Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 28 Maio, 2005

 

 

Hoje quero ter aqui o meu auto-retrato.
Sempre fui um luzeiro perdido no meio dos tufões... A acalmia já sorri quando no regresso me descobre sempre acesa e tranquila. A chama é um gelo-de-ponta-de-iceberg, tem a resistência de um fogo muito mais fundo do que saliente.
É por isso que hoje quero ter aqui o meu auto-retrato!



Mulher-novelo enrolada
joelho suave de vertente húmida
Compasso atrasado.
O cheiro repentino no tapete de cabelos
desenrolado estendido
na quietude de sono
Imagens informes, sonoras
movimentos de descontraída
preguiça criativa
Criatura de ovos doces
redonda
com um único vértice no olho
O outro olho tem a mobilidade vagarosa
de um biombo
O sorriso é um mastro
e o motivo a meia haste
desalinha padrões
de sugestão dispersa.

© Fata Morgana

A música que tem tocado aqui desde ontem é Swamp Thing, The Chameleons - album Strange Times (1986) .

"The storm comes
Or is it just another shower?
Now the rain has come
Or is it just another shower?"


(É aqui que ela me morde: "Chegou a tempestade ou é apenas mais um aguaceiro?")


 

 
Avalon, 26 Maio, 2005

 

 

Caramba... porque será que tudo o que parece simples é tão complicado?! Não me estou a queixar, para mim até nem é uma novidade, sei disso quase desde que nasci, coitada de mim... (risos). Mas acontece que me esqueço muitas vezes e claro que o defeito é meu, a coisa está lá desde o meu sempre!
Será que, dentro do meu micro-cosmos, não sou uma rebelde? Sê-lo por FORA é muito fácil, é realmente facílimo, por isso nunca me gabo de o ser. Mas dentro, não. Dentro eu quero perceber, quero entregar-me. Não me importam rebeldias tecnicistas de mim para comigo, quero tudo forte e claro, tudo vivo e puro.
Rapidamente farta dessa impossibilidade, optei pela extroversão. Fujo. Há sempre uma primeira vez, digo conformada - citando um ditado popular, ou quê - eu, que nunca fugi de coisa alguma...
Há sempre uma primeira vez. Esta frase estúpida e vazia revira-me o assunto, e dentro de mim uso prodigamente dessa dissimulação, só para fortalecer a minha vontade de nem pensar. É uma meia premissa idiota, claro: a primeira vez pode ser também a última, mas eu faço de conta que não... Essa primeira vez, linda, verdadeira, espantosa, mas sobretudo intensa - como tudo o que vale mesmo a pena - tanto pode ser a luz que me há-de escorraçar por detrás, para muito longe e para fora, sem me voltar, como aquela outra que me guiará até ao destino, irresistível, a ponto de que a ultrapasse durante o caminho para ele mesmo. Com ele mesmo.
Longe, perto. Dentro, aqui. Nunca. Já. Impossível de antever.
Eu corro, a floresta é imensa e jamais me foi madrasta...!

© Fata Morgana



 

 
Avalon, 15 Maio, 2005

 

 
Olhando-me de esguelha, exclamam com incredulidade uns para os outros, como se eu não estivesse ali a ouvi-los perfeitamente.
- Oh, lá está ela com aquelas ideias extravagantes!
Calo-me. E rio-me, também, com um riso característico de animal selvagem. Extravagante é não se ser como se é, amputar as garras e perder a agilidade felina que permite sempre ir onde se deseja. Como é que eles não percebem isso?...
Nada tenho contra brandos costumes e gostos simples, quando são sinceros. Também os experimento. O que me enerva é que me chamem louca porque me sinto livre para perseguir os desejos que se me cravam fundo. Até porque verifico que os mesmos que tão afoitamente tecem as críticas, quando confrontados com uma coisa interessante, não hesitam em fazer o mesmo que nós, as pestes. Se, depois, não se equilibram no fio da navalha - único caminho por onde é possível alcançar os sonhos - e desistem, muito antes de conhecer a imensidão do lado de lá, reservado a quem arriscou passar, regressam mais furiosos e acusadores, com redobrada reprovação rancorosa.
...
- Ficas aí assim, sem uma palavra?!
Interpelada directamente, trago o riso para o lado de fora e respondo - Oh, não! Vou-me já embora!...

E saio, natural como sempre fui, sem nada de extravagante, aliás muito mais perto de ser simples porque ajo de acordo comigo e em consciência. Eu sempre fui assim, nunca enganei ninguém. Que culpa tenho se não me acreditam?...

© Fata Morgana




Jim Morrison (numa entrevista em 1968): "Penso que as pessoas opõem resistência à liberdade porque têm medo do desconhecido. Mas é singular... o desconhecido é ao mesmo tempo verdadeiramente bem conhecido. É a ele que pertencem as nossas almas... A única solução é a de confrontar-se - confrontar o próprio EU - com o maior medo imaginável. Reconhecer para si mesmo os medos mais profundos. Depois disso, o medo não tem mais poder, e o medo da liberdade desvanece-se. És livre."

Nota: Música - Indian Summer, do Album Morrison Hotel (The Doors)

INDIAN SUMMER
I love you, the best.
Better than all the rest.
I love you, the best.
Better than all the rest,
That I meet in the summer.
Indian summer.
That I meet in the summer.
Indian summer.
I love you, the best.
Better than all the rest.

(Poema de Jim Morrison)

 

 
Avalon, 13 Maio, 2005

 

 


Quando me falta o tempo, deixo cá a voz dos que o meu coração ama. Hoje, através de uma narrativa de André Gide, fala Artaud, terminando de viva voz, com um pequeno excerto infinito:

"No fundo da sala - nessa velha sala querida do Vieux Colombier que dava para cerca de trezentas pessoas - meia dúzia de folgazões tinha aparecido à sessão na esperança de umas graçolas. Oh! Nem duvido que fossem apertados - pelos amigos fervorosos de Antonin Artaud distribuídos na sala, onde já não havia lugar nenhum. Mas não foi preciso: depois de uma tentativa tímida de fazer chinfrim, mais razão não houve para se intervir... Assistimos todos a um prodigioso espectáculo que era: Artaud a triunfar, a inspirar respeito à galhofa, à estupidez insolente; a dominar...
Eu conhecia há muito Artaud, e a sua miséria, e o seu génio. Pois mais admirável do que nunca ele me pareceu. Do ser material já só restava o expressivo. A grande e desengonçada silhueta, o rosto consumido numa labareda interior, aquelas mãos de quem se afoga estendidas para um auxílio indefinível, ou torcidas numa angústia, ou envolvendo as mais das vezes estreitamente a sua face, a ocultá-la e logo depois a mostrá-la, tudo nos falava da miséria humana abominável, uma espécie de maldição implacável que apenas encontrava fuga num lirismo furioso e só capaz de atingir o público por cintilações imundas, imprecatórias e cheias de blasfémia.
Também ali se encontrava, claro está, o maravilhoso actor que o artista poderia vir a ser; no entanto, o que ele ofertava ao público era a sua própria personagem, e fazia-o com uma espécie de cabotinismo sem vergonha onde uma autenticidade total transparecia. A razão deitava-se a bater em retirada; e não só a sua como da assembleia inteira, de nós todos, espectadores daquele drama atroz, reduzidos ao papel de malévolos comparsas, meias-tigelas, casca-grossas. Oh! Nem uma só pessoa, na assistência, tinha vontade de rir. Forçava-nos a entrar no seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que nós admitíamos e para ele, mais puro, era inadmissível.

Nós ainda não nascemos.
Ainda não estamos no mundo.
O mundo ainda não existe.
As coisas ainda não estão feitas
Nem foi encontrada a razão de ser...

Ao sair da memorável sessão, o público calou-se. Podia dizer-se o quê? Acabávamos de ver um homem miserável atrozmente sacudido por um deus, como se estivesse no limiar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila onde não se tolera nada profano, onde era exposto um vates como num Carmelo poético, oferecido a implacáveis iras, aos abutres devoradores, ao mesmo tempo sacerdote e vítima... Sentia-se vergonha do regresso a um lugar no mundo, onde o conforto se constrói de compromissos."

André Gide


Artaud (Auto Retrato)

"Já vos disse: nem obra, nem linguagem, nem palavra, nem espírito, nem nada.
Nada além de um belo Pesa-Nervos.
Espécie de incompreensível estação muito direita ao meio de tudo no espírito."

Antonin Artaud em O Pesa-Nervos
 

 
Avalon, 10 Maio, 2005

 

 

Pintura de Autor Desconhecido (gostaria de saber quem é)


Não sei que lua veio encher-me o peito
que brilha toda a noite em mim
e eu não adormeço
Chegam os sonhos e encontram-me acordada
descubro que é melhor sonhar assim

Desalinhada e semi-nua
apenas amanheço
e não hesito
reconheço que outra vez fui tua

© Fata Morgana

 

 
Avalon, 05 Maio, 2005

 

 



A Mulher de Gelo

A mulher chorando contou
«A minha suspirada máscara
bela e abstracta
Desfez-se num degelo.
Sou um afluente!»
E o anjo sussurrou
«Nunca eu pairara sobre um gelo assim tão quente»

O tempo demorou muito a passar. Muito mais do que o costume e também foi mais difícil do que nunca conseguir recuperar o domínio de mim mesma, perdido por tão pouco. Mas esse pouco teimara em fazer-se tanto! Chegara a ter-me do seu lado, voltada para dentro a sorrir por nada e a tecer conjecturas doidas sobre aquelas palavras que mesmo cruas eram doces. Eram ainda mais doces por serem tão cruas.
Agora, passado o breve cataclismo, auscultando qualquer ameaça de réplicas, cautelosa, reflicto. Desconfiei sempre de tudo quanto se afigura tremendamente desejável e, ao mesmo tempo, muito simples. Conheço a simplicidade, sempre se me mostrou um lobo com pele de cordeiro. É neste ponto que a minha tendência para o abismo não ajuda, pelo contrário, faz de anjo tentador e prega-me ácerca do incomparável encanto dos lobos. De nada serve tapar os ouvidos, sobrepor-lhe a voz em cantilenas lábeis, que não vêm do fundo e portanto também não chegam lá, ou arremessar-lhe tratados de bom senso.
E se optasse por um pacto com o meu anjo tentador?... Eu tornaria a mergulhar no caos mas apenas se ele aceitasse passar para o lugar de guardião e caminhasse a meu lado, deixando-me ainda representar um papel... e este seria o de mulher gelada. Talvez assim pudesse regressar ilesa. Ou pelo menos justificada. O anjo aceitou imediatamente e deu a partida como ganha, percebi-o na cumplicidade com que me sorriu, porque o gelo também queima, também derrete. Sobraria a mulher. E o lobo.

© Fata Morgana


 

 
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