Fata Morgana...

 

 
...ou o Claro Obscuro
 
   
Todos os direitos reservados © Fata Morgana, SPA
Avalon, 26 Junho, 2005

 

 
O Sonho Surdo

Sem quando nem onde
e mais distante ainda de quem ou porquê
faltam-me as coisas todas que detesto
Tenho assim um Deus perfeitamente credível
SIM
a fazer-me crer precisamente em nada,
esse amor supremo

Tentei dizer-to num beijo obscuro
mas com a surpresa sentida no espaço desconhecido
a minha língua caíu imediatamente.

Fiquei a olhá-la
parecia um bróculo cozido
(só não era verde)
Lembrava também uma esponja orgânica
Com ela descrevi tantas vezes o meu estado
de cegueira
de cometa
e mundo.

Agora jazia ali
morta
ainda loquaz.

© Fata Morgana



The Dream - Pablo Picasso

 

 
Avalon, 20 Junho, 2005

 

 
A Costela Esfacelada

O pensador mantinha-se isolado, inatingível no seu covil de gigante eremita. Forte de convicções, tinha também a sua fragilidade, em pontos dispersos como estrelas num firmamento escuro e longínquo, porém era calhado em estoicismo e até numa certa brutalidade.
Reconheceu perfeitamente a mulher, ainda antes de ela chegar, mas repudiou-a assim que lhe farejou o espírito agudo e a completa entrega de si mesma, pois temia essas coisas, sempre lhe tinham sido complicadas: compreensão e amor. Tanto as buscara. Agora, porém, talvez já não soubesse como havia de querer aquilo em que deixara de acreditar.
Ela falava-lhe com o sexo e isso exasperava-o, pois não compreendia que ela perdera todas as palavras e o sexo tornara-se uma linguagem de estado terminal, aquela com que melhor conseguia abrir o seu coração repleto de sentimentos profundos que só ele lhe inspirara. Sentimentos que a deixavam sem outra expressão que não a de se dar por inteiro, em gestos que ele ia aceitando e querendo, porque nascera homem e também tinha um corpo e com esse corpo desejava-a. Abria-lhe uma porta muito estreita e oculta para o seu lado de dentro.
Assim se distanciavam cada vez mais, porque ele achava-se morto para as causas que geravam a dádiva que a mulher lhe fazia de si mesma. E ela não se sentia nele, onde queria ser pertença.

Quando ela se foi embora deixou uma coisa esquisita que ele virava de todos os lados e até mesmo do avesso, mas não conseguia identificar. Como se fosse uma maçã doce, porém envenenada e sem a forma típica do fruto, ou qualquer outra. Essa coisa cravara-se-lhe fundo, perdera-a dentro de si, queria retirá-la mas não dava com ela. Estava cada vez mais zangado com a mulher, que lhe morrera do alcance dos olhos mas deixara aquele mistério perdido dentro dele.
Chorou, sozinho no seu covil de eremita, perplexo para o motivo de lhe escorrerem lágrimas assim. Não sabia o que estava a acontecer-lhe, mas fosse o que fosse, assustava-o. Queria livrar-se daquilo, esquecer a causadora de tal infortúnio e continuar a sua vida de pensador habituado a lidar de um modo desenvolto com as suas ideias complexas e distantes de ideais.
Com esse objectivo em mente, preparou umas poucas coisas e saiu, numa demanda absurda e fictícia, misturou-se com todas as pessoas. Sobretudo conheceu muitas mulheres. Pareceram-lhe muito belas e também as desejou. Reparou que nenhuma se quedava a olhá-lo em muda perplexidade, desviando depois os olhos. Pareciam não sentir o peso dos seus, não o apercebiam com aquela intensidade significativa que, inconscientemente, não deixava de querer. Ao formular estes pensamentos não pode deixar de reconhecer que estava a procurar naquelas mulheres a que se fora embora, repudiada. A ideia era tão contundente que o atingiu em pleno no âmago fazendo-o perceber a inutilidade de tentar livrar-se da sua dor, que se tornou intolerável.

Só então viu a ferida aberta no próprio peito, e o sangue que dali escorria, do ponto onde lhe faltava uma costela. E percebeu que coisa era a que a mulher lhe deixara: era amor.


© Fata Morgana


The Labyrinth - Pintura de Salvador Dali

 

 
Avalon, 13 Junho, 2005

 

 
O Primeiro Homem

Era louco. Olhá-lo no fundo dos olhos negros era uma passagem para a loucura, um caminho aberto para um desconhecido que se ia mascarando de todos os sonhos que eu me lembrava de ter tido. Todos os meus sonhos sem memória de final algum, estavam ali à minha frente, naquele olhar. Estava lá tudo, no profundo de águas escuras e, de repente, não era bem isso, e eu percebia que me afogaria se não desviasse os olhos depressa. Desviava-os. Tinha com ele longas conversas em que pouco o fitava, descobri que podia seguir-lhe as mãos, de gestos generosos e expressivos. Não eram tão letais, apesar de muitas vezes ter pensado que as escolheria se quisesse morrer às mãos de alguém. Retirava o alguém. Só as mãos me inspiravam essa ideia, desígnio negro, se bem que um pouco onírico.
Ficava depois a pensar... "olho e endoideço ou dou o pescoço àquelas mãos eloquentes?" Optei por mim, contra todas as expectativas. Raiva e medo, ou vontade de ir ainda mais longe, ainda mais fundo. Não sei. Sei que fiquei aqui, sã. Viva, também, porque tenho este buraco a avisar-me que não me livrei de nada.
Depois veio o gelo. Os dedos outrora ardentes tolheram-se-me e todas as vezes que tentei seguir um sulco de vontade, perdi-o, insensível à fissura onde talvez encontrasse um rumo. Não que o frio me assustasse, menos ainda as longas superfícies onde só o meu próprio bafo era visível, pequena nuvem de vulcânica memória interna de ter sido. Nuvem pequena mas tão densa que me escondia o horizonte. Todas as coisas são o que são e também o seu oposto. Na igual medida. Mas o calor proporcionado por aquele frio implacável era um fogo-fátuo. Fazia-me rir até transpirar, como transpirara de encontro ao peito do amor que não tornei a conhecer. E era essa a suprema tortura.
Agarrava na cabeça e procurava dar-lhe equilíbrio sobre o pescoço, subitamente longo demais, branco demais, mas a cabeça nunca se equilibrava e desisti de caminhar naquela postura incómoda, que me fazia tropeçar constantemente nos cabelos. Imóvel, deitei-me sobre o tapete gelado e escorregadio. Fiquei a pensar "como pode a razão estar tão longe do coração?", enquanto sentia o cérebro quase encostado ao pulsar desse órgão maldito. Veio-me a pálida decisão de parar ali, esperar a clemência do fogo-frio. Mas não havia misericórdia, pois o criador de tudo aquilo era eu. E eu nada percebo de Criação. Não sei contar tempo, não sei a ordem ideal das coisas. Menos ainda sei quando devo descansar. Criei um caos onde hei-de perecer sozinha. Tudo porque olhei a loucura de uns olhos infinitos e fui largando odores sob o compasso de umas mãos de gestos rasgados e generosos. "Toma lá esta!" digo para comigo.


E não me lembro de mais nada, mas estou aqui, ainda e sempre. Ele é o primeiro homem e eu sou a sua costela.


© Fata Morgana


Pintura de Salvador Dali

 

 
Avalon, 10 Junho, 2005

 

 
Pêndulo pesado
pendente
reentrante
alucinado
Movimento que dói
balanço que não acompanho
Prefiro desregulá-lo
pois é naturalmente desregulado
não deixo ninguém concertá-lo.

Haste cheia de aderências que me agarram
Arte de apenas Ser
Amor-limite
Como o Homem-Árvore de Artaud.

© Fata Morgana

A Música é o Tema, ou Ária, das Variações Goldberg de J.S. Bach. Ao piano, Glenn Gould, também ele um Homem-Árvore. (Segunda versão, gravada em 1981).


A imagem veio de Usenet Images

 

 
Avalon, 03 Junho, 2005

 

 

As Above so Bellow de Stephen Barnwell


Todos os dias são dias sem
princípio nem fim
todos são intermitentes e estranhos
cheios de respostas
a perguntas que nunca fiz

Todos os dias são noctívagos
dentro de mim
todos são convites à continuidade
das minhas perguntas que caem no silêncio
de um limbo inventado

No meu peito mora um demónio
qualquer
que desconheço
e chega um anjo conhecido
que é meu e não mereço

Não sei qual deles sufoque
não lhes encontro qualquer diferença
Mas sei que ela se tornará evidente
assim que eu decida

© Fata Morgana

 

 
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