhei vivamente para ambos os lados da ruela estreita e íngreme, em busca nem eu sabia de quê. Naquela altura não havia ninguém mas o vizinho da frente estava na varanda, impávido, obviamente divertido com o meu desaire! Senti-me entre estarrecida e aliviada. Tinha ali alguém vagamente conhecido, apesar de contente com a distracção que eu lhe estava a proporcionar. Mas, bolas!, eu bem me lembrava daquelas histórias sobre a famosa boa vizinhança!...
Decidi que precisava de um intervalo para pensar no assunto e sentei-me no degrau de pedra - o que fez a saia, de comprimento sensato para um local de trabalho, subir para o nível de uma mini-saia, ainda assim relativamente tolerável mesmo naquela rua algo complicada. Abri a carteira e tirei um maço de cigarros - dantes eu fumava, muito raramente, mas tinha o meu macito, que até estava no fim e eu nem sabia. Tirei o último cigarro, acendi-o e esborrachei a caixa vazia, que tornei a guardar, sentindo-me sempre observada.
A primeira passa foi mesmo uma experiência! Até parecia que nunca tinha fumado. Que gosto agressivo, pensei, sou realmente uma fumadora muito domingueira... Dei outra passa que me chegou às goelas com um travo tão eminentemente inconcebível que olhei para o cigarro, surpreendida, e vi que tinha acendido o filtro.
Olhei instintivamente para a varanda em frente, onde ao vizinho se tinha juntado a mulher, uma velhota e um catraio, e todos se riam, muito divertidos. Resolvi logo não lhes pedir ajuda. Atirei o cigarro para longe, levantei-me, dei um grande puxão à saia, ignorando o barulho do pano a rasgar-se e fui-me embora furiosa, soltando entre dentes algumas inconveniências relativas ao mito da boa vizinhança.
Não passava despercebida a ninguém, pois levava um farrapo de saia ao dependuro, coisa que notei, mortificada, ao ver a minha própria sombra no chão. Quase ao cimo da rua, passei por umas pessoas que ficaram paradas a apontar malcriadamente para mim, com um ar gozão a que reagi logo! Num gesto rasgado e teatral, agarrei no farrapo de pano, arranquei-o e atirei-o com grande violência por cima do ombro, muito cheia da minha pessoa. Mas isso também não me correu nada bem, pois a brisa resolveu contrariar-me e o pedacito de saia, após uma ridícula florestria aérea, aterrou na gola do meu casaco, provocando uma gargalhada geral.
Impassível, engoli o desespero e o vexame e continuei rua acima, para dentro de um táxi - não estava capaz de aguentar uma viagem de autocarro...

Quem me conhece suspeita do que se seguiu. Claro que a minha zanga amainou rapidamente e eu comecei a pensar na minha figura. Como tinham sido várias figuras, e cada qual a melhor e a mais grotesca, daí a nada estava lavada em lágrimas de tanto rir, esforçando-me em vão por ser invisível no banco de trás do carro, com o taxista abismado a espreitar pelo retrovisor.
Claro que eu nunca consigo resistir a um tremendo ataque de riso. Quando acontece, é irremediável!

© Fata Morgana




 

 
Avalon, 07 Março, 2005

 

 

Pintura de John William Waterhouse


Quem me dera um pouco de paixão
em gota de água fresca
Não ter de viver a compasso
de alerta por tudo o que é humano
e, portanto, natural
Tocar a minha música
para quem a escutasse, apenas
E dançar somente aquela que me apraz

Quem me dera perder-me
a perseguir um cheiro
que acordasse os meus humores
E em louca trepadeira de aconchegos
cobrir em pouco tempo
um muro inteiro
de flores

Quem me dera um pouco de razão
na ponta da língua lesta
quando fosse dizer as coisas que me ocorrem
Não ser espinhosa e funesta
flor no teu coração
que por não ser impiedosa
esmorece ainda em botão

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 02 Março, 2005

 

 

Pintura de John William Waterhouse


Gosto de te conhecer pela exclusão
daquilo que não és
Tanto se me dá que os teus feitos sejam
impressionantemente bons
e os pensamentos que revelas sejam belos
Os motivos que os ditaram
permanecendo obscuros
podem ser vulgares, vis e até perjuros
ocultos sob o aspecto da famosa boa acção.

A mim encanta o que tu não fizeste
(alheio à substância da própria negação).


© Fata Morgana

 

 
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